Posts Tagged ‘Tempo’

TEMPO

2012/04/13

Esta semana gastei dois dias a assistir a um curso chamado “Gestão de Tempo”. Por causa disso fiquei com a semana feita em fanicos, sem TEMPO para nada.

Eu que sempre achei a frase “não tive tempo” sinónimo de “não me apeteceu”, dei por mim a pronunciá-la várias vezes. Não foi agradável.

Nestes tempos em que a actividade económica emigrou para parte incerta, poder-se-ia pensar que quem (ainda) tem emprego, teria menos trabalho e, por isso, mais tempo.

Mas é exactamente o contrário. As empresas reduziram o quadro de pessoal, rodaram ou substituíram chefias e reformularam equipas. O novo ambiente é quase caótico! Mas não se pode perder TEMPO! Toda a gente está a aprender, mas toda a gente tem que apresentar propostas/resultados AMANHÃ.

E eu, que fui poupado a voragem da dança das cadeiras, tenho uma ligação vertical totalmente nova (o chefe e o chefe do chefe) e mais de metade das ligações horizontais também novas. Novas ideias por todo o lado, suportadas por muito optimismo, algum desespero e uma pressão enorme.

E nós, os velhos resistentes cheios de “saber e manias”, temos que encontrar o invisível bom senso que nos ajudará, sem preconceitos, a combater as ideias tontas e a apoiar as ideias com possibilidades.  

Temos que nos libertar das grilhetas e CORRER, CORRER, CORRER…

Kurioso

PS. Este post era para ter dois parágrafos. Um a dizer que fiz um curso, e outro a desculpar-me com a falta de tempo. Afinal não me apetecia mesmo escrever.     

BAHNHOFSTRASSE

2011/02/04

 

 

Uma das histórias frequentemente usada em acções de formação é aquela que, apoiando-se nas leis da aerodinâmica, refere a impossibilidade de as abelhas voarem. O formador mostra uma fotografia da abelha e cita o testemunho de August Magnan. Enquanto a assistência pensa: (mas onde é que este gajo quer chegar?!), o individuo faz uma pausa dramática e dispara: “ a abelha voa porque QUER!! A sua VONTADE consegue derrotar as leis da aerodinâmica.”

Sempre que vou à Suíça lembro-me desta história, pois a Suíça não deveria ser um país, e, sobretudo, não deveria ser um país (muito) rico. Não é uma nação, não tem uma língua, não tem recursos naturais, não tem acesso ao mar, não tem um clima favorável, não tem leis nacionais (cada cantão faz as suas próprias leis), não tem exército, não tem facilidade de comunicações. No entanto basta aterrar no aeroporto de Zurique e fazer de comboio o trajecto para a cidade, para perceber que tudo aquilo funciona como um…relógio.

Durante os três dias que lá passei a semana passada (dois de trabalho intenso e um de vadiagem com temperaturas abaixo de zero) consegui recolher uma série de singularidades (outra vez os detalhes…) que definem uma cultura.

A estação de comboio está debaixo do aeroporto. Não é preciso sair à rua.

A senhora da bilheteira fala Inglês (e por certo falará Alemão, Francês e Italiano) e, não sendo uma simpatia, indica claramente o caminho para a plataforma correcta.

O bilhete do comboio serve também para os eléctricos, pelo que basta um único papelinho para ir do avião ao quarto do hotel.

O comboio quando abre a porta estica uma “língua” que encosta na plataforma e permite que as malas rolem lá para dentro.

Todas as paragens da cidade têm uma máquina de vender bilhetes (à chuva e ao sol) e toda a gente compra bilhete apesar de não haver uma cancela ou revisor em lado nenhum.

O botão da campainha serve para abrir a porta pois o eléctrico pára em todas as estações. Assim só são abertas as portas onde haja movimento.

Nos restaurantes, em vez de ganchos para pendurar os casacos há umas barras com verdadeiros cabides. Assim os casacos não ficam marcados e ocupam menos espaço.

No quarto do hotel há um guarda-chuva (neste caso um guarda-neve…) para que o hóspede desprevenido não fique encharcado.

No enorme átrio da estação central é montada (todas as noites?) uma grande feira onde se podem comprar frescos ( e mais quase tudo) que as pessoas levam no regresso a casa. No dia seguinte de manhã não há um único vestígio da “bagunça”.

Os cafés têm jornais (daqueles enfiados num pau) e revistas que os clientes podem ler tranquilamente, sem sentirem que estão a lesar o dono. É claro que um café custa uma nota…

Mas, depois de umas quantas horas a observar aquele modo de vida, o que me veio à cabeça foi a inversão de um velho aforismo. Para os Suíços o “dinheiro é tempo”. O que mais surpreende quem vai deste Sul caótico e fervilhante, é a evidente tranquilidade com que tudo flui. Nas ruas, nos passeios, na estação, nas lojas, nos restaurantes, não se vê pressa. A riqueza conseguiu comprar-lhes organização que se converte em previsibilidade que dilata o tempo.

Se eu conseguia viver na Suíça? Não sei! É muito longe do mar e faz um frio do caraças!!!

Mas uma conversa com um colega Italiano que vive em Zurique há três anos, deixou-me a pensar na coisa. A certa altura ele afirmou que as filhas adolescentes preferem viver na Suíça do que na sua terra natal…

A Bahnofstrasse do título é um caminho de riqueza que liga o mundo de tecnologia da estação central de comboios à beleza natural do Lago Zurich. Esta  rua de luxo é a 3ª mais cara da Europa e a 5ª do mundo. Mas o ecletismo dos Suíços permite encontrar aqui Jimmy Choo e Bata, ou Carolina Herrera e H&M.

Kurioso 

 

TEMPO

2010/04/02

 

 

Tempo é Dinheiro” é uma frase normalmente conotada com a cultura americana, e parece fazer sentido que assim seja, pois aqui pela Europa o Tempo é esbanjado como se não valesse nada.

Para mim, uma das possíveis razões pode ter a ver com o nosso passado. Afinal nós descendemos de camponeses e nobres, classes que não são propriamente reconhecidas pelas suas qualidades de gestão de tempo. Mais tarde surgiram os comerciantes, outra classe que, ao sobreviver à base do paleio, parece ter todo o tempo do mundo. E, mesmo quando chegamos aos industriais europeus, verificamos que não são mais do que burgueses que construíram fábricas e pensam que são nobres. Se alguma coisa os preocupava seriam os custos e nunca a produtividade, pois pagavam salários de miséria aos seus operários.

Mas, se os Americanos são descendentes de emigrantes europeus, porque se tornaram diferentes? Pela simples razão de que os emigrantes tiveram que enfrentar um ambiente hostil que os obrigou a deixar de lado as ineficiências trazidas da velha Europa. E mesmo assim a coisa não foi pacífica, pois o Sul beneficiando do trabalho escravo rapidamente implantou um modelo de sociedade bem próximo do europeu. A Guerra da Secessão foi sobretudo um confronto sociológico: as opções liberais e igualitárias do Norte contra a aristocracia conservadora do Sul.

Toda esta divagação serviu só para chegar à ideia que motivou este post. Esta semana, um acontecimento corriqueiro e alguns comentários posteriores levaram-me a pensar que “Dinheiro é Tempo”.

Fomos a uma Loja do Cidadão para renovar o BI, que agora iria sofrer um upgrade para CC. Chegados por volta das nove horas, calha-nos a senha nº 80 e o marcador ia no 34. Dez minutos depois o marcador subira para 36. Um rápido cálculo mental dá para perceber que a coisa ia demorar horas, assumpção confirmada por um mapa onde se indicavam os tempos de espera dos vários postos onde se emitiam CC. Oooops! Afinal há VÁRIOS (alguns dez só em Lisboa) sítios onde se pode enfrentar a “máquina biométrica” para se conseguir o cartãozinho inteligente, com chip e tudo. Num deles, o tempo de espera estimado são 4 minutos. Outro cálculo simples e dá para perceber que vale a pena ir à procura de alternativa. Piramo-nos dali, fazendo feliz o nº 81.

Quinze minutos depois estamos dentro de uma repartição novinha em folha, onde seis funcionárias aguardavam pelos clientes. Porque rodeadas de um ambiente agradável e sujeitas a menor pressão, tratam as pessoas com uma simpatia e solicitude que já não são habituais. Mais quinze minutos de burocracia e conversa interessante e estamos na rua.

À noite enquanto comentávamos o tema surgiu a frase “aquilo parecia a sala de espera de um hospital”. De facto eram as mesmas cadeiras, o mesmo trato impessoal e carrancudo, a mesma impaciência de funcionários e impacientes, as mesmas palavras ásperas e resmungos. Entretanto, ao lembrar-me que o meu seguro de saúde me permite usufruir de um hospital onde o dinheiro compra tempo, pus-me a pensar em todas as outras situações semelhantes.

Deixando de lado a mais óbvia de todas que é aquela onde os nossos socialites compram anos de vida em qualquer corporação estética, há inúmeras situações onde Dinheiro é Tempo.

Na Zara resmungamos “estas gajas não poderiam ir debater as investidas do chefe para outro lado em vez de estarem a tapar as camisolas” e depois enchemo-nos de paciência para esperar na fila enquanto as meninas da caixa vão pachorrentamente retirando alarmes, dobrando camisas e passando cartões na ranhura, ao mesmo tempo que comentam as bezanas dos namorados. Porém se formos à Labrador temos um empregado à nossa espera que nos auxilia na escolha, aguarda pacientemente à entrada do provador, depois, num supremo acto de respeito pelo Cliente, ajoelha à nossa frente para marcar as bainhas, e finalmente dá a volta ao balcão para nos entregar o saquinho, poupando-nos o trabalho de levantar o braço para recebê-lo.

No restaurante (?) self-service esperamos na fila, recolhemos as ferramentas, fazemos o prato, pagamos e recebemos uma tonelada de moedas de troco, andamos como baratas tontas de tabuleiro na mão à procura de uma mesa e resmungamos “ porra! Esqueci-me da fruta. Que se lixe, fica para amanhã”. Porém se formos a um Restaurante o garçon faz uma vénia sorridente, acompanha-nos à mesa e empurra a cadeira para debaixo do nosso derriére (ia a dizer cu, mas num restaurante destes fica mal…). Enquanto esperamos pelo prato, que irá ser confeccionado especialmente para nós, teremos o hors-d’oeuvre para matar o tempo.

Para estacionar o carro, todos os dias eu dou voltas à procura de um lugar sem parquímetro e depois ando dez minutos até ao serviço. Porém nos dias em que “dou uma de rico” tenho um lugar à minha espera no parque mesmo em frente ao escritório.

É evidente que toda esta poupança do nosso tempo tem que custar dinheiro, pois em todos os lados onde alguém está à nossa espera, estará a ser pago para não fazer nada. O mais caricato é que, como esperamos ser muito bem atendidos quando pagamos mais, os empregados que esperam por nós ociosamente tendem a ser muito melhor pagos que os desgraçados que não param o dia inteiro.

Realmente ter Dinheiro pode ajudar a poupar muito Tempo.

Kurioso

PS. Se calhar estavam à espera que eu falasse das luvas, dos subornos e do tráfico de influências, mas isso já começa a enjoar.


Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.