Posts Tagged ‘Exploração’

WC

2012/06/29

Toda a gente conhece a sigla WC como identificando o sítio onde aliviamos as necessidades secundárias (as primárias são beber e comer, sem as quais não existiriam as secundárias…), mas talvez nem toda a gente saiba que o acrónimo representa as palavras Water Closet, e marca um avanço enorme para a humanidade. As necessidades secundárias passaram a ser resguardadas, Closet, e havia Water para enxaguar a coisa.

No mundo das empresas, porém, existem dois tipos de WC. O já explicado, e também algo chamado Working Capital, que é um pesadelo para qualquer gestor. Quando o descontrolo deste segundo WC é grande, pode até dar origem a frequentes idas ao primeiro WC. Mas, apesar do WC empresarial me provocar algumas insónias, não é de débitos, créditos e inventários que quero falar.

Ou por ter vivido em Moçambique, onde conheci variadíssimos modelos de WC, ou por outra qualquer razão (talvez do foro psicológico), a verdade é que eu sou um curioso de WC. A tal ponto que levei um valente raspanete no convento de Mafra, por estar a mexer na Sanita do Rei. Depois das minhas desculpas, e vendo o meu genuíno interesse, a guardiã da sanita explicou-me o complicado processo de aliviar o Rei. Porque sua Alteza Real era demasiado importante para se deslocar ao WC, o que acontecia era ser-lhe trazida a Real cagadeira, e sua Alteza obrava ali mesmo em frente de toda a Corte. Antes que a senhora entrasse em mais detalhes, expliquei-lhe que a minha curiosidade era meramente tecnológica, dispensando os pormenores fisiológicos

O rastilho para esta divagação da caca, foi a visita aos sanitários do “Rock in Rio” que nunca poderiam ser chamados de WC, pois nem tinham Water nem eram Closet. Atrás de uma barreira de metal alinhavam-se umas quantas casotas de plástico, daqueles que vemos nas obras da auto-estrada, destinadas às necessidades mais consistentes, enquanto as mais fluidas deveriam ser vertidas numa espécie de espremedor gigante onde quatro marmanjos mijam uns de encontro aos outros. Lavar as mãos? Com água do Luso! Uma vergonha!

É claro que em países mais adiantados, como a Hungria, os eventos, gratuitos, têm uma zona de sanitários onde se alinham contentores imaculadamente brancos, com cabinas individuais, e, no topo do contentor, do lado de fora, um lavatório corrido com torneiras e sabonete.

Ah! Cá em Portugal também há destes contentores. Encontrei-os no recinto da Volvo Ocean Race. Por sinal um evento gratuito.

Finalmente, também nestes assuntos de merda, a coisa  resume-se à opção entre a ganância e o respeito pelo próximo.

Kurioso        

 

HISTÓRIA

2012/01/20

Rapaz puxando carreta de carvão numa mina Inglesa. Sec. XIX

Num recente bate-papo facebokiano “zanguei-me” por achar que as pessoas, no seu afã de classificar o marcha atrás que todos estamos a viver, comparavam o próximo futuro com épocas negras do passado.

Ele é o regresso ao sec XIX, ele é o retorno à escravatura, ele é …

Fui elucidado que as pessoas estariam simplesmente a usar a figura da hipérbole. Afinal era somente uma figura de estilo. As pessoas sabem História e têm a noção de que os amargos que estamos a passar AINDA nos deixam muito longe da escravatura, do sec. XIX e até de 3/4 do sec. XX.

Mas, mesmo que tenham a noção da relatividade do retrocesso, há ainda um outro motivo que vai tornar mais difícil a dobragem deste novo cabo das tormentas. Em Portugal há duas abordagens tradicionais à resolução dos problemas: 1. Nega-se a existência do problema. Se ele não existe, não é preciso solucioná-lo. 2. O problema é responsabilidade de OUTROS, por isso EU não tenho que fazer coisa alguma.

Deixem-me dar um exemplo. Há crianças com fome em Portugal, e eu presumo que os pais dessas crianças, antes de lhes faltarem com a comida, prescindiram da TV cabo, dos telemóveis, do tabaco. Essas crianças deveriam ser alimentadas pela entidade oficial mais próxima: as autarquias. Pois então imaginemos quantas refeições poderiam ser compradas com o dinheiro gasto a plantar “palitos” por tudo o que é borda de rua para que NÓS não estacionemos em cima dos passeios.

Mas voltemos à História.

Referi também nesse bate papo, que se as pessoas fizessem uma leitura abrangente da História, ficariam bem mais preocupadas. Todos os impérios Europeus, e foram vários, caíram exactamente da mesma maneira: excesso de riqueza, falta de coesão, lideranças frouxas, intriga palaciana e dissolução dos costumes. Acabaram invadidos pelos  “bárbaros” que os rodeavam e que eram pobres, unidos, comandados com mão de ferro e com uma moral rígida.

O Império Romano do Ocidente durou 5 séculos. O Império Europeu talvez não dure 5 décadas. Esta nossa mania das pressas…

É claro que os invasores de hoje já não vestem peles, nem usam espadas. Dentro dos seus fatinhos clássicos trazem modernos smartphones, e o seu poder está dentro das maletas pretas que carregam.

A História repete-se. Infelizmente para nós.

Kurioso

LEITE

2012/01/13

Por kuriosidade, e também por deformação profissional, não há país que visite onde não tente entrar em, pelo menos, um par de supermercados ou lojas de bairro. Interessa-me observar sortidos, posicionamento das marcas (nossas e da concorrência), gama de preços, conceitos de embalagem, etc.

Deixando de lado todos os outros aspectos “técnicos”, há uma diferença nos preços que é mais ou menos constante em toda a Europa rica (Espanha não conta). Os bens essenciais (arroz, massas, água, gorduras, carne, peixe) são proporcionalmente mais caros, e os bens supérfluos (telemóveis, televisões, computadores, aparelhagens, roupa, sapatos ) são tendencialmente mais baratos. Outra constatação é a elevada percentagem de bens produzidos (ou embalados) localmente.

Seguramente que existirão várias razões concomitantes contribuindo para esta situação, mas eu tenho uma teoria que, explicando a coisa, permite enquadrar também o facto de esses países pagarem às classes baixas salários que atraem milhares de imigrantes.

O facto de as pessoas estarem dispostas a pagar mais pelos bens essenciais, aqueles que vendem TODOS OS DIAS GRANDES VOLUMES, faz com que a parte de baixo da pirâmide seja mais lucrativa, permitindo que todos os envolvidos nesse nível possam ser melhor recompensados. Permite também absorver os custos de mão de obra mais elevados da produção local, que é também ajudada por menores custos de transporte ( e menor poluição…).

É óbvio que isto pressupõe uma cadeia logística JUSTA em que cada um dos elos se limita a ganhar a sua parte proporcional, ao mesmo tempo que procura incessantemente optimizar o seu pedacinho da cadeia total. Isto permitiria pagar JUSTAMENTE ao operário que produz, ao camionista que transporta, ao estivador que armazena, ao repositor que emprateleira, à caixeira que vende. Estas pessoas bem pagas, bem formadas e “bem dispostas” fariam da cadeia logística um “circulo virtuoso”.

Então e por cá, como é?

Pois…É mais um circulo vicioso, com cada um dos intervenientes a querer ganhar o máximo possível estando-se cacando para o equilíbrio do que quer que seja. E começa logo com o consumidor. O arroz vem da China em vez de Coruche, que se lixe. A carne vem da Argentina em vez do Alentejo, porreiro. As laranjas vêm da África do Sul em vez do Algarve, na maior. O leite vem da Polónia em vez do Minho, é branco, não é?

E começa a bola de neve. Se o cliente quer o mais barato possível, vamos à procura disso. Primeiro esprememos o nosso fornecedor, depois esprememos o nosso operador logístico e, finalmente, esprememos a nossa margem. E para que isto aconteça toda a gente é espremida pelo caminho: operário, camionista, estivador, repositor, caixeiro, etc. Como não se paga bem a ninguém, não se exige grande coisa a ninguém. O operário balda-se, o camionista atrasa-se, o estivador estraga, o repositor engana-se, o caixeiro empata.

A recente “batalha do leite”, é só mais um capítulo de uma guerra que já vem de longe. Os produtores de leite são talvez o grupo produtivo mais coeso em Portugal, mas tornam-se impotentes quando os seus concorrentes estão fora do país e praticam preços imbatíveis (por vezes subsidiados pelos seus próprios países).

Entretanto o consumidor, que se sente Rei no meio de tantas atenções, acaba por ser um mero peão neste xadrez destruidor de valor. Enleado pela omnipotente e omnipresente televisão, vai ao engodo dos 2X1 ou 75% de desconto, e não vê que comprando o essencial barato acabará por trazer o supérfluo a preço de ladrão.

E é por tudo isto (e mais umas coisas que eu sei..), que eu só consegui amarelar um sorriso quando ouvi sugestões de boicote.

Kurioso

“ELES”

2011/04/01

É kurioso como a sabedoria popular é basicamente a mesma em qualquer parte do globo, mas utiliza os elementos do seu ambiente para se expressar. Em África o ditado diz que “Quando os elefantes andam à porrada, o capim (erva) é que se lixa”. Cá pelas nossas bandas utilizamos a expressão “Quando o mar bate na rocha, quem sofre é o mexilhão”, para, de uma forma talvez mais poética, dizer exactamente a mesma coisa.

Porque outro ditado diz que “três é a conta que Deus fez” (nas relações amorosas é mais o Diabo…), eu pus-me a magicar sobre três cenas recentes: o protesto dos enrascados; o protesto dos camionistas e o “protesto”do Governo Local. Em todas estas cenas a causa profunda aponta para “ELES”.

Os jovens enrascados descobriram que, depois de longos anos a labutarem para sacar um canudo, coisa em tempos escassa e agora abundante, não conseguem fazer com que “ELES” lhes paguem um salário que permita manter as mordomias a que os seus esforçados e privilegiados pais os habituaram. Reclamam uma solução urgente do Governo Local.

Os camionistas descobriram que, depois de degradarem as suas margens de lucro numa luta fratricida tentando manter ocupação num País onde cada vez há menos produção, não conseguem fazer com que “ELES” aceitem compensá-los dos aumentos dos custos de produção. Reclamam uma solução urgente do Governo Local.

O Governo Local descobriu que, depois de longos anos de amamentação farta, criadora de laços de parasitismo inquebráveis, não consegue fazer com que “ELES” aceitem o desmame e comecem a ser contribuintes proporcionais. Reclama solução urgente do Governo Regional.

E quem são “ELES”?

ELES” são os representantes do Capitalismo Pacóvio e abundam em Portugal. Pertencem a todas as classes sociais, têm muita ou pouca instrução, comandam enormes ou pequeníssimas empresas. Não é o status que os caracteriza, mas sim a forma de actuação. O seu objectivo único é a maximização do lucro a qualquer preço, explorando fornecedores e colaboradores e enganando clientes e estado. Os processos são muito variados, indo desde a quase clandestinidade dos pequeninos até à sábia utilização da legalidade  pelos grandes. “ELES” teceram uma teia de ligações e dependências tão intricada que tudo depende de “ELES” tornando-os invencíveis.

E mesmo quando, ao lutar por território, por mercado, por clientes, parecem estar a oferecer qualquer coisa, há sempre um “mexilhão” por detrás a pagar a oferta. Será que toda a gente sabe que os 50% ou 60% de desconto que nos são gritados na televisão ou nos jornais são pagos pelos fabricantes? Já repararam que não há 50% nas marcas próprias? 

Mas o caricato desta abordagem, é que, sendo de vistas curtas, não consegue perceber que a longo prazo acabará por esgotar aqueles que a sustentam. Finalmente “ELES” acabarão como o escorpião da história, vítimas da sua natureza.

Eu não acredito que a fábrica acima seja muito rentável, mesmo fabricando o modelo de luxo da marca. A VW terá certamente outras fábricas onde vai buscar lucros (o carro que conduzo foi fabricado no México) mas mantém as fábricas na Alemanha cumprindo a sua parte do acordo que fez com os sindicatos. Os sindicatos, por seu lado, conseguiram convencer os seus associados a aceitar reduções de salários que chegaram a 20%, para que os seus postos de trabalho não voassem para um qualquer país do 3º mundo.

É neste Capitalismo Empenhado que eu acredito, e ele é largamente praticado nos países de sucesso deste mundo. O Capital exige uma remuneração razoável para a sua decisão de arriscar, e o Trabalho entende que, não tendo dinheiro ou vontade de arriscar, tem a obrigação de entregar valor em troca do salário que recebe.

Infelizmente em Portugal o relacionamento entre Capital e Trabalho nunca foi equilibrado por culpa de ambas as partes. A seguir ao 25 de Abril o Capital acagaçou-se e deu ao Trabalho tudo o que podia (e também o que não podia…) levando este a acreditar que tudo lhe era devido. É claro que, assim que a maré virou, o Capital (pacóvio) voltou a fazer o mesmo de sempre: explorar o mais fraco. Por seu lado o Trabalho, sentindo-se defraudado nas suas expectativas, retribui com as moedas habituais: fazendo greve onde pode, e baldando-se onde não pode fazer greve.

Felizmente vão havendo excepções (bastantes) e aparecem oásis onde a relação Capital/Trabalho é virtuosa em vez de viciosa. Uma prova disso pode ser encontrada no ranking das melhores empresas para trabalhar, que, kuriosamente (ou talvez não), só tem uma portuguesa entre as dez primeiras.

Resta-nos a esperança de que estas pequenas sementes possam reproduzir-se e criar um novo paradigma. Mas uma coisa é certa: não vai ser fácil acabar com “ELES”.

Kurioso  

 

 

 


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