Posts Tagged ‘Cultura’

MODELOS

2012/09/07

Eu sabia que já tinha escrito sobre a minha inCultura, mas, porque na altura não usei tags, vi-me grego (ainda se pode usar esta expressão clássica?) para conseguir encontrar o post. Passados cinco anos, continuo exactamente com o mesmo nível de Cultura, ou inCultura, mas aprendi quase tudo sobre deficit, balança comercial, endividamento, etc. Até sei o valor do PIB melhor do que o Guterres… Não fiquei mais culto, mas estou seguramente mais à rasca, ou enrascado.

Os recentes desenvolvimentos do folhetim em que a RTP é, desta vez, protagonista e não emissora, voltaram a trazer à baila a Cultura Portuguesa. E voltámos a ouvir a ladainha de que compete ao Estado “comprar” a Cultura que deve ser distribuída aos Portugueses porque estes não têm dinheiro para adquiri-la. E voltámos a ouvir o estafado argumento de que se os Portugueses não querem Cultura, nem de borla, é porque o Estado não investiu o suficiente.

Ora eu penso que o Estado, durante os últimos 20 anos, até investiu bastante no apoio aos transmissores de Cultura, e penso sobretudo que os Portugueses não compraram Cultura porque não quiseram. E ainda penso assim nos dias de hoje. Enquanto eu vir estádios de futebol, ou pavilhões atlânticos, cheios de pessoas que pagaram um balúrdio, ninguém me convence de que é por falta de dinheiro que as salas da Praça de Espanha estão às moscas.

E porque eu acredito, pelos exemplos do dia a dia, que a Cultura  dos Portugueses (no sentido clássico do termo) regrediu nos últimos trinta anos, e como continuo a achar, cinco anos passados sobre o post confessional, que os “porquês” são aquilo que nos faz perceber os “quês”, fui à procura de uma explicação para o facto de a Cultura (no sentido clássico do termo) ter deixado de ser apetecível.

Cheguei assim à teoria dos “modelos” (Aquilo (pessoa, procedimento, etc.) que serve de exemplo ou norma.).

Até há umas dezenas de anos atrás, os nossos “modelos” eram quase sempre pessoas de cultura mais elevada. Começava pelo Padre da aldeia e seguia pelos professores que íamos tendo ao longo da vida. Porque os nossos progenitores seriam, previsivelmente, pessoas de baixa instrução, a cultura era-nos apresentada como o resultado de estudo, de leitura, de viagens, de visitas a museus. O resultado desse investimento no estudo traduzia-se em melhores ordenados, um automóvel, uma casa com empregados, e, sobretudo, o respeito de todos.

Por essa altura não havia modelos alternativos. Eu, que tive a sorte de nascer numa família com instrução acima da média (para a época), ainda me lembro do fascínio que o saber alargado de alguns professores exerceu sobre mim. E porque essas pessoas só atingiam o estatuto de modelo numa idade razoavelmente avançada, a cultura proporcionava-lhes a aquisição de sabedoria, esta sim digna de ser “venerada”.

Uns anos mais à frente, começam a aparecer os “ídolos”, desportivos e artísticos, que suscitavam admiração (ou inveja…) mas não eram ainda considerados modelos.

Até que o 25 de Abril dá uma machadada na Cultura, conotando-a com o antigo regime e considerando-a elitista. A Cultura clássica foi liminarmente banida, e o modelo passou a ser a cultura popular no seu sentido mais lato: TUDO podia ser cultura. Mas a proliferação de modelos acaba por conduzir à ausência de modelos.

E aparece então a TV, esse supremo criador de modelos pronto a usar, a promover ao estatuto de modelo a futilidade e a excentricidade. E porque a futilidade e a excentricidade eram rentáveis, passaram a ser obscenamente pagas, gerando ainda mais futilidade e excentricidade. E o processo tornou-se auto-suficiente, podendo ser reproduzido ad aeternum.

Bem pode  o Estado derreter dinheiro a promover Camões, Saramago ou Emanuel Nunes, que o povo sempre irá preferir Ronaldo ou Tony Carreira.

O novo modelo é o sucesso e não a sabedoria.

Kurioso

 

GLOBALIZAÇÃO

2012/07/13

Durante a maior parte desta semana estive num curso em Inglaterra. Eu e mais 42 colegas de todo o mundo.

A fotografia acima é um “corte e costura” (fracote) da lista de presenças. Os países mencionados são os do posto de trabalho, o que quer dizer que as nacionalidades ainda eram mais diversas. Uma bela amostra da diversidade humana em todos os seus aspectos: altura, peso, cor, idade, cultura, religião. E as combinações roçavam o bizarro: uma afro canadiana, casada com um egípcio e a trabalhar no Dubai; uma holandesa a trabalhar em Moscovo; um brasileiro na Suíça e uma filipina em Londres.

O curso foi dado por dois professores americanos, um técnico e um comportamental. Porque a tradição já não é o que  era, o professor  técnico era uma “velhota” da minha idade, e o professor comportamental um ex-actor absolutamente exuberante.

Tínhamos então uma misturada de gente, vinda dos quatro cantos do mundo, mas com uma característica comum: pertencermos à mesma área funcional.

E foi realmente espantoso ver como gente tão diversa conseguia, em relação à sua área profissional, ter ideias tão semelhantes. Logo na primeira manhã, fomos divididos em 6 grupos multinacionais, multi culturais, multi…, e foi-nos pedido que desenhássemos o arquétipo da nossa função. Depois de aceso debate, cada grupo desenhou o seu boneco, e, curiosamente (ou talvez não) havia uma enorme semelhança entre os bonecos.

As diferenças de costumes são efectivamente enormes entre os diversos povos, mas uma educação cuidada e a abertura de espírito que traz associada, podem efectivamente nivelar o mundo para uns poucos privilegiados.

Mas é em relação aos privilégios que continuam a notar-se diferenças flagrantes. Um ocidental continua a achar os seus privilégios um direito, enquanto um oriental ou africano os consideram uma conquista. E enquanto nós tentamos esconder aquilo que pode tornar-nos diferentes (ou inferiores), ouvir um colega dizer: “agora tenho que ir para o meu quarto fazer as minhas orações” é uma prova de grandeza e superioridade.

Ao fim de trinta anos trabalhando em multinacionais estou careca de fazer cursos e acções de formação. Porém, desta vez, não trouxe de volta a suave desilusão de pensar: “enfim mais um…”. A conjugação de viver num país “confuso”, de ter pensamentos confusos, de receber ensinamentos de professores brilhantes e poder partilhar experiências com colegas extraordinários, fez-me acreditar que eu tenho um espírito global, e que os homens são efectivamente todos iguais, quando lhes são dadas as MESMAS OPORTUNIDADES.

Eu sempre tive uma enorme abertura para as aprendizagens técnicas, e, ao mesmo tempo, bastantes reticências sobre as aprendizagens comportamentais. Desta vez o “professor”, em vez de debitar lugares comuns, plantou cuidadosas sementes e pôs-nos a ensinar uns aos outros.

Kurioso      

BABEL

2012/03/02

"I still think that there is no longer a disparity between Lisbon and Warsaw, just as there is no disparity between San Francisco and New York. We will remain a federation, but indissoluble." Umberto Eco

Nestes tempos de crise em que começamos a ver cada vez mais gente pretendendo trocar Soberania por Conforto, defendendo a federalização da Europa, eu gostava de partilhar algumas preocupações.

Mais uma vez vou usar como exemplo uma experiência pessoal: uma reunião pan-europeia realizada no meio da Alemanha (bem a propósito). A reunião durou três dias, e implicou uma viagem de carro de 150kms a partir de Frankfurt. Como estas reuniões têm sempre uma parte de descompressão ao final do dia, deu para ver e tentar perceber mais um pouco o que se passa na terra dos nossos algozes (ou salvadores).

Como o tema é federalismo, não vou maçar ninguém com percentagens, penetrações, alocações, tácticas e estratégias (políticas e politiquices…). As reuniões  de empresas globais são como as matrioskas Russas: há várias encaixadas umas dentro das outras.

À volta da mesa estavam 46 pessoas de 14 nacionalidades, falando DOZE LÍNGUAS. Doze equipas de 4 pessoas? Nã senhor!! Mesmo nesta cena das empresas, a geografia tem uma força do caraças; 12 Alemães; 6 Ingleses; 5 Franceses; 3 Italianos; 3 Polacos e depois a ralé. Ninguém consegue imaginar como a Língua pode ser (e é) utilizada como arma para fazer valer pontos de vista ou pontos de superioridade. A língua “oficial” é obviamente o Inglês, o que dá, logo à partida, alguma vantagem “frontal” aos britânicos. É claro que a vantagem não é total porque “eles” não conseguem comunicar privadamente sem que todos percebam. A seguir os amigos Alemães fazem valer o seu número (e falta de educação) para passarem o tempo todo a guturar entre eles, deixando a maior parte do maralhal a ver navios. Mas, como querem comandar, aprenderam a dominar com mestria a língua dos velhos rivais, estando quase a apanhar os Holandeses, para mim, os verdadeiros poliglotas da Europa.

Mesmo que um dia conseguíssemos encontrar um exemplo microscópico de uma cultura popular (por oposição à cultura das elites) europeia, a INCOMUNICABILIDADE sempre torpedearia qualquer projecto de COMUNIDADE. Uma língua comum pode unir culturas diferentes (EUA, Brasil, Rússia) mas não me parece possível que se consiga criar uma entidade conjugando culturas diferentes E línguas diferentes.

Exemplo 1. Obama vai fazer campanha este ano atravessando todo o território. Com mais ou menos dificuldade, todos vão perceber o que ele diz. A sra Merkel (longe vá o agoiro) resolve candidatar-se a presidente da Europa. Como os 90 milhões de votos que tem em casa não lhe chegam, vem por aí abaixo arengando em Alemão??? Ou será que vai ser o Cameron, ao som do “Rule Britannia”, que tentará convencer “les paysans françaises” de que os “bifes” agora são fixes???

Exemplo 2. Temos um Governo Europeu que vai começar a implementar Leis Europeias. Leis obviamente copiadas dos países ricos que puseram lá os seus Europeus. Ora o povão do resto da Europa votou nos Europeus deles, para vir a ter os carrões deles e os ordenados deles. Quem é que pediu as leis deles??? A GNR faz uma manifestação a EXIGIR a manutenção de todos os direitos adquiridos, a equiparação dos salários às forças da ordem Nórdicas e, já agora, a demissão imediata do Governo Europeu que não compreende as especificidades do nosso Povo.

Penso que, desta vez, não concordo com o Umberto Eco. E penso também que esta porra não vai ser nada fácil. E gostaria de pensar que é só a minha pessimista rabugice sexagenária…

Kurioso 

ELASTICIDADE

2011/07/01

No que diz respeito à elasticidade, corpo e mente tendem a (ou deveriam) evoluir em sentidos inversos. Nascemos com um corpo de borracha e uma mente de aço e tendemos a (ou deveríamos) morrer com o corpo endurecido e a mente muito mais flexível. Há porém uma diferença. Enquanto o endurecimento do corpo é inevitável, a flexibilização da mente não é garantida.

Mas apesar de evoluírem em sentido contrário eu penso que uma pessoa será mais ou menos elástica globalmente. Explicando: uma mente que comece a flexibilizar-se mais cedo, poderá ajudar o corpo a enrijar mais tarde. Os yogis são talvez um bom exemplo.

A elasticidade mental tem a ver com a capacidade de aceitarmos as mudanças que vamos observando, usando a nossa razão (factual) para convencer a nossa emoção (cultural). É óbvio que quanto mais factos deixarmos que nos atinjam e menos pesada for a cultura, mais flexível se tornará a nossa mente.

O facto de ter vivido em dois continentes, em dois regimes, ter lido centenas de livros, ser curioso desde os dois anos (diziam os meus Pais…), ter tido a sorte de viajar bastante, e…já andar por aqui há 61 anos, faz-me acreditar ser possuidor de alguma elasticidade mental.

Mas a elasticidade tem limites, e a minha tem sido posta à prova muitas vezes nos últimos tempos: bombistas suicidas; massacres aleatórios; guerras estúpidas; pirataria marítima, no âmbito do que chamaria choque de culturas. Depois no âmbito da criação e manipulação da vida: a clonagem; a fertilização artificial; a manipulação genética. Para quase todos estes “alargamentos da normalidade” eu consigo encontrar uma explicação racional, mas o meu eu emocional ainda não consegue aceitá-los pacificamente.

Num destes fins de semana esta fotografia fez-me perceber os limites:

Compreendi que a área que envolve o género humano, o Homem e a Mulher, é aquela onde a minha elasticidade é menor.

Eu já ouvi todas as teorias sobre a “incerteza” do género, conheço os exemplos do mundo animal, os caracóis, os peixes, já li várias coisas sobre a diferença dos sexos, e também sobre a sua semelhança. Depois de tudo ponderado, eu continuo a achar que um homem e uma mulher são diferentes, e a mudança de género não cabe dentro da minha banda de elasticidade.

E se eu aceito e aplaudo todas as evoluções da ciência, porque diabo rejeito o milagre tecnológico que permite a conversão de uma mulher num homem (mais difícil) ou o contrário?

Pois tenho que admitir que o problema é mesmo cultural. Durante os primeiros quinze ou vinte anos da minha vida nunca fui confrontado com a necessidade de entender, e a (forte) cultura herdada acabou por cristalizar.

Noutras áreas, social, profissional, inter-geracional, racial, educacional, gastronómica, a cultura herdada já era razoavelmente flexível, e eu consegui aumentar a elasticidade ao longo da vida, de modo a aceitar pacificamente um vasto leque de opções. E quem me conhece sabe que eu defendo com o mesmo afinco a diferença fisiológica e psicológica, e a completa igualdade de direitos, de deveres, de oportunidades, de responsabilidades.

E para algumas coisas em que tropeçamos, é bem precisa uma forte dose de elasticidade:

Mesmo que o corpo já comece a pregar-me partidas, continuarei a treinar a elasticidade da mente. Desafios não faltarão.

Kurioso

   

UNIÃO?!

2010/09/24

 

Mais uma vez a picadela da notícia na rádio:”…um dos 10 sindicatos da PSP…”, e pus-me a matutar.

Ao contrário das grandes empresas onde trabalhei, que tendo dentro das sua instalações inúmeras profissões eram obrigadas a negociar com vários sindicatos, parecia-me que a PSP era um corpo relativamente homogéneo (uma única profissão) pelo que bastaria um sindicato para representar os seus membros.

E afinal quantos membros compõem a PSP? Pois rondarão os 22000. Se a divisão fosse equitativa, teríamos um sindicato para cada 2200 polícias, mas como nada é equitativo na natureza, presumo que haja sindicatos com umas poucas centenas de filiados.

Depois lembrei-me de várias outras classes profissionais (professores, médicos, enfermeiros) que criaram várias entidades representativas, e algumas com particularidades interessantes: os médicos têm uma Ordem e vários sindicatos; os professores, com a mesma habilitação, chegam a ter sindicatos diferentes consoante a universidade onde se formaram.

Toda esta diversidade pode ser sustentada pela necessidade de organismos específicos para defender interesses específicos, mas, para mim, não é mais do que um exemplo de falta de união. Parece fazer parte do código genético dos portugueses a incapacidade de trabalhar em conjunto para o bem comum. Se juntarmos a isto a necessidade de protagonismo, o compadrio, a politização da área laboral, a veneração das personalidades, chegamos ao sindicato “para mim e para os meus amigos”.

Mas o mais caricato, é que se dividíssemos, de uma forma simplista, a humanidade em explorados e exploradores, é no lado dos explorados que a falta de união se torna mais evidente. Os mais fracos, que, não tendo o poder da força, poderiam fazer valer o poder do número, deixam-se dividir e arregimentar pelo paleio de meia dúzia de tagarelas que depois conduzem os seus pequenos exércitos a batalhas espúrias ou radicais. Em Portugal, o velho aforismo “dividir para reinar”, não precisa de ser implantado pelos “reinantes”. Nós tratamos de nos dividir de livre vontade.

Já no lado dos “exploradores”, apesar das guerras sem quartel no campo económico, a necessidade de terem uma única voz face ao mundo é reconhecida quase unanimemente. Um bom exemplo é a APIFARMA, que conta com 132 associados, desde as maiores multinacionais até à pequena empresa familiar. Estas empresas têm,entre si, diferenças bem maiores do que aquelas que possam separar um “polícia de giro” de um “policia de choque”, mas juntam-se para defender o seu objectivo final: obter lucro. E conseguem fazê-lo porque não deixam que a componente pessoal interfira nas decisões empresariais.

Este espírito de união entre os exploradores não é porém universal, pois ainda vamos sabendo de associações empresariais onde os “vícios” dos empresários se sobrepõem às “virtudes” das empresas, e, após as peixeiradas da ordem, lá vêm as quintinhas para que todos possam mandar à vontade.

Finalmente vamos sempre parar à mesma causa primária: a cultura (no sentido lato de educação, instrução, informação).

E enquanto a cultura não chegar, não há Sócrates que nos valha. Nem Aristóteles, nem Platão, nem Coelho.

Kurioso


Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.