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GAMBOZINOS

2013/03/29

O “regressado” confessou-se muito admirado pelos anticorpos que encontrou no País. Pensou que a generalizada antipatia que o actual governo recolhe, se converteria automaticamente em simpatia pela sua excelsa, impoluta e infalível PESSOA.

A Esquerda tonitruante continua a não perceber nada da sociologia deste infortunado País. Para eles, quem não pertence ao seu clube é automaticamente catalogado de Fascista e a coisa está resolvida. Quando começa a soar que há um descontentamento crescente face ao governo Fascista em funções, assume-se obviamente que a malta se fartou da Direita e é agora devota acrítica da Esquerda. Os extremos sempre tiveram uma visão dicotómica da realidade, um truque que lhes permite  tornar as suas visões ABSOLUTAMENTE certas, por contraponto às visões ABSOLUTAMENTE erradas dos outros.

Independentemente das visões absolutistas, é um facto que todos nós estamos a viver tempos difíceis (OK, catastróficos). E todos nós nos perguntamos como foi possível chegar AQUI.

Nestes últimos tempos, o desporto predilecto dos portugueses é a caça à CULPA. Queremos saber quem são os CULPADOS. Porém está provado até à saciedade que a procura da culpa em Portugal é uma verdadeira caça ao gambozino.  Tal como o gambozino, também a CULPA é um ser imaginário que pode ter tantas formas quantos os imaginadores, mas jamais será encontrada.

Ora não havendo culpados dentro do rectângulo, vamos ter que atribuir aos portugueses outros rótulos. E eu imaginei três: os ACULPADOS; os DESCULPADOS; os INCULPADOS. 

Antes da explicação “psicológica”, aqui vai um exemplo.

A auto estrada daqui para Lisboa tem três faixas. Um aculpado, um desculpado e um inculpado, vão lado a lado a 150 à hora. Em Sacavém está o comité de recepção. Respostas típicas:

1. Sim eu vinha a 150. Porquê? Não se pode andar a 150?

2. Pois o Sr. guarda sabe, eu vinha com um bocado de pressa, mas todos os outros também vinham. Eu até tinha ouvido dizer que até 150 não havia azar. Eu não tenho culpa.

3. Com o meu azar tinha que ser. E vou poder ficar com a carta?   

Os ACULPADOS (um neologismo para ajudar) são aqueles que nem sabem o que é culpa. A sua vida é feita com base no sentir, e, por limitações várias, da maior parte das quais não têm efectivamente culpa, a culpabilidade para eles não existe. São como que crianças grandes.

Os DESCULPADOS, são aqueles que, sabendo efectivamente que estão a fazer algo incorrecto, injusto, imoral ou ilegal e portanto indutor de culpa, arranjam sempre um ou vários argumentos para descartar a culpabilidade.

E chegamos por fim aos INCULPADOS. Kuriosamente, o dicionário diz que um inculpado pode ser duas coisas opostas:

adj. Que está sem culpa.
Pessoa contra a qual é aberto um processo de instrução em consequência de um crime ou de um delito.

Para efeitos da minha prédica, a dupla definição vem mesmo a calhar. Os INCULPADOS estão sem culpa, mas foi-lhes aberto um processo de confisco.

Os INCULPADOS são aqueles que resistiram ao banquete, ou que comeram frugalmente. Foram aqueles que, enquanto iam petiscando uns canapés e umas gambas, não deixaram de ouvir os “apóstolos da desgraça” e pensar, entre duas dentadas, ”e se este gajo tem razão?”. Os INCULPADOS gozaram, e gozam, as auto-estradas, as rotundas e as fontes. luminosas ou apagadas, mas, ao mesmo tempo que apreciavam a paisagem, não conseguiam evitar um pensamento incómodo: “cum cara…ças! Como diabo vamos nós pagar isto?”. Quando finalmente chegou a sobremesa, e já todo o mundo se lambuzava, os INCULPADOS decidiram: “Basta! Isto vai dar uma indigestão danada e a seguir dieta rigorosa. Melhor não.

Os INCULPADOS têm uma série de alcunhas: cinzentos, empatas, paspalhões,  medricas, retrógrados (há outras menos lisonjeiras). Porque não sofreram de indigestão, não tiveram que entrar em dieta rigorosa, e a sua frugalidade permite-lhes encarar o futuro, se não com esperança, pelos menos sem desespero. E porque são os INCULPADOS que ainda têm alguma coisa para ser esmifrado, pois é óbvio que irão ser eles a pagar o bolo que os outros comeram. Pagá-lo-ão, contrariados mas sem queixumes folclóricos. Afinal eles são a maioria silenciosa.

E foi esta grande maioria, que vai ter que pagar o bolo SEM O TER COMIDO, que se sentiu insultada com o regresso do Pasteleiro Pinóquio.

E o “regressado” vai melhorar as coisas? Não, não vai! Vai acabar de vez com a pequeníssima credibilidade dos políticos, e nós iremos finalmente juntar-nos ao clube onde pertencemos: “os tontos do Sul”. Tornar-nos-emos ingovernáveis como a Grécia e a Itália, gritaremos cada vez mais alto, e daremos cada vez mais razões para que “ os sisudos do Norte” nos desprezem.

Ah! E continuaremos militantemente a caçar gambozinos.

Kurioso 

 

SALVAÇÃO

2013/03/22

Um historiador de EsquerdaEsquerda deu como exemplo de REDENTOR um Presidente americano. Ele há cenas irónicas!

Escrevendo muito bem (o que é cada vez mais raro), deu um enfoque significativo à “domesticação” dos Bancos, e referiu en passant o trabalho comunitário para os milhões de desempregados.

Dando de barato tudo o que é diferente, e é quase TUDO, entre os EUA de 1933 e a Europa de 2013, é interessante perceber que nem os Bancos querem ser “domesticados”, nem os desempregados querem ser “recrutados”.

O Presidente Roosevelt foi efectivamente um homem de uma visão extraordinária, por ter imaginado uma solução, mas foi também um homem com uma sorte extraordinária. Em 1933 ainda não havia uma comunicação social “mafiosa”, nem… redes sociais. O homem PODE fazer o que precisava de ser feito!

E, depois de 4 anos de uma Depressão negra, os milhões de desempregados que precisavam de dinheiro para COMER, estavam dispostos a fazer O QUE FOSSE PRECISO para arranjá-lo. Os Estados Unidos foram criados na base do esforço individual por contra ponto à já evidente “burocracia” europeia. Os americanos estão habituados a trabalhar para receber. Estão habituados a ter deveres antes de terem direitos.

Quando Roosevelt lhes propôs irem reflorestar, repavimentar e consertar o País, dando-lhes alojamento (em tendas), alimentação (na marmita) e 30 dólares por mês, eles FORAM!

“Every month, the government required the CCC boys to send $22 to $25 — a hefty chunk of their $30-per-month paycheck — to their families. But this didn’t put the boys out much, as life in the camps provided them with all the necessary amenities.”

Entretanto ainda havia 80% de americanos que não tinham perdido o emprego. A estes, convenceu-os a porem as economias nos “novos” bancos, de modo a que os bancos voltassem a ter liquidez para “fermentar” a economia.

É importante referir que todo este esforço serviu somente para acabar com a fome. A economia americana só disparou verdadeiramente com o esforço de guerra, a partir de 1938.

Pensar que uma coisa semelhante podia ser feita nos dias de hoje, em qualquer país ocidental, é uma pura perda de tempo. Em Portugal seriam duas perdas de tempo: uma a propô-la, e outra a achincalhá-la ad nauseam. Basta lembrar as reacções às propostas de por a trabalhar os beneficiários do rendimento social de inserção, ou as elevadas considerações que mereceu a sugestão do maestro dos banqueiros (que também não está nem aí para salvar o País…). Gostava de ver a reacção deste senhor a uma lei como esta: “TITLE II:To enable the Comptroller of the Currency (a post in the US Treasury) to take complete control of and operate any bank in the United States or its territories and to establish the terms and conditions under which bank is administered.

No nosso país parecem estar reunidas todas as condições para que não falhemos a ida para o fundo.

Mas é possível encontrar na actualidade um País que, ao ser confrontado com o fim da festa, conseguiu reunir o esforço de TODOS (governo, administração pública, autarquias, banca, população) para que cedendo equilibradamente pudessem retroceder o menos possível. A Islândia. Mas, nos dias de hoje, mesmo os milagres são contestados.

Kurioso

PS. Para quem for curioso: $30.00 in 1933 had the same buying power as $525.80 in 2013

E, já agora, o limiar de pobreza em 2012 era de $975

PENEIRAS

2012/09/28

É meio difícil nos dias de hoje escrever algo que não seja relacionado com a crise, sobretudo para alguém que, segundo as regras de um passado bem recente, estaria agora a desacelerar e a preparar os pezinhos para as pantufas da reforma.

Mas há variadas formas de perceber a crise, e eu tenho tido a sorte (?) de poder apreciá-la (?) ao vivo e a cores em vários países da Europa, apreciação complementada com leituras muito diversas e também conversas com colegas “multinacionais”.

Já por aqui referi o facto de a empresa onde trabalho ter “farejado” esta crise muito antes de os nossos (des)governantes terem sido obrigados a assumi-la. Parecem agora justificados os congelamentos de salários, parecem agora menos injustas “as rescisões por mútuo acordo” (pelo menos para os que ficámos), parece agora aceitável a estrutura anoréctica com que ficámos.

Dentro dessa nova estruturinha, cada um nós herdou o trabalho de um outro que saiu. E foi assim que, de repente, me calhou gerir o dobro das pessoas, o dobro dos produtos e o dobro dos contactos, ao receber uma área de negócio totalmente estranha. Porque a estrutura, além de encolher na horizontal, encolheu também na vertical, reporto agora a um chefe “lá de cima” que não tem tempo para minudências, e debita directrizes por email. Também não é preciso mais.

E porque estamos agora no processo de orçamento para o ano que vem, tive que aprender depressa e dar corda aos neurónios. Entretanto também as viagens aumentaram, e agora além de trabalhar no escritório e em casa, trabalho também nos aeroportos, no avião e em hotéis. Se me sinto cansado? É claro que sinto! Se me dá gozo? Sim! Dá-me um gozo do caraças, poder, aos 62 anos, continuar a aprender, e, sobretudo, partilhar o que consegui aprender ao longo de todos estes anos.

Estou a escrever isto no avião, vindo da Suíça onde participei numa reunião com uma vintena de colegas de toda a Europa. Podia ser pai de todos eles e quase avô de alguns. Em vez de me sentir o fóssil da reunião (ainda por cima um fóssil vindo dum país desgovernado…), consegui mostrar que idade e origem não são obstáculos intransponíveis. O bom senso que resulta da conjugação de estudo com experiência, consegue furar o preconceito mais arreigado.

Dizia eu lá em cima que consigo perceber a crise de variados ângulos e através de várias fases. Na reunião de hoje já não estiveram os meus colegas Espanhóis e Gregos (durante muito tempo recusaram enfrentar a realidade, e agora estão a apagar fogos…). Onde há uns tempos atrás eu encontrava uma abordagem de pesar pelos “coitadinhos dos Portugueses”, vejo agora uma curiosidade interessada em saber como é que a nossa companhia conseguiu prevenir-se e ,manter o moral elevado. Estamos safos? Não sabemos! Mas fomos preparados para trabalhar mais, para trabalhar melhor, para assumir responsabilidades e para querer saber mais do que nos compete. Temos mais probabilidades de nos safarmos.

A importância desta conjugação ficou hoje patente quando comparámos os resultados de dois agrupamentos de países. Num dos casos existe uma estrutura estável com pessoas experientes que foram ganhando competências e credibilidade ao longo dos anos. No outro, uma sequência de reorganizações  fez com que o trabalho ficasse entregue a uma equipa totalmente nova, com fraco conhecimento dos processos e nenhuma experiência que lhes permita criticar os dados que entretanto se tornaram mais voláteis. As decisões “erradas” começam a surgir e introduzem ainda mais confusão num sistema que já ninguém entende. 

Acho que deixei claro que hoje eu estou cheio de peneiras.

Kurioso

QUASE

2012/08/03

A conjugação de uma série de condicionantes, profissionais, pessoais e familiares, fizeram com que quase não houvesse férias este ano. Finalmente conseguimos, à ultima da hora, arranjar uns dias e, ao mesmo tempo, encontrar uma casa onde pudéssemos ficar, nós e o nosso zoo.

Porque nós somos privilegiados (ou precavidos) ainda não foi este ano que a troika conseguiu impedir-nos de ir à procura de água quentinha (enfim, um pouco menos fria).

Porque o tempo esteve sempre bom e a estadia foi mais curta, desta vez cobrimos menos área, ficando as visitas limitadas a Tavira, Manta Rota, Vila Real, Ayamonte e Punta del Moral.

Desde o primeiro dia que nos pareceu haver (muito) mais gente do que no ano passado, e as rotineiras visitas ao mercado, padaria, supermercado, cafés e restaurantes, confirmariam isso nos dias seguintes.

Porém, o “refinamento” sociológico que já reportei no ano passado foi ainda mais evidente este ano. A percentagem de Audis, BMs, ou Mercedes era nitidamente superior, pois desapareceram alguns dos Renault, Volkswagen, Toyota e afins. E dentro dos pópós de luxo os intocáveis cá do burgo, com apelidos e comportamentos muito distintos, mas igualmente privilegiados. A crise é uma cena que não lhes assiste!

O aumento da frequência era notório também nos outros povoados, com muitos estrangeiros em Vila Real e em Tavira. E numa visita nocturna a Monte Gordo, aconteceu-nos o caricato de não conseguir um lugar para estacionar o carro numa vulgar noite de semana, pelo que não nos foi possível fazer o “passeio da fama”.

Mas as maiores surpresas, negativa e positiva, acabariam por ser encontradas em Espanha, em Ayamonte e em Punta del Moral. Ayamonte estava a crescer explosivamente e, no espaço de um ano, PAROU. Há urbanizações semi-acabadas por todo o lado, e mesmo a parte acabada está deserta. Duas delas, à beirinha do Guadiana, mostram, através das ervas que crescem por todo o lado, como se podem desbaratar milhões.

Já em Punta del Moral, onde vamos todos os anos peregrinar à cata de fritos como só os espanhóis sabem fazer, a surpresa foi encontrar o lugar a abarrotar. No ano passado, a visita fora um desconsolo pelo deserto “transbordante”: lojas e restaurantes fechados, os resistentes quase vazios, as pessoas com ar sorumbático. Este ano renasceu: tudo aberto e tudo cheio. Os Ingleses foliões e os Espanhóis barulhentos, substituíram os Portugueses cinzentões. 

Punta del Moral era um enclave português na raia espanhola. Quando começaram a aproveitar a língua de areia que os locais desprezaram, os apartamentos eram vendidos a 8000 contos, na época em que o dinheiro abundava do lado de cá. Tudo o que era classe média (ou pensava que era…) vá de comprar um apartamento na praia. A construção era fracota e a praia foleira, mas, que diabo!, um apartamento na praia não é para qualquer um. Naqueles tempos, mais de 30% dos carros tinham matrícula portuguesa. Até que no ano passado colapsou! Nem portugueses, nem espanhóis, nem “bifes”.  

Mas, passado um ano, conseguiram dar a volta ao fado. Os portugueses continuam arredios, mas há ingleses aos montes, salpicados de franceses e alemães, e pargas de espanhóis. Devem ter descoberto que podem ter a mesma areia negra de Torremolinos, num ambiente muito menos caótico. 

Daqui a um ano, se esta porra não for toda pelo ralo abaixo, farei novo relatório.

Kurioso

Tavira

Ayamonte (com Isla Canela lá ao fundo)

Ayamonte (Sinais da crise)

Punta del Moral (no lado do trabalho)

Punta del Moral (no lado do lazer)

ZAROLHOS

2012/01/06

Há duas palavras que eu abomino: MÉDIA e COMPARAÇÃO. Uma média, na maior parte das vezes, vale uma “mérdia”, e as comparações, na maior parte das vezes, comparam alhos com bugalhos. E no entanto estas duas palavras são fundamentais no meu trabalho. E, porque são fundamentais, eu aprendi as técnicas que permitem retirar o azeite da água suja que resulta de uma média directa ou de uma comparação tosca. Por outro lado, como já são muitos anos de volta do “lagar”, tenho a presunção de acreditar que desenvolvi uma espécie de “olho de sapo” que me ajuda a detectar o que é relevante no meio do ruído envolvente.

“Recent research has revealed some of the frog’s eye’s interesting abilities. One kind of retinal cell responds strongly to small, dark, round moving objects and is most active when those objects moved irregularly. It is as if the neurons of the frog eyes were designed especially to detect flies. Some scientists call their eyes "bug detectors."”

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Tirado daqui

Neste tempo em que todos nós deveríamos ser esclarecidos da forma mais isenta, é absolutamente vergonhosa a forma como todos os poderes, formais e sobretudo os informais, manipulam as médias e as comparações do modo que seja mais vantajoso para eles próprios ou para os interesses que defendem.

Porque vou falar (outra vez) da crise, deixo aqui (outra vez) a minha visão em traço grosso:

1. Gastámos muito mais do que produzimos

2. O gasto foi facilitado pelos “drug dealers” internacionais (vulgo mercados) e descuidadamente aproveitado pelos governos, pelas empresas e pelos particulares

3. Todos mamámos daquela “teta”, fosse de forma directa (empréstimos pessoais) ou indirecta (auto-estradas, rotundas, gimnodesportivos, hospitais, escolas, bolsas, subsídios, reformas)

4. Porque começámos a dar indícios de não poder pagar a “droga”, os “dealers” cortaram o fornecimento

5. Vamos ter que “ressacar” violentamente e quando estivermos curados do vício, talvez (TALVEZ…) nos deixem voltar a “cheirar” um bocadinho

6. Porque já tivemos diversas recaídas, e porque muitos ainda não assumiram o vício, os médicos continuam a insistir no tratamento de privação total

7. Qualquer que seja o método, a probabilidade de cura é assustadoramente baixa

Do acima esboçado, é fácil de ver que eu não tenho nenhuma certeza de que a receita da Troika consiga tirar-nos do atoleiro, mas também me parece que havia muito poucas alternativas. Voltando às analogias automobilísticas, é como se um condutor totó deixasse o carro entrar em despiste, e o pendura, um pouco mais experiente, tentasse a todo o custo evitar o choque frontal, preferindo bater de lado ou de traseira. O carro vai para a oficina, mas os passageiros talvez se safem.

Voltando então às visões parciais, ou tendenciosas, chateia-me particularmente a pregação fanática de um determinado opinante que, para mostrar como não funcionam as medidas da troika, passa a vida a dar o exemplo Grego. Já não chegavam os outros europeus a baterem naquela tecla, ainda tem que aparecer um português parvo a dizer que nós somos como os gregos. Podemos ser tão bons a gastar como eles, mas quero crer que ainda somos um bocadinho melhores a pagar. E a pagar para onde é importante: para o Estado. A Grécia não vai lá porque os gregos rejeitam hoje, como sempre rejeitaram, a figura de um Estado suportada por eles próprios. Quando alguém acha que eu (um português médio) sou parecido com um grego médio, eu sinto-me insultado.

O tal opinante com “olho de sapo”, se quer fazer comparações, bem podia ir à procura de outra letra do PIG e talvez encontrasse outros resultados para a mesma profilaxia: a Irlanda. As coisas não estão garantidas, mas começa a haver uma réstia de esperança.

Infelizmente anda por aí muita gente a defender ideias, mas muito pouca a defender Portugal.

Kurioso

TANGO

2011/11/25

Eu tenho horror ao CAOS (é por isso que me sinto horrorizado sempre que vou à minha garagem…). Durante as quatro décadas que já levo de actividade profissional, sempre lutei contra o caos, e, tentando sempre ver mais longe, sempre me esforcei por evitá-lo ( a minha garagem é uma prova de que há sempre batalhas perdidas numa guerra…). Como quase todos os problemas, também o CAOS é mais fácil de prevenir do que remediar, pois é altamente reprodutivo. Enquanto a normalidade exige um cuidado constante para se reproduzir, o CAOS não necessita de ajuda nenhuma para se propagar exponencialmente.

Eu não tenho nenhuma certeza (e bem gostava de ter) de que as medidas em curso consigam tirar-nos do buraco. Mas estou absolutamente convencido de que o CAOS não tirará.

Desde que a Grécia se plantou (ou foi plantada) à beira do precipício, comecei a ler sobre: 1. Sair do Euro; 2. Bancarrota.

Em relação à bancarrota o exemplo mais recente, e mais conhecido, no mundo ocidental, é a Argentina, que decidiu em  Janeiro de 2002 deixar de dançar o tango com o Dólar e aceitar a incapacidade de pagar a divida.

Do longo, e esclarecedor, artigo da Wiki eu escolhi dois excertos para tipificar as Causas e as Consequências (os sublinhados são meus). 

CAUSA:

“As a result of the convertibility law, inflation dropped sharply, price stability was assured and the value of the currency was preserved. This raised the quality of life for many citizens who could now afford to travel abroad, buy imported goods or ask for credit in dollars at very low interest rates.

Argentina still had external debts to pay and it needed to keep borrowing money. The fixed exchange rate made imports cheap, producing a constant flight of dollars away from the country and a progressive loss of Argentina’s industrial infrastructure which led to an increase in unemployment.

In the meantime, government spending continued to be high and corruption was rampant. Argentina’s public debt grew enormously during the 1990s and the country showed no true signs of being able to pay it. The International Monetary Fund, however, kept lending money to Argentina and postponing its payment schedules. Massive tax evasion and money laundering explained a large part of the evaporation of funds toward offshore banks.”

CONSEQUÊNCIA:

“In addition to the corralito, the Ministry of Economy dictated the pesificación ("peso-ification"), by which all bank accounts denominated in dollars would be converted to pesos at official rate. This measure angered most savings holders and appeals were made by many citizens to declare it unconstitutional.

After a few months, the exchange rate was left to float more or less freely. The peso suffered a huge depreciation, which in turn prompted inflation (since Argentina depended heavily on imports, and had no means to replace them locally at the time).

The economic situation became steadily worse with regards to inflation and unemployment during 2002. By that time the original 1-to-1 rate had increased to nearly 4 pesos per dollar, while the accumulated inflation since the devaluation was about 80%; these figures were considerably lower than those foretold by most orthodox economists at the time. The quality of life of the average Argentine was lowered proportionally; many businesses closed or went bankrupt, many imported products became virtually inaccessible, and salaries were left as they were before the crisis.

UMA DÉCADA DEPOIS:

A Argentina continua fora dos mercados, o rating mantém-se em B,  a probabilidade de nova bancarrota mantém-se, mas descobriu uma nova Evita e o povo está contente.

Mas nem tudo é mau, e, mesmo com todas as notações negativas, a Argentina pertence ao G20, apesar de ficar atrás de Portugal numa série de indicadores. Uma das razões pode ser a sua enorme capacidade de produzir comida, algo quase tão importante como o petróleo.

E porque eu tenho horror ao caos, sempre consegui manter-me imune ao canto da sereia “CONSUMO” e habituei-me a viver com aquilo que “produzo”. E porque eu não devo nada a ninguém, estou completamente FULO com quem assumiu em meu nome dividas que eu vou pagar para evitar o CAOS.

E estou também FULO com os meus compatriotas que, não tendo resistido ao canto da sereia , acham agora que o CAOS poderá apagar as responsabilidades que assumiram de ânimo leve.

Costuma dizer-se que “são precisos dois para dançar o Tango”. Pois nesta altura eu diria: “ são precisos 10 milhões para NÃO dançarmos o Tango”.

Kurioso

PS. 1. Eu tenho a mania de ir à procura de informação em Inglês, e depois sou surpreendido com prosas bem alinhadas na nossa língua. Quando já ia a publicar este queixume, descobri um artigo em português que foca os pontos principais da tragédia Argentina.

PS. 2. Também já houve quem imaginasse a Grécia depois do metafórico passo em frente.

PS. 3. Ao rever este post reparei que a palavra sempre está repetida vezes demais. Foi inadvertido, mas resolvi deixá-las todas pois reflectem uma acção coerente e consistente ao longo de décadas.

FURO

2011/10/28

Costuma dizer-se que a conversa é como as cerejas. Eu, que não sou grande conversador, diria que as ideias também podem ser como as cerejas. Uma puxa a outra, que puxa a outra, que…

A ideia para esta divagação surgiu quando pensei na importância que o ar pode ter. Quem já teve um furo num pneu sabe bem a que me refiro. Como é que uma coisa cheia de nada rola tão bem, e, de repente, se lhe tirarmos o nada, começa trum, trum, trum e não nos leva a lado algum.

É claro que a cereja antes do pneu, já tinha sido um post que eu escrevi noutro sítio e noutra era, sobre balões (vulgo Bancos) que nos enchem o olho e finalmente descobrimos estão cheios de nada. Parênteses para referir que, no tempo de todas as surpresas, tive a desagradável surpresa de descobrir que o meu blogue  no Sol passou de virtual a inexistente. Bazou para parte incerta…Entretanto meti uma cunha ao governador lá do sítio, e hoje tive outra surpresa, desta vez agradável: o fujão voltou.

Mas eu não quero, e não sei, falar sobre Bancos  que tendo lucros fabulosos, pagando impostos da treta, dizem não ter dinheiro para emprestar, mas não querem receber o dinheiro que há para lhes dar. Mesmo não falando, parece-me que há por aqui mais furos que num passador de rede fininha…

A cereja mais recente foi o facto de saber que o carro que vou receber dentro de dias não traz roda sobressalente (nem uma daquelas rodas de motinha que vemos às vezes no carro que vai a nossa frente). A ideia (oficial) é retirar uns quilos ao peso do carro, que por sua vez conduzirão à poupança de uns quantos litros de combustível, que por sua vez evitarão a emissão de uns quantos quilos de CO2, que por sua vez reduzirão o efeito de estufa, que por sua vez diminuirá o aquecimento global, que por sua vez evitará o derretimentos das calotas polares, que por sua vez…porra para as cerejas.  A ideia (minha) é que os gajos retiraram a roda para ganhar mais uns euros!

Perguntaram-me se queria comprar uma roda, e eu, que há anos não tenho um furo, fiquei naquele dilema de sempre. Faço ou não faço um seguro; levo ou não levo o chapéu de chuva (ontem não levei, e apanhei uma molha das valentes…); vou pela 2ª circular ou vou pelo eixo Norte-Sul; mantenho-me na faixa da esquerda, ou passo para a do meio. Não comprei!

Entretanto lembrei-me como era ter um furo no tempo em que eu andava de calções (o tempo todo…).

Mas como isto anda tudo ligado, é preciso falar da construção, antes de falar nos furos da década de 50. Pois, por essa altura em Moçambique, toda a construção era suportada à base de madeira e pregos. As cofragens eram formadas por um palco de tábuas apoiadas numa grelha de barrotes, por sua vez suportados por dezenas de prumos de madeira. Os andaimes eram também laboriosamente construídos por barrotes e tábuas unidos por pregos. Milhares de pregos! E porque esses eram tempos de escassez ( e mão-de-obra barata), no final de cada obra tábuas, barrotes e pregos eram cuidadosamente separados para posterior reutilização. As tábuas e os barrotes eram raspados para retirar os restos de cimento, e os pregos eram ENDIREITADOS um por um. Depois eram metidos nas latas de tinta vazias e borrifados com gasóleo para retardar a ferrugem. E como isto anda tudo ligado, é preciso falar dos camiões das obras, cujas caixas de carga em madeira ficavam rapidamente cheias de buracos onde por vezes podia caber um pé mais descuidado. Ora baldes cheios de pregos, em camiões esburacados, transitando por estradas, hummm, pouco lisas, faziam com que houvesse MUITOS pregos nas rodovias (?) africanas.

Nesses tempos, em que a maior parte dos condutores sabia mexer num carro, sem ser para carregar em botõezinhos, e os carros precisavam que se mexesse neles com frequência para cumprirem a sua missão, nesses tempos, em todas as bagageiras havia uma mini oficina.

E chegamos finalmente ao segundo, ou terceiro furo. Do primeiro nem era preciso falar, pois havia (ainda) a roda sobressalente. Mas, para os furos subsequentes, era preciso um  pouquito de jeito, bastante força e muita paciência. Havia que tirar a roda, coisa fácil com uma chave de cruzeta que entretanto foi substituída umas linguiças de arame macio que vergam ao primeiro esforço. Como os pneus ainda tinham câmara de ar (uma coisas pretas parecidas com as bóias dos putos, mas sem bonecos) não estavam tão justos à jante e eram mais fáceis de desmontar para se poder tirar a dita cá para fora. Dois desmontas, um martelo, umas pragas em surdina e cinco minutos depois a câmara estava ao sol. A seguir havia que encontrar o furo, e para isso era preciso bufar (com uma bomba pois claro) para dentro da lombriga preta, e, depois, rodando-a lentamente junto à cara tentar sentir o soprozinho do sacana. Assim que era detectado alinhava-se o dito furinho com a boca e uma cuspidela valente servia para marcar o lugar do próximo combate. O passo seguinte era esvaziar outra vez a câmara, lixar toda a zona envolvente e escolher o remendo adequado. Nessa altura a Tip-Top já tinha inventado a vulcanização a quente, mas a vulcanização a frio ainda levaria uns anitos para aparecer. Um remendo para vulcanização a quente era um pedaço de borracha macia montado no fundo de um “barquinho” em metal que tinha dentro uma mistura de cartão com pólvora que iria fornecer o calor para fundir as duas borrachas. A coisa era um prodígio de simbiose entre física e química. Havia ainda uma prensa que servia para manter as duas partes solidamente encostadas durante o processo de fundição.

Todo este processo pirotécnico, com fumos, cheiros,  faíscas e assobios, era fascinante para um puto kurioso com 7 ou 8 anos de idade. Tão fascinante que eu fui agarrar no “barquinho” que o meu pai atirara cuidadosamente para a berma da estrada. Com dois dedos “fundidos” eu aprendi na prática o que só estudaria daí a muitos anos: para fundir borracha é preciso BASTANTE calor.

Entretanto o mundo pulou e avançou.

Desapareceram os andaimes de madeira, desapareceram as câmaras de ar, desapareceram os condutores/mecânicos, desapareceram as mini-oficinas na bagageira, desapareceram os carpinteiros de construção, desapareceram os fabricantes de câmaras de ar.

O mesmo progresso que nos livrou dos problemas solucionáveis, arranjou-nos problemas insolucionáveis. De razoavelmente autónomos, passámos a absolutamente dependentes.

Kurioso

 

PS. A fotografia acima está junto a um artigo aterrador que tendo sido escrito em Dezembro de 2008, mostra bem a alhada em que ainda estamos metidos. Fui à procura de uma fotografia de um pneu, e vim de lá atropelado…           

 

“DÉJÀ VU”

2011/10/21

Há 35 anos a minha “terra” implodiu. Uma sociedade em equilíbrio precário e injusto sofreu um abalo devastador de que ainda não recuperou. Moçambique é uma terra infeliz onde os habitantes têm, hoje, uma esperança de vida de 42 anos.

Há 35 anos eu tive a esperança de que a minha “terra”, uma colónia para a maior parte dos meus compatriotas, pudesse tornar-se o meu País. Eu festejei o 25 de Abril pensando que iria ter a oportunidade de ajudar a construir um GRANDE País.

Há 35 anos eu tive uma “Introdução Acelerada à Política”, através dos discursos inflamados de um político quase analfabeto mas com uma sagacidade e intuição que envergonharia qualquer fala-barato contemporâneo.

Ele percebeu, e deu-nos claramente a perceber, que preferia ter um país pobre e verdadeiramente independente, do que uma pseudo independência subjugada por uma economia estrangeira. Mas eu, ingénuo e idealista (26 aninhos…) ainda comemorei a independência iluminando a nossa casa com as cores da bandeira.

Mas mesmo um idealista ingénuo é obrigado a ver a realidade quando ela se mete pelos olhos dentro. A nacionalização total de todo o imobiliário do país, propriedade dos brancos pois claro, além de entrar pelos olhos dentro, foi o tiro de partida para a debandada geral. A medida, genial, foi um verdadeiro três em um. Motivavam-se os “estrangeiros” para abandonarem o país; arranjavam-se casas para os nacionais e herdavam-se os milhares de empresas abandonadas.

Quando abandonei a minha terra, e só quem passou por isso sabe o que custa, não tive sentimentos de raiva ou frustração. Idealista ainda, eu pensei por cima da tristeza que me apertava o coração: se daqui a dez anos eles estiverem no caminho certo, terá valido a pena.

E deixando para trás dois racismos, o do branco contra o preto, e o do preto contra o branco, embarcámos ao encontro do terceiro racismo: o do branco contra o branco.

E assim chegamos à Portela numa fresca manhã da Primavera de 1976, trocando calor por frio; mar por montanha; castanho por verde; amigos por desconhecidos; cidade por vila; carro por motorizada; vivenda por quarto; gestão de pessoas por criação de porcos; caneta por pá; autonomia por dependência. A única coisa igual, nas duas pontas de uma longa e triste viagem de avião, foi o apoio da Família. A Família que nos apoiou na despedida, e a Família que nos ajudou na chegada.

E depois houve que aprender e lutar. Aprender uma nova cultura e lutar contra os preconceitos, os que trazíamos e os que cá encontrámos. A pouco e pouco fomos revertendo as trocas. Regressámos ao mar; mudámos para uma cidade; depois do quarto emprestado, passámos pelo quarto alugado, pela casa alugada até chegar à casa própria; a seu tempo a motorizada foi trocada por um carro; depois dos porcos e dos frangos, houve que passar pelo trabalho à hora, pelas vendas porta-a-porta até chegar de novo à gestão.

E durante estes 35 anos, eu, um eterno outsider, vi este País crescer e evoluir desequilibradamente. Crescendo e evoluindo explosivamente em termos materiais, crescendo e evoluindo razoavelmente em termos de instrução, crescendo muito pouco ou regredindo em termos sociológicos.

Gastando muito e pensando pouco chegámos ao BURACÃO onde estamos metidos. Pensar que foram 200 políticos, ou 200 capitalistas, ou 200 sindicalistas que cavaram o buraco, é dar-lhes mais crédito do que merecem. Todos nós cavámos um bocadinho.

É claro que há grandes responsáveis e pequenos responsáveis, mas, como também é tradição neste País, os Grandes Responsáveis jamais serão responsabilizados, pelo que cada um de nós vai ter que tapar muito mais do que cavou.

35 anos depois, sinto e vejo os mesmos sinais. Desânimo, descrédito e  desorientação nas pessoas, lojas, casas e ruas cada vez mais vazias na cidade. E essa sensação terrível de sabermos que amanhã será pior do que hoje. E hoje, céptico e realista (61 aninhos) eu tenho sérias dúvidas de que o meu sacrifício  sirva para salvar a pátria.

Mas se tiver que fazer as malas outra vez, não vai custar tanto. Afinal eu só vou abandonar um país onde investi toda a minha vida, mas que nunca foi a minha “terra”.

Kurioso

PS. Fez esta semana 25 anos que morreu o homem que “correu” connosco de Moçambique. Nos dez anos em que  governou teve a coragem de admitir que usara uma abordagem errada. E hoje, estou certo que concordaria comigo que foram demasiados sacrifícios para tão poucos ganhos.

POIS…

2011/08/05

Porque a tradição não é só os políticos dizerem uma coisa e fazerem outra, eu venho aqui manter a tradição de escrever sobre as férias.

Para evitar repetir-me, fui ler o que escrevi há um ano e quase fiquei sem assunto. Realmente as coisas nunca mudam muito em Portugal. O que é um mau presságio… (porra! ainda agora cheguei e já estou outra vez azedo).

E porque as coisas não mudam, continua a haver MUITA gente no Algarve, a mesma gente continua a ir para os mesmos sítios e os estereótipos estão cada vez mais definidos: nalguns lugares (quase) toda a gente tem tatuagens, noutros (quase) ninguém tem bonecos no corpo. Nalguns lugares os telelés estão sempre acesos nas mãos da juventude, fazendo lembrar uma procissão de velas, noutros lugares, os meninos não andam com o iPhone à vista.

Mas há sinais de mudança.

A nossa rotina de férias, porque gostamos e também porque queremos algum sossego, é complementar da da grande maioria: eu vou comprar o pão quando eles já vão para a praia; nós vamos para a praia quando eles saem para almoçar; saímos da praia quando eles regressam para o ventinho do fim de tarde; já estamos no restaurante, lavadinhos e bem cheirosos, quando eles saem da praia, etc. Este esquema permitiu-nos, durante anos, ficar com a praia TODA só para nós durante três ou quatro horas, e também livrar-nos das tremendas filas que se formam sempre que uma infra-estrutura deficiente é sobrecarregada.

Pois…este ano, apesar do areal continuar cheio de gente, notaram-se diferenças.  Já não havia filas nas bancas do peixe, apesar dos preços estarem bem razoáveis, e a peixeira reclamava uma quebra de 50%. Já havia fila no pronto a comer e a lista de pratos era maior do que em anos anteriores, indicando aumento de procura. Já havia vagas nos restaurantes “de guardanapo de pano”, e as pessoas já “racham” a sobremesa (prática que nós já seguimos há anos). Já sobraram dezenas de casas que não foram alugadas, provavelmente pelas razões conjugadas de mais donos a precisar duns trocos, e menos “inquilinos” com trocos disponíveis. E há centenas de casas para vender.

E até a nossa solidão no areal, começou a ser ameaçada este ano. Há cada vez mais gente a trocar o churrasquinho ao almoço por umas sandochas na praia.

Porém, não me parece que a invasão estival vá acabar no Algarve. A classe média (seja isso o que fôr…) está a levar um porradão do caraças, mas há duas classes que continuarão imunes: os que estão acima da Lei (as elites) e os que estão do lado de fora da Lei (a economia paralela). Quem conhece o Algarve sabe bem onde encontrar uns e outros. Kuriosamente, estas duas turmas, que raramente se cruzam em lazer (profissionalmente têm contactos assíduos), acabam fatalmente a picar o ponto no Ramires da Guia, esse verdadeiro caldeirão de culturas, e um exemplo de eficiência e especialização restaurativas, digno de um case-study.

E para o ano, se a troika permitir, voltaremos a apreciar estas belas paisagens.

Kurioso

MEDO

2011/04/29

Comentando uma citação no FB, presumi que o Medo nos obriga a fazer coisas, e que a sua ausência é causadora de relaxe. Afinal parece que o que estava subjacente na frase que originou o comentário, era exactamente o contrário: o Medo inibe a acção.

Pensando um pouco mais sobre o assunto, percebi que a minha opinião era fortemente subjectiva. Ao longo da minha vida vários Medos obrigaram-me a agir, porque a opção de nada fazer nem sequer se punha. Aos catorze anos fiquei sem Pai, numa época e numa idade em que um pai é O farol; aos 26 fiquei sem “terra” quando um sonho de independência se transformou numa realidade de pesadelo; aos 27 regresso à Pátria, que afinal já não era a minha “terra”, e descubro que sou portador de um estigma que durará décadas.

O facto de ter tido que enfrentar todos estes Medos, e, ao mesmo tempo, vencer uma timidez que, ainda hoje, me tolhe o passo mais vezes do que gostaria, obrigou-me a rejeitar desde muito cedo um medo que grassa em Portugal: o medo de “parecer mal”. Este sim um verdadeiro inibidor.

O medo existe mesmo sem ter razão de ser." disse Paula Rego, e é este medo de “parecer mal” que nós vemos aí por todo o lado. Parece mal mostrar ignorância, e por isso continuamos sem aprender; parece mal criticar o chefe, e por isso ele vai continuar a errar; parece mal dizer a um colega que deveria usar um desodorizante mais forte, e por isso ele vai continuar a ser alvo do gozo generalizado; parece mal chamar a atenção a empregado desleixado, e por isso ele não deixará de ser desleixado; parece mal ser contra o politicamente correcto, e por isso encarreiramos pela mediocridade globalmente aceite. É claro que esta atitude tem algo de Darwinismo pois as pessoas foram-se habituando a evitar as reacções adversas que qualquer uma das das atitudes acima provoca no visado. Sobretudo nas criticas ao chefe, há que ter muito cuidado…

Ao dizer “grassa em Portugal” estava  a ser demasiado restritivo. Tirando a vizinha Espanha onde existe o saudável hábito de “deixar sair e esquecer”, o que vou encontrando por aí acima é cada vez mais o “sorriso silencioso e descomprometido”.

E este medo encapotado tem consequências várias: impede que sejam resolvidos os problemas enquanto são pequenos; causam recalcamentos que são depois sublimados noutras interacções, por vezes de forma destrutiva; e, talvez a mais importante, fornece o combustível para os Manipuladores do Medo. Eles andam por aí!!!

Kurioso


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