MAUS SINAIS

24 de Maio de 2015

 

O meu desfasamento geracional é algo a que já (quase) me habituei. Tendo ficado “esquecido” no rol dos empregados até aos 63 anos, era, por rotina, o mais velho em todas as reuniões, eventos, grupos, etc. Curiosamente, ao aderir ao (grande) exército dos desempregados mais tarde do que a grande maioria, sou também aqui o decano.

No curso que estou agora a frequentar, entre os 17 formandos, eu levo uma clara vantagem em tempo de vida. E é uma vitória (?) folgada já que o segundo classificado nasceu quando eu já andava no liceu.

Como em todas estas acções nós somos convidados a falar sobre o nosso percurso profissional, fiquei surpreendido a vários níveis com a composição desta nova “turma”.

A primeira surpresa aconteceu com a grande percentagem de “canudos”: mais de metade dos formandos tem habilitações superiores.

Depois, surpreendeu-me o elevado número de empregos (?) que gente tão nova já teve, e, mais ainda, a diversidade de áreas e funções. Os portugueses são mesmo polivalentes!

E, por último, a surpresa de perceber que um licenciado, com experiência diversificada, com elasticidade mental e uma atitude correcta, pode NÃO TER LUGAR para trabalhar no Portugal de hoje.

Maus sinais.

NÃO GOSTO!

11 de Julho de 2014

As coisas de que um gajo se lembra quando está a escolher agriões para a salada do almoço.

Enquanto ia mecanicamente escolhendo as folhinhas e rejeitando os talos mais grossos, a caixa dos carretos elaborava sobre a nova proposta do “não pagamos” que acabara de ler, tentando encontrar algum sentido naquilo que não faz sentido nenhum. Basicamente o que continua a propor-se é que obriguemos os nossos credores a aceitar que não lhes paguemos o que já nos emprestaram, mas que continuem dispostos a emprestar-nos mais para cobrirmos o deficit de que não queremos prescindir.

Mas esta ainda é a menor das utopias de esquerda, pois continuamos a ver e ouvir todos os dias as exigências mais estapafúrdias seja do chamado povinho, seja das tentaculares corporações que se encostam à esquerda para esconder os propósitos chupistas. Porém as coisas parece que podem sempre tornar-se piores quando a forma corrompe o conteúdo. Tudo o que se critica hoje em dia é feito da forma mais incivilizada, mais mal-educada, mais insultuosa possível, fazendo com que uma eventual adesão ao conteúdo seja imediatamente descartada.

E é assim que chegamos ao “NÃO GOSTO!”. E o que eu não gosto é de me sentir a resvalar para a Direita, devido a uma rejeição emocional à incompetência, irracionalidade, facciosismo e fanatismo  da Esquerda.

Tendo por antepassados pequenos proprietários rurais que resolveram ultrapassar os apertados horizontes das serranias beirãs emigrando para o Brasil e para Moçambique onde se dedicaram, com sucesso, à agricultura e ao comércio, dificilmente eu poderia ter recebido uma cultura de esquerda stricto sensu. Mas, se nunca fui doutrinado nas virtudes do comunismo, sempre fui educado para respeitar a liberdade e a opinião dos outros. Umas das provas desse respeito pelos outros que os meus antepassados sempre pregaram e praticaram, está patente no facto de, apesar de razoavelmente abastados, nunca ninguém da minha família foi “convidado” a abandonar o país onde, de repente, ficámos estrangeiros. 

Sobre os anos de aprendizagem como “retornado numa fábrica comunista” já por aqui falei. E se a realidade chocante (quase inacreditável) do pré-25 fez abalar algumas das minhas convicções juvenis, a observação directa dos oportunismos, das manipulações, das coações, dos saneamentos profissionais por heresia política, impediram sempre a passagem para o lado do “todos os direitos, nenhuns deveres”.

Tudo ponderado, penso que consolidei o meu pensamento numa terra equidistante das “falinhas mansas” e das “gritos corrosivos”.

E, durante três décadas, foi-me relativamente fácil ir mantendo a equidistância percebendo através da leitura atenta dos extremos, o que cada uma das pontas tinha de razão e de facciosismo. Porém a esquerda, teórica e presunçosa, confiante de que os seus valores eram intrinsecamente bons e, como tal, fatalmente vencedores, descobriu agora que perdeu o Povo pelo caminho. Para recuperar a perda em vez de argumentos escolheu insultos.

Quando eu e 50% dos portugueses pensamos  que isto  é uma manipulação descarada e destorcedora da realidade, e os outros 50% acham que é uma verdade indesmentível e irrelevante do contexto, chegámos a um ponto onde não vale a pena debater.

É pena e eu NÃO GOSTO!

Kurioso

PROFISSIONALISMO

4 de Julho de 2014

Agora que terminei a minha vida profissional a tempo inteiro, e estou a tentar iniciar, em part-time, uma “second life” como a definiu um amigo, resolvi dar polimento ao perfil que estava meio dormente no Linkedin.

Esta é mais uma daquelas modas a que parece mal fugirmos, e, a exemplo do Melhoral, se não fizer bem, também não fará mal. Quando construído no final de uma vida profissional já longa, serve também para recuperar memórias de lugares, pessoas, tarefas, funções, aprendizagens que enganosamente pensamos estar na ponta da língua se alguém perguntar. Eu descobri que vou ter que recorrer aos arquivos da empresa para afinar o “timeline” das variadas funções que fui desempenhando ao longo de 25 anos. E  no capítulo da formação profissional nem a empresa tem registo de todas as acções…

Depois de preenchido o histórico profissional, havia que criar (de empreitada) as conexões que deveriam ter sido criadas ao longo dos anos. A tarefa foi fácil para os colegas mais recentes, e tornou-se muito interessante para os colegas “esquecidos” ao fim de 10 ou 15 anos. Uma das características amigáveis do sistema é sugerir como possíveis conexões TODOS os contactos da pessoa a quem nos conectámos. Foi agradável a reaproximação a cerca de uma dúzia de “perdidos”. Mais uma vez, todas estas conexões podem servir para nada, mas podem também, segundo a teoria, dar uma indicação da dispersão ou concentração dos contactos. Como a minha rede foi bastante variada não vi inconveniente nenhum em tentar reconstruí-la.

E foi quando estava tecendo a teia de conexões que a palavra profissionalismo me veio à cabeça. Dentro das sugestões para possíveis contactos apareceu-me um renomado consultor mundial que tivera o privilégio de ouvir durante umas horas em Inglaterra. No pedido de conexão referi o prazer que fora ouvi-lo (e é verdade) mencionando o nome da nossa empresa que o contratara. O homem não me conhece de lado nenhum, o meu nome não acrescenta nada aos milhares de contactos que tem, e mesmo assim respondeu-me com uma amável mensagem de aceitação, cujo conteúdo mostrou que se dera ao trabalho de ler o meu perfil. Isto além de uma segura indicação de profissionalismo, é também uma bela prova de educação.

Gostaria de poder dizer o mesmo de um grupo de pessoas bem mais próximas que não se dignaram responder ao meu convite.

Kurioso

PS. O convite aparece no mail da pessoa e basta fazer um click para aceitá-lo…

FACHADA

20 de Junho de 2014

Durante a acção de formação TPE (Técnicas de Procura de Emprego), a formadora referiu a importância do aspecto (físico e cosmético) no sucesso da conquista de um posto de trabalho.

A afirmação pareceu surpreender uma boa parte dos formandos, sobretudo aqueles com um aspecto menos “standard”. Curiosamente (ou talvez não…) os surpreendidos eram todos homens.

É claro que também havia recados para as senhoras, basicamente não abusar no arrojo e exibir o que se chama de “low profile”, mas, aproveitando o facto de haver dois jovens com abundantes (e desordenados)  atributos capilares (um deles com “rastas”), a formadora reforçou a ideia de que o recrutador é que define o padrão de imagem que quer na “sua” empresa. E hoje, tempo de todas as liberdades mas também de todas as dependências, a imagem pretendida na maioria das empresas ainda é bué conservadora. Sobretudo para os homens!

Mas esta coisa da fachada também tem as suas particularidades, e eu sempre tive a suspeita (nunca confirmada) de que o meu aspecto à data teve uma particular importância na conquista do meu primeiro emprego em Portugal.

Nos idos de 1977 eu respondi a um anúncio para um posto de chefia numa fábrica nos arredores de Lisboa. O recrutamento fora entregue a uma empresa profissional, e eu percorri a via sacra dos testes psicotécnicos, entrevistas com A, B e C, até chegar a ser proposto à empresa contratante. Chegado à etapa final, novas entrevistas com o DRH, com o Chefe do Departamento e finalmente com o Director Fabril. Finalmente recebo o telegrama confirmando ter sido o escolhido e sou chamado para tratar da papelada. No final de uma longa e animada conversa, o DRH deixa sair displicentemente a frase assassina: “Ah é verdade. Devido ao acordo da empresa, a sua admissão tem que ser validada em plenário de trabalhadores. Mas não deve haver problema.” Caiu-me tudo! Um RETORNADO a ser avaliado, em 1977, por um Plenário de trabalhadores na Cintura Vermelha de Lisboa???

Como comecei a trabalhar em 07/07/77, suponho que a minha fachada da altura pode ter dado uma ajudinha.

E ainda um outro apontamento curioso. O meu chefe directo era um “reaça” de primeira que começou a pressionar-me para rapar a barba desde o primeiro dia. Perseverou durante meses (anos…), e quando finalmente desistiu, eu cortei a barba. Mas tenho saudades…

Kurioso

FRUTA

6 de Junho de 2014

Como não tenho qualquer afinidade com o futebol, a fruta de que vou falar é mesmo aquela que cresce nas árvores, e não a outra variante, muito mais cara, que cresce nas margens cinzentas da sociedade e é colhida em ambientes ainda mais escuros, destinando-se a satisfazer apetites nada saudáveis.

Voltando à fruta saudável, uma das coisas que continua fazer-me uma confusão tremenda, ao fim destes  quase 40 anos que levo de Europa, é a quantidade inimaginável de fruta que não é colhida e fica a apodrecer nas árvores. O desperdício só não é total porque os passarinhos e as minhocas ainda conseguem aproveitar uma parte. 

O damasqueiro da foto está numa propriedade abandonada e não vedada, que tem, a menos de 100 metros, uma povoação onde vivem centenas de crianças. A abnegada árvore vai cumprindo o seu desígnio cósmico, florescendo e frutificando indiferente ao abandono a que foi votada. Ninguém a poda, ninguém a rega, ninguém colhe o fruto do seu labor, mas ela segue cumprindo.

Se, lá mais acima, eu falo das crianças, é para recordar que quando eu era criança, a fruta não ficava nas árvores. Ou era colhida pelos donos, ou era “roubada” pelos miúdos, ou as duas coisas. E eu “roubei” muita! Porque o dono de uma árvore normalmente tem mais árvores, desde que o pomar não seja para exploração comercial, dificilmente o dono e a família conseguirão dar conta de toda a fruta, pelo que o nosso “roubo” era tolerado e os gritos e correrias faziam parte da encenação, e davam gozo a ambas as partes.

E chegamos assim a Portugal, membro da União Europeia, no ano de 2014. Os velhotes donos das pequenas propriedades nos arredores da Grande Lisboa, já não têm idade para colher a fruta, os filhos dos velhotes preferem comprar damascos do Chile a sujar os ténis Nike naquele matagal, e só esperam pela retoma para encontrar um qualquer urbanizador que lhes dê uns cobres valentes por aquela terra inútil.

Então e as crianças? As crianças estão no ATL até às 8 da noite, não sabem subir a uma árvore e têm pavor de aranhas.

É o PROGRESSO, estúpido!

Kurioso 

INÚTIL?

30 de Maio de 2014

O título para este post surgiu logo no Domingo à noite, enquanto assistia ao desenrolar (enrolar?) dos resultados eleitorais.

Bem, o título que surgiu no Domingo foi: “INÚTIL!”, mas hoje, Terça Feira, houve que dar-lhe um jeito. Felizmente um simples caracolinho resolveu o problema. Pomos uma marreca num ponto de exclamação (o símbolo da certeza, essa coisa tão volátil) e passamos a ter um ponto de interrogação (o símbolo da dúvida, essa coisa tão perene).

No Domingo à noite, ouvindo o AJS gritar esganiçadamente “GANHÁMOS, GANHÁMOS, GANHÁMOS” ao mesmo tempo que devia estar a sentir o bafo do Belzebu a aquecer-lhe  a nuca; ouvindo o PPC anunciar cavernosamente, lá do fundo do buraco onde os seus ex-apoiantes o deixaram cair, que a derrota até… que… enfim…, ao mesmo tempo que prometia uma velinha porque apesar de tudo ainda conseguia ver o OUTRO mesmo ali à frente; ouvindo o BE clamar vitória depois de perder dois terços do seu volume, qual milagre da Depuralina; ouvindo o PC triunfar que agora SIM, com 13% (de 34%), podiam exigir o direito de governar o País, à SUA maneira; ouvindo TODOS reclamar como suas vitórias as derrotas dos outros, eu tinha chegado à conclusão que o NOSSO (não fui só eu, não) voto CONTRA  a forma como foi feita a oposição dentro desta Legislatura, tinha sido totalmente INÚTIL!

Mas ONTEM, Segunda-Feira, o nosso amigo “do burro” resolveu mostra a sua muita bravura e pouca lisura, comunicando à comunicação que HOJE, Terça-Feira, iria comunicar ao seu camarada SG a sua intenção de correr com ele. Não, não é correr a maratona, nem uma mini-maratona, nem mesmo um Jogging à beira rio (ainda se pode escrever rio…). A ideia era empurrá-lo de verdade, botar fora, saneá-lo como se dizia nos bons tempos do PREC.

E, de repente, o voto CONTRA já não parecia tão INÚTIL!, criando-me uma dificuldade que, afinal, uma simples marreca resolveu.

Agora, que a dúvida está instalada, há que esperar para ver. Porque nem sempre é do Costa o que o Costa quer, e entretanto o Rio vai correndo mansamente nos seus meandros…        

Kurioso

CONTRA

23 de Maio de 2014

Nunca foi segredo que votei PSD nas últimas legislativas, e também já por aqui disse que estou desiludido. Não tanto pelo que foi feito (tinha que ser feito!), mas mais por aquilo que não foi feito, e, sobretudo, pela forma como foi feito. Mais tarde comecei a suspeitar que a forma não era simplesmente desastrada (como parecia a muita gente), mas era deliberadamente conflituante. Este Governo em vez de usar pinças, resolveu usar tenazes. Em vez de anestesiar a malta, resolveu operar a sangue frio, testando o estoicismo dos portugueses. E quando percebeu que a oposição entrou em negação absoluta e partiu para o insulto soez, resolveu capitalizar esses insultos e esticou a corda ainda mais. O PSD conhece bem o seu eleitorado tradicional. Eu não sou tradicional e não gostei.

Este primeiro parágrafo devia ter resolvido o assunto, e, no Domingo, eu iria entregar outra vez um papelinho em branco.

Porém, os jornais e sobretudo o Facebook (eu não vejo televisão) fizeram com que eu mudasse de ideias.

Um breve parênteses para explicar a minha envolvente no FB. Os ”amigos” que tenho no FB foram herdados dos “amigos” que tinha no SOL quando mantive um blogue por aquelas bandas, e, por acaso, por osmose ou transmissão viral, eram/são QUASE TODOS de esquerda. Já dentro do FB acrescentei mais uns poucos, e, fatal como o destino, saíram de esquerda também. Como eu sempre gostei de “calibrar” (palavra bonita, heim?) as minhas ideias através do contraditório, a leitura de opiniões com as quais eu não concordo, tem sempre utilidade: ou me suscita dúvidas e requer reflexão cuidada; ou pura e simplesmente reforça a minha opinião pela fraqueza ou incoerência dos argumentos. Porque são pessoas instruídas e educadas, a maior parte destes “amigos” fazem parte daquelas pessoas de quem discordamos mas respeitamos. As suas opiniões são as que me fazem ter dúvidas e reflectir. Mas, e este MAS é que deu origem ao post e à acção subsequente, há 3 ou 4 “amigos” que praticam militantemente a “manipulação incendiária” : pega-se num bocadinho da verdade que dê jeito e atira-se o isco ao povo. O povo diligentemente morde o isco e destila todas as alarvidades possíveis. O nico de verdade transforma-se numa mentira colossal, que, depois, será reproduzida até à exaustão.

E como o ruído tem tendência a subir, os políticos oficiais resolveram alinhar com o povo e  render-se  à demagogia, à distorção da realidade, à negação das evidências e finalmente ao insulto rasteiro. Dir-me-ão que sempre foi assim. E eu digo que nunca o foi com tamanha desfaçatez e virulência, e esta era uma época em que a regra devia ter sido quebrada, pois nós em 2011 entrámos numa tempestade perfeita que exigia o compromisso de todos até chegarmos a águas mais calmas. Compromisso não quer dizer concordância. Quer simplesmente dizer aceitação e compreensão do problema para que se procurem soluções alternativas.

Ora o que aconteceu foi que, logo desde o início, as oposições negaram o problema, o que fez obviamente que considerassem TODAS as soluções erradas. E se o PCP anda há 40 anos a dizer que está tudo mal, porque nunca vai assumir a responsabilidade de fazer bem, o PS criou um PROBLEMA que se vai ver à brocha para resolver: se TUDO foi mal feito, vai ser-lhe exigido que TUDO seja des feito. E não vou ser eu, que nunca votei PS, a exigir-lhe isso, vão ser os milhões de Portugueses que andam há 3 anos a ouvir que a austeridade NÃO era necessária.

É esta condição de ingovernabilidade que foi criada por ignorância, incompetência, sectarismo e fome de poder, que eu não perdoo às oposições. É terem sido criadas as condições para que esta vergonha política se perpetue no futuro e o meu País tenha que passar novamente pela humilhação de pedir esmola. Sim! Porque eu não me importei de ficar pior para que o meu País pudesse ficar melhor. Também já estou habituado, foi a quarta vez!

Sim! No Domingo eu vou votar CONTRA a oposição porque ela pode muito bem ter dado cabo do nosso futuro.

Kurioso

Nota Importante: Amigos está entre aspas pela simples razão de que eu não conheço pessoalmente nenhum deles, e a minha definição de amigo não se satisfaz somente com a virtualidade.

    

BATATAS

16 de Maio de 2014

Apesar do meu resguardo sobre a  vida profissional, penso que já escapou o suficiente para se perceber que trabalhei muitos anos na indústria alimentar. Como, além disso (ou talvez por isso…) sou um interessado em culinária e um kurioso dos hábitos e motivações, tudo o que se relaciona com comidinha dá corda aos carretos da minha caixa dos pirolitos.

Um dos temas que me dá um gozo particular, é a eterna discussão entre o “natural” e o “artificial”, sobretudo quando ela acontece à mesa de um qualquer restaurante. E então se o restaurante for na cidade…

As pessoas que fazem uma cara enjoada (ou enojada…) quando afirmam definitivamente “Ah! Eu não uso nada disso! Lá em casa não gostamos de coisas artificiais” ao mesmo tempo que vão degustando um Filet mignon com molho três pimentas, não fazem a mínima ideia da quantidade de “indústria” que está no prato à sua frente. E também, quando, ao sábado de manhã, vão ao mercado fazer as compras dos “produtos naturais”, não param para imaginar a quantidade de “indústria” que está por detrás do que trazem nos sacos.

Bem. Após esta introdução, vamos lá então ao sub-tema do dia: BATATAS FRITAS.

Desde que deixei de trabalhar, as batatas fritas passaram a ser quase uma fixação. Como cá em casa raramente se fazem fritos, e como não gostamos de batatas pré-fritas, pois…não se comem batatas fritas quentes (sim…comemos as de pacote, um produto altamente saudável). Enquanto trabalhava, o refeitório servia batatas fritas (só!) duas vezes por semana, e eu lá ia conseguindo pecar de vez em quando. Agora, só posso aproveitar as poucas vezes que comemos fora, mas, como os pratos que levam batatas fritas são normalmente básicos, tenho sempre o dilema de aproveitar a batatinha ou escolher algo mais sofisticado.

Mas também à batatinha já chegou a terrível dúvida para todo o restaurador que se preze: devo servir batatinha congelada e bonitinha (e económica e fiável) ou tentar dar uma de naturalista, ter um trabalhão do caraças e servir batatinha muito fresca, muito caseira, mas… com um aspecto desgraçado.

E como tudo agora é global, também lá do outro lado, onde as modas valem (e custam…) milhões, se põe esta dúvida existencial do ser ou não ser.

E como, em todo o lado, há os do contra e os do a favor, lá como cá a cena nunca é pacífica. 

Ah! E a lógica da BATATA aplica-se a tantas outras coisas…

Kurioso

ONDE?

25 de Abril de 2014

Onde é que eu estava no 25 de Abril?

Pois estava aqui, a 1600 kms de casa:

E o que é que eu estava a fazer? Pois…isso depende do ponto de vista. Para as forças da mudança, eu estava a defender o regime caducado com o meu elevado estatuto de Furriel Miliciano. Para mim, eu estava ansiosamente à espera que a minha mulher chegasse nesse mesmo dia, para reatarmos um casamento de seis meses que estava interrompido há quase um mês. E uma das minhas primeiras dúvidas era saber se a porra do avião ia chegar ou não, pois os rádios do quartel já andavam a crepitar desde madrugada. Um gajo com 24 anos é ainda muito impaciente. Interessante o facto de todos os passageiros daquele voo, que sempre chegou, terem descolado num regime e aterrado noutro.

Devido ao facto de ser pitosga, eu fui parar à tropa da caneta, o que, tendo-me livrado do perigo real de levar um tiro, me obrigou a trabalhar que nem um doido mantendo em funcionamento a burocracia do Exército, que era, por esses tempos, apavorante. E se eu nunca tinha precisado de pensar politicamente, o facto de estar junto aos bastidores durante perto de quatro anos, pré e pós 25, fez com que recebesse um curso acelerado de “realpolitik”.

E a “realpolitik”, para os quase dois mil portugueses que estavam “agarrados” ao BCaç.18, era tentar saber que diabo lhes iria acontecer, agora que a Terra começara a girar ao contrário.

No meu caso particular as coisas ainda pareciam mais nebulosas, pois eu estava adido ao Batalhão e devia ser rendido individualmente. Ora se a “guerra” acabara e não iriam ser precisos mais tropas, se “aquilo” ia ser entregue à Frelimo, eu já começava a imaginar o meu futuro como amanuense dos “turras”.

Mas, e este é um agradável mas, não há nada como uma lua de mel para clarear um céu carregado. E naquela terra esquecida por Deus, nos confins de coisa nenhuma, onde não nos podíamos afastar da cidade dez quilómetros sem risco de receber um passaporte para o além, nós divertimo-nos à brava durante quatro meses, acampados no nosso desafogado T2, luxuosamente mobilado.

Porque a história acontece depressa, durante esses quatro meses nós fomos recebendo as notícias enviesadas pela comunicação social, enviesadas pelo jornal da caserna e enviesadas pela família que tentava minimizar as suas próprias preocupações. E eu ia observando como a máquina de guerra se ia preparando para a reforma. Foi o tempo de todas as negociatas e de todos os gamanços. Foi também o tempo da confrontação com a realidade o dia em que recebemos os primeiros guerrilheiros no quartel: cinco indivíduos subnutridos e subvestidos que devolviam o nosso olhar de espanto e incerteza, mantendo-se firmemente agarrados às suas AK-47. Como se algum de nós ainda pensasse em guerra.

A guerra tinha definitivamente acabado, mas quando passei à “peluda”, em Setembro de 1974, para ir recomeçar a vida civil, de uma coisa eu tinha a certeza, nada seria como dantes e haveria muitas “batalhas” a travar.

A primeira batalha perdemo-la logo no ano seguinte. Para os festejos da independência nós iluminámos a nossa casa em Lourenço Marques com as cores da bandeira do novo país, país que nós esperávamos fosse também o nosso. Afinal era a NOSSA terra, e aos 25 anos nós somos tão ingénuos.

Estávamos enganados.  E ficámos sem terra.

Quarenta anos depois, onde estou eu?

Olha! A recomeçar outra vez!

Com uma enorme diferença porém. Há 40 anos eu podia lutar em todas as batalhas que me fossem aparecendo, agora, que passei de independente a dependente, eu tenho que confiar que alguém lutará por mim.

Se eu estou céptico? O que é que acham?

Kurioso

MÍNIMOS

18 de Abril de 2014

Acabei ontem o Curso de Formação de Formadores. Além da formação que estava previsto receber, recebi uma série de formações adicionais: em sociologia; em burocracia; em laxismo e em chico-espertismo. E porque nunca tudo é mau, recebi também algumas lições de humildade e de solidariedade.

O grupo era composto por dez formandos e dois formadores, e durou 90 horas, tempo bastante para que um conjunto de completos estranhos fique a conhecer-se o suficiente para emitir juízos.

Os formadores, dois jovens licenciados bem preparados e bem qualificados (por oposição a alguns formandos, que, sendo licenciados, estão mal preparados e mal qualificados…) trabalham a recibos verdes e vão fazendo biscates aqui e ali.  Com temperamentos e comportamentos completamente distintos, andámos num virote tentando adaptar-nos a cada um deles.

Já o grupo de formandos, apenas 10 alminhas, pareceu ter sido escolhido pelo acaso para representar Portugal. Havia de tudo, quer em género (pelo menos 3), em idade (dos 22 aos 63), em classe social, em nível cultural, em comportamentos (do mais introvertido, ao mais exuberante) e, sobretudo  em atitude (do mais balda ao mais empenhado). Nesta área do empenho, foi curioso verificar que os mais empenhados, de longe, foram o mais novo e o mais velho (eu…). Por coincidência, ou talvez não, éramos também  os mais calados. Eu tenho uma teoria, subjectiva e provavelmente preconceituosa, para esta semelhança de atitude entre os extremos. O moço já percebeu que vai viver uma boa parte da sua vida em tempos difíceis, e eu vivi a maior parte da minha vida em tempos difíceis. Ambos sabemos, por formas diferentes, que o sucesso vem do trabalho,  do trabalho árduo e continuado. Nos restantes oito elementos, membros da enorme massa entre os 30 e os 50 que ainda tenta perceber como é que “o céu lhes caiu na cabeça” quando tudo parecia ir tão bem, o espectro de empenho e de capacidade é muito variado. Há os empenhados e capazes, os empenhados mas incapazes e os “relaxados” mas capazes. As coisas vão correr bem para os primeiros, mal para os segundos e os terceiros safam-se pelos mínimos.

E foi esta parte dos mínimos que se tornou evidente ao longo de toda a formação. Quando alguém (vários…) vai para uma acção de formação que PAGOU, e passa o tempo a teclar no telemóvel, não está certamente à espera de passar dos mínimos. Quando um formador vê os formandos a teclar no telemóvel e NÃO DIZ NADA, não está certamente a passar dos mínimos. Quando um formando diz que não precisa de ser avaliado porque a avaliação não serve para nada, porque depois arranja trabalho com uma “cunha”, seja qual for a nota, não está certamente…

Aliás houve um exemplo caricato desta falta de ambição. Quando nos foi explicado que deveríamos entregar um trabalho final, foram-nos mostrados vários exemplos de trabalhos de outros cursos, e obviamente que nos mostraram os melhores, os classificados com 5 e também alguns 4. Depois de vermos o trabalhão que aquilo ia dar, a maior parte ficou a pensar em como arranjar ideias e tempo, mas alguns tiveram uma ideia mais pragmática: “ Oh Xxxxx, então não tem aí uns classificados com 3 para nós vermos?”. O formador conseguiu pôr um sorriso amarelo na cara de desconsolo, e nem respondeu.

Ora quando os destinatários finais de qualquer acção se contentam com mínimos, todas as entidades a montante estariam a desperdiçar energias se apontassem a um objectivo mais elevado.

Ah, esqueci-me de  referir que no grupo havia 9 licenciados (adivinhem quem era a excepção) e 7 desempregados.

Toda esta envolvente da Formação, embora tendo por suporte as orientações do governo, começa operacionalmente no IEFP. O IEFP é a entidade certificadora quer das empresas que podem ministrar a formação, quer dos próprios formadores. No caso da formação de formadores, a “Bíblia”  é o referencial de formação, um mamarracho de 108 páginas (cabia bem em 50) onde estão definidos os conteúdos a ser transmitidos, a forma como deverão ser transmitidos e os modelos de avaliação. Apesar da quantidade de “palha”, o documento em si ultrapassa os mínimos.

A seguir temos a entidade formadora. O IEFP, que em tempos era o responsável por esta formação, resolveu por bem delegar o assunto nos privados, e os privados não se fizeram rogados. Há privados e modalidades para todos os gostos. E preços também. A coisa pode custar entre €180 e €450. No primeiro caso a formação é ministrada em b-learning (blended learning -  aprendizagem mista) em que uma pequena parte é presencial e tudo o resto é a distância. No último caso suponho que haverá lanche nos intervalos… Eu escolhi uma formação totalmente presencial, e o segundo factor de escolha foi a localização numa área da cidade mais acessível para mim. A interacção por email com o responsável da empresa, deu-me alguma confiança para arriscar os €250. Quando chegámos a vias de facto, verifiquei que também aqui se trabalha pelos mínimos. A organização engasga-se, os equipamentos fraquejam, o suporte documental tropeça. Nada catastrófico, mas muito longe da excelência.

Depois vêm os formadores. Jovens tarefeiros que viram garantidas 90 horas de trabalho (a dividir por dois…), pagas a um valor sempre decrescente, e não fazem a mínima ideia se se seguirão outras 90. Sabem o que estão a fazer (quanto mais não seja pelo factor repetição) tiram a “fotografia” aos formandos ao fim de dois dias, e depois cumprem calendário.

E por último os formandos. Já meio descascados lá em cima, só há que confirmar que se cumpriu o que sempre acontece em qualquer acção de formação. Uma parte quer somente o papelinho final, outra parte quer efectivamente aprender algo.

Apesar da classificação só sair na próxima semana, estou convencido que deste grupo vão sair 10 formadores certificados e 5 ou 6 formadores capazes. Estão cumpridos os mínimos.

Então e eu? Depois de escarafunchar tudo e todos, o que é que aconteceu comigo ao longo deste mês? Bem, eu diverti-me à brava a fazer o que gosto: estudar. O meu objectivo inicial era, também, somente obter o papelucho final, convencido que estava que 20 anos a dar formação informal, e a receber formação formal,  me tinham ensinado tudo o que havia a saber. Pois descobri que me faltavam uma série de competências. E depois de saber o que faltava, foi relativamente fácil (mas  trabalhoso) ir à procura de suporte (abençoada internet).

Se eu vou ser um bom formador? Não sei! Na área das competências intelectuais, penso que me safo. Na área das competências emocionais, ainda me falta simpatia e paciência.

Kurioso