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DESEMPREGO

2012/08/17

Sábado à tarde, estava tranquilamente a trabalhar numa esplanada quando recebo uma mensagem da minha (?) operadora avisando-me que só tinha mais uma hora de saldo na placa 3G.

Meto o portátil na maleta, ando quarenta metros, desatino com os menus do Multibanco e, dez minutos depois estou de volta à mesa. Reanimo o portátil e tenho à minha espera uma mensagem confirmando a disponibilidade de bué de saldo. 

Pus-me a pensar no que acontecera naqueles longos dez minutos. Uma maquineta que não dorme, nem pára para comer, ou para urinar, ou para esfumaçar, ou para… ia controlando os meus gastos e, para que eu não perdesse a capacidade de continuar a consumir, avisou-me que era preciso pôr mais moedinhas. Apesar de o nosso servidor de email estar nos EUA, a mensagem chegou-me uns micro segundos depois de ser enviada.

Aí entraram em funcionamento os ineficientes seres humanos. Pedir a conta, esperar que a menina fizesse a conta, esperar pelo troco, andar 40 metros, zaragatar com os menus do Multibanco e, finalmente, passar para lá as moedinhas.

E as maquinetas voltam a pegar na coisa. Eu estou numa agência remota de um banco onde não tenho conta, o meu (?) banco valida o pedaço de plástico que meti na racha e confirma que há moedinhas. As moedinhas são enviadas para a conta da operadora noutro banco, e a maquineta que estava a controlar os meus clicks, arrota de contente e deixa-me continuar a trabalhar por mais 950 minutos. Tempo gasto a executar estas simples tarefas: 5 segundos.

Há quarenta anos :( , quando eu era paquete, uma das minhas funções era ir ao banco tratar de transferências para fornecedores. Vou poupar nos detalhes, mas alvitrar que nessa altura seriam precisas  umas dez (vinte?) pessoas  para fazer chegar o dinheiro ao nosso fornecedor. Com  sorte, ele saberia que recebera alguns dez dias depois, e nós  recebíamos o recibo daí a duas ou três semanas. Como o recibo era um papel acompanhado de uma carta, imaginem quantas pessoas…

O pedacinho de plástico que trazemos dentro da carteira e consideramos o símbolo da nossa emancipação atirou para o desemprego milhões de pessoas.

É claro que é muito mais fácil (e desculpabilizador) pensar que foi a incompetência dos governos.  

Kurioso

PS. Sim! Eu estava a trabalhar ao Sábado. Algumas pessoas poderão pensar que o meu esforço acabará por ser gerador de desemprego. Talvez…

Outros pensarão que eu sou um lacaio do capitalismo. Pensem melhor… quando forem a uma caixa Multibanco!

POLEGARZINHO

2010/12/17

 

Olhemos para as nossas mãos. Temos 4 dedos, elegantes e alinhadinhos, e depois, cá em baixo, como que esquecido, um trambolho atarracado: o Polegar.

Ao contrário dos outros dedos que têm habilidades específicas, o polegar sozinho não parece ter grandes aptidões. Não serve para escarafunchar alguns orifícios como o indicador e o mindinho, não serve para insultar os outros condutores como o médio, e não serve para indicar a nossa disponibilidade como o anelar. Há uns séculos atrás serviu para decidir a morte ou a vida dos condenados, e há umas décadas atrás ainda servia para pedir boleia. Uma e outra coisa caíram em desuso (até ver…).

Entretanto já ninguém se lembra de que o Polegar ajudou os primatas a subir ao topo da  pirâmide do reino animal, pois ao tornar-se oponível aos dedos aristocratas possibilitou segurar com firmeza uma ferramenta ou…uma arma.

Mas, tal como as adversidades da vida ajudaram o polegarzinho da história a salvar os seus irmãos, parece que o advento de novas tecnologias ajudou a desvendar todas as potencialidades escondidas do mal amado polegar. 

Primeiro foram as consolas de jogos, que, empurrando todos os dedos snobs para a função de suporte, deixavam do lado cima os desajeitados polegares que tiveram que se amanhar para cutucar quase uma dezena de botões. À força de treino intensivo os nossos amigos enjeitados começaram a mostrar alguma capacidade de adaptação, devidamente comprovada pelos pontos que a maquineta ia contabilizando. Mas isto ainda era só o aperitivo, um treinozito de aquecimento para amadores. O desafio para o profissionalismo, a preparação para as verdadeiras “Olimpíadas Polegáricas”, só chegaria com os telemóveis. Agora sim! Havia 12 teclas minúsculas para serem premidas repetida e aleatoriamente de forma a darem corpo a uma mensagem coerente (enfim! mais ou menos…).

Quem já viu uma adolescente, com unhas de gel, a teclar furiosamente nos micro botões do seu minúsculo Nokia, ao mesmo tempo que vai falando com as amigas, fazendo balões de pastilha elástica e catrapiscando os boys do outro lado da rua, fica convencido de duas coisas: o Polegar é um dedo de pleno direito, e multi-tasking é uma palavra feminina.

Mas a emancipação do Polegar é bem mais abrangente. Um dia destes comentando com um colega estas novas habilidades diz-me ele:” e ainda não reparaste como é que eles carregam nas campainhas ou nos botões do elevador?” “ o quê?!” “ pois! agora é com o polegar…”.

Kurioso


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