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ASSUSTADO

2013/05/03

O Grito de Edvard Munch

Nunca fui aquilo a que se costuma chamar de “bravo”. Os “bravos” que desafiam todo o mundo, que andam sempre à pancada, que precisam que os outros os sintam superiores, para eles próprios se considerarem superiores.

Porém, tendo tido a sorte de viver no “mato” entre os seis e os nove anos, numa altura em que um miúdo ainda podia desaparecer durante uma tarde inteira sem que a Mãe se preocupasse, eu comecei bastante cedo a ser razoavelmente destemido. É claro que tinha o meu bando, mas mais do que desafiarmo-nos uns outros, do que gostávamos mesmo era de desafiar a natureza. Ir até ao mar atravessando o pantanal imenso; nadar nas lagoas lamacentas; apanhar massalas para as atirarmos uns aos outros; saltar a cerca da cimenteira porque sim; roubar amendoim e ser corrido à pedrada.

Regressado à civilização para frequentar o Liceu, o desejo de aventura não esmoreceu, e a bicicleta ajudava a estender os horizontes até aos bairros da periferia, onde habitava um outro povo. Um povo que eu nunca cheguei a conhecer verdadeiramente, mas que consegui perceber ser muito diferente do “meu” povo.

Para tornar curta uma longa história, há que saltar várias décadas onde aconteceram muitíssimos choques, mudanças, trambolhões, adaptações, e, sempre, sempre, aquele bocadinho de curiosidade atrevida  que me fazia explorar um pouco além do que o bom senso aconselharia. Sempre observando, sempre aprendendo, sempre relativizando.

Mas a maior cambalhota haveria de me levar para uma empresa global onde tenho acesso a uma visão privilegiada, e assustadora, sobre como o  mundo se comporta verdadeiramente.

E esta visão privilegiada não vem só do manancial de informação, do elevado investimento em formação e da necessidade diária de interacção. Vem também do aproveitamento de todas as viagens, do estudo constante que, ao longo de trinta anos, afinaram aquilo que é uma capacidade fundamental para o  meu trabalho: poder “adivinhar” o futuro.

E o futuro que eu adivinho deixa-me ASSUSTADO.

Kurioso

PENEIRAS

2012/09/28

É meio difícil nos dias de hoje escrever algo que não seja relacionado com a crise, sobretudo para alguém que, segundo as regras de um passado bem recente, estaria agora a desacelerar e a preparar os pezinhos para as pantufas da reforma.

Mas há variadas formas de perceber a crise, e eu tenho tido a sorte (?) de poder apreciá-la (?) ao vivo e a cores em vários países da Europa, apreciação complementada com leituras muito diversas e também conversas com colegas “multinacionais”.

Já por aqui referi o facto de a empresa onde trabalho ter “farejado” esta crise muito antes de os nossos (des)governantes terem sido obrigados a assumi-la. Parecem agora justificados os congelamentos de salários, parecem agora menos injustas “as rescisões por mútuo acordo” (pelo menos para os que ficámos), parece agora aceitável a estrutura anoréctica com que ficámos.

Dentro dessa nova estruturinha, cada um nós herdou o trabalho de um outro que saiu. E foi assim que, de repente, me calhou gerir o dobro das pessoas, o dobro dos produtos e o dobro dos contactos, ao receber uma área de negócio totalmente estranha. Porque a estrutura, além de encolher na horizontal, encolheu também na vertical, reporto agora a um chefe “lá de cima” que não tem tempo para minudências, e debita directrizes por email. Também não é preciso mais.

E porque estamos agora no processo de orçamento para o ano que vem, tive que aprender depressa e dar corda aos neurónios. Entretanto também as viagens aumentaram, e agora além de trabalhar no escritório e em casa, trabalho também nos aeroportos, no avião e em hotéis. Se me sinto cansado? É claro que sinto! Se me dá gozo? Sim! Dá-me um gozo do caraças, poder, aos 62 anos, continuar a aprender, e, sobretudo, partilhar o que consegui aprender ao longo de todos estes anos.

Estou a escrever isto no avião, vindo da Suíça onde participei numa reunião com uma vintena de colegas de toda a Europa. Podia ser pai de todos eles e quase avô de alguns. Em vez de me sentir o fóssil da reunião (ainda por cima um fóssil vindo dum país desgovernado…), consegui mostrar que idade e origem não são obstáculos intransponíveis. O bom senso que resulta da conjugação de estudo com experiência, consegue furar o preconceito mais arreigado.

Dizia eu lá em cima que consigo perceber a crise de variados ângulos e através de várias fases. Na reunião de hoje já não estiveram os meus colegas Espanhóis e Gregos (durante muito tempo recusaram enfrentar a realidade, e agora estão a apagar fogos…). Onde há uns tempos atrás eu encontrava uma abordagem de pesar pelos “coitadinhos dos Portugueses”, vejo agora uma curiosidade interessada em saber como é que a nossa companhia conseguiu prevenir-se e ,manter o moral elevado. Estamos safos? Não sabemos! Mas fomos preparados para trabalhar mais, para trabalhar melhor, para assumir responsabilidades e para querer saber mais do que nos compete. Temos mais probabilidades de nos safarmos.

A importância desta conjugação ficou hoje patente quando comparámos os resultados de dois agrupamentos de países. Num dos casos existe uma estrutura estável com pessoas experientes que foram ganhando competências e credibilidade ao longo dos anos. No outro, uma sequência de reorganizações  fez com que o trabalho ficasse entregue a uma equipa totalmente nova, com fraco conhecimento dos processos e nenhuma experiência que lhes permita criticar os dados que entretanto se tornaram mais voláteis. As decisões “erradas” começam a surgir e introduzem ainda mais confusão num sistema que já ninguém entende. 

Acho que deixei claro que hoje eu estou cheio de peneiras.

Kurioso

CAOS

2012/03/16

“Uma borboleta a bater as asas no Mar da China, pode provocar um tufão no Golfo do México”.

A frase acima foi “cozinhada” por algum jornalista, para explicar de modo mais visual o chamado efeito borboleta, que é talvez a única coisa simples da Teoria do Caos. Esta teoria pretende demonstrar que há ordem dentro do Caos, e, também, que uma pequena acção num determinado sítio, pode provocar uma reacção fortíssima a grande distância.

Passando da teoria à prática, gostava de divagar sobe dois casos que parecem dar razão ao Sr Edward Lorenz.

RAIVA

Há uns anos a trás as autoridades de Saúde Indianas repararam que os casos de raiva, já habitualmente elevados, estavam a disparar, sustentadamente, para níveis muito preocupantes. Procurada a causa de fundo, verificou-se que a população de cães selvagens estava também a aumentar exponencialmente. HAVIA MAIS VECTORES DE TRANSMISSÃO.

Há duas causas principais para o aumento de uma qualquer população selvagem: diminuição de predadores ou aumento de disponibilidade de comida. No caso da população canina, a segunda razão era a que se aplicava: HAVIA MAIS COMIDA .

A alimentação destas matilhas é basicamente constituída por cadáveres de gado que não são enterrados. Será que a mortalidade do gado tinha aumentado significativamente ? As autoridades veterinárias negaram tal hipótese, confirmando que, pelo contrário, a mortalidade do gado estava a diminuir. Era evidente que a disponibilidade absoluta não estava a aumentar, pelo que só restava controlar a disponibilidade relativa. Os cães estavam a conseguir aceder a mais comida, mesmo com a diminuição da quantidade total. A COMPETIÇÃO ESTAVA A DIMINUIR.

Nos seus trabalhos de campo, as autoridades de saúde acabaram por se cruzar com técnicos de conservação da natureza, que reportaram uma mortalidade epidémica que estava a dizimar a população de Abutres, com mortes na casa dos milhões de aves. Ora os abutres são os competidores naturais dos cães. Estava confirmada a DIMUIÇÃO DA COMPETIÇÃO.

E agora?

Era preciso descobrir as causas de tão elevada mortalidade num ambiente que não parecia ter mudado significativamente. Abreviando o fastidioso trabalho de pesquisa toxicológica, resta dizer que os abutres estavam a ser mortos por reacção alérgica ao Diclofenac (o nosso velho amigo Voltaren…), que tinha sido introduzida como meio de combater as febres do gado. ESTAVA ENCONTRADA A “BORBOLETA”.

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OVOS

O gráfico de cima mostra a evolução do preço dos ovos para a indústria, e o de baixo a evolução das “instalações” de galinhas poedeiras, na Europa. É quase certo que o primeiro continuará a subir, porque o segundo continuará a descer.

Mais uma vez há que escolher um dos lados da tradicional equação Procura vs Oferta para encontrar a razão. Numa economia em arrefecimento é óbvio que não é o aumento da procura que está a puxar os preços para cima. Aliás se a procura estivesse a subir, não seria lógico que as “instalações” estivessem a diminuir. PORQUE QUE É QUE OS CRIADORES ESTÃO A DESINVESTIR NOS OVOS?

Porque, mais uma vez, a comissão europeia legislou com SENSIBILIDADE mas sem BOM SENSO, ao proibir a utilização das actuais gaiolas para poedeiras. Uma medida destinada a evitar o sofrimento (?) das galinhas, que pode levar à falência de centenas de criadores, e ao desemprego de milhares de trabalhadores. No início do processo pretendia-se que as actuais gaiolas fossem substituídas por outras muito mais amplas, mas esta substituição implicava a construção de baterias totalmente novas,  com custos de muitos milhões de euros. Para agravar a coisa, a maioria dos ovos são produzidos no sul da Europa, e todos sabemos como escasseia o crédito por estas paragens.

Porém, ao longo dos últimos 10 anos, a directiva foi-se radicalizando, e, agora, as gaiolas foram totalmente banidas.

Desde que as baterias foram inventadas (1931) passaram a ser a forma mais barata e eficiente de produção de ovos. O ambiente podia ser controlado, o  número de animais por metro quadrado era enorme, e o processo exigia muito menos mão de obra. É claro que em paralelo com estes “cage eggs”, sempre se produziram os “barn eggs” (galinhas no chão em ambientes fechados), e os “free range eggs” (galinhas criadas no solo dentro de enormes cercados ao ar livre).

Para se ter uma ideia do que estamos a falar, basta dizer que cada ano, na Europa, 10 milhões de galinhas produzem 3 biliões de ovos. 

E a Europa vai ficar muito tempo sem ovos? Nada disso! Passaremos a importá-los das Filipinas onde as galinhas têm menos direitos. Com sorte chegarão cá um mês depois de postos, mas o carimbo vai dizer que são fresquíssimos.

E os desempregados devido ao colapso de toda uma indústria? Não há problema! O Estado Social cuida deles.

E cá temos a borboleta outra vez. Uma pequena decisão burocrática na Europa, vai permitir aumentar enormemente a produção de ovos no extremo Oriente.

Kurioso    

BABEL

2012/03/02

"I still think that there is no longer a disparity between Lisbon and Warsaw, just as there is no disparity between San Francisco and New York. We will remain a federation, but indissoluble." Umberto Eco

Nestes tempos de crise em que começamos a ver cada vez mais gente pretendendo trocar Soberania por Conforto, defendendo a federalização da Europa, eu gostava de partilhar algumas preocupações.

Mais uma vez vou usar como exemplo uma experiência pessoal: uma reunião pan-europeia realizada no meio da Alemanha (bem a propósito). A reunião durou três dias, e implicou uma viagem de carro de 150kms a partir de Frankfurt. Como estas reuniões têm sempre uma parte de descompressão ao final do dia, deu para ver e tentar perceber mais um pouco o que se passa na terra dos nossos algozes (ou salvadores).

Como o tema é federalismo, não vou maçar ninguém com percentagens, penetrações, alocações, tácticas e estratégias (políticas e politiquices…). As reuniões  de empresas globais são como as matrioskas Russas: há várias encaixadas umas dentro das outras.

À volta da mesa estavam 46 pessoas de 14 nacionalidades, falando DOZE LÍNGUAS. Doze equipas de 4 pessoas? Nã senhor!! Mesmo nesta cena das empresas, a geografia tem uma força do caraças; 12 Alemães; 6 Ingleses; 5 Franceses; 3 Italianos; 3 Polacos e depois a ralé. Ninguém consegue imaginar como a Língua pode ser (e é) utilizada como arma para fazer valer pontos de vista ou pontos de superioridade. A língua “oficial” é obviamente o Inglês, o que dá, logo à partida, alguma vantagem “frontal” aos britânicos. É claro que a vantagem não é total porque “eles” não conseguem comunicar privadamente sem que todos percebam. A seguir os amigos Alemães fazem valer o seu número (e falta de educação) para passarem o tempo todo a guturar entre eles, deixando a maior parte do maralhal a ver navios. Mas, como querem comandar, aprenderam a dominar com mestria a língua dos velhos rivais, estando quase a apanhar os Holandeses, para mim, os verdadeiros poliglotas da Europa.

Mesmo que um dia conseguíssemos encontrar um exemplo microscópico de uma cultura popular (por oposição à cultura das elites) europeia, a INCOMUNICABILIDADE sempre torpedearia qualquer projecto de COMUNIDADE. Uma língua comum pode unir culturas diferentes (EUA, Brasil, Rússia) mas não me parece possível que se consiga criar uma entidade conjugando culturas diferentes E línguas diferentes.

Exemplo 1. Obama vai fazer campanha este ano atravessando todo o território. Com mais ou menos dificuldade, todos vão perceber o que ele diz. A sra Merkel (longe vá o agoiro) resolve candidatar-se a presidente da Europa. Como os 90 milhões de votos que tem em casa não lhe chegam, vem por aí abaixo arengando em Alemão??? Ou será que vai ser o Cameron, ao som do “Rule Britannia”, que tentará convencer “les paysans françaises” de que os “bifes” agora são fixes???

Exemplo 2. Temos um Governo Europeu que vai começar a implementar Leis Europeias. Leis obviamente copiadas dos países ricos que puseram lá os seus Europeus. Ora o povão do resto da Europa votou nos Europeus deles, para vir a ter os carrões deles e os ordenados deles. Quem é que pediu as leis deles??? A GNR faz uma manifestação a EXIGIR a manutenção de todos os direitos adquiridos, a equiparação dos salários às forças da ordem Nórdicas e, já agora, a demissão imediata do Governo Europeu que não compreende as especificidades do nosso Povo.

Penso que, desta vez, não concordo com o Umberto Eco. E penso também que esta porra não vai ser nada fácil. E gostaria de pensar que é só a minha pessimista rabugice sexagenária…

Kurioso 

HISTÓRIA

2012/01/20

Rapaz puxando carreta de carvão numa mina Inglesa. Sec. XIX

Num recente bate-papo facebokiano “zanguei-me” por achar que as pessoas, no seu afã de classificar o marcha atrás que todos estamos a viver, comparavam o próximo futuro com épocas negras do passado.

Ele é o regresso ao sec XIX, ele é o retorno à escravatura, ele é …

Fui elucidado que as pessoas estariam simplesmente a usar a figura da hipérbole. Afinal era somente uma figura de estilo. As pessoas sabem História e têm a noção de que os amargos que estamos a passar AINDA nos deixam muito longe da escravatura, do sec. XIX e até de 3/4 do sec. XX.

Mas, mesmo que tenham a noção da relatividade do retrocesso, há ainda um outro motivo que vai tornar mais difícil a dobragem deste novo cabo das tormentas. Em Portugal há duas abordagens tradicionais à resolução dos problemas: 1. Nega-se a existência do problema. Se ele não existe, não é preciso solucioná-lo. 2. O problema é responsabilidade de OUTROS, por isso EU não tenho que fazer coisa alguma.

Deixem-me dar um exemplo. Há crianças com fome em Portugal, e eu presumo que os pais dessas crianças, antes de lhes faltarem com a comida, prescindiram da TV cabo, dos telemóveis, do tabaco. Essas crianças deveriam ser alimentadas pela entidade oficial mais próxima: as autarquias. Pois então imaginemos quantas refeições poderiam ser compradas com o dinheiro gasto a plantar “palitos” por tudo o que é borda de rua para que NÓS não estacionemos em cima dos passeios.

Mas voltemos à História.

Referi também nesse bate papo, que se as pessoas fizessem uma leitura abrangente da História, ficariam bem mais preocupadas. Todos os impérios Europeus, e foram vários, caíram exactamente da mesma maneira: excesso de riqueza, falta de coesão, lideranças frouxas, intriga palaciana e dissolução dos costumes. Acabaram invadidos pelos  “bárbaros” que os rodeavam e que eram pobres, unidos, comandados com mão de ferro e com uma moral rígida.

O Império Romano do Ocidente durou 5 séculos. O Império Europeu talvez não dure 5 décadas. Esta nossa mania das pressas…

É claro que os invasores de hoje já não vestem peles, nem usam espadas. Dentro dos seus fatinhos clássicos trazem modernos smartphones, e o seu poder está dentro das maletas pretas que carregam.

A História repete-se. Infelizmente para nós.

Kurioso

PPP

2011/05/13

Mais uma vez estas coisa das siglas pode ser enganadora. Eu não tenho factos que me permitam criticar as “Parcerias Público Privadas”, se bem que, a crer em milhentos comentadores, me pareça mais “Privado Papando Público”.

Quero antes falar daquilo que parece uma fatalidade: Pequeno & Periférico = Pobre.

Na minha actividade profissional sinto todos os dias os efeitos penalizadores de sermos um País pequeno e periférico, e à força de tanto resmungar sobre o assunto, comecei a pensar se haveria um padrão.

As consequências do rebentamento do BALÃO, tornaram disponível paletes de informação sobre países que tinham passado despercebidos durante décadas, e mastigando essa informação parece ser possível encontrar semelhanças.

Começando pela Europa, é fácil confirmar que um país pode ser pequeno, mas, se estiver no centro, terá condições para se safar: Suíça, Áustria, Holanda, Bélgica. Por outro lado, pode estar na periferia, mas, se for grande, também consegue manter-se no pelotão da frente: Polónia, Rússia, Espanha, Itália. É claro que se for grande e estiver no centro, tudo se conjuga a seu favor: Alemanha, França e Inglaterra.

E se a África parece ser um caso perdido, nas Américas conseguimos encontrar um conjunto de PPP todos juntinhos na América Central. Também na Ásia o gigantismo de China e Índia tornou PPP todos os outros.

Há uma gritante excepção a esta regra que são os países nórdicos. São Pequenos e Periféricos mas riquíssimos. Quanto a mim, o mérito é todo dos seus habitantes. Por qualquer razão, genética ou ambiental, estão dotados de uma capacidade de resistência e de luta que lhes permite cair e levantar as vezes que forem necessárias. Não têm grandes riquezas naturais, a natureza é madrasta, tudo o que produzem é caríssimo, mas estão lá à frente. E conseguem fazer tudo isto quase sem falar (é absolutamente constrangedor ficar sozinho com um nórdico…), ou talvez por falarem pouco é que trabalham muito.

A Pequenez e a Periferia têm consequências específicas e, nalguns casos, uma potencia as consequências negativas da outra. E se no  meu caso profissional eu sofro o impacto físico de estar num país P&P, ao tentar trazer de muito longe as pequenas quantidades que necessitamos, há também consequências sociais, culturais, económicas, etc. Um país pequeno não pode, por pura incapacidade demográfica, ter uma grande quantidade de pessoas excepcionais, pois elas aparecem como uma percentagem ínfima do total da população. Por outro lado, à pequena diversidade que resulta da pequenez, junta-se o factor distância que impede que as pessoas sofram e aceitem o impacto de outras culturas que sempre são motivo de aprendizagem e alargamento de horizontes. No nosso caso particular, a tradicional “aversão” aos nossos únicos vizinhos tornou as coisas ainda mais difíceis.

É curioso que os dois maiores movimentos migratórios portugueses, a emigração para a Europa e a guerra de África, tiveram, em termos de alargamento de mentalidades, impactos completamente distintos. Os emigrantes europeus ficaram “enquistados” nos países de acolhimento e defenderam-se preservando a sua cultura e assimilando quase nada do meio envolvente, que, primeiro, não percebiam por causa da língua e, mais tarde, porque o fosso cultural era demasiado largo para ser transposto. Já os soldados enviados para África, confrontaram-se com duas realidades, a branca e a negra, muito diferentes da continental mas não tão diferentes que implicassem rejeição. E foram impactados por essas duas realidades de uma forma tão relevante, que, nós retornados, lhes devemos a maior parte da pouca  compreensão com que fomos aqui recebidos.

Mas esta nossa rejeição do diferente, do estranho, não é de hoje, e não parece que os inter-rail e os Erasmus consigam fazer com que a grande massa mude. Mesmo os pacotes de viagens que permitem a milhares de Portugueses visitar o desconhecido, não passam disso mesmo: uma visita  ao desconhecido, de preferência dentro de um autocarro e com um guia que fale a nossa língua.

E não temos Portugueses do Mundo? Temos sim senhor! Mas porque não os compreendemos, e continuamos a achá-los estrangeirados, como há 2 séculos atrás, eles vêm cá nas férias e vão ficando lá pelo Mundo.

Porque somos Pequenos & Periféricos, deveríamos querer aprender e entender. Porque não podemos ser mais e maiores, deveríamos querer ser MELHORES.

Kurioso  

TEMPO

2010/04/02

 

 

Tempo é Dinheiro” é uma frase normalmente conotada com a cultura americana, e parece fazer sentido que assim seja, pois aqui pela Europa o Tempo é esbanjado como se não valesse nada.

Para mim, uma das possíveis razões pode ter a ver com o nosso passado. Afinal nós descendemos de camponeses e nobres, classes que não são propriamente reconhecidas pelas suas qualidades de gestão de tempo. Mais tarde surgiram os comerciantes, outra classe que, ao sobreviver à base do paleio, parece ter todo o tempo do mundo. E, mesmo quando chegamos aos industriais europeus, verificamos que não são mais do que burgueses que construíram fábricas e pensam que são nobres. Se alguma coisa os preocupava seriam os custos e nunca a produtividade, pois pagavam salários de miséria aos seus operários.

Mas, se os Americanos são descendentes de emigrantes europeus, porque se tornaram diferentes? Pela simples razão de que os emigrantes tiveram que enfrentar um ambiente hostil que os obrigou a deixar de lado as ineficiências trazidas da velha Europa. E mesmo assim a coisa não foi pacífica, pois o Sul beneficiando do trabalho escravo rapidamente implantou um modelo de sociedade bem próximo do europeu. A Guerra da Secessão foi sobretudo um confronto sociológico: as opções liberais e igualitárias do Norte contra a aristocracia conservadora do Sul.

Toda esta divagação serviu só para chegar à ideia que motivou este post. Esta semana, um acontecimento corriqueiro e alguns comentários posteriores levaram-me a pensar que “Dinheiro é Tempo”.

Fomos a uma Loja do Cidadão para renovar o BI, que agora iria sofrer um upgrade para CC. Chegados por volta das nove horas, calha-nos a senha nº 80 e o marcador ia no 34. Dez minutos depois o marcador subira para 36. Um rápido cálculo mental dá para perceber que a coisa ia demorar horas, assumpção confirmada por um mapa onde se indicavam os tempos de espera dos vários postos onde se emitiam CC. Oooops! Afinal há VÁRIOS (alguns dez só em Lisboa) sítios onde se pode enfrentar a “máquina biométrica” para se conseguir o cartãozinho inteligente, com chip e tudo. Num deles, o tempo de espera estimado são 4 minutos. Outro cálculo simples e dá para perceber que vale a pena ir à procura de alternativa. Piramo-nos dali, fazendo feliz o nº 81.

Quinze minutos depois estamos dentro de uma repartição novinha em folha, onde seis funcionárias aguardavam pelos clientes. Porque rodeadas de um ambiente agradável e sujeitas a menor pressão, tratam as pessoas com uma simpatia e solicitude que já não são habituais. Mais quinze minutos de burocracia e conversa interessante e estamos na rua.

À noite enquanto comentávamos o tema surgiu a frase “aquilo parecia a sala de espera de um hospital”. De facto eram as mesmas cadeiras, o mesmo trato impessoal e carrancudo, a mesma impaciência de funcionários e impacientes, as mesmas palavras ásperas e resmungos. Entretanto, ao lembrar-me que o meu seguro de saúde me permite usufruir de um hospital onde o dinheiro compra tempo, pus-me a pensar em todas as outras situações semelhantes.

Deixando de lado a mais óbvia de todas que é aquela onde os nossos socialites compram anos de vida em qualquer corporação estética, há inúmeras situações onde Dinheiro é Tempo.

Na Zara resmungamos “estas gajas não poderiam ir debater as investidas do chefe para outro lado em vez de estarem a tapar as camisolas” e depois enchemo-nos de paciência para esperar na fila enquanto as meninas da caixa vão pachorrentamente retirando alarmes, dobrando camisas e passando cartões na ranhura, ao mesmo tempo que comentam as bezanas dos namorados. Porém se formos à Labrador temos um empregado à nossa espera que nos auxilia na escolha, aguarda pacientemente à entrada do provador, depois, num supremo acto de respeito pelo Cliente, ajoelha à nossa frente para marcar as bainhas, e finalmente dá a volta ao balcão para nos entregar o saquinho, poupando-nos o trabalho de levantar o braço para recebê-lo.

No restaurante (?) self-service esperamos na fila, recolhemos as ferramentas, fazemos o prato, pagamos e recebemos uma tonelada de moedas de troco, andamos como baratas tontas de tabuleiro na mão à procura de uma mesa e resmungamos “ porra! Esqueci-me da fruta. Que se lixe, fica para amanhã”. Porém se formos a um Restaurante o garçon faz uma vénia sorridente, acompanha-nos à mesa e empurra a cadeira para debaixo do nosso derriére (ia a dizer cu, mas num restaurante destes fica mal…). Enquanto esperamos pelo prato, que irá ser confeccionado especialmente para nós, teremos o hors-d’oeuvre para matar o tempo.

Para estacionar o carro, todos os dias eu dou voltas à procura de um lugar sem parquímetro e depois ando dez minutos até ao serviço. Porém nos dias em que “dou uma de rico” tenho um lugar à minha espera no parque mesmo em frente ao escritório.

É evidente que toda esta poupança do nosso tempo tem que custar dinheiro, pois em todos os lados onde alguém está à nossa espera, estará a ser pago para não fazer nada. O mais caricato é que, como esperamos ser muito bem atendidos quando pagamos mais, os empregados que esperam por nós ociosamente tendem a ser muito melhor pagos que os desgraçados que não param o dia inteiro.

Realmente ter Dinheiro pode ajudar a poupar muito Tempo.

Kurioso

PS. Se calhar estavam à espera que eu falasse das luvas, dos subornos e do tráfico de influências, mas isso já começa a enjoar.


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