Hoje, há meia hora atrás, enquanto passeava a nossa “familiar de 4 patas” ( o presidente Zuma da África do Sul diz que ter animais de estimação é um vício dos brancos. Eu, porque sou educado, abstenho-me de referir os vícios do presidente Zuma ), pensava no que poderia escrever hoje.
Pensei escrever sobre a paciência (a falta dela), sobre a neura (o excesso dela), sobre o desânimo (a aproximação dele). Como todas estas maleitas já vão andando por aqui há algum tempo, resolvi ir ver o que tinha escrito há um ano, não fosse pôr-me a bater na mesma tecla.
Pois… li uma vez, li outra vez, e encontrei outra palavra para me ajudar: RECICLAGEM.
Descobri que, passado um ano inteirinho, nós estaremos melhor ou pior quanto o estoicismo de cada um, mas de facto não mudou nada neste país desventurado.
E porque não mudou nada, eu posso reciclar, melhor ainda, eu posso reutilizar.
“IRREVERSIBILIDADE
O palavrão do título anda habitualmente ligado à inevitabilidade, e os dois, de braço dado, fazem parte de todos os processos de MUDANÇA.
Se todos os portugueses, e os políticos em particular, percebessem claramente o significado de cada uma e as implicações inerentes, talvez não se desperdiçassem tantas palavras, acções, tempo, enfim tanto valor.
Sendo importantes para toda a gente, eu atrevo-me a distribuí-las por dois grandes grupos: Mandantes e Mandados. Convém talvez referir aqui um outro esquecimento habitual: TODOS NÓS SOMOS MANDADOS E MANDANTES. Um parênteses para ressaltar um defeito congénito da Democracia: o menor mandado é quem elege o maior mandante (o ressentimento elege a ambição). O resultado perverso desta premissa conduziu-nos ao caos actual.
Voltando à distribuição, eu diria que todos os mandados deveriam ter uma consciência afinada para detectar as inevitabilidades, e todos os mandantes teriam sempre em mente a irreversibilidade, quando tomam decisões.
É óbvio que quanto maior for a amplitude da mudança, mais cuidado deverá ter cada uma das partes a tratar da sua palavrinha.
A verdade é que sendo a mudança um estado desconfortável, tanto mandantes quanto mandados a evitam o mais possível, fazendo com que aconteça a destempo e com mais impacto. Imaginem que vamos num carro a andar bem e a gozar a velocidade. A vida corre sobre rodas até vermos uma curva lá ao fundo. Pensamos conseguir fazê-la sem abrandar, mas, de repente, no meio da curva aparece uma vala, e já não conseguimos abrandar o suficiente para evitar a saída de estrada e um capotanço (imaginação para vocês, recordação para mim ).
Também é verdade que todos nós tendemos a achar a mudança evitável quando temos o chapéu de mandados, e pensamos sempre que as decisões são reversíveis quando estamos vestidos de mandantes. Não querendo estar a chover no molhado, eu diria que o que aconteceu no ensino em Portugal nas últimas décadas foi um exemplo de inevitabilidades e irreversibilidades mal geridas.
Mas a “bagunça” no ensino foi uma simples trovoada, comparada com a tempestade perfeita que aí vem.
Nos próximos dois anos (ou três, ou quatro…) era bom que os mandados conseguissem friamente perceber a inevitabilidade de algumas “porradas” que vão levar, e é fundamental que os mandantes percebam que tudo o que decidirem é irreversível. Em dinâmica social não há retorno. Uma decisão mal tomada terá sempre consequências.

Para que a palavra não seja tomada no seu sentido mais redutor, aqui ficam alguns exemplos de mandantes: políticos, patrões, chefes, sindicalistas, jornalistas, polícias, juízes, padres, médicos, enfermeiros, porteiros, secretárias, pais, educadoras, professores, etc, etc.
Mais uma vez este post tomou caminhos que não estavam no guião. A minha primeira ideia era escrever sobre a impossibilidade de, tendo obrigatoriamente que recuar uma vintena de anos, nós não podermos voltar a ser o que éramos. E se não podemos voltar a ser o que éramos, como diabo vamos nós, de maneira diferente, gastar tão pouco quanto gastávamos há 20 anos?
Algumas irreversibilidades:
1. A percentagem de mulheres a trabalhar
2. A percentagem de lares monoparentais
3. A necessidade do automóvel
4. O consumo de energia em casa
5. A dependência do telemóvel (10000 milhões de euros em 2010)
6. A dependência da televisão e internet pagas
7. A percentagem do orçamento doméstico consumida pelos jovens e infantis.
Mesmo assim continua a haver um sem número de oportunidades de não gastar.
Mas PERDER é muito mais difícil do que nunca TER TIDO.”
Espero que daqui a um ano eu tenha mais paciência, menos neura, e que o desânimo continue a ir andando à minha frente.
Mas espero sobretudo que algo relevante tenha mudado neste país que merecia melhores mandantes e melhores mandados.
KURIOSO
