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QUASE

2012/08/03

A conjugação de uma série de condicionantes, profissionais, pessoais e familiares, fizeram com que quase não houvesse férias este ano. Finalmente conseguimos, à ultima da hora, arranjar uns dias e, ao mesmo tempo, encontrar uma casa onde pudéssemos ficar, nós e o nosso zoo.

Porque nós somos privilegiados (ou precavidos) ainda não foi este ano que a troika conseguiu impedir-nos de ir à procura de água quentinha (enfim, um pouco menos fria).

Porque o tempo esteve sempre bom e a estadia foi mais curta, desta vez cobrimos menos área, ficando as visitas limitadas a Tavira, Manta Rota, Vila Real, Ayamonte e Punta del Moral.

Desde o primeiro dia que nos pareceu haver (muito) mais gente do que no ano passado, e as rotineiras visitas ao mercado, padaria, supermercado, cafés e restaurantes, confirmariam isso nos dias seguintes.

Porém, o “refinamento” sociológico que já reportei no ano passado foi ainda mais evidente este ano. A percentagem de Audis, BMs, ou Mercedes era nitidamente superior, pois desapareceram alguns dos Renault, Volkswagen, Toyota e afins. E dentro dos pópós de luxo os intocáveis cá do burgo, com apelidos e comportamentos muito distintos, mas igualmente privilegiados. A crise é uma cena que não lhes assiste!

O aumento da frequência era notório também nos outros povoados, com muitos estrangeiros em Vila Real e em Tavira. E numa visita nocturna a Monte Gordo, aconteceu-nos o caricato de não conseguir um lugar para estacionar o carro numa vulgar noite de semana, pelo que não nos foi possível fazer o “passeio da fama”.

Mas as maiores surpresas, negativa e positiva, acabariam por ser encontradas em Espanha, em Ayamonte e em Punta del Moral. Ayamonte estava a crescer explosivamente e, no espaço de um ano, PAROU. Há urbanizações semi-acabadas por todo o lado, e mesmo a parte acabada está deserta. Duas delas, à beirinha do Guadiana, mostram, através das ervas que crescem por todo o lado, como se podem desbaratar milhões.

Já em Punta del Moral, onde vamos todos os anos peregrinar à cata de fritos como só os espanhóis sabem fazer, a surpresa foi encontrar o lugar a abarrotar. No ano passado, a visita fora um desconsolo pelo deserto “transbordante”: lojas e restaurantes fechados, os resistentes quase vazios, as pessoas com ar sorumbático. Este ano renasceu: tudo aberto e tudo cheio. Os Ingleses foliões e os Espanhóis barulhentos, substituíram os Portugueses cinzentões. 

Punta del Moral era um enclave português na raia espanhola. Quando começaram a aproveitar a língua de areia que os locais desprezaram, os apartamentos eram vendidos a 8000 contos, na época em que o dinheiro abundava do lado de cá. Tudo o que era classe média (ou pensava que era…) vá de comprar um apartamento na praia. A construção era fracota e a praia foleira, mas, que diabo!, um apartamento na praia não é para qualquer um. Naqueles tempos, mais de 30% dos carros tinham matrícula portuguesa. Até que no ano passado colapsou! Nem portugueses, nem espanhóis, nem “bifes”.  

Mas, passado um ano, conseguiram dar a volta ao fado. Os portugueses continuam arredios, mas há ingleses aos montes, salpicados de franceses e alemães, e pargas de espanhóis. Devem ter descoberto que podem ter a mesma areia negra de Torremolinos, num ambiente muito menos caótico. 

Daqui a um ano, se esta porra não for toda pelo ralo abaixo, farei novo relatório.

Kurioso

Tavira

Ayamonte (com Isla Canela lá ao fundo)

Ayamonte (Sinais da crise)

Punta del Moral (no lado do trabalho)

Punta del Moral (no lado do lazer)

POIS…

2011/08/05

Porque a tradição não é só os políticos dizerem uma coisa e fazerem outra, eu venho aqui manter a tradição de escrever sobre as férias.

Para evitar repetir-me, fui ler o que escrevi há um ano e quase fiquei sem assunto. Realmente as coisas nunca mudam muito em Portugal. O que é um mau presságio… (porra! ainda agora cheguei e já estou outra vez azedo).

E porque as coisas não mudam, continua a haver MUITA gente no Algarve, a mesma gente continua a ir para os mesmos sítios e os estereótipos estão cada vez mais definidos: nalguns lugares (quase) toda a gente tem tatuagens, noutros (quase) ninguém tem bonecos no corpo. Nalguns lugares os telelés estão sempre acesos nas mãos da juventude, fazendo lembrar uma procissão de velas, noutros lugares, os meninos não andam com o iPhone à vista.

Mas há sinais de mudança.

A nossa rotina de férias, porque gostamos e também porque queremos algum sossego, é complementar da da grande maioria: eu vou comprar o pão quando eles já vão para a praia; nós vamos para a praia quando eles saem para almoçar; saímos da praia quando eles regressam para o ventinho do fim de tarde; já estamos no restaurante, lavadinhos e bem cheirosos, quando eles saem da praia, etc. Este esquema permitiu-nos, durante anos, ficar com a praia TODA só para nós durante três ou quatro horas, e também livrar-nos das tremendas filas que se formam sempre que uma infra-estrutura deficiente é sobrecarregada.

Pois…este ano, apesar do areal continuar cheio de gente, notaram-se diferenças.  Já não havia filas nas bancas do peixe, apesar dos preços estarem bem razoáveis, e a peixeira reclamava uma quebra de 50%. Já havia fila no pronto a comer e a lista de pratos era maior do que em anos anteriores, indicando aumento de procura. Já havia vagas nos restaurantes “de guardanapo de pano”, e as pessoas já “racham” a sobremesa (prática que nós já seguimos há anos). Já sobraram dezenas de casas que não foram alugadas, provavelmente pelas razões conjugadas de mais donos a precisar duns trocos, e menos “inquilinos” com trocos disponíveis. E há centenas de casas para vender.

E até a nossa solidão no areal, começou a ser ameaçada este ano. Há cada vez mais gente a trocar o churrasquinho ao almoço por umas sandochas na praia.

Porém, não me parece que a invasão estival vá acabar no Algarve. A classe média (seja isso o que fôr…) está a levar um porradão do caraças, mas há duas classes que continuarão imunes: os que estão acima da Lei (as elites) e os que estão do lado de fora da Lei (a economia paralela). Quem conhece o Algarve sabe bem onde encontrar uns e outros. Kuriosamente, estas duas turmas, que raramente se cruzam em lazer (profissionalmente têm contactos assíduos), acabam fatalmente a picar o ponto no Ramires da Guia, esse verdadeiro caldeirão de culturas, e um exemplo de eficiência e especialização restaurativas, digno de um case-study.

E para o ano, se a troika permitir, voltaremos a apreciar estas belas paisagens.

Kurioso

KRISE!

2010/08/06

É mais ou menos tradição eu escrever umas coisas sobre o Algarve, no regresso de férias.

Este ano fui para “baixo” quase com um peso na consciência. Como é que um habitante dum País à beira da bancarrota (não sendo gestor público ou CEO de uma grande empresa) tinha o desplante de ir “3 semanas 3” de férias para uma estância balnear? Quase receava ser apontado a dedo nas praias desertas que iria encontrar…

Pois… o paraíso recatado que escolhemos para veranear já faz 6 anos, tinha este ano a maior enchente de todos os tempos. Porém, com o pormenor interessante de a composição social dos invasores ser nitidamente diferente.

Ao contrário das praias adjacentes, onde a construção turística foi feita de forma caótica, na “nossa” terrinha parece ter havido um plano urbanístico pensado ao pormenor para implantar as largas dezenas de moradias com tipologias diversas mas todas com um jardinzinho e/ou terraço. As ruas ainda hoje são largas, e deviam parecer avenidas há 30 anos. Mesmo com actuais dois ou três carros por casa não há problemas de estacionamento e nunca parece haver muita “lata” à vista. Salvaguardando as devidas distâncias, quase parece uma Vilamoura dos remediados e recatados. Se há característica comum aos proprietários destas vivendas, além da idade já razoável, é a sua discrição, educação e simplicidade.

Serão (seriam) profissionais liberais, quadros médios, pequenos empresários que aproveitaram o desafogo pós 25 de Abril para comprarem a casinha de férias ou da reforma. Escolheram uma zona fora dos holofotes que se adequava à sua maneira de ser. Pertencem à classe que está agora a ser “sugada” para pagar a crise.

Pois uma das formas que esta gente arranjou para “subsidiar” a manutenção destas segundas casas nestes tempos de aperto, foi prescindir do seu uso exclusivo e dá-las a alugar fora do período que reservam para si próprios. Interessante é verificar que este aluguer é quase envergonhado, pois das dezenas de placas que encontrámos na 2ª semana de Julho sobraram meia dúzia no final do mês. Em Agosto não parece bem ter uma placa de aluguer na frente da casa…

E quem veio então aproveitar esta súbita abundância de casas boas, bonitas e “finas”? Pois os representantes daquilo a que eu chamaria a “economia cinzenta”: grandes carrões, roupas coloridas, conversas em altos berros mesmo quando falam dos “esquemas” na fila do pão. Os filhos são tratados aos gritos ou à chapada, e as senhoras não prescindem do salto agulha para ir tomar o café da noite. Parecem ter o rei na barriga, e têm barrigas onde cabia um rei.

Encontrei ainda mais dois ou três sinais desta “deriva social”: O restaurante bonzinho, tranquilo e com uma lista de comida mais elaborada que costumava estar sempre cheio, este ano tinha mesas vagas; as tascas dos grelhados estavam a abarrotar apesar dos preços serem semelhantes; a livraria que abria em Julho, este ano não abriu; as bancadas das bugigangas, inexistentes em anos anteriores, regurgitavam de mirones e clientes.

Eu acredito que há uma crise económica que afecta seriamente 10 a 15% dos Portugueses e onde estão incluídos todos os velhos com reformas de miséria. Acredito também que se os 30 ou 40% que fogem  deliberadamente às suas obrigações laborais, fiscais, sociais e outras quisessem verdadeiramente ajudar o País, esta crise seria facilmente ultrapassada.

Mas os sinais que eu vejo em Monte Gordo ou Vilamoura, no Vasco da Gama ou nas Amoreiras, no Correio da Manhã ou na Exame, levam-me a recear que, mesmo que venhamos a ser um País de sucesso, dificilmente seremos um País civilizado.

Kurioso

ENCERRADO

2010/07/09

 

Entretanto, se não encontrar nada melhor para fazer, aproveitarei o tempo livre para me informar convenientemente sobre alguns temas quentes:

  1. Quem é a mãe do puto?
  2. Quem vai pagar nas SCUT?
  3. A golden share será mesmo de ouro, ou somente lata dourada?
  4. Aconteceu alguma coisa na Casa, ou 7 anos de julgamento foram só para entreter?
  5. O Belenense vai ser candidato, ou não?
  6. Quem tramou a Selecção?
  7. Quem me trama a MIM?

Saudações balneares!

Kurioso

 


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