“ Podemos deduzir, então, sem risco de deturpar as suas palavras, que se veria grega se tivesse que governar na Grécia ao invés da Alemanha, onde a coisa seria fácil, com um único senão: não foram os alemães que inventaram a democracia”
Esta frase foi proferida por uma opinion maker , comentando declarações alheias. A minha primeira reacção foi pensar: e o que é que o CU tem a ver com as CALÇAS!
Mas, porque a recorrente afirmação de que os Gregos merecem a admiração do mundo por terem inventado a Democracia, me faz algumas comichões, e colide com as memórias do meu ensino secundário, resolvi ir estudar o tema.
As leituras confirmaram aquilo que eu recordava:
“One thing must be said about Athenian democracy and that is that it was a full time job. Only people with a lot of leisure time on their hands could devote the energy to this system, which brings us to the issue of slavery. Without slaves there would not have been an Athenian democracy, or at least not as we know it. The fact that even a relatively poor Athenian citizen could still afford one slave to plow his fields or work in his shop while he was debating laws in the assembly is what made a democracy of the people (if you define people as free-Athenian-male-citizens).”
(http://www.ahistoryofgreece.com/athens-democracy.htm )
Mas também tive uma série de surpresas.
A maior de todas terá sido descobrir que a Grécia só existe como “nação” desde 1823, quando após uma sangrenta revolução contra o ocupante Turco, e já quase a serem derrotados, são salvos pela troika formada pelos Ingleses, Franceses e Russos. Como prenúncio do que viria a passar-se (e também consequência do que se passara até aquela altura) o primeiro presidente grego é assassinado ao fim de quatro anos. Mais uma vez, Russos, Ingleses e Franceses tomam conta da situação e vão à Bavaria (Alemanha) buscar um tal de Otto que nomeiam rei dos Gregos.
Os próximos cem anos serão palco de inúmeras tentativas de implementação de algo parecido com governação, raramente chegando sequer perto do que se possa chamar de Democracia.
E vem então a 2ª Grande Guerra, época em que os Gregos sofrem talvez a maior humilhação, mas onde demonstram também a fibra de que são feitos, ao conseguirem manter o poderoso exército alemão em constante inquietude.
Mas porque o vício da guerra parece ser incurável, as duas facções de guerrilheiros que lutaram contra os alemães (uma de esquerda e outra de direita), mal acaba a guerra desatam a lutar entre si. A “pacificação” desta vez vem do outro lado do Atlântico, com os americanos a injectarem rios de dinheiro para tentar evitar a vitória dos comunistas. E depois veio a ditadura militar, e depois vieram os governos frouxos, e depois…
Entretanto, se considerarmos que o povo Grego iniciou a sua caminhada no ano 400 AC, depois de ler a sua história, chegamos à conclusão que, durante 24 séculos, raramente se governou a si próprio. Foi governado por romanos, por otomanos, por Turcos, por Franceses, por Ingleses, por Italianos e por Alemães. Esta governação estrangeira ou ditatorial ou corrupta (ou as três em simultâneo), acabou por esculpir aquela que é talvez a característica mais transversal de todo o povo Grego: uma aversão e rejeição viscerais do Estado.
Os Gregos até podem ter inventado a Democracia, mas parece provado que não sabem aplicá-la.
Curiosamente, são os bárbaros ignorantes do norte que, através da sua racionalidade, disciplina e pragmatismo, conseguiram mostrar aos criadores como se faz.
E eu, que tenho colegas Alemães e Gregos, não tenho dúvidas nenhumas sobre com quais gostaria de trabalhar. Provavelmente não seria divertido, mas, ao final de cada dia, o que era para ser feito estaria feito, dentro das regras e sem sobressaltos.
Se ainda há uma diferença grande entre Portugueses e Gregos? Há sim senhor! Mas uma boa parte dos nossos compatriotas estão a fazer um esforço danado para acabar com essa diferença.
Kurioso
E para aqueles que gostam de Geografia…