Posts Tagged ‘Desemprego’

SALVAÇÃO

2013/03/22

Um historiador de EsquerdaEsquerda deu como exemplo de REDENTOR um Presidente americano. Ele há cenas irónicas!

Escrevendo muito bem (o que é cada vez mais raro), deu um enfoque significativo à “domesticação” dos Bancos, e referiu en passant o trabalho comunitário para os milhões de desempregados.

Dando de barato tudo o que é diferente, e é quase TUDO, entre os EUA de 1933 e a Europa de 2013, é interessante perceber que nem os Bancos querem ser “domesticados”, nem os desempregados querem ser “recrutados”.

O Presidente Roosevelt foi efectivamente um homem de uma visão extraordinária, por ter imaginado uma solução, mas foi também um homem com uma sorte extraordinária. Em 1933 ainda não havia uma comunicação social “mafiosa”, nem… redes sociais. O homem PODE fazer o que precisava de ser feito!

E, depois de 4 anos de uma Depressão negra, os milhões de desempregados que precisavam de dinheiro para COMER, estavam dispostos a fazer O QUE FOSSE PRECISO para arranjá-lo. Os Estados Unidos foram criados na base do esforço individual por contra ponto à já evidente “burocracia” europeia. Os americanos estão habituados a trabalhar para receber. Estão habituados a ter deveres antes de terem direitos.

Quando Roosevelt lhes propôs irem reflorestar, repavimentar e consertar o País, dando-lhes alojamento (em tendas), alimentação (na marmita) e 30 dólares por mês, eles FORAM!

“Every month, the government required the CCC boys to send $22 to $25 — a hefty chunk of their $30-per-month paycheck — to their families. But this didn’t put the boys out much, as life in the camps provided them with all the necessary amenities.”

Entretanto ainda havia 80% de americanos que não tinham perdido o emprego. A estes, convenceu-os a porem as economias nos “novos” bancos, de modo a que os bancos voltassem a ter liquidez para “fermentar” a economia.

É importante referir que todo este esforço serviu somente para acabar com a fome. A economia americana só disparou verdadeiramente com o esforço de guerra, a partir de 1938.

Pensar que uma coisa semelhante podia ser feita nos dias de hoje, em qualquer país ocidental, é uma pura perda de tempo. Em Portugal seriam duas perdas de tempo: uma a propô-la, e outra a achincalhá-la ad nauseam. Basta lembrar as reacções às propostas de por a trabalhar os beneficiários do rendimento social de inserção, ou as elevadas considerações que mereceu a sugestão do maestro dos banqueiros (que também não está nem aí para salvar o País…). Gostava de ver a reacção deste senhor a uma lei como esta: “TITLE II:To enable the Comptroller of the Currency (a post in the US Treasury) to take complete control of and operate any bank in the United States or its territories and to establish the terms and conditions under which bank is administered.

No nosso país parecem estar reunidas todas as condições para que não falhemos a ida para o fundo.

Mas é possível encontrar na actualidade um País que, ao ser confrontado com o fim da festa, conseguiu reunir o esforço de TODOS (governo, administração pública, autarquias, banca, população) para que cedendo equilibradamente pudessem retroceder o menos possível. A Islândia. Mas, nos dias de hoje, mesmo os milagres são contestados.

Kurioso

PS. Para quem for curioso: $30.00 in 1933 had the same buying power as $525.80 in 2013

E, já agora, o limiar de pobreza em 2012 era de $975

DESEMPREGO

2012/08/17

Sábado à tarde, estava tranquilamente a trabalhar numa esplanada quando recebo uma mensagem da minha (?) operadora avisando-me que só tinha mais uma hora de saldo na placa 3G.

Meto o portátil na maleta, ando quarenta metros, desatino com os menus do Multibanco e, dez minutos depois estou de volta à mesa. Reanimo o portátil e tenho à minha espera uma mensagem confirmando a disponibilidade de bué de saldo. 

Pus-me a pensar no que acontecera naqueles longos dez minutos. Uma maquineta que não dorme, nem pára para comer, ou para urinar, ou para esfumaçar, ou para… ia controlando os meus gastos e, para que eu não perdesse a capacidade de continuar a consumir, avisou-me que era preciso pôr mais moedinhas. Apesar de o nosso servidor de email estar nos EUA, a mensagem chegou-me uns micro segundos depois de ser enviada.

Aí entraram em funcionamento os ineficientes seres humanos. Pedir a conta, esperar que a menina fizesse a conta, esperar pelo troco, andar 40 metros, zaragatar com os menus do Multibanco e, finalmente, passar para lá as moedinhas.

E as maquinetas voltam a pegar na coisa. Eu estou numa agência remota de um banco onde não tenho conta, o meu (?) banco valida o pedaço de plástico que meti na racha e confirma que há moedinhas. As moedinhas são enviadas para a conta da operadora noutro banco, e a maquineta que estava a controlar os meus clicks, arrota de contente e deixa-me continuar a trabalhar por mais 950 minutos. Tempo gasto a executar estas simples tarefas: 5 segundos.

Há quarenta anos :( , quando eu era paquete, uma das minhas funções era ir ao banco tratar de transferências para fornecedores. Vou poupar nos detalhes, mas alvitrar que nessa altura seriam precisas  umas dez (vinte?) pessoas  para fazer chegar o dinheiro ao nosso fornecedor. Com  sorte, ele saberia que recebera alguns dez dias depois, e nós  recebíamos o recibo daí a duas ou três semanas. Como o recibo era um papel acompanhado de uma carta, imaginem quantas pessoas…

O pedacinho de plástico que trazemos dentro da carteira e consideramos o símbolo da nossa emancipação atirou para o desemprego milhões de pessoas.

É claro que é muito mais fácil (e desculpabilizador) pensar que foi a incompetência dos governos.  

Kurioso

PS. Sim! Eu estava a trabalhar ao Sábado. Algumas pessoas poderão pensar que o meu esforço acabará por ser gerador de desemprego. Talvez…

Outros pensarão que eu sou um lacaio do capitalismo. Pensem melhor… quando forem a uma caixa Multibanco!

DESPEDIMENTOS

2011/07/08

 

Na minha já longa vida profissional, estive envolvido em meia dúzia de despedimentos. Não directamente, porque nunca pertenci aos Recursos Humanos, mas tendo que escolher os infelizes candidatos.

A causa imediata podia ser pura inaptidão, mas a maior parte das vezes foi devido a reestruturações. Curiosamente, custou-me mais no caso dos inaptos do que nos outros, pois os inaptos dificilmente teriam sucesso em qualquer outro lado.

Entretanto na minha vida privada, sobretudo nos últimos tempos, tenho contribuído parcialmente para dezenas de despedimentos.

O nosso País saiu de uma espiral positiva e vai entrar numa espiral negativa. E vai entrar numa espiral negativa porque a espiral positiva foi suportada por riqueza alheia que entretanto acabou.

A muleta da ajuda externa começou há muitos anos, primeiro com dinheiro oferecido, e depois com dinheiro emprestado (uma das coisas que nunca perdoarei ao anterior PM foi ter-se esquecido de nos informar sobre esta pequena alteração), e se a primeira parte só criou algumas benesses (e vícios) que serão mais ou menos difíceis de abandonar, o montão de dinheiro que pedimos emprestado, criou-nos obrigações  que, neste ambiente de tempestade perfeita, talvez nunca consigamos cumprir.

À força de uma injecção permanente de alguns megafones panfletários, todos nós instintivamente pensamos que é o Patrão que despede o Empregado. Esta falsa verdade é alimentada por outros megafones, com motivações várias, e são-nos mostrados os exemplos exemplares de grandes Patrões que despedem desapiedadamente os seus muitos Empregados.

Mas se olharmos para os factos, verificamos que em 2009 o número de desempregados aumentou 110000 e eu até admito que 10000 tenham vindo de despedimentos motivados por especulação capitalista, que os media exploraram até à exaustão, quando eles mesmos também despediam de mansinho. Porém a restante centena de milhar vem de centenas de micro empresas que só foram viáveis enquanto o dinheiro abundou. Na maioria destes casos até os Patrões vão parar ao desemprego.

Por isso, eu penso que quem despede os Empregados são os Clientes, e vou usar-me como exemplo.

Quando eu deixei de usar roupa de lã e passei para o algodão ou sintéticos, ajudei a despedir uma série de pessoas na Covilhã; quando eu passei a comprar têxteis indianos, contribuí para o desemprego no vale do Ave; quando eu comprei uma motorizada japonesa, posso ter forçado uma reestruturação em Águeda; quando eu ando quilómetros para ir abastecer-me numa grande superfície, passo à frente duma dúzia de mercearias, talhos, casas de frescos, lutando para sobreviver ao abandono a que as votei; quando eu deixei de comer fora todos os fins de semana, comecei a pôr pressão numa enorme cadeia logística que será forçada a emagrecer.

Antes de culparmos os políticos, os mercados, os patrões, os alemães, etc, talvez fosse bom olharmos para as falsas expectativas que nós criámos gastando à toa enquanto pensámos que éramos ricos, e para o caos que nós vamos criar deixando de gastar, agora que voltámos a ser pobres.

Nós, cá em casa, já mudámos alguns hábitos: compramos pão na padaria, fruta (portuguesa) na frutaria e carne no talho. As mercearias receio que estejam condenadas, mas somos clientes do pronto a comer local. Pagamos mais caro, e eu espero que o nosso esforço sirva para criar novos empregos e não para comprar novos BMW.

A fotografia lá de cima é de uma concha de Nautilus, um bichinho que vai aumentando a sua “casa” à medida que cresce. É fácil de ver que o Nautilus para voltar a viver na “casa” anterior teria que aceitar um regime pior que o do “Peso Pesado”. 

Kurioso

 

“ELES”

2011/04/01

É kurioso como a sabedoria popular é basicamente a mesma em qualquer parte do globo, mas utiliza os elementos do seu ambiente para se expressar. Em África o ditado diz que “Quando os elefantes andam à porrada, o capim (erva) é que se lixa”. Cá pelas nossas bandas utilizamos a expressão “Quando o mar bate na rocha, quem sofre é o mexilhão”, para, de uma forma talvez mais poética, dizer exactamente a mesma coisa.

Porque outro ditado diz que “três é a conta que Deus fez” (nas relações amorosas é mais o Diabo…), eu pus-me a magicar sobre três cenas recentes: o protesto dos enrascados; o protesto dos camionistas e o “protesto”do Governo Local. Em todas estas cenas a causa profunda aponta para “ELES”.

Os jovens enrascados descobriram que, depois de longos anos a labutarem para sacar um canudo, coisa em tempos escassa e agora abundante, não conseguem fazer com que “ELES” lhes paguem um salário que permita manter as mordomias a que os seus esforçados e privilegiados pais os habituaram. Reclamam uma solução urgente do Governo Local.

Os camionistas descobriram que, depois de degradarem as suas margens de lucro numa luta fratricida tentando manter ocupação num País onde cada vez há menos produção, não conseguem fazer com que “ELES” aceitem compensá-los dos aumentos dos custos de produção. Reclamam uma solução urgente do Governo Local.

O Governo Local descobriu que, depois de longos anos de amamentação farta, criadora de laços de parasitismo inquebráveis, não consegue fazer com que “ELES” aceitem o desmame e comecem a ser contribuintes proporcionais. Reclama solução urgente do Governo Regional.

E quem são “ELES”?

ELES” são os representantes do Capitalismo Pacóvio e abundam em Portugal. Pertencem a todas as classes sociais, têm muita ou pouca instrução, comandam enormes ou pequeníssimas empresas. Não é o status que os caracteriza, mas sim a forma de actuação. O seu objectivo único é a maximização do lucro a qualquer preço, explorando fornecedores e colaboradores e enganando clientes e estado. Os processos são muito variados, indo desde a quase clandestinidade dos pequeninos até à sábia utilização da legalidade  pelos grandes. “ELES” teceram uma teia de ligações e dependências tão intricada que tudo depende de “ELES” tornando-os invencíveis.

E mesmo quando, ao lutar por território, por mercado, por clientes, parecem estar a oferecer qualquer coisa, há sempre um “mexilhão” por detrás a pagar a oferta. Será que toda a gente sabe que os 50% ou 60% de desconto que nos são gritados na televisão ou nos jornais são pagos pelos fabricantes? Já repararam que não há 50% nas marcas próprias? 

Mas o caricato desta abordagem, é que, sendo de vistas curtas, não consegue perceber que a longo prazo acabará por esgotar aqueles que a sustentam. Finalmente “ELES” acabarão como o escorpião da história, vítimas da sua natureza.

Eu não acredito que a fábrica acima seja muito rentável, mesmo fabricando o modelo de luxo da marca. A VW terá certamente outras fábricas onde vai buscar lucros (o carro que conduzo foi fabricado no México) mas mantém as fábricas na Alemanha cumprindo a sua parte do acordo que fez com os sindicatos. Os sindicatos, por seu lado, conseguiram convencer os seus associados a aceitar reduções de salários que chegaram a 20%, para que os seus postos de trabalho não voassem para um qualquer país do 3º mundo.

É neste Capitalismo Empenhado que eu acredito, e ele é largamente praticado nos países de sucesso deste mundo. O Capital exige uma remuneração razoável para a sua decisão de arriscar, e o Trabalho entende que, não tendo dinheiro ou vontade de arriscar, tem a obrigação de entregar valor em troca do salário que recebe.

Infelizmente em Portugal o relacionamento entre Capital e Trabalho nunca foi equilibrado por culpa de ambas as partes. A seguir ao 25 de Abril o Capital acagaçou-se e deu ao Trabalho tudo o que podia (e também o que não podia…) levando este a acreditar que tudo lhe era devido. É claro que, assim que a maré virou, o Capital (pacóvio) voltou a fazer o mesmo de sempre: explorar o mais fraco. Por seu lado o Trabalho, sentindo-se defraudado nas suas expectativas, retribui com as moedas habituais: fazendo greve onde pode, e baldando-se onde não pode fazer greve.

Felizmente vão havendo excepções (bastantes) e aparecem oásis onde a relação Capital/Trabalho é virtuosa em vez de viciosa. Uma prova disso pode ser encontrada no ranking das melhores empresas para trabalhar, que, kuriosamente (ou talvez não), só tem uma portuguesa entre as dez primeiras.

Resta-nos a esperança de que estas pequenas sementes possam reproduzir-se e criar um novo paradigma. Mas uma coisa é certa: não vai ser fácil acabar com “ELES”.

Kurioso  

 

 

 


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