"I still think that there is no longer a disparity between Lisbon and Warsaw, just as there is no disparity between San Francisco and New York. We will remain a federation, but indissoluble." Umberto Eco
Nestes tempos de crise em que começamos a ver cada vez mais gente pretendendo trocar Soberania por Conforto, defendendo a federalização da Europa, eu gostava de partilhar algumas preocupações.
Mais uma vez vou usar como exemplo uma experiência pessoal: uma reunião pan-europeia realizada no meio da Alemanha (bem a propósito). A reunião durou três dias, e implicou uma viagem de carro de 150kms a partir de Frankfurt. Como estas reuniões têm sempre uma parte de descompressão ao final do dia, deu para ver e tentar perceber mais um pouco o que se passa na terra dos nossos algozes (ou salvadores).
Como o tema é federalismo, não vou maçar ninguém com percentagens, penetrações, alocações, tácticas e estratégias (políticas e politiquices…). As reuniões de empresas globais são como as matrioskas Russas: há várias encaixadas umas dentro das outras.
À volta da mesa estavam 46 pessoas de 14 nacionalidades, falando DOZE LÍNGUAS. Doze equipas de 4 pessoas? Nã senhor!! Mesmo nesta cena das empresas, a geografia tem uma força do caraças; 12 Alemães; 6 Ingleses; 5 Franceses; 3 Italianos; 3 Polacos e depois a ralé. Ninguém consegue imaginar como a Língua pode ser (e é) utilizada como arma para fazer valer pontos de vista ou pontos de superioridade. A língua “oficial” é obviamente o Inglês, o que dá, logo à partida, alguma vantagem “frontal” aos britânicos. É claro que a vantagem não é total porque “eles” não conseguem comunicar privadamente sem que todos percebam. A seguir os amigos Alemães fazem valer o seu número (e falta de educação) para passarem o tempo todo a guturar entre eles, deixando a maior parte do maralhal a ver navios. Mas, como querem comandar, aprenderam a dominar com mestria a língua dos velhos rivais, estando quase a apanhar os Holandeses, para mim, os verdadeiros poliglotas da Europa.
Mesmo que um dia conseguíssemos encontrar um exemplo microscópico de uma cultura popular (por oposição à cultura das elites) europeia, a INCOMUNICABILIDADE sempre torpedearia qualquer projecto de COMUNIDADE. Uma língua comum pode unir culturas diferentes (EUA, Brasil, Rússia) mas não me parece possível que se consiga criar uma entidade conjugando culturas diferentes E línguas diferentes.
Exemplo 1. Obama vai fazer campanha este ano atravessando todo o território. Com mais ou menos dificuldade, todos vão perceber o que ele diz. A sra Merkel (longe vá o agoiro) resolve candidatar-se a presidente da Europa. Como os 90 milhões de votos que tem em casa não lhe chegam, vem por aí abaixo arengando em Alemão??? Ou será que vai ser o Cameron, ao som do “Rule Britannia”, que tentará convencer “les paysans françaises” de que os “bifes” agora são fixes???
Exemplo 2. Temos um Governo Europeu que vai começar a implementar Leis Europeias. Leis obviamente copiadas dos países ricos que puseram lá os seus Europeus. Ora o povão do resto da Europa votou nos Europeus deles, para vir a ter os carrões deles e os ordenados deles. Quem é que pediu as leis deles??? A GNR faz uma manifestação a EXIGIR a manutenção de todos os direitos adquiridos, a equiparação dos salários às forças da ordem Nórdicas e, já agora, a demissão imediata do Governo Europeu que não compreende as especificidades do nosso Povo.
Penso que, desta vez, não concordo com o Umberto Eco. E penso também que esta porra não vai ser nada fácil. E gostaria de pensar que é só a minha pessimista rabugice sexagenária…
Kurioso