E talvez depois eu possa ter MENOS TÉDIO
Kurioso
E talvez depois eu possa ter MENOS TÉDIO
Kurioso
Paradigma do Portugal moderno: os trinta quilómetros da A1 entre Lisboa e V.F. Xira.
Do lado esquerdo o maior bairro clandestino da Europa, e aquele onde deve haver a maior concentração de economia paralela do País. Deveria ser interessante encontrar o desvio médio entre o rendimento declarado e o rendimento auferido por aqueles compatriotas.
Do lado direito, os restos mortais, ou moribundos, de alguma grande industria e das suas actividades satélite, alguns (poucos) armazéns e dois tipos de dormitórios: os pré e os pós 25 de Abril.
Do lado esquerdo eu não vou falar, pois a xico-espertice faz-me azia. Basta dizer que por aqui está tudo o que Portugal não devia ser. Quem quiser perceber, basta dar uma volta por lá.
Mas do lado direito, está outro Portugal: o que sofre.
Nos dormitórios pré-25 estão os operários de todas as industrias que entretanto fecharam. São pessoas com a instrução básica padrão da época, que vendiam o seu trabalho por tostões até que uma revolução, para a qual não contribuíram, lhes multiplicou os proventos por dez, ao mesmo tempo que condenava as empresas onde trabalhavam ao encerramento. A maior parte não se deixou deslumbrar por esta súbita riqueza, e amealhou ou comprou património. Hoje, “despachados” por falências ou reestruturações, agrupam-se em jardins ou cafés, deixando escorrer tempo entre lamúrias clínicas, familiares ou políticas. Debatem os seus achaques, comparam as desventuras dos filhos, transviados, desempregados ou endividados, e recordam com saudade os tempos em que eram rudemente explorados, mas havia respeito. Do alto das colinas, contemplam as ruínas fabris junto ao rio, e também as centenas de colmeias onde vive a geração seguinte que não compreendem. Não compreendem os seus gostos, as suas necessidades, os seus relacionamentos, a sua exuberância, o seu esbanjamento.
Nos dormitórios pós-25 estão os empregados de todos os serviços que entretanto abriram. São pessoas com instrução média, que vendem o seu trabalho por cêntimos, agora que se esgotou a revolução que fez ricos os seus pais. São a geração que cresceu com tudo e agora, que são adultos, caminham para não ter “nada”. Este “nada” é obviamente subjectivo, mas também a noção de satisfação, realização ou felicidade são totalmente subjectivas. E quando se trabalha num qualquer armazém, ganhando o ordenado mínimo, tendo por modelo os craques da bola ou as “barbies” da televisão, é fácil pensarmos em “nada”. E mesmo a agradável satisfação de contemplar a obra feita pelas nossas mãos, está agora cada vez mais arredada, neste mundo onde nos limitamos a controlar máquinas e a comprar tudo feito. Ainda hoje conversando com a minha mulher sobre os trajes de carnaval que as minhas colegas compraram para os filhos, recordámos os diversos disfarces que a nossa filha usou durante os anos de escola: pierrot; índia; pantera cor-de-rosa; chinês; yin-yang, etc. todos eles feitos em casa e, por isso, todos eles únicos.
Mas o que tornou realmente diferentes estas duas gerações, foram as promessas que acompanharam o seu crescimento. Aos “antigos” foi prometido nada, e com muito trabalho talvez conseguissem umas migalhas. Aos “modernos” foi prometido tudo, mesmo sem grande esforço. É fácil perceber onde estará a frustração.
Mas, apesar de a grande Lisboa ter cerca de 2 milhões de habitantes, para lá de Vila Franca ainda há outro Portugal com muitos portugueses. Não serão talvez tão modernos, mas, por isso mesmo, quem sabe mais felizes.
Kurioso
As bolinhas castanhas que se vêem em primeiro plano à direita não são conguitos entornados, são mesmo caganitas de cabra.
A fotografia foi tirada no final de uma quase escalada de 2kms, depois de duas horas às curvas nas serranias do Marão. A viagem envolveu pesquisa na Internet, apoio de GPS, calçado todo-o-terreno, preparação em ginásio, e, quando finalmente chego a um sítio onde a ausência de maços de tabaco, latas vazias ou sacos de batatas fritas, me faz sentir um quase conquistador, olho para o chão e vejo…caganitas. As cabrinhas tinham andado por lá e c*g*ram para mim.
Esta incursão ao Parque Natural do Alvão, à procura das Fisgas do Ermelo, serviu para provar que esforço e risco que não sejam suportados por um planeamento conveniente, podem conduzir a uma frustração bem…frustrante.
Qualquer aprendiz de fotógrafo sente uma atracção irresistível por quedas de água, e o facto de estar perto das maiores quedas de água da península obrigou-me a ir lá. Quando o GPS me disse que para andar 70km eu gastaria quase 2 horas, devia ter desconfiado que a relação distância / tempo fica totalmente distorcida acima do Mondego. Aqui por cima as distâncias medem-se em tempo e não em km (e percebemos porque é que esta gente reclama das auto estradas vazias “lá de baixo”).
Ao fim das tais duas horas chegamos a um parque de estacionamento junto a uma escarpa, e, lá ao loooonge no meio de uma parede de granito vê-se um risco de espuma branca com cerca de vinte metros de comprimento. NÃO podia ser só aquilo! Entretanto um outro aspirante a fotógrafo ia enchendo o cartão com fotografias das pedras, pedrinhas e pedregulhos.
Depois de verificar que não havia maneira de descer para perto da água, sem ser em rappel, reparei que havia um caminho a subir. Aqui começa a parte do esforço. Mochila às costas, máquina ao pescoço e tripé na mão, vá de trepar. Como é habitual nestas cenas das serras, sempre que queremos ir para a direita o danado do caminho inflecte para a esquerda. Depois dos tais 2 kms, duas ou três paragens para recuperar o fôlego e quatro ou cinco escorregadelas nas pedras soltas (esta é a parte do risco ), estou outra vez à beira da garganta. Ouvia a água a rugir, mas vê-la…népia. Arreio a tralha toda e, segurando a máquina firmemente, debruço-me sobre a borda para tentar apanhar QUALQUER coisa. Lá em baaaaaixo vislumbro mais um penacho branco, e mesmo ao meu lado caganitas.
Ainda havia muito monte por cima de mim, mas o caminho virava outra vez para a esquerda e eu já não tinha reserva de esforço e risco para mais 2 kms, ou 1 km ou 500 mts, ou…
Regressei ao carro encharcado em suor e desânimo, preparando-me para o esforço final de fazer outra vez umas centenas de curvas até voltar às margens do Douro.
Para a próxima planearei com mais cuidado, para que o esforço e o risco compensem.
E, naquele silêncio da serra, ia jurar que ouvia as cabras a rir…
Kurioso
PS. Esta coisa de esforço, risco e planeamento não tem nada a ver com política. Mas se calhar, até podia ter.