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LER

24 de Maio de 2013

Esta semana dei por mim a pensar se o vício de ler será hereditário, geneticamente transmitido, ou simplesmente resultado da tradicional mímica de filho imita pais.

Consegui recuar o vício até um bisavô materno, tabelião numa terriola perdida na serra de Sicó. A primeira visita à sua (nossa) casa, quando tinha 10 anos de idade, jamais será esquecida. Aconteceu quando viemos de férias a Portugal.

A casa estava vazia há uma dezena de anos (a Emigração já foi moda noutros tempos), e, apesar da supervisão dos vizinhos, a degradação já era evidente. Enquanto minha Mãe chorava e recordava, e meu Pai conseguia manter algum desprendimento (haveria de vê-lo perder o decoro quando fomos visitar a Quinta, o espaço onde se fizera homem), eu zanzava que nem um tonto tentando absorver todos os indícios daquela civilização “antiga”.

Para um puto que sempre vivera em casas africanas novas ou semi-novas, aquela casinha de pedra, coçada por mais de um século de clima serrano, parecia saída de um livro dos Cinco. Os Pais iam vendo, e tocando, fotografias, almofadas, jarras, naperons e artefactos, abrindo portas e soltando Ohs! enfáticos, e eu zanzando. Até que subimos ao primeiro andar, e, ao fundo de uma divisão, num armário cambado por força do caruncho, um montão de livros. Livros encarquilhados, estropiados, carunchados e VELHOS. Livros com datas de impressão a começar por 18 ou MDCCC, e escritos num português de há 4 (des)acordos atrás. Acabou-se o zanzanço!

Abrindo o armário com cuidado, comecei a descobrir aquele mundo. Um mundo de palavras diferentes e um mundo de palavras “novas” de tão arcaicas. Os livros cobriam um vasto e diverso grupo de interesses, mas o que mais me fascinou foi um enorme calhamaço, picotado do caruncho, que descrevia a fauna do mundo. Cada descrição era acompanhada de uma belíssima aguarela (fotografias no início do séc. XX???) e eu fiquei por ali tempos esquecidos passando folha a folha, a maior parte delas já soltas.

Porque a casa não era habitável, visitámo-la uma série de vezes ao longo do ano que aqui estivemos, e regressámos à “minha” terra. E foi lá que eu verdadeiramente percebi o que eram estações do ano.

Os ventos da história trouxeram-nos de volta dezasseis anos depois. A degradação acentuara-se, mas, como tínhamos posto os livros a bom recato, foi um prazer revê-los (o calhamaço dos bichos desaparecera…). E, desta vez, acabei-lhes com a solidão e trouxe-os comigo.

Enquanto esteve na minha cabeça, este post era para ser sobre a leitura “familiar”. De como o meu Pai não teve tempo para ler, ao morrer aos 42 anos; de como a minha Mãe leu até a idade lhe roubar a capacidade de concentração; de como a minha Irmã trocou uma carreira de sucesso pelo risco de ser tradutora freelancer fazendo da leitura uma profissão; de como eu li centenas de livros em centenas de noites; de como casei com uma leitora mais viciada do que eu; de como a nossa Filha nunca anda sem um livro a tiracolo (genética ou mímica?); de como eu sinto uma frustração tremenda por não conseguir ler um livro há mais de dois anos.

Sim, eu leio tudo e mais alguma coisa. Revistas, folhetos, bulas dos medicamentos, manuais de todas as geringonças que compro, manuais das geringonças que penso comprar (obrigado Internet), jornais, pesquisas de trabalho, pesquisas de informação e pesquisas de esclarecimento. Mas não é a mesma coisa. Um “prego”, mesmo do lombo, nunca conseguirá substituir um “fillet mignon”. E que saudades eu tenho de um “fillet mignon” de 300 páginas…

Afinal o post acabou por ser açambarcado pelas memórias de um menino de 10 anos.

Kurioso

ARQUIVO

20 de Agosto de 2010

 

No seguimento de (mais) um rearranjo na disposição das pessoas no escritório, tive que mudar a minha “tralha” de um armário para outro.

Aproveitando o facto do portátil estar nos “cuidados intensivos”, resolvi efectuar uma triagem em vez de alombar com as pastas e resmas de papel como tenho feito em todas as (muitas) mudanças dos últimos 10 anos.

Convém referir que eu sou um guardador compulsivo, e é sempre com um nó no estômago que arranjo coragem para me separar de um qualquer papel, amarelecido pelos anos, cujo conteúdo já não está ligado a nenhuma entidade ainda existente.

Passei então uma boa parte de uma tarde a vasculhar e recordar o passado. Atendendo a que andavam por lá papeis com quase 30 anos (compulsivo, eu?!) eu estive a estudar a “evolução da indústria no pós 25 de Abril”.

Quantos projectos cuidadosamente pensados, planeados e implementados que foram pelo cano abaixo em meia dúzia de anos. Quantos cenários inventados e criticados para enfrentar uma realidade que sempre acabava por nos surpreender. Quantas divergências discutidas interminavelmente até as partes, exaustas, descobrirem que a divergência era subjectiva, e, como tal, insanável. Quantos sucessos que apareceram, milagrosamente, pela feliz conjugação de uma série de acasos fortuitos. Quanto trabalho fastidioso que nos obrigava a ser mais cuidadosos, mais pacientes e mais valorizadores do trabalho do próximo.

Nós só descobrimos quanta água passou debaixo da ponte, quando encontramos qualquer coisa que ficou “congelada” lá para trás. Pode ser uma fotografia, um papel, um cheiro. Aqui eram papeis, e ainda me comovi ao ler coisas escritas por colegas que já faleceram, ao ver referências a grandes empresas que também sucumbiram, e ao ter que admitir que a minha provecta idade já me permitiu ver nascer e morrer algumas tecnologias.

Uma das coisas que eu guardo religiosamente é toda a documentação das acções de formação que tive a oportunidade de frequentar. Foi por isso com enorme mágoa que, após longa indecisão, deixei partir para a reciclagem um conjunto de cadernos datados de 1980. Tinham sido “paridos” por uma Gestetner que reproduzira afincadamente aquilo que uma dactilógrafa escrevera e desenhara nas famosas “ceras”. A Gestener era o padrão da época e passara de marca a substantivo, tal como a Gillete. Era frequente ouvir alguém dizer que tinha uma gestener da Facit… Só quem trabalhou com uma geringonça daquelas pode apreciar o quanto as impressoras modernas são um descanso. É claro que, depois de todos estes anos, naqueles cadernos descartados papel e tinta, outrora nos extremos opostos do arco-íris, tinham convergido para um acastanhado que mal permitia entender os conceitos, também eles já ultrapassados.  

A seguir encontrei os exemplos de outra tecnologia caducada: as transparências (ou micas). Aquelas folhinhas de plástico que se punham em cima dum projector que, das duas uma, ou tinha lâmpada fundida ou fazia um calor do caraças. Pois as transparências deram-me um trabalho acrescido, uma vez que, sendo de plástico, tiveram que ser separadas do papel de suporte para não poluírem o meu esforço ecológico.

Por falar em ecologia, penso que cabe aqui um exemplo de como comportamentos responsáveis podem ser disseminados através daquilo a que vulgarmente se chama “cultura da empresa”. A Companhia onde trabalho tem uma atitude pró-activa em relação ao controlo de desperdícios. Somos constantemente “bombardeados” com informação, avisos e às vezes chamadas de atenção bem directas. Quase inadvertidamente a prática assenta.  Para segregar o papel tive que desmanchar uma série de relatórios que se mantinham unidos por aquelas barras com argolas de plástico (as danadinhas saem bem mas mordem os dedos…). No final do processo sobraram umas dezenas de “argolas” e de capas de plástico. Antes de espetar com elas no lixo, resolvi telefonar para a reprografia para saber de uma eventual reutilização. Antes de acabar de explicar, a moça, que vai ter que verificá-las uma por uma, diz-me: “aproveitamos sim senhor, mande para baixo”. Meio a medo pergunto: “e as capas?…” “ se não estiverem dobradas, mande também”.

E o armário ficou vazio?

NÃO!!! O vício de guardar, como todos os outros, exige um desmame cuidadoso. Olhar para um armário desoladoramente vazio pode dar uma  ressaca terrível. O meu armário ficou ainda bem compostinho.

Enquanto executava estas tarefas mais ou menos maquinalmente, ia pensando que também o nosso arquivo mental está cheio de “papeis” esquecidos. Também por lá temos guardados exemplos de “ …projectos cuidadosamente pensados, planeados e implementados que foram pelo cano abaixo em meia dúzia de anos.” “…cenários inventados e criticados para enfrentar uma realidade que sempre acabava por nos surpreender.” “…divergências discutidas interminavelmente até as partes, exaustas, descobrirem que a divergência era subjectiva, e, como tal, insanável.” “… sucessos que apareceram, milagrosamente, pela feliz conjugação de uma série de acasos fortuitos.”

De vez em quando é bom remexer no arquivo.

Kurioso

Foto 1: Este porta-lápis foi feito por mim em 1979 usando dois blocos de baterias de moto em ebonite (a ebonite já não é usada na Europa). Lá dentro está uma régua de…20 DEZ 1992.

Foto 2: Esta Gestetner é de 1955. As que eu conheci eram um pouquito mais modernas.

   

   

 

PONTES

29 de Janeiro de 2010

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A fotografia que ilustra este blogue foi escolhida entre algumas fotografias razoáveis (presunção e água benta…) que tenho na minha colecção. Como ainda não domino a técnica dos panoramas, uma das principais razões da escolha foi o facto de ser uma fotografia a que poderiam ser retiradas as partes de cima e de baixo, para caber na janelinha que o WordPress põe à minha disposição (e que eu não sei alterar).

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Eu teria dito sem reservas que a escolha fora puramente técnica, mas, entretanto, alguns comentários inquiriam do significado da ponte, e agora eu próprio me questiono se o subconsciente me pregou alguma partida, pois as pontes sempre me fascinaram.

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Nos primeiros anos de autonomia entre os 6 e os 9 anos, vivendo perto do mato, as pontes que melhor conheci eram simples troncos, únicos ou agrupados, que tombados sobre uma vala permitiam o acesso ao outro lado. Por essa altura, entre as décadas de  50 e 60, mesmo nas estradas não eram muito frequentes as pontes, sendo os rios atravessados por batelões. É desta época uma das memórias mais vívidas que tenho.

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Tinha ido com o meu Pai numa viagem de trabalho pelo interior de Moçambique, e numa das picadas por onde íamos saltitando de buraco em buraco, surge de repente uma ponte para ser atravessada. Era a tradicional “dois troncos + tábuas”, transpondo um vão que não teria mais do 4 a 5 metros de largura. Na altura tinha porém algumas particularidades interessantes: o rio ia tão cheio que a água não estava a mais de 10 cms das tábuas; as tábuas estavam soltas e cobertas de matope e havia uns quantos “Lacostes” aguardando pacientemente que a sorte lhes sorrisse. Porque recuar significava perder uma jornada de trabalho, houve que delinear um esquema. Após a tradicional análise feita a pé, verificou-se que a ponte deveria aguentar o peso da viatura. Depois de retirar a maior parte do matope das tábuas o meu Pai regressa à margem e começam então os malabarismos: deixando-me do lado de cá, mete-se no carro e, com todas calmas do mundo, fez o carro arrastar-se até ao outro lado; deixa o carro do lado de lá e volta atrás para me vir buscar; os dois juntos de mão dada e a passo de caracol e atravessamos a ponte. Tudo isto terá demorado uma boa meia hora, o que é quase tempo nenhum em África. Ao longo dos poucos anos que tive o privilégio de usufruir a companhia do meu Pai, recebi inúmeros exemplos desta tenacidade e arrojo sabiamente temperados com cautela e avaliação cuidada das circunstâncias.

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Ao longo dos anos seguintes, fui assistindo à construção de inúmeras pontes, e assim que eram inauguradas não descansava enquanto não as atravessava. Todas fazem o mesmo, mas todas são diferentes. Portugal, sendo um país bastante enrrugado, tem a sua quota parte de belíssimas pontes. Até a minha terra, Coimbra, que tinha uma ponte bem básica, tem agora uma ponte de se tirar o chapéu ( se calhar devemos usar o chapéu para pedir umas moedinhas para ajudar a pagá-la…) De pedra, de ferro, de betão ou de madeira, é sempre um prazer atravessá-las, na esperança sempre renovada de encontrar algo diferente do outro lado.   Depois da acima referida “ponte dos Lacostes”, que continuará com o primeiro lugar indisputável, das que já atravessei, a que me terá mais marcado foi a ponte Kemal Ata Turk sobre o Bósforo, em Istambul.

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Kara Sabahat

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A ponte é lindíssima e a vista, ao atravessá-la, é de cortar a respiração. Mas o impacto foi sobretudo simbólico, pois é uma ponte que unindo dois continentes, tenta unir duas culturas e duas religiões que parecem cada vez mais afastadas. As pontes físicas parecem ser bem mais fáceis de construir do que as pontes sócio-culturais.

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Dos milhares de pontes que nunca atravessei e gostaria de atravessar, duas saem à cabeça: a ponte Milau e a ponte Oresund pela brilhante imaginação que está subjacente à sua concepção.

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Se definirmos como ponte algo que liga coisas distintas e separadas, iremos, todos nós, atravessar milhares de pontes ao longo da nossa vida.  As pontes do crescimento: da infância para a adolescência; da adolescência para a maturidade e, finalmente, da maturidade para a velhice. Quase em paralelo, temos as pontes da aprendizagem: primário, secundário, universitário, vida laboral e reforma. Há depois as várias pontes familiares: da casa dos pais para a autonomia, e depois A PONTE para a partilha da autonomia, com a escolha de um parceiro para a vida. Esta é a ponte mais bela e mais difícil de construir que pode haver, pelas simples razão de que não há planos. Os seus construtores vão ter que construí-la pedra a pedra, dia a dia, durante uma vida inteira. Porque os dois lugares que a ponte deve unir vão evoluindo ao longo do tempo, a sua estrutura deve ser totalmente flexível, mas extremamente resistente. Por vezes, há que voltar atrás e tentar uma nova abordagem para unir o que parece querer afastar-se. É obra!

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E depois, como seres gregários que somos, há milhentas outras pontes a construir: de amizade, de camaradagem, de vizinhança, cada uma com as próprias características “técnicas”, pois podem ter que unir culturas, crenças, educações, idades bem diversas.

E não posso terminar sem referir a “ponte negra”. A ponte instantânea para o desespero e incredulidade totais, causada pela morte inesperada de alguém do nosso sangue.

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Kurioso


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