Posts Tagged ‘PORTUGAL’

IDH

10 de Maio de 2013

 

IDH quer dizer Índice de Desenvolvimento Humano, e Portugal (ainda) está no grupo de países que apresentam um IDH “muito alto”.

Mas como, nos dias de hoje, TUDO serve para zurzir no Governo, o facto de termos descido duas posições entre 2011 e 2012 foi logicamente atribuído ao dito cujo.

Esta “análise” vai direitinha de encontro a duas das minhas embirrações de estimação:1. Manipulação abusiva de dados; 2. Atribuição sistemática de culpas a outrem.

Antes de chegarmos à manipulação de dados, há que referir que estes tipos de classificações são na generalidade liminarmente rejeitadas pela omnisciente Cultura Progressista, pois estão inquinadas pelo vírus do Capital. Porém, chega uma altura em que um simples enviesar do ponto de vista permite usar (abusar?) os dados a favor do opinante. E o que é que nós vimos no gráfico, verdadeiro mas abusivamente manipulado: Portugal desceu dois lugares, por culpa de Passos Coelho, e está na cauda da Europa. Que há dois, dez ou vinte anos Portugal estivesse exactamente no mesmo lugar, a cauda da Europa, é irrelevante para a asserção.

A seguir vêm “as culpas a outrem”. Se perguntarmos aos dez milhões de Portugueses se alguém se acha um bocadinho responsável pelo estado lastimoso a que chegou o País, eu aposto a minha (improvável) reforma em como teríamos 10 milhões de NÃOS. Mas será que as pessoas, com esta eterna desculpabilização, não vêem que se estão a rotular de incompetentes? Incompetentes para gerirem a sua própria vida, para mudarem o curso dos acontecimentos, para fazerem a diferença!

Mas voltemos ao IDH. Se olharmos com alguma atenção para a tabela, lá nos encontramos em 43º lugar, com algumas improbabilidades por cima de nós (Brunei, Qatar e Barbados) e outras tantas por baixo de nós (Rússia, Cuba, Venezuela).

E lá no topo, em 3º lugar, temos os EUA onde uma avaliação de 0,937 não consegue esconder os quase 50 milhões de pobres que por lá existem.

In November 2012 the U.S. Census Bureau said more than 16% of the population lived in poverty in the United States, including almost 20% of American children,[1] up from 14.3% (approximately 43.6 million) in 2009 and to its highest level since 1993. In 2008, 13.2% (39.8 million) Americans lived in poverty.[2]

O IDH, como todas as classificações globais, enquadra numa sequência razoavelmente falível (e possivelmente tendenciosa) os países, empresas, povos, utilizando padrões que nunca poderão ser aplicados globalmente, pois NÃO HÁ uma cultura global e todos os comportamentos são culturais.

Então não serve para nada? Serve sim senhor! Serve como ponto de partida para análises mais detalhadas, que deverão ter como suporte dados locais. E não deveria servir NUNCA para atirar poeira para os olhos dos incautos.

Mas também não sei porque me admiro. Afinal eu até já vi o FMI ser citado positivamente pela omnisciente Cultura Progressista…

Kurioso 

PS. A fotografia lá em cima mostra uma rua da cidade de Camden, New Jersey.

GEOGRAFIA

4 de Janeiro de 2013

 

“ Podemos deduzir, então, sem risco de deturpar as suas palavras, que se veria grega se tivesse que governar na Grécia ao invés da Alemanha, onde a coisa seria fácil, com um único senão: não foram os alemães que inventaram a democracia”

Esta frase foi proferida por uma opinion maker , comentando declarações alheias. A minha primeira reacção foi pensar: e o que é que o CU tem a ver com as CALÇAS!

Mas, porque a recorrente afirmação de que os Gregos merecem a admiração do mundo por terem inventado a Democracia, me faz algumas comichões, e colide com as memórias do meu ensino secundário, resolvi ir estudar o tema.

As leituras confirmaram aquilo que eu recordava:

One thing must be said about Athenian democracy and that is that it was a full time job. Only people with a lot of leisure time on their hands could devote the energy to this system, which brings us to the issue of slavery. Without slaves there would not have  been an Athenian democracy, or at least not as we know it. The fact that even a relatively poor Athenian citizen could still afford one slave to plow his fields or work in his shop while he was debating laws in the assembly is what made a democracy of the people (if you define people as free-Athenian-male-citizens).

(http://www.ahistoryofgreece.com/athens-democracy.htm )

Mas também tive uma série de surpresas.

A maior de todas terá sido descobrir que a Grécia só existe como “nação” desde 1823, quando após uma sangrenta revolução contra o ocupante Turco, e já quase a serem derrotados, são salvos pela troika formada pelos Ingleses, Franceses e Russos. Como prenúncio do que viria a passar-se (e também consequência do que se passara até aquela altura) o primeiro presidente grego é assassinado ao fim de quatro anos. Mais uma vez, Russos, Ingleses e Franceses tomam conta da situação e vão à Bavaria (Alemanha) buscar um tal de Otto que nomeiam rei dos Gregos.

Os próximos cem anos serão palco de inúmeras tentativas de implementação de algo parecido com governação, raramente chegando sequer perto do que se possa chamar de Democracia.

E vem então a 2ª Grande Guerra, época em que os Gregos sofrem talvez a maior humilhação, mas onde demonstram também a fibra de que são feitos, ao conseguirem manter o poderoso exército alemão em constante inquietude.

Mas porque o vício da guerra parece ser incurável, as duas facções de guerrilheiros que lutaram contra os alemães (uma de esquerda e outra de direita), mal acaba a guerra desatam a lutar entre si. A “pacificação” desta vez vem do outro lado do Atlântico, com os americanos a injectarem rios de dinheiro para tentar evitar a vitória dos comunistas. E depois veio a ditadura militar, e depois vieram os governos frouxos, e depois…

Entretanto, se considerarmos que o povo Grego iniciou a sua caminhada no ano 400 AC, depois de ler a sua história, chegamos à conclusão que, durante 24 séculos, raramente se governou a si próprio. Foi governado por romanos, por otomanos, por Turcos, por Franceses, por Ingleses, por Italianos e por Alemães. Esta governação estrangeira ou ditatorial ou corrupta (ou as três em simultâneo), acabou por esculpir aquela que é talvez a característica mais transversal de todo o povo Grego: uma aversão e rejeição viscerais do Estado.

Os Gregos até podem ter inventado a Democracia, mas parece provado que não sabem aplicá-la.

Curiosamente, são os bárbaros ignorantes do norte que, através da sua racionalidade, disciplina e pragmatismo, conseguiram mostrar aos criadores como se faz.

E eu, que tenho colegas Alemães e Gregos, não tenho dúvidas nenhumas sobre com quais gostaria de trabalhar. Provavelmente não seria divertido, mas, ao final de cada dia, o que era para ser feito estaria feito, dentro das regras e sem sobressaltos.

Se ainda há uma diferença grande entre Portugueses e Gregos? Há sim senhor! Mas uma boa parte dos nossos compatriotas estão a fazer um esforço danado para acabar com essa diferença.

Kurioso

E para aqueles que gostam de Geografia      

COMBINAÇÃO

6 de Julho de 2012

Nós temos um País maravilhoso (concordo com isto), com um clima ameno, com áreas diversificadas e água abundante que permitiriam uma agricultura de qualidade, temos boas rodovias, temos (tínhamos?) boas ferrovias, temos bons portos, que permitiriam uma industria de qualidade. Clima, diversidade, diferença, acessibilidades e uma História invulgar, que deu origem a um património arquitectónico riquíssimo, permitiriam um turismo de qualidade.  Estando “longe” da Europa, estamos perto do resto do Mundo.

Até há trinta anos, tudo o descrito acima estava ainda condimentado por um certo ar “despenteado” que nos tornava diferentes da Europa penteadinha. Nos últimos trinta anos, tentámos imitar a Europa no seu pior, e acabámos por ficar totalmente descaracterizados. Passámos de despenteados para desgrenhados.  

Os Portugueses, fora de Portugal, são dos melhores trabalhadores do Mundo (concordo com isto), seja a construir automóveis ou a gerir empresas de construção de automóveis, seja a limpar museus ou a gerir colecções de museus, seja a construir prédios ou a desenhar prédios, sejam mordomos de cientistas ou cientistas eles mesmos.

Lá fora, os Portugueses cumprem horários, não passam horas infindas na conversa nos corredores, não refilam com os chefes, não deitam lixo para o chão, não estacionam o carro em cima do passeio, não roubam o cobre do pára-raios (aconteceu na nossa empresa…), não tiram cursos acelerados, não permitem que outros tirem cursos acelerados.

Lá fora, os Portugueses não dizem mal do seu país.

Porém a combinação Portugal + Portugueses não funciona. Há que tirar os Portugueses de Portugal, ou tirar Portugal aos Portugueses. Em 2012 parece-me que vamos tentar as duas vias.

Kurioso  

ZAROLHOS

6 de Janeiro de 2012

Há duas palavras que eu abomino: MÉDIA e COMPARAÇÃO. Uma média, na maior parte das vezes, vale uma “mérdia”, e as comparações, na maior parte das vezes, comparam alhos com bugalhos. E no entanto estas duas palavras são fundamentais no meu trabalho. E, porque são fundamentais, eu aprendi as técnicas que permitem retirar o azeite da água suja que resulta de uma média directa ou de uma comparação tosca. Por outro lado, como já são muitos anos de volta do “lagar”, tenho a presunção de acreditar que desenvolvi uma espécie de “olho de sapo” que me ajuda a detectar o que é relevante no meio do ruído envolvente.

“Recent research has revealed some of the frog’s eye’s interesting abilities. One kind of retinal cell responds strongly to small, dark, round moving objects and is most active when those objects moved irregularly. It is as if the neurons of the frog eyes were designed especially to detect flies. Some scientists call their eyes "bug detectors."”

clip_image001

Tirado daqui

Neste tempo em que todos nós deveríamos ser esclarecidos da forma mais isenta, é absolutamente vergonhosa a forma como todos os poderes, formais e sobretudo os informais, manipulam as médias e as comparações do modo que seja mais vantajoso para eles próprios ou para os interesses que defendem.

Porque vou falar (outra vez) da crise, deixo aqui (outra vez) a minha visão em traço grosso:

1. Gastámos muito mais do que produzimos

2. O gasto foi facilitado pelos “drug dealers” internacionais (vulgo mercados) e descuidadamente aproveitado pelos governos, pelas empresas e pelos particulares

3. Todos mamámos daquela “teta”, fosse de forma directa (empréstimos pessoais) ou indirecta (auto-estradas, rotundas, gimnodesportivos, hospitais, escolas, bolsas, subsídios, reformas)

4. Porque começámos a dar indícios de não poder pagar a “droga”, os “dealers” cortaram o fornecimento

5. Vamos ter que “ressacar” violentamente e quando estivermos curados do vício, talvez (TALVEZ…) nos deixem voltar a “cheirar” um bocadinho

6. Porque já tivemos diversas recaídas, e porque muitos ainda não assumiram o vício, os médicos continuam a insistir no tratamento de privação total

7. Qualquer que seja o método, a probabilidade de cura é assustadoramente baixa

Do acima esboçado, é fácil de ver que eu não tenho nenhuma certeza de que a receita da Troika consiga tirar-nos do atoleiro, mas também me parece que havia muito poucas alternativas. Voltando às analogias automobilísticas, é como se um condutor totó deixasse o carro entrar em despiste, e o pendura, um pouco mais experiente, tentasse a todo o custo evitar o choque frontal, preferindo bater de lado ou de traseira. O carro vai para a oficina, mas os passageiros talvez se safem.

Voltando então às visões parciais, ou tendenciosas, chateia-me particularmente a pregação fanática de um determinado opinante que, para mostrar como não funcionam as medidas da troika, passa a vida a dar o exemplo Grego. Já não chegavam os outros europeus a baterem naquela tecla, ainda tem que aparecer um português parvo a dizer que nós somos como os gregos. Podemos ser tão bons a gastar como eles, mas quero crer que ainda somos um bocadinho melhores a pagar. E a pagar para onde é importante: para o Estado. A Grécia não vai lá porque os gregos rejeitam hoje, como sempre rejeitaram, a figura de um Estado suportada por eles próprios. Quando alguém acha que eu (um português médio) sou parecido com um grego médio, eu sinto-me insultado.

O tal opinante com “olho de sapo”, se quer fazer comparações, bem podia ir à procura de outra letra do PIG e talvez encontrasse outros resultados para a mesma profilaxia: a Irlanda. As coisas não estão garantidas, mas começa a haver uma réstia de esperança.

Infelizmente anda por aí muita gente a defender ideias, mas muito pouca a defender Portugal.

Kurioso

OPÇÃO

16 de Setembro de 2011

Nos últimos, e nos próximos tempos, muito se tem falado, e falará, de Capitalismo, Socialismo, Democracia, Desigualdade, Exploração. O nosso salário mínimo será comparado com o dos países capitalistas e a nossa segurança social será comparada com a dos países socialistas (Coreia do Norte, Cuba, Venezuela, Bolívia, ?), pois os portugueses têm um jeito especial para fazer comparações convenientes. Ah! E continuaremos a falar muito de DIREITOS, e talvez um poucochinho de deveres.

Os portugueses estão muito admirados por terem um governo de direita depois de terem votado em dois partidos de direita (os abstencionistas façam o favor de meter a viola no saco) quando tinham à sua disposição, no tal papelinho que se mete na racha, pelo menos dois partidos que nos livrariam do demónio capitalista. Se a Democracia não é para valer só de vez em quando, então os portugueses escolheram democraticamente ser governados neste sentido. E, uma vez que escolheram, talvez não fosse má ideia ajudarem um pouquito se não for muita maçada. Se vamos ser bem, ou mal, governados, isso são outros quinhentos.

Aquilo que eu vou fazer, e aquilo que eu acredito que este governo possa fazer, já por aqui foi dito. Agora gostaria de tentar desmontar dois mitos: Capitalismo é igual a Desigualdade; o Dinheirão que entrou em Portugal foi todo para os bolsos de Meia Dúzia.

Demonstrar que o primeiro é um mito é tremendamente fácil. A grande maioria dos 193 países do mundo estão em regime capitalista (aberto ou encapotado) e se em algum lado se pode encontrar menor desigualdade (a Igualdade não existe!) será certamente num destes. Aliás há efectivamente um indicador que mede a desigualdade  (GINI), e a ordenação é mais ou menos aquela que alguém bem informado, e não tendencioso, estaria à espera: Suécia, Noruega, Áustria e… Rep. Checa nos 4 primeiros lugares. Portugal está a meio da tabela, mas bem à frente de Israel, EUA, Venezuela, China, Irão, etc. Uma consulta detalhada à lista permite confirmar que Capitalismo não é necessariamente sinónimo de mais desigualdade, do mesmo modo que Socialismo nunca foi necessariamente sinónimo de mais igualdade. Ainda dentro do mesmo tema, há também uma classificação (mais uma…) para os 100 melhores países do mundo, onde estamos num honroso 27 lugar (com a Grécia imediatamente acima…).

Já em relação ao Dinheirão que entrou em Portugal, eu não consegui encontrar tabelas que mostrem como foi distribuído, mas penso que consigo demonstrar o  meu ponto. O dinheiro que entrou em Portugal (dado ou emprestado) foi todo gasto pelo Estado. Uma boa parte (30-40%) em salários dos seus próprios funcionários, que não farão seguramente parte da tal Meia Dúzia. Os outros 70% foram gastos na aquisição de bens e serviços: estradas, edifícios, equipamentos, estádios de futebol, hospitais, automóveis, software, consultoria, etc, etc. Se olharmos para a tal Meia Dúzia, que nós invejamos, admiramos, amaldiçoamos, culpamos, é fácil de ver que nenhum deles enche os bolsos directamente a partir do Estado. Não foram os Tubarões que se abotoaram com a massa foram as Piranhas. Não foram Meia Dúzia de bolsos, foram umas dúzias de milhares. E todos nós, nos nossos círculos de conhecimentos, de vizinhança, de relacionamento profissional conseguimos identificar umas quantas dessas Piranhas. Mas o mais interessante, é que as piranhas, ao contrário dos tubarões, não gostam de amealhar, e vai daí derreteram tudo aquilo que ganharam, acabando por dinamizar a economia do País. Ele foram os carrões; ele foram as casas no Algarve; ele foram as quintas no Alentejo; ele foram as jóias pr’á  Patroa; ele foram as viagens às Caraíbas; ele foram as jantaradas no Ramiro ou no Fialho. Enquanto a massa fluiu a montante, todos estes gastos foram criando e mantendo postos de trabalho a jusante. Era como um grande lago que  alimentava um rio que de barragem em barragem ia produzindo energia até chegar à foz.

O lago virou lagoa, as piranhas vão comer-se umas às outras, os tubarões comem as que sobrarem, e eu carapau, vou esconder-me atrás duma pedra até a borrasca passar.

Entretanto, em 2015 (provavelmente mais cedo) todos os carapaus vão ter a opção de pôr a cruzinha num dos tais partidos cheios de soluções que exorcizariam de vez o demónio capitalista (ou talvez não…).

Kurioso   

 

 

“TORCIDO”

10 de Junho de 2011

Há dez anos atrás, quando comprámos o nosso apartamento, em conversa com um dos construtores ele queixou-se dos roubos. Já davam como adquirido que uns sacos de cimento, uns tijolos ou umas tábuas de cofragem sempre ganhariam asas, mas na altura o sujeito estava escamado porque lhe tinham roubado umas dezenas de janelas, com os aros incluídos. Explicou-nos então os malabarismos de que se socorriam para evitar perdas maiores: as torneiras tinham que ser todas aplicadas no dia da entrega; as sobras de material eléctrico eram recolhidas, levadas para o armazém e trazidas no dia seguinte; os aros e as portas eram entregues separadamente.  Todos nós estamos habituados a passar por estaleiros de obras e ver as máquinas de soldar penduradas nas gruas.

Numa das minhas deambulações pedestres nos arredores de Zurique, passei por um estaleiro enorme, dum conjunto de apartamentos, e verifiquei surpreendido que nem vedação havia. Olhando com mais cuidado, confirmei que os equipamentos estavam todos nos seus postos de funcionamento, e havia inclusivamente várias ferramentas eléctricas manuais pousadas em cima duma bancada.

Matutando nestas diferenças, comecei a imaginar a quantidade de dinheiro que se gasta em Portugal para prevenir, corrigir, fiscalizar e  punir as situações erradas que acontecem por relaxe moral, ético, social, civilizacional.

O exemplo acima é um dos que me causa mais engulhos. Qualquer habitante de Lisboa passa diariamente por centenas de “palitos” destes, o que quer dizer que existirão milhares deles espalhados pela cidade. Extrapolando para o resto do País é fácil perceber que Portugal gasta milhões de euros para evitar que os seus habitantes, NÓS, façam aquilo que à partida não deveriam fazer. E o caricato desta situação, é que a ausência da barreira leva-nos a pensar que há liberdade para transgredir: se não há palitos, bora lá estacionar em cima do passeio (eu já fui caçado nesta ratoeira…). As autarquias gastam rios de dinheiro a empalitar o País, mas sempre haverá um pópó estacionado em cima do passeio.

Mas, para não passar para a área privada, onde todos nós gastamos fortunas para prevenir o que não deveria ser necessário prevenir, continuemos a ver onde o nosso estado falido gasta o dinheiro. 

Para evitar que os adeptos do desporto mostrem todo o seu “desportivismo”, gastamos uma pipa de massa.

Culpamos o fisco por não cobrar aquilo que deveria ser pago de motu proprio, e depois culpamos os tribunais por estarem entupidos com todos os processos de que NÓS somos os progenitores.

Reclamamos da falta de mobiliário urbano, de jardins, de equipamentos desportivos, e vandalizamo-los ainda antes de inaugurados.

A foto acima mostra um abrigo de paragem que teve os vidros partidos 6 vezes em 7 semanas consecutivas, durante os meses de Maio a Julho do ano passado. Os vidros eram quebrados ao fim de semana e substituídos na quarta ou quinta feira. A única vez em que o ciclo falhou, foi porque não foram substituídos. De repente, em Agosto, as quebras pararam e eu pensei que finalmente tinham apanhado os sacanas. Pois se os apanharam, já estão de volta! Porém o ritmo abrandou, e agora é   uma partidela por mês.

Mas não são só os sacanas que vandalizam o País. Mais uma vez o exemplo acima mostra como a “flexibilidade ética”, ou a pura preguiça, fazem com que dezenas de cidadãos estraguem um jardim para poupar meia dúzia de passos.

País torcido este, onde os habitantes, em vez de ajudarem o Estado a poupar, o obrigam a gastar dinheiro onde não devia ser preciso.

Kurioso 

 

EURO

27 de Maio de 2011

No meio de todas as divagações, opiniões, aberrações e confusões, tem-se ouvido falar com alguma frequência sobre a nossa permanência no euro. Há duas correntes, uma argumentando que nunca devíamos ter entrado, e outra propondo que saiamos rapidamente.

Não acho que valha a pena chorar sobre leite derramado, e por isso não opinarei sobre as consequências do que foi feito há nove anos. Porém sobre a saída do euro eu tenho algumas ideias. E espero que estejam totalmente  erradas se algum dia tivermos mesmo que sair.

O argumento principal para a saída, seria o aumento da nossa competitividade depois de desvalorizarmos a futura moeda autónoma (chamemos-lhe novo escudo, para matar saudades). Toda a nossa produção ficaria mais barata e iríamos exportar charters de tudo e mais alguma coisa.

O meu trabalho na logística de duas grandes industrias bem diferentes, deu-me possibilidade de conhecer razoavelmente dois clusters  distintos mas onde as variáveis macro são quase iguais: matérias-primas importadas; material de embalagem nacional mas fabricado com matéria-prima importada (excepto a fileira do papel); equipamentos importados e energia importada. Só mesmo a mão-de-obra é que é local.

Porém o aumento exponencial do custo hora depois do 25 de Abril, levou as empresas que quiseram sobreviver a investir em equipamentos automatizados que reduziram drasticamente a componente mão-de-obra no custo do produto. Se há vinte anos o valor da mão de obra poderia chegar aos 20% do custo total dum produto industrial, nos dias de hoje o valor andará entre os 10% e os 5%.  

Xavier Pintado escreveu na década de 70 (!) o seguinte parágrafo:

Significa isto que num número apreciável de indústrias as
consideráveis diferenças de salários existentes entre Portugal e
os países industriais da Europa, por exemplo,
possuem reduzida
incidência no custo final de produção
, e correspondem, por isso,
a uma escassa vantagem a nosso favor, especialmente se o reduzido peso da mão-de-obra no custo total for acompanhado de diferenças de produtividade do trabalho a favor dos países
industriais.

E se já era assim antes da “Revolução”, hoje a importância do custo de mão-de-obra no custo total ainda é menor. E isto deita por terra outro mito muito querido dos nossos “empresários” que é a necessidade imperiosa de moderar salários para aumentar a competitividade (mas este tema fica para uma próxima dissertação).

Olhemos então para aquilo que exportamos:

 

Está à vista que aquilo que o país ganha com estas exportações é o valor que acrescentou a materiais que importou. Temos que descer até meio da tabela para encontrar a cortiça, e mais abaixo ainda a pasta de papel. É evidente que exportamos bens “sofisticados”, para os quais tivemos que importar os componentes, mas o problema maior  é ainda o termos que importar uma boa parte  da comidinha:

 Há várias situações caricatas nas tabelas acima, mas as mais flagrantes são o facto de a nossa terceira maior exportação ser “Combustíveis e Óleos”, dos quais não produzimos um único kg, e a nossa maior importação de “comidinha” ser “Peixes e Crustáceos, Moluscos…”, quando Portugal tem uma das maiores ZEE do mundo.

Tentando resumir um problema altamente complexo e potencialmente explosivo, eu fiz umas continhas básicas que comparam os custos, dentro do euro e fora do euro, de um hipotético par de sapatos, considerando a seguinte estrutura de custos:

 

 O exemplo acima contempla um indústria de mão de obra intensiva como a do calçado, onde ainda haveria um ganho de 8%. Se o mesmo raciocínio fosse aplicado a indústrias mais sofisticadas, onde a percentagem de mão-de-obra nos custos rondará os 5%, os esmagadores 50% de desvalorização resultariam num ganho ridículo de…3%.

Enfim, pouco ou poucochinho, o sector exportador ganharia alguma competitividade. E os milhares de empresas que importam para transformar e vender, ou somente vender, em Portugal? Comprariam mais caro e tentariam vender a um povo com o poder de compra reduzido para metade… 

E porque acredito que a saída do Euro será uma catástrofe, vou esgatanhar-me todo para ajudar a evitá-la. Vou continuar a aprender (mais), vou continuar a ensinar (mais), vou continuar a trabalhar (mais), vou continuar a comprar Português (mais),  vou continuar a não me endividar (nada) e vou continuar a poupar (mais). E porque a vida não são só sacrifícios, espero continuar a (poder) comer fora de vez em quando, espero continuar a (poder) visitar sítios diferentes para tirar umas fotografias e espero continuar a (poder) ajudar a economia Algarvia nas férias de Verão.

Kurioso

 

 

 

“NÓS”

8 de Abril de 2011

A semana passada falei de “ELES” como sendo o empecilho para a criação de uma sociedade justa (ou menos injusta…) e sustentável a prazo.

Ora é evidente que este alijar de culpas é já uma amostra da atitude de “NÓS”, sempre prontos a atribuir a responsabilidade e solução dos NOSSOS problemas aos OUTROS.

“NÓS” concordamos com uma boa parte das afirmações do BE, mas 6% estão dispostos a pôr lá a cruzinha; “NÓS” pensamos que o Paulinho das Feiras é um demagogo vaidoso, mas ainda há 7% dispostos a arriscar; “NÓS”  queremos desesperadamente acreditar no “pato” Coelho, mas 39% o avalisam como futuro guarda-freio da Nação; “NÓS” estamos firmemente convencidos que  Sócrates é o coveiro da Nação, mas ainda há 33% que gostam da cova que ele abriu.

“NÓS” temos a certeza que trabalhamos muito, e no entanto temos uma das maiores taxas de absentismo da Europa (para não falar dos países asiáticos). É claro que a razão para este absentismo se deve ao facto do sacana do chefe andar sempre a embirrar com “NÓS”: ou é porque chegamos atrasados; ou é porque demoramos no café; ou é porque  vamos fumar de hora a hora… O gajo deve pensar que somos chineses!

“NÓS” estamos preocupados com o número de desempregados em Portugal, mas há muitos anos que deixámos de comprar português. Nem mesmo os produtos da nossa empresa: Safa! São caros como o caraças!! Os texteis do Vale do Ave estão à brocha: Que vendam para os alemães. Nós safamo-nos bem com os trapos indianos ou indonésios. A indústria do calçado vai-se embora mas nós andamos montados em sapatinho da moda…Vietnamita.

NÓS”, puxando dos nossos pergaminhos campesinos, debatemos e solucionamos os problemas da nossa agricultura, no café, mas compramos maçãs chilenas, frango do Brasil e peixe da Grécia, no supermercado, porque na mercearia é uma roubalheira.

“NÓS” regateamos um cêntimo nas batatas, nas couves ou nas cebolas, mas pagamos o que for  preciso por um telemóvel, um LCD, uma máquina fotográfica (oops, isto é comigo) ou um carrão de encher o olho. Regateamos no essencial e esbanjamos no supérfluo.

NÓS” vamos ter que mudar! Não porque o FMI quer, mas porque estamos ERRADOS.

KURIOSO

VÍCIOS

10 de Dezembro de 2010

“ Quem não tem dinheiro não tem vícios!” Todos nós ouvimos este ditado dezenas de vezes até que, aqui há uns anos, os Bancos resolveram começar a impingir crédito a toda a gente. De repente tornou-se possível ter “vícios” sem ter dinheiro.

Eu fui criado numa família de razoável capacidade económica, mas pouco dada a “frescuras”. Os lucros das empresas eram para ser reinvestidos, e cada um dos membros tinha um vencimento que permitia uma vida confortável mas não esbanjadora. E já vinha sendo assim há várias gerações.

O facto de ter sido ao mesmo tempo Patrão e Empregado, deu-me uma visão que não é muito habitual, e a capacidade (ou presunção) de perceber quando um ou outro lado começam a entrar no campo da demagogia ou no abuso puro e duro. Durante os últimos 30 anos assisti a demasiados exemplos.

É claro que esta capacidade de perceber os dois lados faz com que seja olhado com suspeita por qualquer deles. A situação complica-se porque, estando numa posição intermédia da escala hierárquica, tenho que fazer de “advogado do diabo” mais vezes do que gostaria, mas também não me coíbo de fazê-lo porque acredito firmemente que é possível um equilíbrio justo.

Entretanto descobrimos agora que o Estado, aquele amigão, também tinha embarcado nesse negócio do vício a crédito, e todas as prebendas que nos oferecera durante os últimos anos tinham sido pagas com dinheiro de outros.

Mas voltemos aos “vícios”, pois durante este fim de semana pareceu-me ter detectado alguns.

Ontem à noite o sossego aqui da nossa parvónia foi quebrado pelo som de música em altos berros. Como as festas dos Santos já lá vão, fomos indagar e descobrimos que era uma caravana de Tunning. Umas dezenas de carrinhos todos artilhados, com as bagageiras abertas para deixar sair os decibéis. A “Tunningação” de um carrito pode custar largos milhares de euros, pelo que seria de supor ser um hobby de ricos. Nã!! Os donos das bombas são jovens do “povo”, mecânicos, operários, electricistas e alguns sem profissão definida.

Hoje, depois de almoço, resolvemos ir ver o rio a Valada, uma terrinha escondida atrás de um dique com um belo parque ribeirinho. Ao chegarmos, quase fomos engolidos por uma concentração de jipes que vinham de um passeio na lezíria. Máquinas artilhadas com pneus de tractor, guinchos, faróis e o resto. Também aqui os donos não eram homens do capital pois não havia X5s, Touaregs ou Cayennes. Era mesmo malta dos jipes, quarentões bem na vida que têm um brinquedo para aliviar o stress fazendo umas brincadeiras na lama.

Entretanto dentro de água uma série de motos de água, das grandonas, divertiam os seus condutores e alguns mirones na margem.

Retomado o passeio através dos campos, que por aqui são sempre cultivados, reparamos que um avião pequenito começa a baixar e desaparece. Minutos depois passamos em frente a uma pista artesanal, ao fundo da qual estão dois hangares com meia dúzia de ultra-leves.

Eu acho que cada um tem o direito de ganhar todo o dinheiro que conseguir, e tem também o direito de gastá-lo como bem entender. Eu não aceito criticas à forma como gasto o MEU.

Eu só gostaria de ter a certeza de que toda aquela gente estava a gastar o SEU (deles) dinheiro e não o NOSSO. E também gostaria de acreditar que contribuirão com o SEU (deles) esforço para salvar o NOSSO País.

Kurioso

PS. É óbvio que este post foi escrito num Domingo à noite, há umas quantas semanas atrás…

E SE…?

27 de Novembro de 2010

E se este País estivesse bem como está, para a maioria dos Portugueses?

Esta pergunta tem andado a bailar dentro da minha cabeça há já algum tempo, e foi reforçada por uma observação duma amiga virtual “… eu fico espantada com a serenidade do povo perante isto…”.

A definição de Democracia diz que o País será governado por aqueles que a maioria do povo escolher. Quem nos governa agora foi escolhido DUAS VEZES pela maioria do povo Português. Não foram os banqueiros, nem os capitalistas e muito menos os Americanos ou os Alemães.

E não foi também por falta de alternativa. Se bem me lembro havia partidos para todos os gostos. Porém, os Portugueses votaram OUTRA VEZ neste partido previsivelmente para continuar a fazer mais do mesmo.

E se… a maioria dos Portugueses gosta mesmo do laxismo nas escolas, da ineficiência do Estado, do compadrio e da corrupção, da ignorância e incompetência generalizadas, do falar muito e fazer pouco?

Os outros, a minoria que gosta de aprender e de trabalhar, que acredita no mérito e na lisura das relações, só têm mesmo que conformar-se e aceitar democraticamente a vontade da maioria.

E nem sequer teríamos o monopólio das democracias “diferentes”. Assim de repente lembro-me de duas ou três democracias sui-generis…

Aliás, eu adoro a ironia contida na afirmação do George Bernard Shaw: “ A democracia é um sistema que faz com que nunca tenhamos um governo melhor do que merecemos”.

Kurioso


Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.