O “regressado” confessou-se muito admirado pelos anticorpos que encontrou no País. Pensou que a generalizada antipatia que o actual governo recolhe, se converteria automaticamente em simpatia pela sua excelsa, impoluta e infalível PESSOA.
A Esquerda tonitruante continua a não perceber nada da sociologia deste infortunado País. Para eles, quem não pertence ao seu clube é automaticamente catalogado de Fascista e a coisa está resolvida. Quando começa a soar que há um descontentamento crescente face ao governo Fascista em funções, assume-se obviamente que a malta se fartou da Direita e é agora devota acrítica da Esquerda. Os extremos sempre tiveram uma visão dicotómica da realidade, um truque que lhes permite tornar as suas visões ABSOLUTAMENTE certas, por contraponto às visões ABSOLUTAMENTE erradas dos outros.
Independentemente das visões absolutistas, é um facto que todos nós estamos a viver tempos difíceis (OK, catastróficos). E todos nós nos perguntamos como foi possível chegar AQUI.
Nestes últimos tempos, o desporto predilecto dos portugueses é a caça à CULPA. Queremos saber quem são os CULPADOS. Porém está provado até à saciedade que a procura da culpa em Portugal é uma verdadeira caça ao gambozino. Tal como o gambozino, também a CULPA é um ser imaginário que pode ter tantas formas quantos os imaginadores, mas jamais será encontrada.
Ora não havendo culpados dentro do rectângulo, vamos ter que atribuir aos portugueses outros rótulos. E eu imaginei três: os ACULPADOS; os DESCULPADOS; os INCULPADOS.
Antes da explicação “psicológica”, aqui vai um exemplo.
A auto estrada daqui para Lisboa tem três faixas. Um aculpado, um desculpado e um inculpado, vão lado a lado a 150 à hora. Em Sacavém está o comité de recepção. Respostas típicas:
1. Sim eu vinha a 150. Porquê? Não se pode andar a 150?
2. Pois o Sr. guarda sabe, eu vinha com um bocado de pressa, mas todos os outros também vinham. Eu até tinha ouvido dizer que até 150 não havia azar. Eu não tenho culpa.
3. Com o meu azar tinha que ser. E vou poder ficar com a carta?
Os ACULPADOS (um neologismo para ajudar) são aqueles que nem sabem o que é culpa. A sua vida é feita com base no sentir, e, por limitações várias, da maior parte das quais não têm efectivamente culpa, a culpabilidade para eles não existe. São como que crianças grandes.
Os DESCULPADOS, são aqueles que, sabendo efectivamente que estão a fazer algo incorrecto, injusto, imoral ou ilegal e portanto indutor de culpa, arranjam sempre um ou vários argumentos para descartar a culpabilidade.
E chegamos por fim aos INCULPADOS. Kuriosamente, o dicionário diz que um inculpado pode ser duas coisas opostas:
adj. Que está sem culpa.
Pessoa contra a qual é aberto um processo de instrução em consequência de um crime ou de um delito.
Para efeitos da minha prédica, a dupla definição vem mesmo a calhar. Os INCULPADOS estão sem culpa, mas foi-lhes aberto um processo de confisco.
Os INCULPADOS são aqueles que resistiram ao banquete, ou que comeram frugalmente. Foram aqueles que, enquanto iam petiscando uns canapés e umas gambas, não deixaram de ouvir os “apóstolos da desgraça” e pensar, entre duas dentadas, ”e se este gajo tem razão?”. Os INCULPADOS gozaram, e gozam, as auto-estradas, as rotundas e as fontes. luminosas ou apagadas, mas, ao mesmo tempo que apreciavam a paisagem, não conseguiam evitar um pensamento incómodo: “cum cara…ças! Como diabo vamos nós pagar isto?”. Quando finalmente chegou a sobremesa, e já todo o mundo se lambuzava, os INCULPADOS decidiram: “Basta! Isto vai dar uma indigestão danada e a seguir dieta rigorosa. Melhor não.”
Os INCULPADOS têm uma série de alcunhas: cinzentos, empatas, paspalhões, medricas, retrógrados (há outras menos lisonjeiras). Porque não sofreram de indigestão, não tiveram que entrar em dieta rigorosa, e a sua frugalidade permite-lhes encarar o futuro, se não com esperança, pelos menos sem desespero. E porque são os INCULPADOS que ainda têm alguma coisa para ser esmifrado, pois é óbvio que irão ser eles a pagar o bolo que os outros comeram. Pagá-lo-ão, contrariados mas sem queixumes folclóricos. Afinal eles são a maioria silenciosa.
E foi esta grande maioria, que vai ter que pagar o bolo SEM O TER COMIDO, que se sentiu insultada com o regresso do Pasteleiro Pinóquio.
E o “regressado” vai melhorar as coisas? Não, não vai! Vai acabar de vez com a pequeníssima credibilidade dos políticos, e nós iremos finalmente juntar-nos ao clube onde pertencemos: “os tontos do Sul”. Tornar-nos-emos ingovernáveis como a Grécia e a Itália, gritaremos cada vez mais alto, e daremos cada vez mais razões para que “ os sisudos do Norte” nos desprezem.
Ah! E continuaremos militantemente a caçar gambozinos.
Kurioso

Punta del Moral (no lado do trabalho)
Punta del Moral (no lado do lazer) 