“Escolher as actividades extra-curriculares dos putos é uma canseira”
“Uma criança faz anos, e os pais entregam a festa a uma empresa de eventos”
“O McDonald’s é um sucesso em Portugal”
Todas as afirmações acima estão relacionadas com a trilogia tirânica que governa a vida moderna:
1. Os outros também fazem;
2. Dá muito trabalho;
3. É pouco mais caro do que fazer em casa.
Deixando de lado as duas primeiras, onde as minhas opiniões seriam certamente consideradas tendenciosas, vou divagar sobre a atracção fatal que McD, esse paradigma do capitalismo, exerce sobre o povo.
Devo referir que, neste caso, a minha opinião é cem por cento tendenciosa pois eu nunca comi num McD. Primeiro porque havia filas enormes, depois porque o cheiro não me agradava, a seguir porque caixinhas de cartão e saquinhos de papel não me abrem o apetite, e ultimamente só mesmo por casmurrice.
Mas, porque eu gosto sempre de encontrar a causa das coisas, o sucesso do conceito fazia-me confusão. Até que reparei no “ovo de Colombo” por detrás da coisa. O aparato tecnológico que envolve o processo de nos fornecer sempre a mesma coisa em qualquer parte do mundo, é uma causa do aprimoramento económico do negócio, e não uma consequência do eventual gosto dos consumidores. É claro que a publicidade se encarrega de converter toda aquela racionalização em mais valias para o pagante: o cosmopolitismo (ufa!) de comer um hambúrguer como em Nova Iorque ou Tóquio, a extrema frescura que nos obriga a esperar (e evita sobras), o rigorosíssimo controlo de temperaturas (que prolonga a vida dos óleos), o mobiliário colorido que disfarça os plásticos à “prova de bala” (difíceis de sujar e fáceis de limpar), a modernice de obrigar o cliente a carregar a comida e a descarregar o lixo (poupança de mão de obra)
Porém o “ovo de Colombo” está todinho no picado de carne. Quem é que já comeu um “prego” duro? Todos! Quem é que já comeu um hambúrguer duro?Ninguém! E isto é só a primeira parte. Aquele picadinho pode ser feito de uma carne menos nobre, as sua forma e o seu peso (45,3grs) são repetíveis indefinidamente, a sua espessura e textura uniformes permitem uma cocção também uniforme.
Um “prego” é um Ferrari construído à mão, com todo o seu temperamento e individualidade, um hambúrguer é um Clio montado por robots com todo o seu amorfismo e previsibilidade.
O facto de nunca ter entrado num McD não quer dizer que não coma hambúrgueres. Aliás, quando a nossa filha era pequena cheguei fazer muitos desde a raiz: escolher a carne, mandar picar (duas vezes), acrescentar os condimentos, um ovo para ligar, formá-los e grelhá-los no ponto.
Mas os pregos, sobretudo os bons pregos, contribuíram para minha instrução. Passo a explicar.
Um desequilíbrio entre o tempo de estudo e o tempo de gozar a vida, fez com que chumbasse no 4º ano do liceu (hoje o 8º ano). O meu Pai deixou-me aproveitar as férias grandes, mas no regresso às aulas tinha uma actividade de tempos livres planeada para mim.
Eu só tinha aulas das 7 (sete) ao meio dia, por isso a seguir ao almoço íamos os dois para a empresa onde ele me tinha arranjado uma “sala de estudo”. A nossa empresa tinha uma área de comércio grossista alimentar que incluía o bom vinho Português. O vinho, na altura, era exportado em caixas de madeira, e a minha sala de estudo era precisamente no meio do armazém de vinho, sentado numa caixa com duas outras a fazer de secretária. O vinho estava armazenado num primeiro andar, e, como as encomendas tinham sido servidas da parte da manhã, durante a tarde o sossego absoluto só era quebrado pelas visitas aleatórias de meu Pai para confirmar se não haveria alguma aranha a distrair-me das minhas obrigações.
Porém o regime de prisão era semi-aberto e a meio da tarde eu era autorizado a sair para ir lanchar à cervejaria Santa Maria. Os vinte minutos de precária tinham que dar para andar os 200 metros até à Santa Maria, esperar que me fizessem um prego “à maneira”, comer o dito, beber a Coca-Cola e regressar à cela. A meio do mês havia menos clientes no tasco e eu ainda tinha tempo de passar na livraria para namorar os livros e seleccionar os poucos que conseguiria comprar.
Comer um prego mal passado na Santa Maria era uma actividade altamente prazerosa para o próprio, mas difícil de observar para estômagos sensíveis. Mal passado queria dizer: com uma corzinha por fora e em sangue por dentro. A carne era tenra, mas sempre tinha os seus veiozitos, o pão era rústico, mas acabado de fazer e generosamente regado com o molho da fritura. Quando ao trincar encontrávamos um veio, havia que segurar o pão com mais força. Ao segurar o pão com mais força, o sangue escorria e tingia tudo de vermelho. Se a força não fosse suficiente, havia uma forte probabilidade de o bifinho se escapar do pão. Não admira que um americano esperto tenha decidido esfrangalhar a carne para evitar embaraços ao comensal e agressões estéticas aos observadores.
Todo este festim anti-dietético custava 3$00 (um cêntimo e meio). Com mais 1$50 para a Coca-Cola fazia a festa por 4$50 (2,25 cêntimos…).
O ritual diário durou todo o ano lectivo, com uma única excepção. Numa determinada tarde, o meu Pai encontrou-me a dormir em cima da “secretária” e não teve coragem de me acordar. Nessa noite cheguei a casa bem dormido e com uma larica do caraças. No final da pena, passei o ano com notas bem razoáveis, fiquei com calos no rabo e memórias indeléveis de pregos de luxo.
Nos carros eu ainda não posso, infelizmente, dizer se prefiro um Ferrari a um Clio (mas tenho cá uma suspeita). Já na carninha dentro de um pão, eu não tenho dúvidas: viva o PREGO.
E ainda há por cá quem acredite nele.
Kurioso