No que diz respeito à elasticidade, corpo e mente tendem a (ou deveriam) evoluir em sentidos inversos. Nascemos com um corpo de borracha e uma mente de aço e tendemos a (ou deveríamos) morrer com o corpo endurecido e a mente muito mais flexível. Há porém uma diferença. Enquanto o endurecimento do corpo é inevitável, a flexibilização da mente não é garantida.
Mas apesar de evoluírem em sentido contrário eu penso que uma pessoa será mais ou menos elástica globalmente. Explicando: uma mente que comece a flexibilizar-se mais cedo, poderá ajudar o corpo a enrijar mais tarde. Os yogis são talvez um bom exemplo.
A elasticidade mental tem a ver com a capacidade de aceitarmos as mudanças que vamos observando, usando a nossa razão (factual) para convencer a nossa emoção (cultural). É óbvio que quanto mais factos deixarmos que nos atinjam e menos pesada for a cultura, mais flexível se tornará a nossa mente.
O facto de ter vivido em dois continentes, em dois regimes, ter lido centenas de livros, ser curioso desde os dois anos (diziam os meus Pais…), ter tido a sorte de viajar bastante, e…já andar por aqui há 61 anos, faz-me acreditar ser possuidor de alguma elasticidade mental.
Mas a elasticidade tem limites, e a minha tem sido posta à prova muitas vezes nos últimos tempos: bombistas suicidas; massacres aleatórios; guerras estúpidas; pirataria marítima, no âmbito do que chamaria choque de culturas. Depois no âmbito da criação e manipulação da vida: a clonagem; a fertilização artificial; a manipulação genética. Para quase todos estes “alargamentos da normalidade” eu consigo encontrar uma explicação racional, mas o meu eu emocional ainda não consegue aceitá-los pacificamente.
Num destes fins de semana esta fotografia fez-me perceber os limites:
Compreendi que a área que envolve o género humano, o Homem e a Mulher, é aquela onde a minha elasticidade é menor.
Eu já ouvi todas as teorias sobre a “incerteza” do género, conheço os exemplos do mundo animal, os caracóis, os peixes, já li várias coisas sobre a diferença dos sexos, e também sobre a sua semelhança. Depois de tudo ponderado, eu continuo a achar que um homem e uma mulher são diferentes, e a mudança de género não cabe dentro da minha banda de elasticidade.
E se eu aceito e aplaudo todas as evoluções da ciência, porque diabo rejeito o milagre tecnológico que permite a conversão de uma mulher num homem (mais difícil) ou o contrário?
Pois tenho que admitir que o problema é mesmo cultural. Durante os primeiros quinze ou vinte anos da minha vida nunca fui confrontado com a necessidade de entender, e a (forte) cultura herdada acabou por cristalizar.
Noutras áreas, social, profissional, inter-geracional, racial, educacional, gastronómica, a cultura herdada já era razoavelmente flexível, e eu consegui aumentar a elasticidade ao longo da vida, de modo a aceitar pacificamente um vasto leque de opções. E quem me conhece sabe que eu defendo com o mesmo afinco a diferença fisiológica e psicológica, e a completa igualdade de direitos, de deveres, de oportunidades, de responsabilidades.
E para algumas coisas em que tropeçamos, é bem precisa uma forte dose de elasticidade:
Mesmo que o corpo já comece a pregar-me partidas, continuarei a treinar a elasticidade da mente. Desafios não faltarão.
Kurioso