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GENÉTICA?

2012/09/14

Estes comentários começam a maior parte das vezes, com uma qualquer frase que eu leio por aí, e que me faz partir para várias divagações.

Durante o fim de semana passado, ao ler um dos muitos comentários que tornam o FB um manancial sociológico, deparei com esta frase:

“para haver corruptos tem que haver corruptores”

É uma verdade de La Palisse, mas, neste caso, a ordem dos factores não é arbitrária. Para mim a frase correcta será (e sempre foi): para haver corruptores tem que haver corruptos.

Apontei a frase para posterior desenvolvimento, e, entretanto, fui durante três dias à Polónia para mais uma reunião pan-europeia que incluiu uma visita a uma das nossas fábricas e ainda uma actividade social que será alvo de um post separado.

Durante as longas horas de avião, aeroporto, táxi e autocarro tive tempo para matutar na nossa tradicional auto desculpabilização, e durante as igualmente longas horas de reunião, socialização e visita fabril tive tempo para confirmar como diferentes países (povos) enfrentam de forma diferente as mesmas adversidades.

Voltando à frase lá de cima, ela é uma das possíveis derivações do famoso provérbio “a ocasião faz o ladrão”. Também aqui, eu penso que a ocasião não tem nada a ver com o roubo, podendo, quando muito, só tornar o castigo menos provável. O que faz um ladrão é a falta de respeito, de ética, de educação. Exactamente a mesma coisa que faz um corrupto. Oportunidades de roubar (ou ser corrupto) todos nós temos, e, felizmente, nem todos as aproveitam.

Porém o tema deste alinhavar de ideias não é a ilegalidade de uns poucos (infelizmente não tão poucos quanto isso), mas sim o hábito, bem mais generalizado, que todos nós temos de encontrar sempre uma desculpa para o que fazemos (ou não fazemos), ao mesmo tempo que conseguimos encontrar sempre um culpado externo para as referidas acções (ou inacções).

E como isto vai sempre parar ao mesmo sítio, a DÍVIDA, também é um sinal da nossa genética falta de culpa  o facto de nenhum dos 10 milhões de Portugueses se achar responsável pela dita cuja. Afinal nós pomos lá os gajos para quê? Eles é que deviam ter tido juízo e evitado meter o País nesta encavadela.

Afinal o que nós queríamos (e QUEREMOS) é somente ter um bom sistema de saúde, um bom sistema de ensino, um bom sistema de segurança social, um eficaz sistema de segurança pública (que apanhe os ladrões, mas não nos multe por estacionar no passeio), um carrito à maneira (e mais outro para a patroa e um  para o cachopo), um LCD em cada divisão, uma casita no Algarve, e um lar do Estado para encaixar os velhotes.

Os gajos só têm mesmo é que tornar tudo isso possível. Afinal não é mais do que prometeram.

E se não conseguirem, RUA com eles, que há mais quem PROMETA.

Kurioso       

PARADIGMA

2012/02/17

Paradigma do Portugal moderno: os trinta quilómetros da A1 entre Lisboa e V.F. Xira.

Do lado esquerdo o maior bairro clandestino da Europa, e aquele onde deve haver a maior concentração de economia paralela do País. Deveria ser interessante encontrar o desvio médio entre o rendimento declarado e o rendimento auferido por aqueles compatriotas.

Do lado direito, os restos mortais, ou moribundos, de alguma grande industria e das suas actividades satélite, alguns (poucos) armazéns e dois tipos de dormitórios: os pré e os pós 25 de Abril.

Do lado esquerdo eu não vou falar, pois a xico-espertice faz-me azia. Basta dizer que por aqui está tudo o que Portugal não devia ser. Quem quiser perceber, basta dar uma volta por lá.

Mas do lado direito, está outro Portugal: o que sofre

Nos dormitórios pré-25 estão os operários de todas as industrias que entretanto fecharam. São pessoas com a instrução básica padrão da época, que vendiam o seu trabalho por tostões até que uma revolução, para a qual não contribuíram, lhes multiplicou os proventos por dez, ao mesmo tempo que condenava as empresas onde trabalhavam ao encerramento. A maior parte não se deixou deslumbrar por esta súbita riqueza, e amealhou ou comprou património. Hoje, “despachados” por falências ou reestruturações, agrupam-se em jardins ou cafés, deixando escorrer tempo entre lamúrias clínicas,  familiares ou políticas. Debatem os seus achaques, comparam as desventuras dos filhos, transviados, desempregados ou endividados, e recordam com saudade os tempos em que eram rudemente explorados, mas havia respeito. Do alto das colinas, contemplam as ruínas fabris junto ao rio, e também as centenas de colmeias onde vive a geração seguinte que não compreendem. Não compreendem os seus gostos, as suas necessidades, os seus relacionamentos, a sua exuberância, o seu esbanjamento.

Nos dormitórios pós-25 estão os empregados de todos os serviços que entretanto abriram. São pessoas com instrução média, que vendem o seu trabalho por cêntimos, agora que se esgotou a revolução que fez ricos os seus pais. São a geração que cresceu com  tudo e agora, que são adultos, caminham para não ter “nada”. Este “nada é obviamente subjectivo, mas também a noção de satisfação, realização ou felicidade são totalmente subjectivas. E quando se trabalha num qualquer armazém, ganhando o ordenado mínimo, tendo por modelo os craques da bola ou as “barbies” da televisão, é fácil pensarmos em “nada”. E mesmo a agradável satisfação de contemplar a obra feita pelas nossas mãos, está agora cada vez mais arredada, neste mundo onde nos limitamos a controlar máquinas e a comprar tudo feito. Ainda hoje conversando com a minha mulher sobre os trajes de carnaval que as minhas colegas compraram para os filhos, recordámos os diversos disfarces que a nossa filha usou durante os anos de escola: pierrot; índia; pantera cor-de-rosa; chinês; yin-yang, etc. todos eles feitos em casa e, por isso, todos eles únicos.

Mas o que tornou realmente diferentes estas duas gerações, foram as promessas que acompanharam o seu crescimento. Aos “antigos” foi prometido nada, e com muito trabalho talvez conseguissem umas migalhas. Aos “modernos” foi prometido tudo, mesmo sem grande esforço. É fácil perceber onde estará a frustração.

Mas, apesar de a grande Lisboa ter cerca de 2 milhões de habitantes, para lá de Vila Franca ainda há outro Portugal com muitos portugueses. Não serão talvez tão modernos, mas, por isso mesmo, quem sabe mais felizes.

Kurioso


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