Posts Tagged ‘Suiça’

MUNDO 1

11 de Março de 2011

A última reunião de serviço na Suíça foi realizada em Engelberg uma estância de Esqui. Ainda estou para perceber se estas reuniões em zonas de lazer são fonte de  motivação ou de frustração…

Ao longo dos três dias, e fora da área de trabalho que não é para aqui chamada, aconteceram três situações que mostram como o Mundo se tornou pequeno e diferente, e como os (meus) preconceitos são difíceis de erradicar.

   

Os dois relógios da fotografia estão na parede por detrás da recepção do hotel onde ficámos hospedados. O da direita indica a hora local e o da esquerda tem por cima uma placa que diz MUMBAI. Achei a coisa estranha, mas não tive coragem para perguntar. Felizmente, ao meu lado, um americano mais curioso e/ou mais extrovertido fez a pergunta que eu calara: “porquê Mumbai?!”.

A curiosa explicação do empregado foi dada num tom entre o orgulhoso e o divertido.”Durante o verão o hotel está sempre cheio de turistas indianos que vêm visitar os locais de filmagem dos filmes de Bollywood que são feitos aqui no hotel e nos arredores. O relógio serve para eles controlarem a diferença horária. Estes turistas são tão importantes que o hotel se transforma para recebê-los. Temos inclusive vários cozinheiros indianos para que o menu esteja de acordo com os seus gostos.” 

Há que referir que o hotel é uma imponente construção antiga cujos sinais evidentes de decadência remetem para épocas perdidas de glamour e romantismo. Dá-me a ideia que tudo é mantido “velhinho” de propósito, pois o funicular que dava acesso ao hotel foi substituído por um moderníssimo sistema de túneis e elevadores que nos levam da povoação, cá em baixo, até ao átrio do hotel a meio da encosta.

Mas o que me pôs os neurónios a zumbir foram os sinais por detrás daquilo que aparenta ser um simples fluxo de turistas. E os sinais não são nada tranquilizadores para um qualquer europeu peneirento.

A Europa sempre se preocupou que a sua presunçosa supremacia fosse usurpada pela rude e inculta América, mas eu penso que o “perigo” estará mais ou menos à mesma distância mas no sentido oposto.

Temos então uma industria cinematográfica dedicada a fazer filmes lamechas às centenas (800 por ano…), supostamente batendo sempre na mesma tecla, mas que mostra ter estaleca financeira para fazer deslocar um batalhão de gente para filmar na Suíça, talvez o País mais caro da Europa. A seguir descobrimos que aquele País atrasado, paradigma da “miséria por atacado” e membro residente dos últimos lugares da tabela de riqueza, tem uma classe média que dava para encher Portugal 10 vezes, e conseguiu dar condições a 350000 almas para visitarem todos os anos uma Suiça que pertence a um Mundo nos antípodas do que estão habituados.

Outra prova de que o Mundo se está a tornar pequenino, é que esta estranha “romaria” despertou a atenção do The New York Times, que explica a coisa com todos os detalhes. E não admira que um turista indiano de 72 anos de idade, olhando para a vista abaixo, tenha definido a Suíça em três negativas:“No noise, no pollution, no crowds.”  Eu não encontraria melhor definição.

Mais Mundo nas próximas semanas.

Kurioso

BAHNHOFSTRASSE

4 de Fevereiro de 2011

 

 

Uma das histórias frequentemente usada em acções de formação é aquela que, apoiando-se nas leis da aerodinâmica, refere a impossibilidade de as abelhas voarem. O formador mostra uma fotografia da abelha e cita o testemunho de August Magnan. Enquanto a assistência pensa: (mas onde é que este gajo quer chegar?!), o individuo faz uma pausa dramática e dispara: “ a abelha voa porque QUER!! A sua VONTADE consegue derrotar as leis da aerodinâmica.”

Sempre que vou à Suíça lembro-me desta história, pois a Suíça não deveria ser um país, e, sobretudo, não deveria ser um país (muito) rico. Não é uma nação, não tem uma língua, não tem recursos naturais, não tem acesso ao mar, não tem um clima favorável, não tem leis nacionais (cada cantão faz as suas próprias leis), não tem exército, não tem facilidade de comunicações. No entanto basta aterrar no aeroporto de Zurique e fazer de comboio o trajecto para a cidade, para perceber que tudo aquilo funciona como um…relógio.

Durante os três dias que lá passei a semana passada (dois de trabalho intenso e um de vadiagem com temperaturas abaixo de zero) consegui recolher uma série de singularidades (outra vez os detalhes…) que definem uma cultura.

A estação de comboio está debaixo do aeroporto. Não é preciso sair à rua.

A senhora da bilheteira fala Inglês (e por certo falará Alemão, Francês e Italiano) e, não sendo uma simpatia, indica claramente o caminho para a plataforma correcta.

O bilhete do comboio serve também para os eléctricos, pelo que basta um único papelinho para ir do avião ao quarto do hotel.

O comboio quando abre a porta estica uma “língua” que encosta na plataforma e permite que as malas rolem lá para dentro.

Todas as paragens da cidade têm uma máquina de vender bilhetes (à chuva e ao sol) e toda a gente compra bilhete apesar de não haver uma cancela ou revisor em lado nenhum.

O botão da campainha serve para abrir a porta pois o eléctrico pára em todas as estações. Assim só são abertas as portas onde haja movimento.

Nos restaurantes, em vez de ganchos para pendurar os casacos há umas barras com verdadeiros cabides. Assim os casacos não ficam marcados e ocupam menos espaço.

No quarto do hotel há um guarda-chuva (neste caso um guarda-neve…) para que o hóspede desprevenido não fique encharcado.

No enorme átrio da estação central é montada (todas as noites?) uma grande feira onde se podem comprar frescos ( e mais quase tudo) que as pessoas levam no regresso a casa. No dia seguinte de manhã não há um único vestígio da “bagunça”.

Os cafés têm jornais (daqueles enfiados num pau) e revistas que os clientes podem ler tranquilamente, sem sentirem que estão a lesar o dono. É claro que um café custa uma nota…

Mas, depois de umas quantas horas a observar aquele modo de vida, o que me veio à cabeça foi a inversão de um velho aforismo. Para os Suíços o “dinheiro é tempo”. O que mais surpreende quem vai deste Sul caótico e fervilhante, é a evidente tranquilidade com que tudo flui. Nas ruas, nos passeios, na estação, nas lojas, nos restaurantes, não se vê pressa. A riqueza conseguiu comprar-lhes organização que se converte em previsibilidade que dilata o tempo.

Se eu conseguia viver na Suíça? Não sei! É muito longe do mar e faz um frio do caraças!!!

Mas uma conversa com um colega Italiano que vive em Zurique há três anos, deixou-me a pensar na coisa. A certa altura ele afirmou que as filhas adolescentes preferem viver na Suíça do que na sua terra natal…

A Bahnofstrasse do título é um caminho de riqueza que liga o mundo de tecnologia da estação central de comboios à beleza natural do Lago Zurich. Esta  rua de luxo é a 3ª mais cara da Europa e a 5ª do mundo. Mas o ecletismo dos Suíços permite encontrar aqui Jimmy Choo e Bata, ou Carolina Herrera e H&M.

Kurioso 

 

TRENÓ

5 de Março de 2010

 

 

Se algum dia alguém me dissesse que eu montaria um trenozito de plástico para descer, noite cerrada, uma pista totalmente desconhecida, sem preparação, sem capacete, sem treino e SEM ILUMINAÇÂO, eu diria: TÁS MALUCO OU QUÊ!?

Pois…tá feito. Afinal o maluco sou eu.

Fui a uma reunião de trabalho na Suíça, e os organizadores resolveram fazê-la numa estancia de esqui. Fomos avisados que haveria uma actividade externa, e que deveríamos levar agasalhos. Nada de novo. Nestas reuniões há normalmente um momento de convívio ao final do dia. Também normalmente a coisa resume-se a uma ida a uma sala de bowling, a um passeio turístico, de autocarro ou barco, ou assistência a um espectáculo.

Pois desta vez a organizadora resolveu inovar. No coffee brake da tarde fomos informados que iríamos fazer um bocadinho de trenó para abrir o apetite para o jantar. Bem, pensei eu, vão levar-nos aí ao fundo duma pista qualquer e escorregamos uns metros.

Como sou habitualmente pontual, fui o primeiro a aparecer no ponto de encontro. A organizadora olha para mim todo equipado e pergunta com entoação estranha:”Vais fazer a actividade?!!!”. Perante a  resposta afirmativa, encolheu os ombros. A minha falta de perspicácia, impediu-me de perceber que a entoação estranha tinha subentendido um (este gajo deve ser maluco) e o encolher de ombros queria dizer (depois não te queixes).  

Depois de reunido o rebanho, uma vintena de incautos, avançamos para a estação do funicular que já estava encerrada há um par de horas e tinha um ar bem sinistro. Aparece o guarda nocturno, abre a cancela e lá entramos na carruagem vermelha.

A pouco e pouco começamos a perceber que a geringonça só parará no topo da montanha, e que a coisa pode ser um pouquito mais complicada do que pensávamos. Procuramos a organizadora e descobrimos que ela ficara lá fora, e se preparava para regressar ao quentinho do hotel. A alegre galhofa que sempre acontece nestes momentos de descompressão começa a esmorecer, e subimos a encosta quase em silêncio. Como compensação tínhamos a vista de um cenário deslumbrante que se ia alargando há medida que subíamos.

O trenzinho pára, atravessamos outra estação deserta e saímos para a neve. Vinte tontinhos no meio de coisa nenhuma. Dizem os entendidos que uma das reacções instintivas à insegurança é a tendência para nos juntarmos. A avaliar pelo modo como quase nos encostávamos uns aos outros, insegurança devia abundar por ali. O guarda manda-nos ir buscar os trenós, e nós lá vamos todos juntinhos.

Outra vez ao molho para junto da luz e, de pedaço de plástico na mão, tentamos sorrir para a fotografia da praxe.

Entretanto chega o nosso guia/anjo da guarda. Um homenzarrão todo de preto (para passar despercebido) com uma luzinha por cima do barrete (o gajo devia era trazer uma luz giratória como a das ambulâncias), montado em cima duns belos esquis. Sem mais conversas, aponta-nos o início da pista e… bazza! O marreta tem direcção, tem travões e tem LUZ, e espera que nós vamos atrás dele montados num tabuleiro de plástico sem guiador, sem travões e sem LUZ. Não é justo!!!

Mas a vergonha é um óptimo fornecedor de coragem. Melhor ou pior lá montamos no banquinho, dois ou três empurrões e começamos a deslizar. Entretanto os olhos já se tinham habituado à pouca luz, havia algum luar e, como a neve multiplica a luz, já conseguíamos pelo menos distinguir as árvores para tentar evitá-las.

A paisagem era ao mesmo tempo assustadora e belíssima. Lá ao fundo brilham as luzes amareladas das casas, nas encostas as zonas escuras dos bosques, contrastam com o branco quase luminoso da neve. Os picos, totalmente brancos, brilham verdadeiramente. A atmosfera é quase mística.

Começa o gozo e o…cagaço.

Porque tínhamos enormes diferenças de peso, de conhecimento e de coragem, o grupo desfaz-se rapidamente e, de repente dou por mim sozinho no meio da montanha. Os mais afoitos já tinham desaparecido lá para frente, os mais desafortunados ainda tentavam encontrar o caminho lá atrás.

E encontrar o caminho era mesmo o problema. A pista, durante o dia, distingue-se perfeitamente das margens pois a luz permite distinguir as texturas. À noite é tudo igualmente esbranquiçado e só sabemos que saímos da pista quando começamos a afundar. 

Eu não disse, mas já deve ser evidente, que era a PRIMEIRA vez que eu punha o traseiro (e outras peças sensíveis) em cima de um trenó. Felizmente o meu treino de motociclista ajudou a intuir a dinâmica da coisa, e a lá fui percebendo como se travava: gastando muita sola, e como se virava: gastando mais sola dum lado do que do outro. Descobri também que os desenhadores das pistas não as fazem para matar pessoas. Quando nós pensamos que o controlo está totalmente perdido, e começamos a imaginar qual vai ser membro que quebra primeiro, a inclinação diminui e entramos num plateau, a velocidade diminui, as solas começam a arrefecer, as pulsações descem uns confortáveis 120, e encontramos os nossos amigos.

O matulão da luzinha bazza outra vez, e nós, armados em especialistas, fazemos uma partida à la formula 1. Má ideia! Ao fim de meia dúzia de metros começam as carambolas, com os coelhos a esbarrar nas tartarugas. Os que vêm atrás tentam desviar-se, mas, ao fazê-lo, metem-se na linha de fogo de alguém. Recuperados o aprumo, e o amor próprio, lá arrancamos todos outra vez. Finalmente, as gargalhadas começam a substituir os gritinhos e os resmungos. Quando conseguimos superar o pavor, a sensação de deslizar a abrir por uma pista deserta às escuras é extasiante.

Muitas sapatadas, muitos sustos e alguns despistes depois, chegamos finalmente ao fundo da pista. Todos pelo próprio pé.

Porque o percurso me parecera bem commmmprido, mas presumindo que fora o medo que o alongara, peço a um colega alemão para perguntar ao fantasma da luzinha quanto tínhamos andado. Resposta displicente: “Só 3,5 kms”.

O grupo era constituído por um número semelhante de homens e mulheres, com idades entre os vinte e poucos e os meus quase sessenta, de uma dúzia de países, com diversas capacidades desportivas. Porém a única coisa que parecia influenciar a bravura/inconsciência era a idade. Uma francesa jovem mostrou-se muito mais afoita que um nórdico cota.

E eu, o decano do grupo, ainda tentando dissipar a adrenalina, era um cocktail de sensações: alívio por ter tudo a funcionar; satisfação por não ter dado barraca; prazer por ter conseguido gerir uma situação totalmente nova; receio pelas sequelas no dia seguinte; um frio danado nos pés e um apetite devorador…

Kurioso

          

 

 


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