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ZAROLHOS

6 de Janeiro de 2012

Há duas palavras que eu abomino: MÉDIA e COMPARAÇÃO. Uma média, na maior parte das vezes, vale uma “mérdia”, e as comparações, na maior parte das vezes, comparam alhos com bugalhos. E no entanto estas duas palavras são fundamentais no meu trabalho. E, porque são fundamentais, eu aprendi as técnicas que permitem retirar o azeite da água suja que resulta de uma média directa ou de uma comparação tosca. Por outro lado, como já são muitos anos de volta do “lagar”, tenho a presunção de acreditar que desenvolvi uma espécie de “olho de sapo” que me ajuda a detectar o que é relevante no meio do ruído envolvente.

“Recent research has revealed some of the frog’s eye’s interesting abilities. One kind of retinal cell responds strongly to small, dark, round moving objects and is most active when those objects moved irregularly. It is as if the neurons of the frog eyes were designed especially to detect flies. Some scientists call their eyes "bug detectors."”

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Tirado daqui

Neste tempo em que todos nós deveríamos ser esclarecidos da forma mais isenta, é absolutamente vergonhosa a forma como todos os poderes, formais e sobretudo os informais, manipulam as médias e as comparações do modo que seja mais vantajoso para eles próprios ou para os interesses que defendem.

Porque vou falar (outra vez) da crise, deixo aqui (outra vez) a minha visão em traço grosso:

1. Gastámos muito mais do que produzimos

2. O gasto foi facilitado pelos “drug dealers” internacionais (vulgo mercados) e descuidadamente aproveitado pelos governos, pelas empresas e pelos particulares

3. Todos mamámos daquela “teta”, fosse de forma directa (empréstimos pessoais) ou indirecta (auto-estradas, rotundas, gimnodesportivos, hospitais, escolas, bolsas, subsídios, reformas)

4. Porque começámos a dar indícios de não poder pagar a “droga”, os “dealers” cortaram o fornecimento

5. Vamos ter que “ressacar” violentamente e quando estivermos curados do vício, talvez (TALVEZ…) nos deixem voltar a “cheirar” um bocadinho

6. Porque já tivemos diversas recaídas, e porque muitos ainda não assumiram o vício, os médicos continuam a insistir no tratamento de privação total

7. Qualquer que seja o método, a probabilidade de cura é assustadoramente baixa

Do acima esboçado, é fácil de ver que eu não tenho nenhuma certeza de que a receita da Troika consiga tirar-nos do atoleiro, mas também me parece que havia muito poucas alternativas. Voltando às analogias automobilísticas, é como se um condutor totó deixasse o carro entrar em despiste, e o pendura, um pouco mais experiente, tentasse a todo o custo evitar o choque frontal, preferindo bater de lado ou de traseira. O carro vai para a oficina, mas os passageiros talvez se safem.

Voltando então às visões parciais, ou tendenciosas, chateia-me particularmente a pregação fanática de um determinado opinante que, para mostrar como não funcionam as medidas da troika, passa a vida a dar o exemplo Grego. Já não chegavam os outros europeus a baterem naquela tecla, ainda tem que aparecer um português parvo a dizer que nós somos como os gregos. Podemos ser tão bons a gastar como eles, mas quero crer que ainda somos um bocadinho melhores a pagar. E a pagar para onde é importante: para o Estado. A Grécia não vai lá porque os gregos rejeitam hoje, como sempre rejeitaram, a figura de um Estado suportada por eles próprios. Quando alguém acha que eu (um português médio) sou parecido com um grego médio, eu sinto-me insultado.

O tal opinante com “olho de sapo”, se quer fazer comparações, bem podia ir à procura de outra letra do PIG e talvez encontrasse outros resultados para a mesma profilaxia: a Irlanda. As coisas não estão garantidas, mas começa a haver uma réstia de esperança.

Infelizmente anda por aí muita gente a defender ideias, mas muito pouca a defender Portugal.

Kurioso

PIIGS

21 de Maio de 2010

 

Descobri neste fim de semana que os antigos PIGS (Portugal, Italy, Greece, Spain) viraram PIIGS, porque a infeliz Irlanda (o tigre Celta, lembram-se?) juntou-se ao clube dos falidos.

É óbvio que o acrónimo foi criado por algum Inglês, e o primeiro lugar na lista só nos toca para que a palavra possa expressar aquilo que pensam de nós, latinos, os “evoluídos” povos do Norte.

A primeira “equipa” parecia fazer algum sentido pois todos os quatro países partilhavam um passado comum: convulsões políticas no início do século passado que conduziram a ditaduras; manutenção do povo longe da instrução; deficiente industrialização. Tudo isto conjugado com a passividade e modorra dos povos do sul, fez com que ficássemos irremediavelmente para trás.

A conjugação de diversas vontades e alguns apetites fora dando forma a uma Europa comunitária que os Alemães pretendem dominar. Este país saindo destruído de uma guerra que quase ganhou, soube aproveitar, com o contributo decisivo do seu povo disciplinado e trabalhador, os dinheiros que, através do Plano Marshal, os Americanos lhes deram para que servissem de tampão ao “papão” soviético. E é importante lembrar este facto histórico, pois passados cerca de trinta anos já era a Alemanha que contribuía com ajuda semelhante para que os povos do sul (PIGS) pudessem recuperar das sequelas da ditadura e juntar-se de uma forma construtiva à Europa dos ricos.

E o que fizeram os agradecidos povos do sul? Construíram grandes auto-estradas onde pudessem acelerar os seus belos popós sacados à conta das conquistas da democracia. As empresas fartamente alimentadas pela “teta” da Europa, aceitam todas as reivindicações, pois ao darem 10 aos trabalhadores, os gestores atribuíam, por maioria de razão, 100 para si próprios. Por outro lado, os partidos no afã de garantir votos vão criando um Estado monstruoso que se torna um sorvedouro da riqueza real, e se envolve promiscuamente em tudo o que é negócio. Não admira pois que, passados vinte anos, continuemos ignorantes, preguiçosos e…falidos.

Mas não se pense que somos os mesmos Portugueses! Não. Nós agora somos modernos, somos Europeus! Não sabemos escrever direito, não sabemos falar direito, não sabemos pensar direito, mas temos  os nossos DIREITOS. E os nossos direitos, desejos e prazeres subiram para patamares Europeus donde não queremos descer nem que “a vaca tussa”.

Temos assim os “lazy latins” a tornarem-se um fardo para os “buzy saxons” com a consequente ameaça de corte da “ração”.

Porém a Irlanda, que partilha connosco o fardo de um passado pobre e a tradição de uma forte emigração, não parecia, dado o seu brilhante passado recente, ter que se juntar ao grupo dos preguiçosos. Mas, de repente, lembrei-me de uma outra característica que nos une: o Catolicismo.

A Igreja Católica é indutora da servidão, da humildade, da resignação, e também do respeito pela hierarquia. É-se rico ou pobre pela graça de Deus, pelo que cada um deve contentar-se com o seu fado. O Catolicismo foi a religião conveniente do Feudalismo, e serviu (serve) também os regimes ditatoriais.

Por outro lado as “igrejas” oriundas do protestantismo (Luterana, Calvinista e Anglicana) ao proporem uma ligação directa do Homem a Deus, tornam-no responsável pelo seu destino e pela sua salvação: “Acredita e serás” em vez de “Obedece e terás”. A Fé substituiu a Obediência.

É claro que o Catolicismo pode não ter nada a ver com estas coisas materialistas do déficit, dos ratings, dos spreads, mas é efectivamente uma característica comum entre os “branquelas” da Irlanda e os “morenaços” cá de baixo.

Kurioso


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