Sábado à tarde, estava tranquilamente a trabalhar numa esplanada quando recebo uma mensagem da minha (?) operadora avisando-me que só tinha mais uma hora de saldo na placa 3G.
Meto o portátil na maleta, ando quarenta metros, desatino com os menus do Multibanco e, dez minutos depois estou de volta à mesa. Reanimo o portátil e tenho à minha espera uma mensagem confirmando a disponibilidade de bué de saldo.
Pus-me a pensar no que acontecera naqueles longos dez minutos. Uma maquineta que não dorme, nem pára para comer, ou para urinar, ou para esfumaçar, ou para… ia controlando os meus gastos e, para que eu não perdesse a capacidade de continuar a consumir, avisou-me que era preciso pôr mais moedinhas. Apesar de o nosso servidor de email estar nos EUA, a mensagem chegou-me uns micro segundos depois de ser enviada.
Aí entraram em funcionamento os ineficientes seres humanos. Pedir a conta, esperar que a menina fizesse a conta, esperar pelo troco, andar 40 metros, zaragatar com os menus do Multibanco e, finalmente, passar para lá as moedinhas.
E as maquinetas voltam a pegar na coisa. Eu estou numa agência remota de um banco onde não tenho conta, o meu (?) banco valida o pedaço de plástico que meti na racha e confirma que há moedinhas. As moedinhas são enviadas para a conta da operadora noutro banco, e a maquineta que estava a controlar os meus clicks, arrota de contente e deixa-me continuar a trabalhar por mais 950 minutos. Tempo gasto a executar estas simples tarefas: 5 segundos.
Há quarenta anos
, quando eu era paquete, uma das minhas funções era ir ao banco tratar de transferências para fornecedores. Vou poupar nos detalhes, mas alvitrar que nessa altura seriam precisas umas dez (vinte?) pessoas para fazer chegar o dinheiro ao nosso fornecedor. Com sorte, ele saberia que recebera alguns dez dias depois, e nós recebíamos o recibo daí a duas ou três semanas. Como o recibo era um papel acompanhado de uma carta, imaginem quantas pessoas…
O pedacinho de plástico que trazemos dentro da carteira e consideramos o símbolo da nossa emancipação atirou para o desemprego milhões de pessoas.
É claro que é muito mais fácil (e desculpabilizador) pensar que foi a incompetência dos governos.
Kurioso
PS. Sim! Eu estava a trabalhar ao Sábado. Algumas pessoas poderão pensar que o meu esforço acabará por ser gerador de desemprego. Talvez…
Outros pensarão que eu sou um lacaio do capitalismo. Pensem melhor… quando forem a uma caixa Multibanco!