Posts Tagged ‘Patrões’

DEVER

2012/08/31

Ele há perguntas do caraças!

Aqui há uns dias atrás, durante um bate bolas ideológico, um amigo virtual que muito prezo, disparou uma pergunta que me deixou embatucado:

Então vamos trabalhar para destruir aquilo em que acreditamos?!!!

A minha resposta é: SIM. Sim, podemos trabalhar para destruir aquilo em acreditamos. Eu já o fiz mais do que uma vez.

É claro que a resposta implica explicações que não cabiam num ambiente FB, e ainda por cima em casa alheia.

A palavra chave aqui é ACREDITAR. Ao contrário de SABER, PERCEBER, ENTENDER, a palavra acreditar pressupõe alguma espécie de crença que parece prescindir de suporte racional, ou, nos casos mais sofisticados, utiliza a parte conveniente do racional para suportar tendenciosamente aquilo em que se acredita, ignorando por completo quaisquer argumentos que possam por em dúvida a crença.

E, numa época em que a única certeza é não haver certezas, o acreditar começa a ser um refúgio, pois temos horror ao vazio.

A primeira dúvida será então saber se aquilo em que acreditamos está CERTO. E basta pensar na quantidade de mortos que resultaram da implementação de doutrinas CERTAS, para que comecemos a duvidar.

Mas, mesmo que esteja certo, não faz sentido continuar a lutar por algo que não é POSSÍVEL. Estou aqui a referir-me à luta por impossíveis que invalida todos os esforços por uma solução de compromisso. Para simplificar, seria uma luta pela Utopia que conduziria ao Caos.

No extremo do leque está a situação em que acreditamos, está certo e é possível, mas a esmagadora maioria dos OUTROS acha o contrário. É aqui então que entra o DEVER. Enquanto membros duma comunidade, devemos trabalhar para o bem comum mesmo que não acreditemos.

Porque não acho (ainda) oportuno falar da minha experiência de trabalhar contra a crença na área política, vou dar um exemplo na área laboral.

Quem é, ou foi, quadro intermédio numa grande organização sabe como é difícil gerir os conflitos entre as classes que os ensanduicham. As classes que acreditam sem dúvidas.

Os trabalhadores acreditam que todos os patrões (ou gestores) são uns exploradores; os patrões (ou gestores) acreditam que todos os trabalhadores são uns madraços. Outra característica comum a estas duas classes é a sua profunda ignorância daquilo que verdadeiramente condiciona o trabalho da outra.

E é assim que, muitas vezes, recebemos ordens para fazer coisas em que não acreditamos. E, porque estamos na economia privada e podemos acabar no olho da rua, vamos ter que fazer aquilo em que não acreditamos. E temos o DEVER de fazê-lo porque devemos ter a capacidade de minorar os estragos. Um bom gestor (ou trabalhador, ou estudante, ou cidadão, ou…) é aquele que consegue obter resultados mesmo que não acredite no ambiente que o rodeia. É aquele que consegue transformar uma má ordem num bom resultado.

Ah! Quanto mais sabemos, percebemos e entendemos, menos precisamos de acreditar.

Kurioso

DESPEDIMENTOS

2011/07/08

 

Na minha já longa vida profissional, estive envolvido em meia dúzia de despedimentos. Não directamente, porque nunca pertenci aos Recursos Humanos, mas tendo que escolher os infelizes candidatos.

A causa imediata podia ser pura inaptidão, mas a maior parte das vezes foi devido a reestruturações. Curiosamente, custou-me mais no caso dos inaptos do que nos outros, pois os inaptos dificilmente teriam sucesso em qualquer outro lado.

Entretanto na minha vida privada, sobretudo nos últimos tempos, tenho contribuído parcialmente para dezenas de despedimentos.

O nosso País saiu de uma espiral positiva e vai entrar numa espiral negativa. E vai entrar numa espiral negativa porque a espiral positiva foi suportada por riqueza alheia que entretanto acabou.

A muleta da ajuda externa começou há muitos anos, primeiro com dinheiro oferecido, e depois com dinheiro emprestado (uma das coisas que nunca perdoarei ao anterior PM foi ter-se esquecido de nos informar sobre esta pequena alteração), e se a primeira parte só criou algumas benesses (e vícios) que serão mais ou menos difíceis de abandonar, o montão de dinheiro que pedimos emprestado, criou-nos obrigações  que, neste ambiente de tempestade perfeita, talvez nunca consigamos cumprir.

À força de uma injecção permanente de alguns megafones panfletários, todos nós instintivamente pensamos que é o Patrão que despede o Empregado. Esta falsa verdade é alimentada por outros megafones, com motivações várias, e são-nos mostrados os exemplos exemplares de grandes Patrões que despedem desapiedadamente os seus muitos Empregados.

Mas se olharmos para os factos, verificamos que em 2009 o número de desempregados aumentou 110000 e eu até admito que 10000 tenham vindo de despedimentos motivados por especulação capitalista, que os media exploraram até à exaustão, quando eles mesmos também despediam de mansinho. Porém a restante centena de milhar vem de centenas de micro empresas que só foram viáveis enquanto o dinheiro abundou. Na maioria destes casos até os Patrões vão parar ao desemprego.

Por isso, eu penso que quem despede os Empregados são os Clientes, e vou usar-me como exemplo.

Quando eu deixei de usar roupa de lã e passei para o algodão ou sintéticos, ajudei a despedir uma série de pessoas na Covilhã; quando eu passei a comprar têxteis indianos, contribuí para o desemprego no vale do Ave; quando eu comprei uma motorizada japonesa, posso ter forçado uma reestruturação em Águeda; quando eu ando quilómetros para ir abastecer-me numa grande superfície, passo à frente duma dúzia de mercearias, talhos, casas de frescos, lutando para sobreviver ao abandono a que as votei; quando eu deixei de comer fora todos os fins de semana, comecei a pôr pressão numa enorme cadeia logística que será forçada a emagrecer.

Antes de culparmos os políticos, os mercados, os patrões, os alemães, etc, talvez fosse bom olharmos para as falsas expectativas que nós criámos gastando à toa enquanto pensámos que éramos ricos, e para o caos que nós vamos criar deixando de gastar, agora que voltámos a ser pobres.

Nós, cá em casa, já mudámos alguns hábitos: compramos pão na padaria, fruta (portuguesa) na frutaria e carne no talho. As mercearias receio que estejam condenadas, mas somos clientes do pronto a comer local. Pagamos mais caro, e eu espero que o nosso esforço sirva para criar novos empregos e não para comprar novos BMW.

A fotografia lá de cima é de uma concha de Nautilus, um bichinho que vai aumentando a sua “casa” à medida que cresce. É fácil de ver que o Nautilus para voltar a viver na “casa” anterior teria que aceitar um regime pior que o do “Peso Pesado”. 

Kurioso

 


Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.