Eu sabia que já tinha escrito sobre a minha inCultura, mas, porque na altura não usei tags, vi-me grego (ainda se pode usar esta expressão clássica?) para conseguir encontrar o post. Passados cinco anos, continuo exactamente com o mesmo nível de Cultura, ou inCultura, mas aprendi quase tudo sobre deficit, balança comercial, endividamento, etc. Até sei o valor do PIB melhor do que o Guterres… Não fiquei mais culto, mas estou seguramente mais à rasca, ou enrascado.
Os recentes desenvolvimentos do folhetim em que a RTP é, desta vez, protagonista e não emissora, voltaram a trazer à baila a Cultura Portuguesa. E voltámos a ouvir a ladainha de que compete ao Estado “comprar” a Cultura que deve ser distribuída aos Portugueses porque estes não têm dinheiro para adquiri-la. E voltámos a ouvir o estafado argumento de que se os Portugueses não querem Cultura, nem de borla, é porque o Estado não investiu o suficiente.
Ora eu penso que o Estado, durante os últimos 20 anos, até investiu bastante no apoio aos transmissores de Cultura, e penso sobretudo que os Portugueses não compraram Cultura porque não quiseram. E ainda penso assim nos dias de hoje. Enquanto eu vir estádios de futebol, ou pavilhões atlânticos, cheios de pessoas que pagaram um balúrdio, ninguém me convence de que é por falta de dinheiro que as salas da Praça de Espanha estão às moscas.
E porque eu acredito, pelos exemplos do dia a dia, que a Cultura dos Portugueses (no sentido clássico do termo) regrediu nos últimos trinta anos, e como continuo a achar, cinco anos passados sobre o post confessional, que os “porquês” são aquilo que nos faz perceber os “quês”, fui à procura de uma explicação para o facto de a Cultura (no sentido clássico do termo) ter deixado de ser apetecível.
Cheguei assim à teoria dos “modelos” (Aquilo (pessoa, procedimento, etc.) que serve de exemplo ou norma.).
Até há umas dezenas de anos atrás, os nossos “modelos” eram quase sempre pessoas de cultura mais elevada. Começava pelo Padre da aldeia e seguia pelos professores que íamos tendo ao longo da vida. Porque os nossos progenitores seriam, previsivelmente, pessoas de baixa instrução, a cultura era-nos apresentada como o resultado de estudo, de leitura, de viagens, de visitas a museus. O resultado desse investimento no estudo traduzia-se em melhores ordenados, um automóvel, uma casa com empregados, e, sobretudo, o respeito de todos.
Por essa altura não havia modelos alternativos. Eu, que tive a sorte de nascer numa família com instrução acima da média (para a época), ainda me lembro do fascínio que o saber alargado de alguns professores exerceu sobre mim. E porque essas pessoas só atingiam o estatuto de modelo numa idade razoavelmente avançada, a cultura proporcionava-lhes a aquisição de sabedoria, esta sim digna de ser “venerada”.
Uns anos mais à frente, começam a aparecer os “ídolos”, desportivos e artísticos, que suscitavam admiração (ou inveja…) mas não eram ainda considerados modelos.
Até que o 25 de Abril dá uma machadada na Cultura, conotando-a com o antigo regime e considerando-a elitista. A Cultura clássica foi liminarmente banida, e o modelo passou a ser a cultura popular no seu sentido mais lato: TUDO podia ser cultura. Mas a proliferação de modelos acaba por conduzir à ausência de modelos.
E aparece então a TV, esse supremo criador de modelos pronto a usar, a promover ao estatuto de modelo a futilidade e a excentricidade. E porque a futilidade e a excentricidade eram rentáveis, passaram a ser obscenamente pagas, gerando ainda mais futilidade e excentricidade. E o processo tornou-se auto-suficiente, podendo ser reproduzido ad aeternum.
Bem pode o Estado derreter dinheiro a promover Camões, Saramago ou Emanuel Nunes, que o povo sempre irá preferir Ronaldo ou Tony Carreira.
O novo modelo é o sucesso e não a sabedoria.
Kurioso