Ele há perguntas do caraças!
Aqui há uns dias atrás, durante um bate bolas ideológico, um amigo virtual que muito prezo, disparou uma pergunta que me deixou embatucado:
Então vamos trabalhar para destruir aquilo em que acreditamos?!!!
A minha resposta é: SIM. Sim, podemos trabalhar para destruir aquilo em acreditamos. Eu já o fiz mais do que uma vez.
É claro que a resposta implica explicações que não cabiam num ambiente FB, e ainda por cima em casa alheia.
A palavra chave aqui é ACREDITAR. Ao contrário de SABER, PERCEBER, ENTENDER, a palavra acreditar pressupõe alguma espécie de crença que parece prescindir de suporte racional, ou, nos casos mais sofisticados, utiliza a parte conveniente do racional para suportar tendenciosamente aquilo em que se acredita, ignorando por completo quaisquer argumentos que possam por em dúvida a crença.
E, numa época em que a única certeza é não haver certezas, o acreditar começa a ser um refúgio, pois temos horror ao vazio.
A primeira dúvida será então saber se aquilo em que acreditamos está CERTO. E basta pensar na quantidade de mortos que resultaram da implementação de doutrinas CERTAS, para que comecemos a duvidar.
Mas, mesmo que esteja certo, não faz sentido continuar a lutar por algo que não é POSSÍVEL. Estou aqui a referir-me à luta por impossíveis que invalida todos os esforços por uma solução de compromisso. Para simplificar, seria uma luta pela Utopia que conduziria ao Caos.
No extremo do leque está a situação em que acreditamos, está certo e é possível, mas a esmagadora maioria dos OUTROS acha o contrário. É aqui então que entra o DEVER. Enquanto membros duma comunidade, devemos trabalhar para o bem comum mesmo que não acreditemos.
Porque não acho (ainda) oportuno falar da minha experiência de trabalhar contra a crença na área política, vou dar um exemplo na área laboral.
Quem é, ou foi, quadro intermédio numa grande organização sabe como é difícil gerir os conflitos entre as classes que os ensanduicham. As classes que acreditam sem dúvidas.
Os trabalhadores acreditam que todos os patrões (ou gestores) são uns exploradores; os patrões (ou gestores) acreditam que todos os trabalhadores são uns madraços. Outra característica comum a estas duas classes é a sua profunda ignorância daquilo que verdadeiramente condiciona o trabalho da outra.
E é assim que, muitas vezes, recebemos ordens para fazer coisas em que não acreditamos. E, porque estamos na economia privada e podemos acabar no olho da rua, vamos ter que fazer aquilo em que não acreditamos. E temos o DEVER de fazê-lo porque devemos ter a capacidade de minorar os estragos. Um bom gestor (ou trabalhador, ou estudante, ou cidadão, ou…) é aquele que consegue obter resultados mesmo que não acredite no ambiente que o rodeia. É aquele que consegue transformar uma má ordem num bom resultado.
Ah! Quanto mais sabemos, percebemos e entendemos, menos precisamos de acreditar.
Kurioso