Este post deveria ter por título “Juízo” ou “Julgamento”, mas penso que já usei ambos os termos como título. Mesmo escrevendo só uma vez por semana, as minhas fixações (e a opção de usar uma só palavra para título…) começam a pôr uma sobrecarga na minha criatividade.
Mas, foi efectivamente num cruzamento que poderão ter acontecido dois juízos ou julgamentos:
“Olha para este madraço da cidade aqui a tirar fotografias e a empatar quem trabalha”
“Olha para este desgraçado! O país no Algarve (ou em Castelo Branco…) a gozar um fim de semana à maneira, e ele aqui a sulfatar as vinhas”
Pois a cena aconteceu no passado 10 de Junho, quando eu, o madraço da cidade, resolvi subir aos montes por detrás da terriola onde vivemos, para tirar algumas fotografias. Depois de subirmos, subirmos e subirmos, quando já estava perto daquelas “ventoinhas” king-size, que todos nós andamos a pagar junto com a continha da luz, e longe da humanidade, resolvi parar o carro no meio dum carreiro de terra, para ir fazer uns clicks.
Enquanto regulava, focava, enquadrava e “clickava” começo a ouvir o ruído dum motor e resolvo regressar ao carro. Apesar da minha celeridade, ainda houve que fechar o tripé, proteger a máquina e pôr o carro a andar, enquanto o desgraçado, em cima do tractor, esperava.
Finalmente lá nos cruzámos com um “desculpe lá…” acabrunhado do meu lado, e um “…não faz mal” carrancudo do lado dele.
Uma parte significativa dos nossos juízos são feitos assim: num cruzamento. E assim como o juízo que eu imaginei na cabeça do agricultor está errado, pois eu não sou madraço, nem da cidade e dou o litro cinco dias por semana, também a minha presunção sobre a desgraça do tractorista pode estar longe da realidade. O indivíduo pode muito bem ser dono de toda aquela encosta, não terá chefes nem patrões para aturar, não enfrenta a 2ª circular todos os dias e pode ter passado toda a quinta-feira a dormir porque ainda não chegara a hora de sulfatar.
Entretanto ao chegar a casa, descarrego as fotografias e acho que valeu a pena empatar o sulfatador.
E aqui temos outro cruzamento, agora de épocas. A agricultura artesanal ou moderna, a auto-estrada para os apressados ensimesmados, que perdem a oportunidade de apreciar uma paisagem de postal, e, lá ao fundo, as “ventoinhas” que (talvez) sejam um sinal do futuro.
Há vinte anos atrás, este vale era uma desolação. Os “agrários” tinham sido saneados, os camponeses foram trabalhar para as fábricas, a auto-estrada ainda não era moda e as “ventoinhas” eram uma modernice dos Holandeses que gostam de aproveitar tudo.
Com o rodar do tempo, os agrários vão vendendo o património, as fábricas fecham e os camponeses usam as indemnizações para comprar terras, e o vale ressuscita.
O caminho que o PR aponta já está a ser seguido, mesmo que os comentadores de um tal “Eixo da Presunção” o achem salazarento. Estes senhores, que suponho movimentarem-se exclusivamente no eixo Lisboa-Cascais, devem achar que agricultura é sinónimo de atraso. Suponho também, que nunca terão saído das cidades se alguma vez visitaram a Holanda ou a Suíça.
É fácil julgar rápido. Difícil mesmo, é julgar bem.
Kurioso

