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SUCATA

2010/11/19

Escaravelho Rola-Bosta

Eu já fui vendedor de sucata!

O negócio que andou nas bocas do mundo, e que um dia talvez chegue a julgamento, só chegou às bocas do mundo porque a ganância não tem limites. As sucatas sempre foram um negócio da china, mesmo antes da China ser o maior comprador mundial de sucata, e dentro dos limites da decência a coisa satisfaz duas partes, vendedor e comprador, deixando uma terceira, o Estado, a ver navios.

Então como é que a coisa funciona?

Todas as industrias são, por inerência, geradoras de sucata. Sejam desperdícios do seu processo produtivo, ou simples restos de estruturas, instalações eléctricas, equipamentos obsoletos, etc. Esta tralha é despejada num canto qualquer meio escondido, ou, se a empresa tiver terreno livre, é  atirada lá para os fundos. Até que um dia um chefão entediado, numa qualquer visita mais alargada, sente o seu sentido estético ofendido e pergunta:”mas o que é que esta m**da está aqui a fazer? Livrem-se disto!!” O chefe chama o chefinho que chama o encarregado que, sendo novato, resolve tratar da coisa.

O chefinho tem receio que o encarregado noviço meta a pata na poça, e dá–lhe umas dicas. 

Para as empresas a sucata é um estorvo, igualzinho aos nossos sofás velhos, torradeiras avariadas e afins. Não vale NADA. Já foi amortizada ou incluída nos custos de produção, é preciso movê-la e, onde quer que fique, vai ocupar espaço e ter um ar desleixado. Porém a sucata industrial pode valer uns tostões valentes, e, quando a decisão é vendê-la, há que perceber que há sucata e sucata. Tudo o que é ferroso quase não vale o trabalho, mas o latão o cobre ou o alumínio valem muito dinheiro.

Alguns preços aproximados por Kg: ferro 0.10 euros; alumínio 0.50 euros; aço inox 0.70euros; cobre 3.10euros.

Mas isto é só o início do processo, pois cada um dos metais pode ser ainda classificado de inúmeras maneiras:

05 – CAVACO DE LATÃO
Somente de vergalhão e grosso. A parte fina eventualmente contida será classificada de acordo com sua perda.
06 – SUCATA LEVE DE LATÃO
Composta de estamparia limpa de latão estanhado.
07 – SUCATA PESADA DE LATÃO
1ª CATEGORIA
Composta de tubos niquelados e chapas niqueladas, casquilhos de lâmpadas e peças constituídas de chapas niqueladas em geral, torneiras, flanges e peças fundidas de latão, isentas de latão com alumínio ou bronze-alumínio.
2ª CATEGORIA
Retalhos de tubos, bendix, sincronizados e peças de latão, que não se enquadram na categoria acima.
08 – HÉLICES DE NAVIO
09 – TELAS E LÂMINAS DE BRONZE TELA
10 – BRONZE
1ª CATEGORIA
Sucata de bronze isenta de latão e de bronze-alumínio. Nas peças compostas de mais de um material, a liga estranha será paga de acordo com a sua classificação. Mancais e lingotes serão comprados de acordo com nossa análise.
2ª CATEGORIA
Composta de registros e outras peças de liga baixa que, devido à sua composição, não se enquadram na 1ª categoria.
3ª CATEGORIA
Radiadores (desconta-se o ferro).
4ª CATEGORIA
Cavaco de bronze, sem mistura de cavaco de latão, alumínio e outros. O cavaco misturado será classificado de acordo com nossa análise.

Nota Importante: Os cavacos de sucata não têm qualquer ligação com outros cavacos.

O sucateiro (não estou a falar do empresário de sucatas) é uma figura castiça. Anda normalmente com um  camião que parece aproveitado da sucata que compra, veste-se de acordo com o camião e deve ter sido o inventor da “barba de 3 dias”. Tem ainda uma característica física extraordinária: a sua visão varia do microscópio à cegueira selectiva conforme lhe convém. É também um psicólogo competentíssimo cobrando constantemente do nosso desejo de nos vermos livres do “lixo” e empolando o seu altruísmo perdulário ao oferecer dinheiro por aquela porcaria.

A citação seguinte é parte do enorme clausulado de qualquer proposta de uma grande empresa Brasileira:

“Toda sucata recebida é submetida a um processo de pesagem, em que são definidos os descontos a serem aplicados pela presença de ferro, terra, óleo, umidade e demais impurezas. A pesagem do material remetido será feita na presença do fornecedor ou de seu representante devidamente autorizado, no ato da entrega.
Entendemos que o motorista é pessoa autorizada pelo fornecedor a acompanhar a pesagem.”

Por aqui se vê o cuidado do comprador ao adiantar que vão haver descontos, ao mesmo tempo que conta já com a balda do vendedor: “o motorista é pessoa autorizada pelo fornecedor”.

Mas vamos lá explicar como se vendia sucata há 30 anos.

Quando o chefão dava a ordem, ou nós pensávamos que poderia vir a dar, chamavam-se 3 ou 4 sucateiros para obter os preços por kg. Para que se dignassem comparecer à chamada era preciso frisar que havia bastante cobre e latão para vender, porque se fosse só chapa nem apareciam.

Quando chegavam, mostrava-se-lhes o “bife do lombo”, vulgo cobre, e só depois é que caminhávamos para o lamaçal onde jazia o ferro (a psicologia não estava só do lado deles). No fim de muita choraminguice lá sacavam dum papelucho amarrotado e rabiscavam uns quantos números à frente de cada metal.

Depois de todas as visitas, juntávamos os papeluchos todos e o mais frequente era verificarmos que os preços eram todos iguais. E a escolha recaía então naquele que nos parecera menos chato.

Porque estes processos de venda são desgastantes e frustrantes, tentamos espaçá-los o mais possível, o que quer dizer que quando finalmente “ajoelhamos” pode haver muita “ave Maria” para rezar. Lembro-me de uma vez termos despachado mais de 10 camiões de tralha. Como cada camião é carregado peça a peça e exige uma dura negociação final para se acordar o célebre “desconto”, dá para ver o frete que é vender lixo.

E as tentativas de golpe começam logo no primeiro dia:”hoje trouxe o carro pequeno, por isso vou levar primeiro o cobre…”  “ (e depois nunca mais cá vinhas) Nada disso, amigo! Primeiro vai a chapa, a seguir o ferro, depois os cabos de cobre e no fim o latão e o cobre” “ então hoje não levo nada?!..” “leva pois. pode encher a carrinha de aparas de chapa” “ hum…tá bem”.

A seguir entra em funcionamento a “visão” especial. Os cabos de cobre ou pedaços de inox que estão no meio do ferro, são perfeitamente invisíveis, mas uma simples limalha de ferro que esteja num balde de aparas de latão é logo motivo de regateio. E também aqui pode haver golpe. Eles andam sempre com um imane no bolso para tentar encontrar ferro no meio do cobre. A coisa é tão rápida que quando damos por isso a mão já está a sair de dentro do balde com o imane cheio de limalhas de ferro agarradas. “ oh amigo, deixe-me lá experimentar a mim.” “ como?!” “ empreste cá o imane para eu experimentar” “ pois…tome lá…” Depois de limpar o imane, experimentamos passeá-lo dentro do balde, e não é que o sacaninha vem com muito menos limalha.

O pagamento também é sui generis. Enquanto eu me preparava para encontrar formas de validar os cheques ao perguntar-lhe como iria pagar, a resposta veio rápida: “em dinheiro”. E, a seguir, vem uma pergunta afirmação: “mas vocês não vão passar papeis, pois não?”.

No dia em que finalmente levou o cobre, eu estava curioso para ver como iria ser. Não houve problema algum. Depois de carregar e pesar os preciosos baldes (descontando um quilito para as limalhas), mete a mão ao bolso e saca um maço de notas que parecia um rolo de papel higiénico (bem, um pouco menos higiénico…) e estivemos uns minutos a contar notas.

O negócio da sucata movimenta muitos milhões de euros e, quando não há ganância a mais, ele corre como um rio subterrâneo que ninguém vê.

Veja-se este exemplo, mais uma vez do Brasil:

Em 2006, o Brasil reciclou 139,1 mil toneladas de sucata de latas, o que corresponde a 10,3 bilhões de unidades – 28,2 milhões por dia ou 1,1 milhão por hora.

Aos preços lá de cima seriam quase 70 milhões de euros.

Mas a seguir temos também o lado positivo:

Para devolver o alumínio ao mercado, a reciclagem economiza 95% da energia elétrica que seria utilizada na produção do metal a partir da bauxita. O volume de alumínio reciclado no Brasil em 2006 economizou cerca de 1.976 GWh/ano de energia elétrica ao País, o suficiente para abastecer, por um ano inteiro, uma cidade com mais de um milhão de habitantes, como Campinas (SP).

Afinal os abutres e as hienas são feios mas desempenham um papel importantíssimo na manutenção dos ecossistemas saudáveis.

Kurioso

ARQUIVO

2010/08/20

 

No seguimento de (mais) um rearranjo na disposição das pessoas no escritório, tive que mudar a minha “tralha” de um armário para outro.

Aproveitando o facto do portátil estar nos “cuidados intensivos”, resolvi efectuar uma triagem em vez de alombar com as pastas e resmas de papel como tenho feito em todas as (muitas) mudanças dos últimos 10 anos.

Convém referir que eu sou um guardador compulsivo, e é sempre com um nó no estômago que arranjo coragem para me separar de um qualquer papel, amarelecido pelos anos, cujo conteúdo já não está ligado a nenhuma entidade ainda existente.

Passei então uma boa parte de uma tarde a vasculhar e recordar o passado. Atendendo a que andavam por lá papeis com quase 30 anos (compulsivo, eu?!) eu estive a estudar a “evolução da indústria no pós 25 de Abril”.

Quantos projectos cuidadosamente pensados, planeados e implementados que foram pelo cano abaixo em meia dúzia de anos. Quantos cenários inventados e criticados para enfrentar uma realidade que sempre acabava por nos surpreender. Quantas divergências discutidas interminavelmente até as partes, exaustas, descobrirem que a divergência era subjectiva, e, como tal, insanável. Quantos sucessos que apareceram, milagrosamente, pela feliz conjugação de uma série de acasos fortuitos. Quanto trabalho fastidioso que nos obrigava a ser mais cuidadosos, mais pacientes e mais valorizadores do trabalho do próximo.

Nós só descobrimos quanta água passou debaixo da ponte, quando encontramos qualquer coisa que ficou “congelada” lá para trás. Pode ser uma fotografia, um papel, um cheiro. Aqui eram papeis, e ainda me comovi ao ler coisas escritas por colegas que já faleceram, ao ver referências a grandes empresas que também sucumbiram, e ao ter que admitir que a minha provecta idade já me permitiu ver nascer e morrer algumas tecnologias.

Uma das coisas que eu guardo religiosamente é toda a documentação das acções de formação que tive a oportunidade de frequentar. Foi por isso com enorme mágoa que, após longa indecisão, deixei partir para a reciclagem um conjunto de cadernos datados de 1980. Tinham sido “paridos” por uma Gestetner que reproduzira afincadamente aquilo que uma dactilógrafa escrevera e desenhara nas famosas “ceras”. A Gestener era o padrão da época e passara de marca a substantivo, tal como a Gillete. Era frequente ouvir alguém dizer que tinha uma gestener da Facit… Só quem trabalhou com uma geringonça daquelas pode apreciar o quanto as impressoras modernas são um descanso. É claro que, depois de todos estes anos, naqueles cadernos descartados papel e tinta, outrora nos extremos opostos do arco-íris, tinham convergido para um acastanhado que mal permitia entender os conceitos, também eles já ultrapassados.  

A seguir encontrei os exemplos de outra tecnologia caducada: as transparências (ou micas). Aquelas folhinhas de plástico que se punham em cima dum projector que, das duas uma, ou tinha lâmpada fundida ou fazia um calor do caraças. Pois as transparências deram-me um trabalho acrescido, uma vez que, sendo de plástico, tiveram que ser separadas do papel de suporte para não poluírem o meu esforço ecológico.

Por falar em ecologia, penso que cabe aqui um exemplo de como comportamentos responsáveis podem ser disseminados através daquilo a que vulgarmente se chama “cultura da empresa”. A Companhia onde trabalho tem uma atitude pró-activa em relação ao controlo de desperdícios. Somos constantemente “bombardeados” com informação, avisos e às vezes chamadas de atenção bem directas. Quase inadvertidamente a prática assenta.  Para segregar o papel tive que desmanchar uma série de relatórios que se mantinham unidos por aquelas barras com argolas de plástico (as danadinhas saem bem mas mordem os dedos…). No final do processo sobraram umas dezenas de “argolas” e de capas de plástico. Antes de espetar com elas no lixo, resolvi telefonar para a reprografia para saber de uma eventual reutilização. Antes de acabar de explicar, a moça, que vai ter que verificá-las uma por uma, diz-me: “aproveitamos sim senhor, mande para baixo”. Meio a medo pergunto: “e as capas?…” “ se não estiverem dobradas, mande também”.

E o armário ficou vazio?

NÃO!!! O vício de guardar, como todos os outros, exige um desmame cuidadoso. Olhar para um armário desoladoramente vazio pode dar uma  ressaca terrível. O meu armário ficou ainda bem compostinho.

Enquanto executava estas tarefas mais ou menos maquinalmente, ia pensando que também o nosso arquivo mental está cheio de “papeis” esquecidos. Também por lá temos guardados exemplos de “ …projectos cuidadosamente pensados, planeados e implementados que foram pelo cano abaixo em meia dúzia de anos.” “…cenários inventados e criticados para enfrentar uma realidade que sempre acabava por nos surpreender.” “…divergências discutidas interminavelmente até as partes, exaustas, descobrirem que a divergência era subjectiva, e, como tal, insanável.” “… sucessos que apareceram, milagrosamente, pela feliz conjugação de uma série de acasos fortuitos.”

De vez em quando é bom remexer no arquivo.

Kurioso

Foto 1: Este porta-lápis foi feito por mim em 1979 usando dois blocos de baterias de moto em ebonite (a ebonite já não é usada na Europa). Lá dentro está uma régua de…20 DEZ 1992.

Foto 2: Esta Gestetner é de 1955. As que eu conheci eram um pouquito mais modernas.

   

   

 


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