Posts Tagged ‘Manipulação’

VERDADE?

2013/03/01

 

  “Tenho 74 anos e estou cansado. Exceto um breve período na década de 50, quando fiz o meu serviço militar, tenho trabalhado duro desde que eu tinha 17 anos. Trabalhava 50 horas por semana, e não caí doente em quase 40 anos. Tinha um salário razoável, mas não herdei o meu trabalho ou o meu rendimento. Eu trabalhei para chegar onde estou, e cheguei economizando muito, mas estou cansado, muito  cansado.                                                                           Estou cansado de que me digam que eu tenho que "distribuir a riqueza" para as pessoas que não querem trabalhar e não têm a ética de trabalho. Estou cansado de ver  que o governo fica com o dinheiro que eu ganho, pela força, se necessário, e o dá a vagabundos com preguiça para ganhá-lo.
Estou cansado de ler e ouvir que o Islamismo é uma "religião da paz", quando todos os dias eu leio dezenas de histórias de homens muçulmanos  a matar suas irmãs, esposas e filhas pela "honra" da sua família; de tumultos de muçulmanos sobre alguma ligeira infração; de muçulmanos a assassinar cristãos e judeus porque não são"crentes"; de muçulmanos queimando escolas para meninas; de muçulmanos apedrejando adolescentes, vítimas de estupro, até a morte, por "adultério"; de muçulmanos a mutilar o genital das meninas, tudo em nome de Alá, porque o Alcorão e a lei Sharia diz para eles o fazerem.

Estou cansado de que me digam que por "tolerância para com outras culturas" devemos deixar que Arábia Saudita e outros países árabes usem o dinheiro do petróleo para financiar mesquitas e escolas madrassas islâmicas, para pregar o ódio na Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido, Estados Unidos e Canadá, enquanto que ninguém desses países está autorizado a fundar uma sinagoga, igreja ou escola religiosa na Arábia Saudita ou qualquer outro país árabe, para ensinar amor, tolerância e paz.                                                                  
………”

O texto acima é apenas uma pequena parte de um longo “queixume” atribuído a um comediante americano, e foi-me enviado por um ex-colega. Porque a coisa, a partir de determinado ponto, estava bastante exagerada e toscamente traduzida resolvi ir à procura do original. Coloquei as palavrinhas da praxe no “sabe tudo”, e…bingo! Um montão de ligações disponíveis.

Uma das primeiras surpresas foi descobrir que o texto fora atribuído ao comediante mas não era de sua autoria. Alguém pensou que  seria mais eficaz ter um nome sonante a suportar o “cansaço” e vai daí faz uma adaptação e atira-a ao vento neste descampado planetário.

A minha curiosidade seguinte foi tentar encontrar a expectável rejeição  por parte do suposto autor do documento, e acabei por encontrá-la.

Entretanto encontrei também o “testamento” original, bem mais completo e complexo que o “copy paste” traduzido para português. Um longo rol de queixumes suportado por uma visão parcial e enviesada (que não falsa) da realidade americana.

Como qualquer outra visão parcial e enviesada, também esta suscitou inúmeros comentários (1031 no blog original) e também respostas elaboradas noutros blogs, igualmente enviesadas e parciais.

Mas, além de enviesadas e parciais, as respostas podem ser toscas como uma marreta, ou sofisticadas como um bisturi.

Também aparecem réplicas nacionais, de sentido oposto mas com o mesmo esquema.

E finalmente o ponto onde quero chegar (bem…, são dois pontos), é que ao mesmo tempo que a VERDADE se torna cada vez mais difícil de encontrar, a MANIPULAÇÂO se tornou cada vez mais fácil de implementar. Nesta nova sociedade cheia de contradições, e vazia de solidariedade, bastam meia dúzia de palavras sonantes para extremar uma dicotomia potenciada pelo radicalizar de opiniões.

Mas como o tempo é de pressa e urgência, as pessoas não têm tempo para pensar porque o tempo urge para OPINAR. E opina-se sobre opiniões  em vez de se opinar sobre o FACTO. Adeus objectividade, olá subjectividade.

É triste que a maior vitima da extraordinária liberdade de expressão e comunicação de que gozamos (por enquanto…), tenha sido a VERDADE.

Kurioso

 

PS. Milhares de pessoas acham esta foto maravilhosa. Também é mentira.

ASNEIRAS

2012/11/23

 “E porque é que não se pode emagrecer sem fazer nadica?”

“E um governo a acabar à marretada com o que 2 gerações construíram com sangue, suor e lágrimas.”

Hoje estou com pouca pachorra, e por isso vou ser “curto e grosso”.

As duas declarações acima foram pescadas nesse manancial da ASNEIRA que é o Facebook. Cada uma mostra à sua maneira como vai ser difícil tirar este país do lamaçal.

A primeira mostra como uma senhora gostaria muito de emagrecer, mas SEM se privar de coisa alguma. Comer menos ou diferente? NÃO! Ir ao ginásio ou marchar todos os dias durante uma hora? NÃO!!!

E esta é a atitude que eu encontro no café, nas filas do supermercado, nos jornais e na pouca televisão que vejo. Nós queremos mesmo acabar com a porra da crise, mas… sem fazer nadica.

A segunda é pura e simplesmente subversiva e MENTIROSA. Temos efectivamente um governo que está a acabar com o que duas gerações construíram com Greves, Reivindicações e Complacência de sucessivos governos caçadores de votos.

O Sangue, Suor e Lágrimas acabaram, e muito bem, com o 25 de Abril. Afirmar que fizeram parte do processo que conduziu às mordomias insustentáveis que alguns se recusam a perder, é um insulto a quem viveu e sobreviveu aos tempos da ditadura.

E eu senti-me insultado.

Kurioso   

COMUNICAÇÃO

2012/10/26

 

 "Comunicação é a arte de ser entendido." Peter Ustinov

Mais uma vez o “gatilho” para este devaneio foi algo que a (des)comunicação social badalou até à exaustão, e esqueceu com a mesma rapidez, sem que, quanto a mim, fossem feitas as perguntas relevantes. E porque as perguntas relevantes não foram feitas, um País inteiro pôs-se a falar e a disparatar sem saber do que falava ou disparatava. E se o cidadão vulgar pode ter alguma desculpa para não saber comunicar, a comunicação social tem por obrigação saber fazê-lo de forma correcta, e se não o faz, é deliberadamente para manipular o povão.

O “gatilho” foi a questão da “menina que ficou sem almoço”. Nesta triste cena, a acontecer num triste País, tivemos milhentos exemplos de manipulação, e muito poucos exemplos de esclarecimento. O link que vai ali agarrado pareceu-me um dos mais sensatos. Mas há outros, hum…, menos sensatos.

Quando ouvi a notícia, a minha primeira reacção foi tão epidérmica quanto a da maioria das pessoas: já não há juízo neste País. Mas, depois de pensar um pouco, o meu cepticismo (cinismo, calo, etc) fez-me acreditar que a coisa não podia ser tão simples e disparatada. Fiquei então à espera que os competentes membros da nossa comunicação social pegassem nas perninhas para ir fazer as perguntas relevantes aos únicos intervenientes que importava ouvir: a pessoa que impediu a miúda de almoçar e a pessoa que não pagou o almoço.

E porque eu gosto de ser bem esclarecido, gostaria que tivesse sido usado o método dos “5 porquês”. Porque precisamos de saber a razão profunda que leva alguém a negar uma refeição, e também a razão profunda que leva alguém a acumular dívidas de 73 cêntimos. E precisamos de sabê-lo para evitar que volte a acontecer.

Entretanto os órgãos de (des)comunicação ouviram meio mundo e a outra metade, todo o bicho careta botou palpite sobre o que não sabia, e, como de costume, as opiniões variaram entre o linchar a directora e o linchar a mãe. E, porque nós somos um povo amante de justiça, de caminho aproveitava-se para linchar também o  ministro, o governo, a troika, a Merkel,os mercados, …

Esta falta de profundidade na informação, ou esta profunda desinformação, faz com que o nosso juízo se precipite em conclusões suportadas apenas nos nossos preconceitos.

Quando comecei a pensar neste post estava disposto a arengar sobre a facilidade com que algumas pessoas, desculpando-se e sendo desculpadas pela crise, vão paulatinamente deixando de pagar tudo aquilo que está directa, ou indirectamente, ligado ao Estado. Desde o comboio até às taxas mais diversas, passando pelo estacionamento e respectivas coimas, pelas auto-estradas, etc. Onde não houver uma porta, um cobrador ou um corte imediato do serviço, bora lá NÃO PAGAR. Eu conheço pessoalmente vários exemplares destes cidadãos pouco exemplares.

Mas, depois de ler uma série de relatos, houve um par de palavras e uma atitude que me fizeram pensar num problema de comunicação e entendimento entre os únicos intervenientes neste triste folhetim. O problema surge devido a uma diferenciação de estratos, sociais e intelectuais, diferenciação essa que quase não diminuiu nos 40 anos que levamos de Democracia.

A “justiceira”, depois de efectuar uma série de contactos impessoais explicando as consequências da prevaricação, presumiu, dentro do seu quadro de valores, que a “prevaricadora” se apressaria a corrigir a falta. A “prevaricadora”, presumiu, dentro do seu quadro de valores, que aquele era somente mais um aviso, e que, um dia destes, arranjaria maneira de conseguir ir lá pagar. Para ela era óbvio que a “justiceira” percebia que ela estava a trabalhar e não podia deslocar-se à Escola dentro do horário de abertura da Secretaria.

Esta valorização distinta de prioridades, importância, responsabilidades, é o pão nosso de cada dia na comunicação entre pessoas/entidades de estratos diferentes. E eu não tenho dúvidas nenhumas que compete ao estrato superior o esforço acrescido de melhorar a comunicação.

Para os “linchadores” da nossa praça, que sugeriram o despedimento imediato da “justiceira” ou a retirada da filha à “prevaricadora”, eu gostaria de salientar que não vi em lado nenhum, a Mãe a dizer que não tinha dinheiro para pagar as refeições.   

E, para terminar, umas palavras para referir que houve alguém que nunca apareceu nestas comunicações: o pai da criança. Como não aparecem em muitas outras histórias tristes esses bravos machos lusitanos, sempre cheios de prosápia e quase sempre vazios de responsabilidade.

Kurioso  

SUSPEIÇÃO

2012/04/20

Uma pequena história pessoal antes de abrir para questões mais genéricas.

Há quase dois anos escrevi um post com o título mendicidade, onde tecia algumas considerações sobre uma senhora que pede esmola à porta das Amoreiras. Muitos meses (e muitos euros) depois, soube que a referida senhora tinha sido vista dentro da loja de electrodomésticos do centro, pedindo explicações sobre o funcionamento do comando do LCD que comprara. Eventualmente o LCD será o único luxo que a senhora tem, e eu não pusera nenhuma condição ao dar-lhe a minha esmola. Mas a nossa “relação” ficou inquinada pelo terrível vírus da suspeição.

Nas arenas políticas a suspeição é vaporizada demagogicamente até à exaustão, de tal modo que começa a ser difícil saber se devemos suspeitar dos suspeitados ou dos suspeitadores.

Uma das últimas cenas tem sido o fecho da MAC (vale a pena olhar para o organograma e ver que há ali muita coisa que não tem nada a ver com bebés). Os factos dizem-nos que temos uma maternidade albergada num edifício arcaico, no centro de uma cidade onde quase já não vivem mulheres férteis, numa zona onde já era difícil estacionar há 34 anos quando lá nasceu a minha filha. Um parênteses para referir que, a acreditar nas dezenas de testemunhos repetidos pelas televisões, a minha mulher deve ser a única a não ter boas recordações do (pouco) tempo que lá passou. Foi abandonada durante um par de horas com o argumento de que “ainda falta muito”, e quando regressaram já a miúda abria caminho, acabando  por nascer em sofrimento. Safou-se por pouco. Felizmente tinha bons genes!

Entretanto foram sendo construídos hospitais na periferia da cidade (onde vivem as pessoas), e estes hospitais foram “equipados” com maternidades modernas, apesar de já termos uma “Maternidade Insubstituível”. Haverá por aqui algum motivo de suspeição?

Agora, o Governo pretende encontrar parturientes para os hospitais bem localizados com maternidades modernas e às moscas, e decide fechar a maternidade velha, mal localizada e quase inacessível. Parece fazer sentido, mas há inúmeros motivos de suspeição: ele é para beneficiar os privados; ele é para despedir um montão de gente; ele é para fazer uma pipa de massa com o terreno; ele é …

Porque falar de suspeições em Portugal daria pano para lençóis, fico-me pela constatação de que nunca uma suspeição se converteu em confirmação: Freeport; Portucale; Apito dourado; Submarinos; Face Oculta; Rui Pedro; Madie.

E finalmente temos ainda as suspeições frente e verso, ou antes e depois, ou yin e yang: as malfadadas PPP (Parcerias Parvo Pagará). Houve suspeição quando foram feitas, e há agora suspeição quando não são desfeitas.

Tenho uma forte suspeição de que estamos bem Fixados.

Kurioso    

MANIPULAÇÃO

2012/03/30

 Nós estamos a atravessar o tempo de todas as manipulações. Somos manipulados pelos media, pelos políticos, pelos comentadores, pelos colegas, pelos amigos, pelos vizinhos do autocarro.

No tempo da informação TOTAL, cada vez mais emitimos juízos baseados em fogachos de informação (soundbytes) que não criticamos nem validamos.

Um exemplo fresquinho. Num jornal de ontem, o título garrafal dizia “DOIS TERÇOS DOS PORTUGUESES SEM FÉRIAS”. Quem se desse ao trabalho de ler as letras miudinhas, descobria que o título poderia ser “UM TERÇO DOS PORTUGUESES VAI DE FÉRIAS NA PÁSCOA”…

Há uma semana atrás, os desacatos do Chiado serviram para tudo, e mais alguma coisa. Receando enredar-me no habitual enviesamento das notícias "profissionais”, socorri-me do testemunho isento e factual do cidadão comum, emitido pelas redes sociais. Fiquei então a saber o que aconteceu de facto:

1. Um grupo de polícias paisanos, infiltrados no meio de uma manifestação pacífica, começaram a atirar objectos aos polícias fardados.

2. Os polícias fardados resolveram “varrer” a manifestação pacífica, e, de caminho, agrediram selvaticamente dois jornalistas e alguns turistas.

3. As provas da barbárie foram profusamente distribuídas pelos media profissionais, e abundantemente comentadas nos media amadores.

Uma vez que a única entidade atingida por este espectáculo “ditatorial” foi o Governo, parece-me ÓBVIO que o espectáculo foi orquestrado pela Oposição, que capitalizou o descontentamento das forças policiais levando-as a embaraçar o Governo.

É  claro que ninguém tirou a conclusão acima, porque também a teoria da conspiração é usada de forma manipuladora, e pára exactamente onde as pessoas querem, mesmo que não faça nenhum sentido.    

Na imagem acima, podemos ver a palavra “democracia” a coabitar com o insulto porco e machista, só porque alguém questionou a VERDADE ABSOLUTA.

35 anos de democracia não nos ensinaram nada em termos de tolerância e respeito por opiniões divergentes. E agora que os tempos vão agrestes, é evidente o endurecimento do facciosismo, com o consequente torcer da realidade, chegando ao extremo da mentira deliberada:

    

Independentemente da obscenidade de alguns dos salários acima, o facto é que os valores são ANUAIS e não MENSAIS!

Mas o mais triste disto tudo, é que, enquanto nós nos vamos entretendo com manipulações mesquinhas e divisionistas, os verdadeiros MANIPULADORES vão tranquilamente fazendo as suas reuniões estratégicas, decidindo a partilha destes 7 biliões de carneiros.

Kurioso

PS 1. Eu penso que a actuação da Polícia, sendo justificada, foi desproporcionada e desastrada. Não apanharam nenhum dos arruaceiros e bateram indiscriminadamente. Deixaram-se enredar, inadvertida ou deliberadamente.

PS 2. Nas manifestações de ontem em Barcelona, todos os jornalistas usavam colete e braçadeira. Os de cá não querem…

LEITE

2012/01/13

Por kuriosidade, e também por deformação profissional, não há país que visite onde não tente entrar em, pelo menos, um par de supermercados ou lojas de bairro. Interessa-me observar sortidos, posicionamento das marcas (nossas e da concorrência), gama de preços, conceitos de embalagem, etc.

Deixando de lado todos os outros aspectos “técnicos”, há uma diferença nos preços que é mais ou menos constante em toda a Europa rica (Espanha não conta). Os bens essenciais (arroz, massas, água, gorduras, carne, peixe) são proporcionalmente mais caros, e os bens supérfluos (telemóveis, televisões, computadores, aparelhagens, roupa, sapatos ) são tendencialmente mais baratos. Outra constatação é a elevada percentagem de bens produzidos (ou embalados) localmente.

Seguramente que existirão várias razões concomitantes contribuindo para esta situação, mas eu tenho uma teoria que, explicando a coisa, permite enquadrar também o facto de esses países pagarem às classes baixas salários que atraem milhares de imigrantes.

O facto de as pessoas estarem dispostas a pagar mais pelos bens essenciais, aqueles que vendem TODOS OS DIAS GRANDES VOLUMES, faz com que a parte de baixo da pirâmide seja mais lucrativa, permitindo que todos os envolvidos nesse nível possam ser melhor recompensados. Permite também absorver os custos de mão de obra mais elevados da produção local, que é também ajudada por menores custos de transporte ( e menor poluição…).

É óbvio que isto pressupõe uma cadeia logística JUSTA em que cada um dos elos se limita a ganhar a sua parte proporcional, ao mesmo tempo que procura incessantemente optimizar o seu pedacinho da cadeia total. Isto permitiria pagar JUSTAMENTE ao operário que produz, ao camionista que transporta, ao estivador que armazena, ao repositor que emprateleira, à caixeira que vende. Estas pessoas bem pagas, bem formadas e “bem dispostas” fariam da cadeia logística um “circulo virtuoso”.

Então e por cá, como é?

Pois…É mais um circulo vicioso, com cada um dos intervenientes a querer ganhar o máximo possível estando-se cacando para o equilíbrio do que quer que seja. E começa logo com o consumidor. O arroz vem da China em vez de Coruche, que se lixe. A carne vem da Argentina em vez do Alentejo, porreiro. As laranjas vêm da África do Sul em vez do Algarve, na maior. O leite vem da Polónia em vez do Minho, é branco, não é?

E começa a bola de neve. Se o cliente quer o mais barato possível, vamos à procura disso. Primeiro esprememos o nosso fornecedor, depois esprememos o nosso operador logístico e, finalmente, esprememos a nossa margem. E para que isto aconteça toda a gente é espremida pelo caminho: operário, camionista, estivador, repositor, caixeiro, etc. Como não se paga bem a ninguém, não se exige grande coisa a ninguém. O operário balda-se, o camionista atrasa-se, o estivador estraga, o repositor engana-se, o caixeiro empata.

A recente “batalha do leite”, é só mais um capítulo de uma guerra que já vem de longe. Os produtores de leite são talvez o grupo produtivo mais coeso em Portugal, mas tornam-se impotentes quando os seus concorrentes estão fora do país e praticam preços imbatíveis (por vezes subsidiados pelos seus próprios países).

Entretanto o consumidor, que se sente Rei no meio de tantas atenções, acaba por ser um mero peão neste xadrez destruidor de valor. Enleado pela omnipotente e omnipresente televisão, vai ao engodo dos 2X1 ou 75% de desconto, e não vê que comprando o essencial barato acabará por trazer o supérfluo a preço de ladrão.

E é por tudo isto (e mais umas coisas que eu sei..), que eu só consegui amarelar um sorriso quando ouvi sugestões de boicote.

Kurioso

ZAROLHOS

2012/01/06

Há duas palavras que eu abomino: MÉDIA e COMPARAÇÃO. Uma média, na maior parte das vezes, vale uma “mérdia”, e as comparações, na maior parte das vezes, comparam alhos com bugalhos. E no entanto estas duas palavras são fundamentais no meu trabalho. E, porque são fundamentais, eu aprendi as técnicas que permitem retirar o azeite da água suja que resulta de uma média directa ou de uma comparação tosca. Por outro lado, como já são muitos anos de volta do “lagar”, tenho a presunção de acreditar que desenvolvi uma espécie de “olho de sapo” que me ajuda a detectar o que é relevante no meio do ruído envolvente.

“Recent research has revealed some of the frog’s eye’s interesting abilities. One kind of retinal cell responds strongly to small, dark, round moving objects and is most active when those objects moved irregularly. It is as if the neurons of the frog eyes were designed especially to detect flies. Some scientists call their eyes "bug detectors."”

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Tirado daqui

Neste tempo em que todos nós deveríamos ser esclarecidos da forma mais isenta, é absolutamente vergonhosa a forma como todos os poderes, formais e sobretudo os informais, manipulam as médias e as comparações do modo que seja mais vantajoso para eles próprios ou para os interesses que defendem.

Porque vou falar (outra vez) da crise, deixo aqui (outra vez) a minha visão em traço grosso:

1. Gastámos muito mais do que produzimos

2. O gasto foi facilitado pelos “drug dealers” internacionais (vulgo mercados) e descuidadamente aproveitado pelos governos, pelas empresas e pelos particulares

3. Todos mamámos daquela “teta”, fosse de forma directa (empréstimos pessoais) ou indirecta (auto-estradas, rotundas, gimnodesportivos, hospitais, escolas, bolsas, subsídios, reformas)

4. Porque começámos a dar indícios de não poder pagar a “droga”, os “dealers” cortaram o fornecimento

5. Vamos ter que “ressacar” violentamente e quando estivermos curados do vício, talvez (TALVEZ…) nos deixem voltar a “cheirar” um bocadinho

6. Porque já tivemos diversas recaídas, e porque muitos ainda não assumiram o vício, os médicos continuam a insistir no tratamento de privação total

7. Qualquer que seja o método, a probabilidade de cura é assustadoramente baixa

Do acima esboçado, é fácil de ver que eu não tenho nenhuma certeza de que a receita da Troika consiga tirar-nos do atoleiro, mas também me parece que havia muito poucas alternativas. Voltando às analogias automobilísticas, é como se um condutor totó deixasse o carro entrar em despiste, e o pendura, um pouco mais experiente, tentasse a todo o custo evitar o choque frontal, preferindo bater de lado ou de traseira. O carro vai para a oficina, mas os passageiros talvez se safem.

Voltando então às visões parciais, ou tendenciosas, chateia-me particularmente a pregação fanática de um determinado opinante que, para mostrar como não funcionam as medidas da troika, passa a vida a dar o exemplo Grego. Já não chegavam os outros europeus a baterem naquela tecla, ainda tem que aparecer um português parvo a dizer que nós somos como os gregos. Podemos ser tão bons a gastar como eles, mas quero crer que ainda somos um bocadinho melhores a pagar. E a pagar para onde é importante: para o Estado. A Grécia não vai lá porque os gregos rejeitam hoje, como sempre rejeitaram, a figura de um Estado suportada por eles próprios. Quando alguém acha que eu (um português médio) sou parecido com um grego médio, eu sinto-me insultado.

O tal opinante com “olho de sapo”, se quer fazer comparações, bem podia ir à procura de outra letra do PIG e talvez encontrasse outros resultados para a mesma profilaxia: a Irlanda. As coisas não estão garantidas, mas começa a haver uma réstia de esperança.

Infelizmente anda por aí muita gente a defender ideias, mas muito pouca a defender Portugal.

Kurioso

MEDO

2011/04/29

Comentando uma citação no FB, presumi que o Medo nos obriga a fazer coisas, e que a sua ausência é causadora de relaxe. Afinal parece que o que estava subjacente na frase que originou o comentário, era exactamente o contrário: o Medo inibe a acção.

Pensando um pouco mais sobre o assunto, percebi que a minha opinião era fortemente subjectiva. Ao longo da minha vida vários Medos obrigaram-me a agir, porque a opção de nada fazer nem sequer se punha. Aos catorze anos fiquei sem Pai, numa época e numa idade em que um pai é O farol; aos 26 fiquei sem “terra” quando um sonho de independência se transformou numa realidade de pesadelo; aos 27 regresso à Pátria, que afinal já não era a minha “terra”, e descubro que sou portador de um estigma que durará décadas.

O facto de ter tido que enfrentar todos estes Medos, e, ao mesmo tempo, vencer uma timidez que, ainda hoje, me tolhe o passo mais vezes do que gostaria, obrigou-me a rejeitar desde muito cedo um medo que grassa em Portugal: o medo de “parecer mal”. Este sim um verdadeiro inibidor.

O medo existe mesmo sem ter razão de ser." disse Paula Rego, e é este medo de “parecer mal” que nós vemos aí por todo o lado. Parece mal mostrar ignorância, e por isso continuamos sem aprender; parece mal criticar o chefe, e por isso ele vai continuar a errar; parece mal dizer a um colega que deveria usar um desodorizante mais forte, e por isso ele vai continuar a ser alvo do gozo generalizado; parece mal chamar a atenção a empregado desleixado, e por isso ele não deixará de ser desleixado; parece mal ser contra o politicamente correcto, e por isso encarreiramos pela mediocridade globalmente aceite. É claro que esta atitude tem algo de Darwinismo pois as pessoas foram-se habituando a evitar as reacções adversas que qualquer uma das das atitudes acima provoca no visado. Sobretudo nas criticas ao chefe, há que ter muito cuidado…

Ao dizer “grassa em Portugal” estava  a ser demasiado restritivo. Tirando a vizinha Espanha onde existe o saudável hábito de “deixar sair e esquecer”, o que vou encontrando por aí acima é cada vez mais o “sorriso silencioso e descomprometido”.

E este medo encapotado tem consequências várias: impede que sejam resolvidos os problemas enquanto são pequenos; causam recalcamentos que são depois sublimados noutras interacções, por vezes de forma destrutiva; e, talvez a mais importante, fornece o combustível para os Manipuladores do Medo. Eles andam por aí!!!

Kurioso

VIGARICE

2010/10/08

 

Um amigo cibernético que muito prezo, e tem o raro dom de dizer muito em poucas palavras, escreveu há dias:

“A discordância é livre.
O mau gosto também.
Mas eu prefiro quando a primeira é exercida sem recurso ao segundo.”

No dia em que li esta brilhante alusão a uma boa parte da critica que se faz em Portugal, recebi de um ex-colega o link para o seguinte vídeo:

 

Uma das minhas máximas, aprendida ao longo de muitos anos a “virar frango”, é: “se algo parece errado, provavelmente estará errado”.

Este vídeo pareceu-me muito “errado” e rapidamente confirmei, porque me dei ao trabalho de ir procurar, que  era uma legendagem oportunista (vigarista?!) de um vídeo que mostra o ataque de riso do Ministro das Finanças Suíço quando discursava sobre as teias burocráticas da importação de carnes temperadas.

http://aeiou.expresso.pt/ministro-das-financas-suico-tem-ataque-de-riso-no-parlamento-com-video=f605627

A situação é totalmente impossível, mas, como se pode ver pelos comentários de elevado nível por baixo do vídeo, ainda houve uns quantos toscos que acreditaram ou quiseram acreditar.

Se isto é desinformação, pouca vergonha ou simples falta de juízo, competirá a cada um julgar, mas se é  este o “jornalismo do cidadão” que se espera venha a tornar a NET o maior divulgador da VERDADE, estamos bem lixados.

Quando escrevi estas linhas o vídeo já fora visualizado 200000 vezes. Basta que uma em cada mil tenha acreditado, para que haja 200 pessoas a pensar que o Ministro se estava a rir de Portugal.

Mas, o mais triste de tudo é sermos levados a admitir que o NOSSO País é risível…

Kurioso


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