Na praia. Grupo de 9 jovens mais criança. Grande algazarra dos jovens, a criança nem se ouviu. Atenção que estou a falar de jovens à portuguesa: abaixo dos 35. Uns casados, outros quase, umas moças desasadas.
Uma coisa que me faz confusão é a razão porque os jovens gritam mesmo quando estão pertinho uns dos outros. Será exibicionismo? Será surdez? Será falta de educação? Provavelmente um mistura de tudo isto.
De tudo aquilo que não conseguimos evitar ouvir, (um parênteses para referir que as conversas não eram tontas de todo, e os impropérios estiveram bem controlados) ficou-me a bailar uma chalaça de um dos moços, quando falavam de casamentos:
“Eu tenho que deixar de ir a casamentos! De certeza que dou azar!
O António não esteve casado nem 1 ano; o Manel, ao fim de quatro meses foi posto a andar; o Jaquim foi um ano e picos, e o Carlos não me parece que consiga chegar aos 2 anos…”.
A seguir entrou nos detalhes das causas do “azar” e parecia haver “não-culpas” ora de um ora de outro parceiro. Curioso também o facto de ele se ter referido sempre aos amigos e nunca às amigas. Será que meio século depois da minha juventude ainda é impossível um homem ter amigas?
Portugal deve realmente ter um problema com as parcerias. Já não chegavam as Publico-privadas, e agora começa a parecer evidente que mesmo as Privadas-privadas não têm grande futuro.
Esta coisa das parcerias tem realmente muito para funcionar mal e pouco para funcionar bem. E parece que é mais fácil funcionarem em riqueza do que em pobreza, pelo menos ao nível dos países. A Suíça é uma parceria rica, de três culturas que não têm nada a ver umas com as outras, a não ser o apego ao dinheiro. A ex-Jugoslávia foi uma parceria fictícia que se desmoronou assim que a mão de ferro se abriu. A Alemanha reunificou-se “tranquilamente” porque consegue criar riqueza. A Bélgica desagrega-se “tranquilamente” porque não consegue criar riqueza.
Já em relação às pessoas não tenho tanta certeza sobre o factor facilitador da riqueza. Se compararmos as curvas de aumento de riqueza nos últimos 30 anos e do número de parcerias falhadas, eu parece-me que elas serão quase paralelas. Vou deixar de lado o “mito” de que TODAS as mulheres eram exploradas pelo seu “dono” até que há 30 anos conseguiram, através da emancipação económica, a sua “carta de alforria”. Afinal eu tenho 61 anos, pertenço a duas famílias onde as mulheres sempre detiveram um elevado poder informal, e…sou homem (esse pecado original que ainda levará gerações a ser perdoado). Seguramente que a minha opinião seria considerada tendenciosa.
Temos então que a prosperidade do mundo ocidental, ao mesmo tempo que entregou um poder económico individual sem precedentes a (quase) todas as mulheres, parece ter também inquinado as relações bissexuais (as mono também não duram por aí além…) que não conseguem dar o salto das antigas uniões de deveres e privilégios nitidamente, e desigualmente repartidos, para verdadeiras parcerias.
Mais um pedaço de conversa escutada num passeio público (eu bem digo que os jovens falam demasiado alto):
Amiga #1: “Nós temos gostos completamente diferentes: eu gosto de praia, ele detesta, eu gosto de ficar em casa, ele quer sair à noite…
Amiga #2: “Mas isso deve ser bué de complicado…”
Amiga #1: “Nem por isso. A maior parte das vezes ele sacrifica-se, outras vezes eu apanho uma estucha. E afinal nós gostamos muito um do outro”
Não me parece que vá durar muito!
Uma relação de dependência tem regras próprias (justas ou injustas) que ambas as partes conhecem. As expectativas de cada um poderão ter algum optimismo mas o guião está lá.
Uma relação de parceria é muito mais complicada. Cada um dos parceiros vai ter de abdicar de uma parte da sua personalidade para que possa nascer a personalidade da parceria.
Na maior parte das relações actuais, o que me parece é que ambos os membros querem manter a sua individualidade, e esperam que a cedência venha toda do outro lado. Afinal o outro diz que gosta tanto de mim…
Porque o meu “negócio” são números, aqui vai a minha tradução aritmética das relações humanas ao longo dos tempos:
Antigamente: 1+1 = 2
Actualmente: 1+1 = 11
Parceria: 1+1 = 1

Kurioso
PS.: Sobre a dificuldade acrescida que vai ser enfrentar a tempestade que aí vem sem um Parceiro, já escrevi num post chamado AFLIÇÕES. Em Maio de 2009…