Posts Tagged ‘Mudança’

RECICLAGEM

2012/12/28

Hoje, há meia hora atrás, enquanto passeava a nossa “familiar de 4 patas” ( o presidente Zuma da África do Sul diz que ter animais de estimação é um vício dos brancos. Eu, porque sou educado, abstenho-me de referir os vícios do presidente Zuma ), pensava no que poderia escrever hoje.

Pensei escrever sobre a paciência (a falta dela), sobre a neura (o excesso dela), sobre o desânimo (a aproximação dele). Como todas estas maleitas já vão andando por aqui há algum tempo, resolvi ir ver o que tinha escrito há um ano, não fosse pôr-me a bater na mesma tecla.

Pois… li uma vez, li outra vez, e encontrei outra palavra para me ajudar: RECICLAGEM.

Descobri que, passado um ano inteirinho, nós estaremos melhor ou pior quanto o estoicismo de cada um, mas de facto não mudou nada neste país desventurado.

E porque não mudou nada, eu posso reciclar, melhor ainda, eu posso reutilizar. 

“IRREVERSIBILIDADE

O palavrão do título anda habitualmente ligado à inevitabilidade, e os dois, de braço dado, fazem parte de todos os processos de MUDANÇA.

Se todos os portugueses, e os políticos em particular, percebessem claramente o significado de cada uma e as implicações inerentes, talvez não se desperdiçassem tantas palavras, acções, tempo, enfim tanto valor.

Sendo importantes para toda a gente, eu atrevo-me a distribuí-las por dois grandes grupos: Mandantes e Mandados. Convém talvez referir aqui um outro esquecimento habitual: TODOS NÓS SOMOS MANDADOS E MANDANTES. Um parênteses para ressaltar um defeito congénito da Democracia: o menor mandado é quem elege o maior mandante (o ressentimento elege a ambição). O resultado perverso desta premissa conduziu-nos ao caos actual.

Voltando à distribuição, eu diria que todos os mandados deveriam ter uma consciência afinada para detectar as inevitabilidades, e todos os mandantes teriam sempre em mente a irreversibilidade, quando tomam decisões.

É óbvio que quanto maior for a amplitude da mudança, mais cuidado deverá ter cada uma das partes a tratar da sua palavrinha.

A verdade é que sendo a mudança um estado desconfortável, tanto mandantes quanto mandados a evitam o mais possível, fazendo com que aconteça a destempo e com mais impacto. Imaginem que vamos num carro a andar bem e a gozar a velocidade. A vida corre sobre rodas até vermos uma curva lá ao fundo. Pensamos conseguir fazê-la sem abrandar, mas, de repente, no meio da curva aparece uma vala, e já não conseguimos abrandar o suficiente para evitar a saída de estrada e um capotanço (imaginação para vocês, recordação para mim ).

Também é verdade que todos nós tendemos a achar a mudança evitável quando temos o chapéu de mandados, e pensamos sempre que as decisões são reversíveis quando estamos vestidos de mandantes. Não querendo estar a chover no molhado, eu diria que o que aconteceu no ensino em Portugal nas últimas décadas foi um exemplo de inevitabilidades e irreversibilidades mal geridas.

Mas a “bagunça” no ensino foi uma simples trovoada, comparada com a tempestade perfeita que aí vem.

Nos próximos dois anos (ou três, ou quatro…) era bom que os mandados conseguissem friamente perceber a inevitabilidade de algumas “porradas” que vão levar, e é fundamental que os mandantes percebam que tudo o que decidirem é irreversível. Em dinâmica social não há retorno. Uma decisão mal tomada terá sempre consequências.

Para que a palavra não seja tomada no seu sentido mais redutor, aqui ficam alguns exemplos de mandantes: políticos, patrões, chefes, sindicalistas, jornalistas, polícias, juízes, padres, médicos, enfermeiros, porteiros, secretárias, pais, educadoras, professores, etc, etc.

Mais uma vez este post tomou caminhos que não estavam no guião. A minha primeira ideia era escrever sobre a impossibilidade de, tendo obrigatoriamente que recuar uma vintena de anos, nós não podermos voltar a ser o que éramos. E se não podemos voltar a ser o que éramos, como diabo vamos nós, de maneira diferente, gastar tão pouco quanto gastávamos há 20 anos?

Algumas irreversibilidades:

1. A percentagem de mulheres a trabalhar

2. A percentagem de lares monoparentais

3. A necessidade do automóvel

4. O consumo de energia em casa

5. A dependência do telemóvel (10000 milhões de euros em 2010)

6. A dependência da televisão e internet pagas

7. A percentagem do orçamento doméstico consumida pelos jovens e infantis.

Mesmo assim continua a haver um sem número de oportunidades de não gastar.

Mas PERDER é muito mais difícil do que nunca TER TIDO.”

Espero que daqui a um ano eu tenha mais paciência, menos neura, e que o desânimo continue a ir andando à minha frente.

Mas espero sobretudo que algo relevante tenha mudado neste país que merecia melhores mandantes e melhores mandados.

KURIOSO      

TEMPO

2012/04/13

Esta semana gastei dois dias a assistir a um curso chamado “Gestão de Tempo”. Por causa disso fiquei com a semana feita em fanicos, sem TEMPO para nada.

Eu que sempre achei a frase “não tive tempo” sinónimo de “não me apeteceu”, dei por mim a pronunciá-la várias vezes. Não foi agradável.

Nestes tempos em que a actividade económica emigrou para parte incerta, poder-se-ia pensar que quem (ainda) tem emprego, teria menos trabalho e, por isso, mais tempo.

Mas é exactamente o contrário. As empresas reduziram o quadro de pessoal, rodaram ou substituíram chefias e reformularam equipas. O novo ambiente é quase caótico! Mas não se pode perder TEMPO! Toda a gente está a aprender, mas toda a gente tem que apresentar propostas/resultados AMANHÃ.

E eu, que fui poupado a voragem da dança das cadeiras, tenho uma ligação vertical totalmente nova (o chefe e o chefe do chefe) e mais de metade das ligações horizontais também novas. Novas ideias por todo o lado, suportadas por muito optimismo, algum desespero e uma pressão enorme.

E nós, os velhos resistentes cheios de “saber e manias”, temos que encontrar o invisível bom senso que nos ajudará, sem preconceitos, a combater as ideias tontas e a apoiar as ideias com possibilidades.  

Temos que nos libertar das grilhetas e CORRER, CORRER, CORRER…

Kurioso

PS. Este post era para ter dois parágrafos. Um a dizer que fiz um curso, e outro a desculpar-me com a falta de tempo. Afinal não me apetecia mesmo escrever.     

IRREVERSIBILIDADE

2011/12/30

Mortos na guerra do ultramar

O palavrão do título anda habitualmente ligado à inevitabilidade, e os dois, de braço dado, fazem parte de todos os processos de MUDANÇA.

Se todos os portugueses, e os políticos em particular, percebessem claramente o significado de cada uma e as implicações inerentes, talvez não se desperdiçassem tantas palavras, acções, tempo, enfim tanto valor.

Sendo importantes para toda a gente, eu atrevo-me a distribuí-las por dois grandes grupos: Mandantes e Mandados. Convém talvez referir aqui um outro esquecimento habitual: TODOS NÓS SOMOS MANDADOS E MANDANTES. Um parênteses para ressaltar um defeito congénito da Democracia: o menor mandado é quem elege o maior mandante (o ressentimento elege a ambição). O resultado perverso desta premissa conduziu-nos ao caos actual.

Voltando à distribuição, eu diria que todos os mandados deveriam ter uma consciência afinada para detectar as inevitabilidades, e todos os mandantes teriam sempre em mente a irreversibilidade, quando tomam decisões.

É óbvio que quanto maior for a amplitude da mudança, mais cuidado deverá ter cada uma das partes a tratar da sua palavrinha.

A verdade é que sendo a mudança um estado desconfortável, tanto mandantes quanto mandados a evitam o mais possível, fazendo com que aconteça a destempo e com mais impacto. Imaginem que vamos num carro a andar bem e a gozar a velocidade. A vida corre sobre rodas até vermos uma curva lá ao fundo. Pensamos conseguir fazê-la sem abrandar, mas, de repente, no meio da curva aparece uma vala, e já não conseguimos abrandar o suficiente para evitar a saída de estrada e um capotanço (imaginação para vocês, recordação para mim ).

Também é verdade que todos nós tendemos a achar a mudança evitável quando temos o chapéu de mandados, e pensamos sempre que as decisões são reversíveis quando estamos vestidos de mandantes. Não querendo estar a chover no molhado, eu diria que o que aconteceu no ensino em Portugal nas últimas décadas foi um exemplo de inevitabilidades e irreversibilidades mal geridas.

Mas a “bagunça” no ensino foi uma simples trovoada, comparada com a tempestade perfeita que aí vem.

Nos próximos dois anos (ou três, ou quatro…) era bom que os mandados conseguissem friamente perceber a inevitabilidade de algumas “porradas” que vão levar, e é fundamental que os mandantes percebam que tudo o que decidirem é irreversível. Em dinâmica social não há retorno. Uma decisão mal tomada terá sempre consequências.

Para que a palavra não seja tomada no seu sentido mais redutor, aqui ficam alguns exemplos de mandantes: políticos, patrões, chefes, sindicalistas, jornalistas, polícias, juízes, padres, médicos, enfermeiros, porteiros, secretárias, pais, educadoras, professores, etc, etc.

Mais uma vez este post tomou caminhos que não estavam no guião. A minha primeira ideia era escrever sobre a impossibilidade de, tendo obrigatoriamente que recuar uma vintena de anos, nós não podermos voltar a ser o que éramos. E se não podemos voltar a ser o que éramos, como diabo vamos nós, de maneira diferente, gastar tão pouco quanto gastávamos há 20 anos?

Algumas irreversibilidades:

1. A percentagem de mulheres a trabalhar

2. A percentagem de lares monoparentais

3. A necessidade do automóvel

4. O consumo de energia em casa

5. A dependência do telemóvel (10000 milhões de euros em 2010)

6. A dependência da televisão e internet pagas

7. A percentagem do orçamento doméstico consumida pelos jovens e infantis.

Mesmo assim continua a haver um sem número de oportunidades de não gastar.

Mas PERDER é muito mais difícil do que nunca TER TIDO.

KURIOSO      

PS. Se alguém estiver interessado em saber mais sobre “mudança”, pode espreitar aqui, ou aqui, e ainda aqui.

AMIGOS

2011/10/07

"Para conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça. No sucesso, verificamos a quantidade e, na desgraça, a qualidade." Autor – Confúcio

 

Moça jovem ao telemóvel:

…então eu vou ter contigo às 4.

…/…

Olha! Esta noite fiquei na rua. A minha amiga, que disse que eu podia dormir na casa dela, cortou-se! Uma cena…

O retalho de conversa acima, ouvido num cruzamento fortuito, conjugado com outras observações levou-me a matutar sobre a importância da amizade. É claro que o recente surto de amizades virtuais que, pela sua imaterialidade (e irrelevância…), podem chegar aos milhares, também serviu de condimento para a análise.

De uma forma simplista os amigos dividem-se em dois grupos: os Bons e os Maus. Os que nos Ajudam, e os que nos Lixam. Ao contrário de muitas outras interacções humanas onde há gradações dos comportamentos, aqui os comportamentos são mais “black or white”. Um Bom amigo sempre nos ajudará, e a lixadela está quase garantida quando o amigo é Mau.

E porque nestas coisas da amizade o dinheiro por vezes também está envolvido, foi até por aqui que eu comecei a matutar. Primeiro, lendo sobre as histórias de ricos que ficaram pobres nas voltas da história, e que noutras terras conseguiram reconstruir as suas fortunas. Além do trabalho árduo (os ricos também trabalham…) aparecem sempre referidos os amigos. Neste caso os Bons amigos.

Noutra altura, e noutras leituras, tropeço nas histórias dos pobres que ganharam fortunas ao jogo e que em meia dúzia de anos ficam quase tão pobres quanto eram inicialmente. Além do deslumbramento inicial e do esbanjamento inerente, lá vem quase sempre a referência aos amigos. Aqui com a nuance de que os verdadeiros amigos se afastam durante a fase fluorescente, voltando com o seu apoio no fim de festa, enquanto os falsos aproveitam o baile e desaparecem assim que banda pára de tocar.

Na próxima semana eu vou reencontrar um Amigo que não vejo há 34 anos. É um dos (muito) poucos amigos que tive ao longo da vida, e, além de várias histórias impublicáveis, há uma historieta que exemplifica a responsabilidade da amizade. Porque ele precisava de ir visitar os pais que viviam a uma centena de quilómetros, emprestei-lhe o carro. Na semana seguinte chega ao pé de mim e diz-me: “Olha, avariei o carro e está na oficina a arranjar. Deve demorar uma semana.” “Uma semana? Que diabo aconteceu?” “ Apertei com  ele, gripou e uma biela furou o bloco” “ Tá bem. Se precisares de carro, usas este (eu andava com o da minha Mãe).” e a conversa seguiu para bingo.

Mesmo há quarenta anos aquela reparação custou uma nota preta, e seria mais fácil para mim suportar o encargo. Ao meu amigo nunca passou pela cabeça que fosse eu a pagá-la, e a mim nunca me passou pela cabeça ofendê-lo oferecendo-me para o fazer.

Nestes últimos quarenta anos o mundo mudou muito mais do que o telefone de manivela. E eu que até percebo como funciona um telemóvel, continuo sem perceber como pode uma amiga deixar outra na rua.

A Amizade já não é o que era.

Kurioso

“NÓS”

2011/04/08

A semana passada falei de “ELES” como sendo o empecilho para a criação de uma sociedade justa (ou menos injusta…) e sustentável a prazo.

Ora é evidente que este alijar de culpas é já uma amostra da atitude de “NÓS”, sempre prontos a atribuir a responsabilidade e solução dos NOSSOS problemas aos OUTROS.

“NÓS” concordamos com uma boa parte das afirmações do BE, mas 6% estão dispostos a pôr lá a cruzinha; “NÓS” pensamos que o Paulinho das Feiras é um demagogo vaidoso, mas ainda há 7% dispostos a arriscar; “NÓS”  queremos desesperadamente acreditar no “pato” Coelho, mas 39% o avalisam como futuro guarda-freio da Nação; “NÓS” estamos firmemente convencidos que  Sócrates é o coveiro da Nação, mas ainda há 33% que gostam da cova que ele abriu.

“NÓS” temos a certeza que trabalhamos muito, e no entanto temos uma das maiores taxas de absentismo da Europa (para não falar dos países asiáticos). É claro que a razão para este absentismo se deve ao facto do sacana do chefe andar sempre a embirrar com “NÓS”: ou é porque chegamos atrasados; ou é porque demoramos no café; ou é porque  vamos fumar de hora a hora… O gajo deve pensar que somos chineses!

“NÓS” estamos preocupados com o número de desempregados em Portugal, mas há muitos anos que deixámos de comprar português. Nem mesmo os produtos da nossa empresa: Safa! São caros como o caraças!! Os texteis do Vale do Ave estão à brocha: Que vendam para os alemães. Nós safamo-nos bem com os trapos indianos ou indonésios. A indústria do calçado vai-se embora mas nós andamos montados em sapatinho da moda…Vietnamita.

NÓS”, puxando dos nossos pergaminhos campesinos, debatemos e solucionamos os problemas da nossa agricultura, no café, mas compramos maçãs chilenas, frango do Brasil e peixe da Grécia, no supermercado, porque na mercearia é uma roubalheira.

“NÓS” regateamos um cêntimo nas batatas, nas couves ou nas cebolas, mas pagamos o que for  preciso por um telemóvel, um LCD, uma máquina fotográfica (oops, isto é comigo) ou um carrão de encher o olho. Regateamos no essencial e esbanjamos no supérfluo.

NÓS” vamos ter que mudar! Não porque o FMI quer, mas porque estamos ERRADOS.

KURIOSO

KRISE!

2010/08/06

É mais ou menos tradição eu escrever umas coisas sobre o Algarve, no regresso de férias.

Este ano fui para “baixo” quase com um peso na consciência. Como é que um habitante dum País à beira da bancarrota (não sendo gestor público ou CEO de uma grande empresa) tinha o desplante de ir “3 semanas 3” de férias para uma estância balnear? Quase receava ser apontado a dedo nas praias desertas que iria encontrar…

Pois… o paraíso recatado que escolhemos para veranear já faz 6 anos, tinha este ano a maior enchente de todos os tempos. Porém, com o pormenor interessante de a composição social dos invasores ser nitidamente diferente.

Ao contrário das praias adjacentes, onde a construção turística foi feita de forma caótica, na “nossa” terrinha parece ter havido um plano urbanístico pensado ao pormenor para implantar as largas dezenas de moradias com tipologias diversas mas todas com um jardinzinho e/ou terraço. As ruas ainda hoje são largas, e deviam parecer avenidas há 30 anos. Mesmo com actuais dois ou três carros por casa não há problemas de estacionamento e nunca parece haver muita “lata” à vista. Salvaguardando as devidas distâncias, quase parece uma Vilamoura dos remediados e recatados. Se há característica comum aos proprietários destas vivendas, além da idade já razoável, é a sua discrição, educação e simplicidade.

Serão (seriam) profissionais liberais, quadros médios, pequenos empresários que aproveitaram o desafogo pós 25 de Abril para comprarem a casinha de férias ou da reforma. Escolheram uma zona fora dos holofotes que se adequava à sua maneira de ser. Pertencem à classe que está agora a ser “sugada” para pagar a crise.

Pois uma das formas que esta gente arranjou para “subsidiar” a manutenção destas segundas casas nestes tempos de aperto, foi prescindir do seu uso exclusivo e dá-las a alugar fora do período que reservam para si próprios. Interessante é verificar que este aluguer é quase envergonhado, pois das dezenas de placas que encontrámos na 2ª semana de Julho sobraram meia dúzia no final do mês. Em Agosto não parece bem ter uma placa de aluguer na frente da casa…

E quem veio então aproveitar esta súbita abundância de casas boas, bonitas e “finas”? Pois os representantes daquilo a que eu chamaria a “economia cinzenta”: grandes carrões, roupas coloridas, conversas em altos berros mesmo quando falam dos “esquemas” na fila do pão. Os filhos são tratados aos gritos ou à chapada, e as senhoras não prescindem do salto agulha para ir tomar o café da noite. Parecem ter o rei na barriga, e têm barrigas onde cabia um rei.

Encontrei ainda mais dois ou três sinais desta “deriva social”: O restaurante bonzinho, tranquilo e com uma lista de comida mais elaborada que costumava estar sempre cheio, este ano tinha mesas vagas; as tascas dos grelhados estavam a abarrotar apesar dos preços serem semelhantes; a livraria que abria em Julho, este ano não abriu; as bancadas das bugigangas, inexistentes em anos anteriores, regurgitavam de mirones e clientes.

Eu acredito que há uma crise económica que afecta seriamente 10 a 15% dos Portugueses e onde estão incluídos todos os velhos com reformas de miséria. Acredito também que se os 30 ou 40% que fogem  deliberadamente às suas obrigações laborais, fiscais, sociais e outras quisessem verdadeiramente ajudar o País, esta crise seria facilmente ultrapassada.

Mas os sinais que eu vejo em Monte Gordo ou Vilamoura, no Vasco da Gama ou nas Amoreiras, no Correio da Manhã ou na Exame, levam-me a recear que, mesmo que venhamos a ser um País de sucesso, dificilmente seremos um País civilizado.

Kurioso

RITUAIS

2010/02/05

 

Do pó vieste e ao pó retornarás” Gênesis, 3 :19

Por razões que os que me lêem há mais tempo compreenderão, eu detesto funerais. Só vou aos da família mais chegada, o que é cada vez mais frequente, e, mesmo assim, são horas de profundo desconforto, pois nunca compreendi os rituais da morte. Depois dos cumprimentos de circunstância, retiro-me para um canto e passo o tempo a recordar a vida do falecido. Tento fazer um balanço e chegar à conclusão se a pessoa VIVEU, ou se foi vivendo. Felizmente a maioria dos “meus” mortos teve uma vida plena. Não uma vida flauteada e superficial, mas uma vida conquistada. Vidas de trabalho, de migração ou emigração, de adaptação, de derrotas e de vitórias. O Tio que fui acompanhar, na semana passada, foi um dos que VIVEU.

Ao contrário dos últimos funerais que acompanhei, que foram todos em pequenas vilas ou aldeias, este funeral foi num cemitério de cidade e as diferenças são enormes. Na província os mortos ainda são enterrados (ao pó retornarás) mas na cidade, devido às restrições de espaço, até os mortos são “empilhados”, a quatro de altura, em horrendas paredes de betão e mármore.

Enquanto decorria a cerimónia na capela, fui percorrendo os talhões tradicionais e verifiquei que, também aqui, o pragmatismo parece ter vencido. Em vez de grandiosas campas, para mostrar aos vizinhos como veneramos os nossos mortos, uma simples área relvada com singelas lápides evocando os ausentes. Simples e bonito.

Ao olhar para as lápides, e fazendo conta aos anos vividos, confirmei que estamos a viver mais, o que torna ainda mais chocante encontrar no meio de todos aqueles “velhotes”, fotografias de alguns jovens. Um pormenor que me saltou à vista e surpreendeu, foi o facto de toda aquela gente ter morrido em 1994. Percebi então que no cemitério somos “arrumados” por data de morte, ao contrário de todas as “arrumações” em vida que são sempre por data de nascimento …  

O retorno à “Terra Mãe” sempre fez sentido para mim, e, mesmo se já não usamos a antiga mortalha, até o caixão de madeira tinha algo de natural. Sabíamos que a parte física da pessoa se integraria pacificamente no solo fonte de vida. Os acompanhantes rodeando a cova devolviam o corpo à terra. E mesmo o som terrível dos torrões a bater no caixão, podia ser considerado como um aconchego e uma protecção.

Agora os acompanhantes, ao molho, ficam a olhar para uma parede cinzenta quadriculada enquanto se faz escorregar a urna para dentro de um buraco nessa parede. A seguir assistem constrangidos aos malabarismos de um sujeito que tenta encaixar, ao murro, uma tampa de contraplacado, e termina puxando de uma prosaica pistola para aplicar silicone a toda a volta. As flores são amontoadas em frente ao cacifo, ao lado de outras já degradadas pelo tempo e pela chuva. E por detrás daquela placa de mármore vai estar um corpo que parece ficar, eternamente, à espera que um ciclo seja completado. Deprimente.

Saí de lá triste, muito triste.

Kurioso       

“In the sweat of thy face shalt thou eat bread, till thou return unto the ground; for out of it wast thou taken: for dust thou art, and unto dust shalt thou return.”

 

PREPARAÇÃO1

2009/06/04

Antes da mudança há que verificar se o terreno tem condições.
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Kurioso


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