Posts Tagged ‘Fotografia’

CRUZAMENTO

17 de Junho de 2011

Este post deveria ter por título “Juízo” ou “Julgamento”, mas penso que já usei ambos os termos como título. Mesmo escrevendo só uma vez por semana, as minhas fixações (e a opção de usar uma só palavra para título…) começam a pôr uma sobrecarga na minha criatividade.

Mas, foi efectivamente num cruzamento que poderão ter acontecido dois juízos ou julgamentos:

Olha para este madraço da cidade aqui a tirar fotografias e a empatar quem trabalha

Olha para este desgraçado! O país no Algarve (ou em Castelo Branco…) a gozar um fim de semana à maneira, e ele aqui a sulfatar as vinhas” 

Pois a cena aconteceu no passado 10 de Junho, quando eu, o madraço da cidade, resolvi subir aos montes por detrás da terriola onde vivemos, para tirar algumas fotografias. Depois de subirmos, subirmos e subirmos, quando já estava perto daquelas “ventoinhas” king-size, que todos nós andamos a pagar junto com a continha da luz, e longe da humanidade, resolvi parar o carro no meio dum carreiro de terra, para ir fazer uns clicks.

Enquanto regulava, focava, enquadrava e “clickava” começo a ouvir o ruído dum motor e resolvo regressar ao carro. Apesar da minha celeridade, ainda houve que fechar o tripé, proteger a máquina e pôr o carro a andar, enquanto o desgraçado, em cima do tractor, esperava.

Finalmente lá nos cruzámos com um “desculpe lá…” acabrunhado do meu lado, e um “…não faz mal” carrancudo do lado dele.

Uma parte significativa dos nossos juízos são feitos assim: num cruzamento. E assim como o juízo que eu imaginei na cabeça do agricultor está errado, pois eu não sou madraço, nem da cidade e dou o litro cinco dias por semana, também a minha presunção sobre a desgraça do tractorista pode estar longe da realidade. O indivíduo pode muito bem ser dono de toda aquela encosta, não terá chefes nem patrões para aturar, não enfrenta a 2ª circular todos os dias e pode ter passado toda a quinta-feira a dormir porque ainda não chegara a hora de sulfatar.

Entretanto ao chegar a casa, descarrego as fotografias e acho que valeu a pena empatar o sulfatador.

E aqui temos outro cruzamento, agora de épocas. A agricultura artesanal ou moderna, a auto-estrada para os apressados ensimesmados, que perdem a oportunidade de apreciar uma paisagem de postal, e, lá ao fundo, as “ventoinhas” que (talvez) sejam um sinal do futuro.

Há vinte anos atrás, este vale era uma desolação. Os “agrários” tinham sido saneados, os camponeses foram trabalhar para as fábricas, a auto-estrada ainda não era moda e as “ventoinhas” eram uma modernice dos Holandeses que gostam de aproveitar tudo.

Com o rodar do tempo, os agrários vão vendendo o património, as fábricas fecham e os camponeses usam as indemnizações para comprar terras, e o vale ressuscita.

O caminho que o PR aponta já está a ser seguido, mesmo que os comentadores de um tal “Eixo da Presunção” o achem salazarento. Estes senhores, que suponho movimentarem-se exclusivamente no eixo Lisboa-Cascais, devem achar que agricultura é sinónimo de atraso. Suponho também, que nunca terão saído das cidades se alguma vez visitaram a Holanda ou a Suíça.   

É fácil julgar rápido. Difícil mesmo, é julgar bem.

Kurioso

 

FRUSTRAÇÃO

12 de Novembro de 2010

 

As bolinhas castanhas que se vêem em primeiro plano à direita não são conguitos entornados, são mesmo caganitas de cabra.

A fotografia foi tirada no final de uma quase escalada de 2kms, depois de duas horas às curvas nas serranias do Marão. A viagem envolveu pesquisa na Internet, apoio de GPS, calçado todo-o-terreno, preparação em ginásio, e, quando finalmente chego a um sítio onde a ausência de maços de tabaco, latas vazias ou sacos de batatas fritas, me faz sentir um quase conquistador, olho para o chão e vejo…caganitas. As cabrinhas tinham andado por lá e c*g*ram para mim.

Esta incursão ao Parque Natural do Alvão, à procura das Fisgas do Ermelo, serviu para provar que esforço e risco que não sejam suportados por um planeamento conveniente, podem conduzir a uma frustração bem…frustrante.

Qualquer aprendiz de fotógrafo sente uma atracção irresistível por quedas de água, e o facto de estar perto das maiores quedas de água da península obrigou-me a ir lá. Quando o GPS me disse que para andar 70km eu gastaria quase 2 horas, devia ter desconfiado que a relação distância / tempo fica totalmente distorcida acima do Mondego. Aqui por cima as distâncias medem-se em tempo e não em km (e percebemos porque é que esta gente reclama das auto estradas vazias “lá de baixo”).

Ao fim das tais duas horas chegamos a um parque de estacionamento junto a uma escarpa, e, lá ao loooonge no meio de uma parede de granito vê-se um risco de espuma branca com cerca de vinte metros de comprimento. NÃO podia ser só aquilo! Entretanto um outro aspirante a fotógrafo ia enchendo o cartão com fotografias das pedras, pedrinhas e pedregulhos.

Depois de verificar que não havia maneira de descer para perto da água, sem ser em rappel, reparei que havia um caminho a subir. Aqui começa a parte do esforço. Mochila às costas, máquina ao pescoço e tripé na mão, vá de trepar. Como é habitual nestas cenas das serras, sempre que queremos ir para a direita o danado do caminho inflecte para a esquerda. Depois dos tais 2 kms, duas ou três paragens para recuperar o fôlego e quatro ou cinco escorregadelas nas pedras soltas (esta é a parte do risco ), estou outra vez à beira da garganta. Ouvia a água a rugir, mas vê-la…népia. Arreio a tralha toda e, segurando a máquina firmemente, debruço-me sobre a borda para tentar apanhar QUALQUER coisa. Lá em baaaaaixo vislumbro mais um penacho branco, e mesmo ao meu lado caganitas.

Ainda havia muito monte por cima de mim, mas o caminho virava outra vez para a esquerda e eu já não tinha reserva de esforço e risco para mais 2 kms, ou 1 km ou 500 mts, ou…

Regressei ao carro encharcado em suor e desânimo, preparando-me para o esforço final de fazer outra vez umas centenas de curvas até voltar às margens do Douro.

Para a próxima planearei com  mais cuidado, para que o esforço e o risco compensem.

E, naquele silêncio da serra, ia jurar que ouvia as cabras a rir…

Kurioso

PS. Esta coisa de esforço, risco e planeamento não tem nada a ver com política. Mas se calhar, até podia ter.

DIACHO!!

16 de Abril de 2010

 

O velho sábio que um dia disse “Só sei que nada sei”, se vivesse nos dias de hoje passava-se de vez.

A extraordinária quantidade de conhecimento que está disponível debaixo de um teclado, mais do que uma fonte de contentamento, é, sobretudo, uma fonte de frustração.

O meu gosto pela fotografia faz-me espreitar links que vou encontrando nas revistas da especialidade ou em quaisquer outras, e é óbvio que encontro coisas espantosas mas mais ou  menos explicáveis: bom equipamento; uma visão treinada; uma técnica apurada; dedicação extrema; sensibilidade artística; SORTE; e mais uma ou outra condicionante ou conjugação de várias.

Mas desta vez encontrei algo que os meus razoáveis (mas pelos vistos insuficientes…) conhecimentos fotográficos não conseguem explicar.

Neste endereço:

http://www.rauzier-hyperphoto.com/flash/hyperphoto/grandes/cite.html

está um exemplo de algo a que o  seu autor  chama “hiper-photo”. Em principio trata-se de uma fotografia de tamanho extraordinariamente grande, na ordem dos metros em cada dimensão, que pode ser vista em vários graus de ampliação. Nada de mais até aqui.

Porém, no caso da imagem do link, Cité Ideale, eu não consigo encontrar resposta para uma série de perguntas: o lugar da fotografia de fundo existe?  se não existe, quanto trabalho foi preciso para criá-lo?  como foram enxertados os dez detalhes? e além dos detalhes como foram lá parar todas as outras coisas que o nosso bom senso diz não serem verosímeis?

Porque as comichões me fazem armar em detective, eu fui à procura do café no canto inferior direito, e também da rua indicada na placa. Népia! É evidente que uma boa parte do que vemos não é “real”, mas faz-me uma confusão do caraças não conseguir distinguir o verdadeiro do falso.

Diacho!!

Kurioso

PS. Se tiverem curiosidade de ver mais trabalhos do Jean-François Rauzier, espreitem aqui http://www.rauzier-hyperphoto.com/

PAISAGEM

26 de Fevereiro de 2010

 

“Portugal é Lisboa, e o resto é paisagem”, costumava dizer-se. A afirmação pretendia sublinhar o facto de que tudo o que era bom estava em Lisboa, e o resto do País não passaria de tema para fotografias campestres.

Infelizmente para Lisboa, as migrações e a “flexibilização” dos costumes dos últimos anos tornaram aquele dito quase obsoleto.

Enquanto os habitantes de Lisboa desistiram da sua cidade, e os seus autarcas se mostram incapazes de conduzir um barco que se tornou ingovernável, os habitantes das pequenas cidades, e vilas,  do interior têm ajudado o poder local a melhorar a qualidade de vida nessas povoações. Porque, se compete às autarquias a construção e manutenção das infra-estruturas, é dever dos cidadãos manter as habitações, os muros, as cercas, os jardins num estado que cause orgulho à comunidade.

E a palavra chave aqui é mesmo comunidade. Nestas pequenas povoações toda a gente se conhece, e a pressão da comunidade é fortemente motivadora. Se o A, o B e o C pintaram a casa, até parecia mal que o D e o E não o fizessem também. E cria-se assim um circulo virtuoso onde os bons comportamentos geram outros bons comportamentos. Nestas paragens não há grafitos nas paredes, os jardins e parques infantis não são vandalizados, etc, etc. E o dinheiro que as autarquias poupam na reparação dos vários vandalismos, pode ser usado em coisas novas.

Num fim de semana do final do Verão passado (que saudades…) demos uma volta que passou por Tomar, Abrantes, Constância e Vila Nova da Barquinha. E se em Tomar ainda parece haver algumas dúvidas sobre o caminho a seguir, as outras três localidades são um regalo para os olhos. Abrantes é uma cidade moderna que não esqueceu a parte antiga; Constância é uma jóia mantida brilhante pelos seus habitantes e Vila Nova da Barquinha foi uma surpresa pela limpeza e esmero na manutenção das casas bem antigas. E, cereja em cima do bolo, todas elas aproveitaram a benesse de serem beijadas pelo Tejo, para construírem lindíssimos parques ribeirinhos.

Mas há muito mais exemplos de “terrinhas” onde se vive muito melhor que nesta enorme cidade assustada e assustadora: Santarém; Tondela; Viseu; Grândola; Aveiro; Tavira; Lagos; S. Pedro do Sul. Terrinhas onde se vai almoçar a casa e onde ainda se deixam os carros abertos. Onde os miúdos vão a pé para a escola, e os vizinhos recebem o nosso correio.

Mesmo o real problema destas pequenas terras que é a falta de ensino superior, acaba por se tornar uma vantagem, apesar do esforço económico acrescido para as famílias. Eu sei o quanto foi importante na formação da minha filha, enquanto pessoa e cidadã, o facto de ter estado a estudar a 2500 km de casa. O seu sucesso actual compensa bem os medos e sacrifícios de quatro anos de afastamento.

E porque a fotografia é uma da minhas manias, aqui ficam alguns exemplos de “paisagem”:

 

 

 

 

Quer isto dizer que eu não gosto de Lisboa? Nã, nada disso! Eu adoro Lisboa mas…tenho pena.

Kurioso

 


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