“Tempo é Dinheiro” é uma frase normalmente conotada com a cultura americana, e parece fazer sentido que assim seja, pois aqui pela Europa o Tempo é esbanjado como se não valesse nada.
Para mim, uma das possíveis razões pode ter a ver com o nosso passado. Afinal nós descendemos de camponeses e nobres, classes que não são propriamente reconhecidas pelas suas qualidades de gestão de tempo. Mais tarde surgiram os comerciantes, outra classe que, ao sobreviver à base do paleio, parece ter todo o tempo do mundo. E, mesmo quando chegamos aos industriais europeus, verificamos que não são mais do que burgueses que construíram fábricas e pensam que são nobres. Se alguma coisa os preocupava seriam os custos e nunca a produtividade, pois pagavam salários de miséria aos seus operários.
Mas, se os Americanos são descendentes de emigrantes europeus, porque se tornaram diferentes? Pela simples razão de que os emigrantes tiveram que enfrentar um ambiente hostil que os obrigou a deixar de lado as ineficiências trazidas da velha Europa. E mesmo assim a coisa não foi pacífica, pois o Sul beneficiando do trabalho escravo rapidamente implantou um modelo de sociedade bem próximo do europeu. A Guerra da Secessão foi sobretudo um confronto sociológico: as opções liberais e igualitárias do Norte contra a aristocracia conservadora do Sul.
Toda esta divagação serviu só para chegar à ideia que motivou este post. Esta semana, um acontecimento corriqueiro e alguns comentários posteriores levaram-me a pensar que “Dinheiro é Tempo”.
Fomos a uma Loja do Cidadão para renovar o BI, que agora iria sofrer um upgrade para CC. Chegados por volta das nove horas, calha-nos a senha nº 80 e o marcador ia no 34. Dez minutos depois o marcador subira para 36. Um rápido cálculo mental dá para perceber que a coisa ia demorar horas, assumpção confirmada por um mapa onde se indicavam os tempos de espera dos vários postos onde se emitiam CC. Oooops! Afinal há VÁRIOS (alguns dez só em Lisboa) sítios onde se pode enfrentar a “máquina biométrica” para se conseguir o cartãozinho inteligente, com chip e tudo. Num deles, o tempo de espera estimado são 4 minutos. Outro cálculo simples e dá para perceber que vale a pena ir à procura de alternativa. Piramo-nos dali, fazendo feliz o nº 81.
Quinze minutos depois estamos dentro de uma repartição novinha em folha, onde seis funcionárias aguardavam pelos clientes. Porque rodeadas de um ambiente agradável e sujeitas a menor pressão, tratam as pessoas com uma simpatia e solicitude que já não são habituais. Mais quinze minutos de burocracia e conversa interessante e estamos na rua.
À noite enquanto comentávamos o tema surgiu a frase “aquilo parecia a sala de espera de um hospital”. De facto eram as mesmas cadeiras, o mesmo trato impessoal e carrancudo, a mesma impaciência de funcionários e impacientes, as mesmas palavras ásperas e resmungos. Entretanto, ao lembrar-me que o meu seguro de saúde me permite usufruir de um hospital onde o dinheiro compra tempo, pus-me a pensar em todas as outras situações semelhantes.
Deixando de lado a mais óbvia de todas que é aquela onde os nossos socialites compram anos de vida em qualquer corporação estética, há inúmeras situações onde Dinheiro é Tempo.
Na Zara resmungamos “estas gajas não poderiam ir debater as investidas do chefe para outro lado em vez de estarem a tapar as camisolas” e depois enchemo-nos de paciência para esperar na fila enquanto as meninas da caixa vão pachorrentamente retirando alarmes, dobrando camisas e passando cartões na ranhura, ao mesmo tempo que comentam as bezanas dos namorados. Porém se formos à Labrador temos um empregado à nossa espera que nos auxilia na escolha, aguarda pacientemente à entrada do provador, depois, num supremo acto de respeito pelo Cliente, ajoelha à nossa frente para marcar as bainhas, e finalmente dá a volta ao balcão para nos entregar o saquinho, poupando-nos o trabalho de levantar o braço para recebê-lo.
No restaurante (?) self-service esperamos na fila, recolhemos as ferramentas, fazemos o prato, pagamos e recebemos uma tonelada de moedas de troco, andamos como baratas tontas de tabuleiro na mão à procura de uma mesa e resmungamos “ porra! Esqueci-me da fruta. Que se lixe, fica para amanhã”. Porém se formos a um Restaurante o garçon faz uma vénia sorridente, acompanha-nos à mesa e empurra a cadeira para debaixo do nosso derriére (ia a dizer cu, mas num restaurante destes fica mal…). Enquanto esperamos pelo prato, que irá ser confeccionado especialmente para nós, teremos o hors-d’oeuvre para matar o tempo.
Para estacionar o carro, todos os dias eu dou voltas à procura de um lugar sem parquímetro e depois ando dez minutos até ao serviço. Porém nos dias em que “dou uma de rico” tenho um lugar à minha espera no parque mesmo em frente ao escritório.
É evidente que toda esta poupança do nosso tempo tem que custar dinheiro, pois em todos os lados onde alguém está à nossa espera, estará a ser pago para não fazer nada. O mais caricato é que, como esperamos ser muito bem atendidos quando pagamos mais, os empregados que esperam por nós ociosamente tendem a ser muito melhor pagos que os desgraçados que não param o dia inteiro.
Realmente ter Dinheiro pode ajudar a poupar muito Tempo.
Kurioso
PS. Se calhar estavam à espera que eu falasse das luvas, dos subornos e do tráfico de influências, mas isso já começa a enjoar.