Posts Tagged ‘Egoísmo’

MUROS OU PONTES

2013/04/19

“Só quando os que sofrem sentirem o amparo dos mais afortunados e estes partilharem de boa vontade com os deslocados se poderá evitar uma tempestade que arrastará uns e outros.” João César das Neves

Eu fui criado num tempo e num espaço onde havia solidariedade.

Não havia igualdade, pois igualdade não existe em lado nenhum, mas as quatro ou cinco sociedades que partilhavam o referido espaço eram solidárias dentro de si próprias e, em menor grau, entre si. Eram mundos tão diferentes que o convívio não era fácil. Porém, as diferenças eram toleradas e até respeitadas. As pontes eram frágeis, mas não havia muros. Tirando um pequeníssimo grupo de privilegiados, a VIDA era difícil para todos, e a dificuldade gera solidariedade.

Quando, neste tempo e neste espaço, eu olho para uma sociedade teoricamente homogénea, que teria tudo para ser solidária, e a única coisa que vejo é um egoísmo exacerbado, uma capacidade ilimitada para o insulto rasteiro, um apoucar ou amesquinhar tudo o que é diferente, um fazer e desfazer de ligações suportadas unicamente por interesse e uma glorificação do fátuo, eu sinto-me nostálgico.

E quem perceber um pouco de História, saberá que esta Europa, que nós julgamos superior, esteve mergulhada dez séculos em trevas, quando os muros feudais substituíram as pontes romanas.

Curiosamente, as Cruzadas, que mais não eram do que uma forma de aliviar a pressão dentro dos muros, acabaram por ter como efeito secundário a criação de novas pontes. E aparecem o Renascimento, os Descobrimentos, a Revolução Industrial.

Parecia estar aberto o caminho para o progresso universal.

Mas as pontes são por natureza mais frágeis do que os muros, e o Homem trabalhou afincadamente para destruí-las.

Oxalá me engane, mas parece-me que vamos a caminho de nova era de MUROS.

Kurioso

 

  

DIFERENÇAS

2012/11/09

PRÓLOGO: EU VOU ESCREVER SOBRE AQUILO QUE VIVI. É UMA OPINIÃO SUBJECTIVA BASEADA EM OBSERVAÇÕES DOS ACONTECIMENTOS.

Há por aí várias pessoas a interrogarem-se porque é agora diferente a “pancada” da intervenção do FMI, comparada com a de 1980.

Se eu tivesse que escolher uma única palavra como sendo a responsável pela diferença, ela teria que ser FACILIDADE. Porque a facilidade induz nas pessoas sentimentos de egoísmo, de exigência e de irresponsabilidade.

O país que apertou o cinto em 1980 tinha passado por um período relativamente curto de “facilidades” mas ainda tinha memória de 1973 e sabia que algumas das facilidades poderiam ter sido excessivas. Ainda não era um Portugal egoísta, exigente e irresponsável. As pessoas tinham visto o seu rendimento multiplicar-se por dois ou três, mas foram comedidas a utilizá-lo. O aperto foi somente um retrocesso temporário, que nunca foi entendido como um regresso ao passado.

Mas, nessa altura, os casamentos ainda davam famílias duradouras, só havia (quando havia) um carro em cada casa, a renda era razoável, a televisão estava na sala e o telemóvel…não havia…sido inventado. Austerizar era simples.

Entretanto evoluímos! E o que era um luxo, passou a ser essencial. Um carro para cada um, casa própria para os remediados, duas casas para os mais afoitos, uma televisão em cada divisão, um telemóvel todos os anos (aquilo desactualiza-se num instante). Os casamentos, que entretanto passaram a exigir uma cerimónia de milhares de euros e lua-de-mel num paraíso tropical, implicavam uma casa completamente mobilada e  com o último grito da tecnologia.

O facto de os ordenados, mesmo melhorzinhos, não chegarem para tudo isto, era facilmente contornado com a nova modalidade do “goze agora e pague depois”.

Mas…e aqui é um mas terrível, descobre-se que o casamento “não satisfaz o meu conceito de realização e felicidade” e não se pode ficar amarrado a algo que deixou de ser gratificante.

“O individualismo e a busca da felicidade pela felicidade ditam, muitas vezes, o final de casamentos e relações após poucos meses de convivência. Nas sociedades modernas, recorde-se, o objectivo é ser feliz. Por vezes, custe a quem custar.” Engrácia Leandro, Socióloga

De repente, aquilo que se conseguia equilibrar em conjunto, torna-se incomportável em separado. Sobretudo porque os “essenciais” nunca mais deixarão de o ser, e nesta altura já não há a ajuda das prendas de casamento. Há que recomeçar, e até mesmo o abençoado crédito, que a dois fora tão fácil de obter, começa a tornar-se mais difícil.

E é por isso que esta “pancada” vai ser muito mais dura, e duradoura, do que as anteriores. Estamos mais egoístas, mais exigentes, mais sozinhos e… endividados.

Infelizmente é a parte do endividados que vai fazer a diferença entre os aflitos e os enrascados, e, quanto a mim, é aquela onde as pessoas ainda têm alguma desculpa. Era preciso ser muito duro de ouvido ou tê-los cheios de cera como os marinheiros de Ulisses, para resistir ao canto de sereia dos bancos.  Bancos que, cumprindo a profecia das sereias, se preparam agora para sacrificar os incautos que os ouviram.

Mas há uma característica que é comum a todas as crises: sempre são as mulheres a ficar com a parte mais pesada. Seja segurando um posto de trabalho que os maridos por vezes não conseguem segurar, seja aguentando o “fardo” dos filhos quando a parceria soçobra.

Kurioso          

 

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2012/04/27

“ask not what your country can do for you — ask what you can do for your country” John F. Kennedy

 

Trinta e oito anos passados sobre o enterro da ditadura, parece-me que, não só não conseguimos utilizar a Liberdade democrática para nos libertarmos de uma série de vícios, como  ainda fomos capazes de criar outros.

Se me pedissem para resumir o que aconteceu em Portugal nos últimos 37 anos, eu fá-lo-ia numa única frase: TROCÁMOS O ALTRUISMO PELO EGOISMO. A seguir poderia detalhar mais um pouco referindo que trocámos as ideias pelo prazer; trocámos o emocional pelo físico; trocámos o futuro pelo presente.

E, como em todos os movimentos sociais, também aqui as causas não são únicas, e, na sua multiplicidade, conjugam-se para originar consequências diversas e imprevisíveis. No nosso afã de nos vermos livres da Ditadura, deitámos fora “o bebé com a água do banho” *. Trocámos a opressão total pela liberdade total; trocámos os deveres totais pelos direitos totais; trocámos o patriotismo fascista pelo internacionalismo socialista. Trocámos o DAR pelo RECEBER.

O Portugal que saiu do 25 de Abril era relativamente simples de esquematizar: uma elite económica (que fugiu ou se travestiu de progressista); uma elite intelectual de esquerda (que regressou do exílio e se apoderou do aparelho do estado); uma minoria educada (que tentou resguardar-se do vendaval da mudança); uma maioria inculta (que foi “comprada” com benesses que recebeu acriticamente pensando que a providência seria eterna).

Sem o filtro dos valores “retrógrados”, a abundância diluviana, em vez de nos tornar mais solidários, tornou-nos mais ambiciosos. Nós tínhamos direito a TUDO, como compensação eterna de não termos tido direito a NADA durante 4 décadas. E, no afã de querer o Mundo, abandonámos a Pátria (essa palavra tão fascista). Abandonámos os campos; abandonámos o interior; abandonámos as cidades; abandonámos os velhos; abandonámos os jovens; abandonámos a cultura; abandonámos a vontade de aprender; abandonámos o gosto de trabalhar.

Como qualquer viciado, descobrimos agora que estamos agarrados e não temos dinheiro para o próximo chuto. Alguns passaram a roubar, outros a desviar e muitos limitam-se a exigir que seja retomado o fornecimento grátis. E TODOS acham que são mais importantes que o vizinho. No desespero de salvar qualquer coisa do naufrágio, todos aqueles que têm algum poder de alavancagem (o corrector ortográfico não reconhece a palavra, mas os financeiros conhecem-na de cor), sindicatos, corporações, bancos, monopólios, grandes empresas, tudo farão para sacar o seu quinhão, mandando às urtigas qualquer resquício de patriotismo e/ou solidariedade.

Num mesmo telejornal, duas classes, uma de cada extremo do leque social, deram provas evidentes do seu empenho na salvação do País. Os funcionários da Carris vão fazer greve entre os dias 7 e 13 de Maio, mas só uma hora por turno para não perderem os vários subsídios diários (afirmação do seu representante). Ou seja, vão fornicar a vida a 500000 pessoas mas só perdem uma horita. Eu não sei se os funcionários da Carris são ou não privilegiados (há por aqui umas dicas) mas não me parece que seja parando que se faz avançar o País. Logo a seguir tivemos a surpresa de ouvir o bastonário da ordem dos médicos afirmar que a ordem vai implementar exames para a admissão dos novos médicos, pois o País já tem médicos a mais. A ideia é proteger a saúde dos portugueses, pois parece que alguns novos médicos são incompetentes (afinal eles só precisaram de 19 para entrar na faculdade). Podemos assim ficar descansados, pois depois de esperarmos 6 meses, ou desembolsarmos 150€, seremos escrutinados pelo Hipócrates himself. O sr. se calhar até tem razão, afinal Portugal está num honroso 26º lugar no nº de médicos por 1000 habitantes. Mas, se assim é, por que caraças esperamos tanto, ou pagamos tanto.

Mas estes são só dois exemplos de falta de solidariedade de quem tem algum poder. Mas, finalmente, todos nós fomos apanhados pelo vírus do egoísmo: quando passámos a comprar na grande distribuição (essa trituradora da indústria nacional) condenando à morte as pequenas mercearias; quando passámos a comprar no “chinez” (essa guarda avançada, não sabemos de quê) condenando à morte o pequeno comércio; quando, para continuar a alimentar os nossos vícios tecnológicos, deixámos de comer fora, condenando à morte centenas de pequenos restaurantes. Porque nós condenamos os operadores de telecomunicações e de multimédia, mas são as únicas lojas que ainda têm filas à porta.

Culpar os políticos pelo insucesso do País, é só uma forma cómoda (e cobarde) de nos desculparmos a nós próprios.

Na passada 4ª feira, 10 milhões de portugueses encontraram facilmente um ou muitos responsáveis pelo seu sufoco. Quantos terão olhado para o espelho e pensado: “o que posso EU fazer mais para ajudar o meu País?” 

Kurioso

 * Kuriosamente, enquanto procurava pela expressão “bebé…água do banho” encontrei-a aplicada, com o mesmo sentido, na defesa de alguns princípios das ditaduras comunistas.

NATAL

2011/12/23

Não é provável que este bebé se chame Jesus. Também seria uma grande coincidência que os pais se chamassem Maria e José. E também não é provável que tenha nascido num estábulo.

Mas, ao contrário de Jesus, e passados dois milénios de civilização, este bebé foi enjeitado pelos pais e é agora um protegido do Refúgio Aboim Ascensão.

A fotografia foi-nos enviada com uma nota de agradecimento pela nossa contribuição mensal. É gratificante saber que há seres humanos do outro lado de uma banal transferência bancária. É ainda mais gratificante saber que uma vida que começou mal pode, devido ao empenho de uns poucos e com a contribuição de muitos (?), vir a tornar-se um ser humano completo.

Mas a razão que me levou a falar de algo que já acontece há vários anos, foi a coincidência de ter recebido a fotografia no final do dia em que estivera a “bater bolas” com uma colega que reclamava da falta de qualidade dos lares de terceira idade do Estado. Argumentava ela que o Estado não está a dar as condições necessárias para que as pessoas se consigam “ver livres” dos seus velhos. À minha afirmação de que compete a cada um de nós cuidar dos nossos progenitores, recebi de volta um escandalizado “mas eu não posso!”. Não sabendo tudo, eu sei que a minha colega tem 3 carros em casa (um para a filha de 18 anos), casa própria em Lisboa e no Algarve, e mais todas as outras coisinhas que tornam a vida suportável.

Nos últimos tempos tem-se confundido muito NÃO QUERER com NÃO PODER.

BOM NATAL!

KURIOSO

UNIÃO?!

2010/09/24

 

Mais uma vez a picadela da notícia na rádio:”…um dos 10 sindicatos da PSP…”, e pus-me a matutar.

Ao contrário das grandes empresas onde trabalhei, que tendo dentro das sua instalações inúmeras profissões eram obrigadas a negociar com vários sindicatos, parecia-me que a PSP era um corpo relativamente homogéneo (uma única profissão) pelo que bastaria um sindicato para representar os seus membros.

E afinal quantos membros compõem a PSP? Pois rondarão os 22000. Se a divisão fosse equitativa, teríamos um sindicato para cada 2200 polícias, mas como nada é equitativo na natureza, presumo que haja sindicatos com umas poucas centenas de filiados.

Depois lembrei-me de várias outras classes profissionais (professores, médicos, enfermeiros) que criaram várias entidades representativas, e algumas com particularidades interessantes: os médicos têm uma Ordem e vários sindicatos; os professores, com a mesma habilitação, chegam a ter sindicatos diferentes consoante a universidade onde se formaram.

Toda esta diversidade pode ser sustentada pela necessidade de organismos específicos para defender interesses específicos, mas, para mim, não é mais do que um exemplo de falta de união. Parece fazer parte do código genético dos portugueses a incapacidade de trabalhar em conjunto para o bem comum. Se juntarmos a isto a necessidade de protagonismo, o compadrio, a politização da área laboral, a veneração das personalidades, chegamos ao sindicato “para mim e para os meus amigos”.

Mas o mais caricato, é que se dividíssemos, de uma forma simplista, a humanidade em explorados e exploradores, é no lado dos explorados que a falta de união se torna mais evidente. Os mais fracos, que, não tendo o poder da força, poderiam fazer valer o poder do número, deixam-se dividir e arregimentar pelo paleio de meia dúzia de tagarelas que depois conduzem os seus pequenos exércitos a batalhas espúrias ou radicais. Em Portugal, o velho aforismo “dividir para reinar”, não precisa de ser implantado pelos “reinantes”. Nós tratamos de nos dividir de livre vontade.

Já no lado dos “exploradores”, apesar das guerras sem quartel no campo económico, a necessidade de terem uma única voz face ao mundo é reconhecida quase unanimemente. Um bom exemplo é a APIFARMA, que conta com 132 associados, desde as maiores multinacionais até à pequena empresa familiar. Estas empresas têm,entre si, diferenças bem maiores do que aquelas que possam separar um “polícia de giro” de um “policia de choque”, mas juntam-se para defender o seu objectivo final: obter lucro. E conseguem fazê-lo porque não deixam que a componente pessoal interfira nas decisões empresariais.

Este espírito de união entre os exploradores não é porém universal, pois ainda vamos sabendo de associações empresariais onde os “vícios” dos empresários se sobrepõem às “virtudes” das empresas, e, após as peixeiradas da ordem, lá vêm as quintinhas para que todos possam mandar à vontade.

Finalmente vamos sempre parar à mesma causa primária: a cultura (no sentido lato de educação, instrução, informação).

E enquanto a cultura não chegar, não há Sócrates que nos valha. Nem Aristóteles, nem Platão, nem Coelho.

Kurioso


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