Ultimamente há uma tendência para usar termos específicos de determinadas actividades, em áreas que lhes são completamente estranhas. Durante a guerra do Iraque ouvimos dezenas de vezes falar de ataques cirúrgicos, tentando passar a ideia de precisão e esquecendo completamente o facto de que qualquer bombardeamento é exactamente o oposto de qualquer cirurgia. Tão opostos quanto a Morte e a Vida.
O machado do título foi escolhido por ser o oposto do bisturi, pois eu vou falar de cortes toscos, brutos cegos, urgentes, essenciais… São cortes de despesas, mas não os cortes na DESPESA.
Era uma vez…
Há um quarto de século atrás (cota?…eu?…) era responsável de compras da fábrica de uma grande empresa que, comercializando um produto com elevada procura no pós 25, crescera exponencialmente durante 10 anos. Como durante os períodos de crescimento a eficácia (fazer) prevalece sobre a eficiência (fazer economicamente), os gastos, vulgo despesa, cresceram a um ritmo igual ou superior ao das vendas.
Entretanto recebemos a visita da menina Teresa Ter-Minassian (apesar de tudo, bem mais simpática que o careca grandalhão que nos calhou em sorte este ano) e, de repente, deixámos de crescer.Os ajustes em preços não foram suficientes para suster a queda, e ao verificar-se que a quebra iria durar uns anos, foi preciso mudar de vocabulário. O crescer, acelerar, muito, mais depressa, foram trocados por travar, cortar, cancelar, pouco. Os recados da Administração chegavam todas as semanas, e podiam ser resumidos numa única palavra POUPAR.
Mas a inércia é uma coisa lixada (como bem sabe quem já tentou parar um carro de repente) e, apesar de não vendermos, continuávamos a gastar que nem uns ricos. E foi então que o Administrador Delegado (hoje CEO [muito mais chique]) resolveu pegar no machado, e tratar do assunto pessoalmente.
A fábrica teria na altura cerca de vinte secções, e cada um dos encarregados fazia as suas requisições que eram depois convertidas em encomendas na nossa secção. Tenho a ideia de que colocaríamos cerca de 5000 encomendas por ano, o que dá uma média de 25 requisições por dia. E um belo (?) dia chega a ORDEM: “o JS vai passar a assinar todas as requisições. Virá à fábrica uma vez por semana e não se emite nenhuma encomenda sem que a requisição esteja assinada por ele”.
Na semana seguinte o Sr. Administrador Delegado senta-se à minha frente (o gajo não era de cerimónias…) e pede-me as requisições. Saca do machado, no caso uma caneta Futura vermelha, e começa a analisar o monte com mais de uma centena de impressos A5. Porque o sujeito não estava muito preocupado com MOQ (Minimum Order Quantity) ou com EBQ (Economical Batch Quantity) rapidamente deu a perceber o critério altamente cientifico da “machadada”:
1. Uma requisição com muito texto deveria ser uma coisa muito cara e passava para o fundo do monte;
2. Se eram pedidas várias unidades de qualquer coisa, a quantidade era cortada para metade com arredondamento para baixo;
3. Para os pedidos individuais a machada era transversal. Um risco contínuo de um lado ao outro do papel;
Porque a actividade era cansativa, o homem cansou e, mais ou menos a meio do monte, arrumou o machado e devolveu-me o remanescente com um seco: “estas ficam para a semana! Bom dia.”
Depois de recuperado do choque, fui conferenciar com os “requisitantes” e, todos juntos, fomos carpir junto do director. Este fez o habitual joguinho dos “gregos&troianos”, ora nos dizendo que o gajo era maluco, ora dizendo que tínhamos mesmo que cortar, pois o portão por onde entrávamos todos os dias também servia para sair.
E passou mais uma semana. E o monte voltou a crescer. E a inércia é uma coisa lixada.
O mesmo critério da semana anterior, temperado com uns impropérios em vernáculo (o gajo era um casca-grossa…), uns quantos papeluchos todos gatafunhados para converter em Encomendas, e mais um montinho para levedar.
Desta vez reunimos um Conselho de Guerra, e resolvemos usar um bisturi para cortar o que não era essencial. Com alguma facilidade reduzimos o monte a metade. Para a metade restante, tivemos que ser criativos: 1. Tudo o que era importante tinha uma descrição sucinta, mas detalhava as consequências da não-compra. 2. Os consumíveis eram todos agregados numa só requisição (efeito cardume muito usado na natureza) e as quantidades dobradas. 3. As requisições velhas eram substituídas por novas para não parecer que andavam ali a rodar.
À terceira semana o monte era mais pequeno, e com um resmungo “parece-me que vocês estão a enganar-me…os papeis são menos…mas…estas quantidades são enormes…”(o gajo não era parvo…) passou quase todo.
No final do primeiro mês as compras desceram quase 50%, tivemos máquinas paradas, faltaram luvas, parafusos ou rolamentos, mas a fábrica não parou.
A partir daí descobrimos que POUPAR era para valer, e, se o queríamos bem feito, o melhor era sermos NÓS a fazê-lo.
A bênção semanal continuou durante mais uma semanas, e quando o machado começou a ter pouco uso, acabou. Não sem antes sermos confrontados com um gráfico que nos mostrou como tínhamos sido esbanjadores.
Porque a vida é uma nora, eu estou a viver este filme pela quarta vez (agora com um machado muito mais subtil…). Ser cota é lixado!
Kurioso