Escaravelho Rola-Bosta
Eu já fui vendedor de sucata!
O negócio que andou nas bocas do mundo, e que um dia talvez chegue a julgamento, só chegou às bocas do mundo porque a ganância não tem limites. As sucatas sempre foram um negócio da china, mesmo antes da China ser o maior comprador mundial de sucata, e dentro dos limites da decência a coisa satisfaz duas partes, vendedor e comprador, deixando uma terceira, o Estado, a ver navios.
Então como é que a coisa funciona?
Todas as industrias são, por inerência, geradoras de sucata. Sejam desperdícios do seu processo produtivo, ou simples restos de estruturas, instalações eléctricas, equipamentos obsoletos, etc. Esta tralha é despejada num canto qualquer meio escondido, ou, se a empresa tiver terreno livre, é atirada lá para os fundos. Até que um dia um chefão entediado, numa qualquer visita mais alargada, sente o seu sentido estético ofendido e pergunta:”mas o que é que esta m**da está aqui a fazer? Livrem-se disto!!” O chefe chama o chefinho que chama o encarregado que, sendo novato, resolve tratar da coisa.
O chefinho tem receio que o encarregado noviço meta a pata na poça, e dá–lhe umas dicas.
Para as empresas a sucata é um estorvo, igualzinho aos nossos sofás velhos, torradeiras avariadas e afins. Não vale NADA. Já foi amortizada ou incluída nos custos de produção, é preciso movê-la e, onde quer que fique, vai ocupar espaço e ter um ar desleixado. Porém a sucata industrial pode valer uns tostões valentes, e, quando a decisão é vendê-la, há que perceber que há sucata e sucata. Tudo o que é ferroso quase não vale o trabalho, mas o latão o cobre ou o alumínio valem muito dinheiro.
Alguns preços aproximados por Kg: ferro 0.10 euros; alumínio 0.50 euros; aço inox 0.70euros; cobre 3.10euros.
Mas isto é só o início do processo, pois cada um dos metais pode ser ainda classificado de inúmeras maneiras:
05 – CAVACO DE LATÃO
Somente de vergalhão e grosso. A parte fina eventualmente contida será classificada de acordo com sua perda.
06 – SUCATA LEVE DE LATÃO
Composta de estamparia limpa de latão estanhado.
07 – SUCATA PESADA DE LATÃO
1ª CATEGORIA
Composta de tubos niquelados e chapas niqueladas, casquilhos de lâmpadas e peças constituídas de chapas niqueladas em geral, torneiras, flanges e peças fundidas de latão, isentas de latão com alumínio ou bronze-alumínio.
2ª CATEGORIA
Retalhos de tubos, bendix, sincronizados e peças de latão, que não se enquadram na categoria acima.
08 – HÉLICES DE NAVIO
09 – TELAS E LÂMINAS DE BRONZE TELA
10 – BRONZE
1ª CATEGORIA
Sucata de bronze isenta de latão e de bronze-alumínio. Nas peças compostas de mais de um material, a liga estranha será paga de acordo com a sua classificação. Mancais e lingotes serão comprados de acordo com nossa análise.
2ª CATEGORIA
Composta de registros e outras peças de liga baixa que, devido à sua composição, não se enquadram na 1ª categoria.
3ª CATEGORIA
Radiadores (desconta-se o ferro).
4ª CATEGORIA
Cavaco de bronze, sem mistura de cavaco de latão, alumínio e outros. O cavaco misturado será classificado de acordo com nossa análise.
Nota Importante: Os cavacos de sucata não têm qualquer ligação com outros cavacos.
O sucateiro (não estou a falar do empresário de sucatas) é uma figura castiça. Anda normalmente com um camião que parece aproveitado da sucata que compra, veste-se de acordo com o camião e deve ter sido o inventor da “barba de 3 dias”. Tem ainda uma característica física extraordinária: a sua visão varia do microscópio à cegueira selectiva conforme lhe convém. É também um psicólogo competentíssimo cobrando constantemente do nosso desejo de nos vermos livres do “lixo” e empolando o seu altruísmo perdulário ao oferecer dinheiro por aquela porcaria.
A citação seguinte é parte do enorme clausulado de qualquer proposta de uma grande empresa Brasileira:
“Toda sucata recebida é submetida a um processo de pesagem, em que são definidos os descontos a serem aplicados pela presença de ferro, terra, óleo, umidade e demais impurezas. A pesagem do material remetido será feita na presença do fornecedor ou de seu representante devidamente autorizado, no ato da entrega.
Entendemos que o motorista é pessoa autorizada pelo fornecedor a acompanhar a pesagem.”
Por aqui se vê o cuidado do comprador ao adiantar que vão haver descontos, ao mesmo tempo que conta já com a balda do vendedor: “o motorista é pessoa autorizada pelo fornecedor”.
Mas vamos lá explicar como se vendia sucata há 30 anos.
Quando o chefão dava a ordem, ou nós pensávamos que poderia vir a dar, chamavam-se 3 ou 4 sucateiros para obter os preços por kg. Para que se dignassem comparecer à chamada era preciso frisar que havia bastante cobre e latão para vender, porque se fosse só chapa nem apareciam.
Quando chegavam, mostrava-se-lhes o “bife do lombo”, vulgo cobre, e só depois é que caminhávamos para o lamaçal onde jazia o ferro (a psicologia não estava só do lado deles). No fim de muita choraminguice lá sacavam dum papelucho amarrotado e rabiscavam uns quantos números à frente de cada metal.
Depois de todas as visitas, juntávamos os papeluchos todos e o mais frequente era verificarmos que os preços eram todos iguais. E a escolha recaía então naquele que nos parecera menos chato.
Porque estes processos de venda são desgastantes e frustrantes, tentamos espaçá-los o mais possível, o que quer dizer que quando finalmente “ajoelhamos” pode haver muita “ave Maria” para rezar. Lembro-me de uma vez termos despachado mais de 10 camiões de tralha. Como cada camião é carregado peça a peça e exige uma dura negociação final para se acordar o célebre “desconto”, dá para ver o frete que é vender lixo.
E as tentativas de golpe começam logo no primeiro dia:”hoje trouxe o carro pequeno, por isso vou levar primeiro o cobre…” “ (e depois nunca mais cá vinhas) Nada disso, amigo! Primeiro vai a chapa, a seguir o ferro, depois os cabos de cobre e no fim o latão e o cobre” “ então hoje não levo nada?!..” “leva pois. pode encher a carrinha de aparas de chapa” “ hum…tá bem”.
A seguir entra em funcionamento a “visão” especial. Os cabos de cobre ou pedaços de inox que estão no meio do ferro, são perfeitamente invisíveis, mas uma simples limalha de ferro que esteja num balde de aparas de latão é logo motivo de regateio. E também aqui pode haver golpe. Eles andam sempre com um imane no bolso para tentar encontrar ferro no meio do cobre. A coisa é tão rápida que quando damos por isso a mão já está a sair de dentro do balde com o imane cheio de limalhas de ferro agarradas. “ oh amigo, deixe-me lá experimentar a mim.” “ como?!” “ empreste cá o imane para eu experimentar” “ pois…tome lá…” Depois de limpar o imane, experimentamos passeá-lo dentro do balde, e não é que o sacaninha vem com muito menos limalha.
O pagamento também é sui generis. Enquanto eu me preparava para encontrar formas de validar os cheques ao perguntar-lhe como iria pagar, a resposta veio rápida: “em dinheiro”. E, a seguir, vem uma pergunta afirmação: “mas vocês não vão passar papeis, pois não?”.
No dia em que finalmente levou o cobre, eu estava curioso para ver como iria ser. Não houve problema algum. Depois de carregar e pesar os preciosos baldes (descontando um quilito para as limalhas), mete a mão ao bolso e saca um maço de notas que parecia um rolo de papel higiénico (bem, um pouco menos higiénico…) e estivemos uns minutos a contar notas.
O negócio da sucata movimenta muitos milhões de euros e, quando não há ganância a mais, ele corre como um rio subterrâneo que ninguém vê.
Veja-se este exemplo, mais uma vez do Brasil:
Em 2006, o Brasil reciclou 139,1 mil toneladas de sucata de latas, o que corresponde a 10,3 bilhões de unidades – 28,2 milhões por dia ou 1,1 milhão por hora.
Aos preços lá de cima seriam quase 70 milhões de euros.
Mas a seguir temos também o lado positivo:
Para devolver o alumínio ao mercado, a reciclagem economiza 95% da energia elétrica que seria utilizada na produção do metal a partir da bauxita. O volume de alumínio reciclado no Brasil em 2006 economizou cerca de 1.976 GWh/ano de energia elétrica ao País, o suficiente para abastecer, por um ano inteiro, uma cidade com mais de um milhão de habitantes, como Campinas (SP).
Afinal os abutres e as hienas são feios mas desempenham um papel importantíssimo na manutenção dos ecossistemas saudáveis.
Kurioso