“ask not what your country can do for you — ask what you can do for your country” John F. Kennedy
Trinta e oito anos passados sobre o enterro da ditadura, parece-me que, não só não conseguimos utilizar a Liberdade democrática para nos libertarmos de uma série de vícios, como ainda fomos capazes de criar outros.
Se me pedissem para resumir o que aconteceu em Portugal nos últimos 37 anos, eu fá-lo-ia numa única frase: TROCÁMOS O ALTRUISMO PELO EGOISMO. A seguir poderia detalhar mais um pouco referindo que trocámos as ideias pelo prazer; trocámos o emocional pelo físico; trocámos o futuro pelo presente.
E, como em todos os movimentos sociais, também aqui as causas não são únicas, e, na sua multiplicidade, conjugam-se para originar consequências diversas e imprevisíveis. No nosso afã de nos vermos livres da Ditadura, deitámos fora “o bebé com a água do banho” *. Trocámos a opressão total pela liberdade total; trocámos os deveres totais pelos direitos totais; trocámos o patriotismo fascista pelo internacionalismo socialista. Trocámos o DAR pelo RECEBER.
O Portugal que saiu do 25 de Abril era relativamente simples de esquematizar: uma elite económica (que fugiu ou se travestiu de progressista); uma elite intelectual de esquerda (que regressou do exílio e se apoderou do aparelho do estado); uma minoria educada (que tentou resguardar-se do vendaval da mudança); uma maioria inculta (que foi “comprada” com benesses que recebeu acriticamente pensando que a providência seria eterna).
Sem o filtro dos valores “retrógrados”, a abundância diluviana, em vez de nos tornar mais solidários, tornou-nos mais ambiciosos. Nós tínhamos direito a TUDO, como compensação eterna de não termos tido direito a NADA durante 4 décadas. E, no afã de querer o Mundo, abandonámos a Pátria (essa palavra tão fascista). Abandonámos os campos; abandonámos o interior; abandonámos as cidades; abandonámos os velhos; abandonámos os jovens; abandonámos a cultura; abandonámos a vontade de aprender; abandonámos o gosto de trabalhar.
Como qualquer viciado, descobrimos agora que estamos agarrados e não temos dinheiro para o próximo chuto. Alguns passaram a roubar, outros a desviar e muitos limitam-se a exigir que seja retomado o fornecimento grátis. E TODOS acham que são mais importantes que o vizinho. No desespero de salvar qualquer coisa do naufrágio, todos aqueles que têm algum poder de alavancagem (o corrector ortográfico não reconhece a palavra, mas os financeiros conhecem-na de cor), sindicatos, corporações, bancos, monopólios, grandes empresas, tudo farão para sacar o seu quinhão, mandando às urtigas qualquer resquício de patriotismo e/ou solidariedade.
Num mesmo telejornal, duas classes, uma de cada extremo do leque social, deram provas evidentes do seu empenho na salvação do País. Os funcionários da Carris vão fazer greve entre os dias 7 e 13 de Maio, mas só uma hora por turno para não perderem os vários subsídios diários (afirmação do seu representante). Ou seja, vão fornicar a vida a 500000 pessoas mas só perdem uma horita. Eu não sei se os funcionários da Carris são ou não privilegiados (há por aqui umas dicas) mas não me parece que seja parando que se faz avançar o País. Logo a seguir tivemos a surpresa de ouvir o bastonário da ordem dos médicos afirmar que a ordem vai implementar exames para a admissão dos novos médicos, pois o País já tem médicos a mais. A ideia é proteger a saúde dos portugueses, pois parece que alguns novos médicos são incompetentes (afinal eles só precisaram de 19 para entrar na faculdade). Podemos assim ficar descansados, pois depois de esperarmos 6 meses, ou desembolsarmos 150€, seremos escrutinados pelo Hipócrates himself. O sr. se calhar até tem razão, afinal Portugal está num honroso 26º lugar no nº de médicos por 1000 habitantes. Mas, se assim é, por que caraças esperamos tanto, ou pagamos tanto.
Mas estes são só dois exemplos de falta de solidariedade de quem tem algum poder. Mas, finalmente, todos nós fomos apanhados pelo vírus do egoísmo: quando passámos a comprar na grande distribuição (essa trituradora da indústria nacional) condenando à morte as pequenas mercearias; quando passámos a comprar no “chinez” (essa guarda avançada, não sabemos de quê) condenando à morte o pequeno comércio; quando, para continuar a alimentar os nossos vícios tecnológicos, deixámos de comer fora, condenando à morte centenas de pequenos restaurantes. Porque nós condenamos os operadores de telecomunicações e de multimédia, mas são as únicas lojas que ainda têm filas à porta.
Culpar os políticos pelo insucesso do País, é só uma forma cómoda (e cobarde) de nos desculparmos a nós próprios.
Na passada 4ª feira, 10 milhões de portugueses encontraram facilmente um ou muitos responsáveis pelo seu sufoco. Quantos terão olhado para o espelho e pensado: “o que posso EU fazer mais para ajudar o meu País?”
Kurioso
* Kuriosamente, enquanto procurava pela expressão “bebé…água do banho” encontrei-a aplicada, com o mesmo sentido, na defesa de alguns princípios das ditaduras comunistas.