Se há uma área onde os Homens têm tido dificuldade em abdicar da supremacia, é a da condução de máquinas.
Mesmo o exemplo diário de milhares de Mulheres que conduzem bem, não consegue fazer-nos esquecer as centenas de exemplos de outras que têm alguma dificuldade em comunicar com as suas viaturas.
Eu, machisticamente, continuo a pensar que a maioria dos homens tem mais afinidade com máquinas do que a maioria das mulheres, mas tenho levado algumas “porradas” no ego. Uma das primeiras terá sido quando tive o privilégio de assistir à vitória de Michele Mouton no Raly de Portugal de 1982.
Uma das últimas foi ter sido claramente vencido numa corrida de karts por uma colega dos Recursos Humanos, no novíssimo Autódromo do Algarve.
Mas se nos automóveis a competência das mulheres já vai sendo quase aceite, na condução de máquinas especializadas o “ataque” feminino é bem mais recente.
Uma boa parte da minha vida profissional foi passada em Fábricas, e, durante todo esse tempo, era impensável ver uma Mulher a conduzir um empilhador. Eram competentes para manejar um maçarico durante oito horas, para controlar máquinas sofisticadíssimas, etc, mas conduzir nunca. A parte da condução ficava reservada para os Homens. É claro que nem todos os Homens são igualmente dotados, e por isso tínhamos os “craques”, os “assim-assim” e os “coxos”. Estes últimos eram facilmente identificados pela forma como o maralhal se protegia ao vê-los aproximar.
Depois de uns anos de afastamento, visito um dos nossos armazéns e sou surpreendido pela presença de algumas Mulheres que conduzem com desenvoltura os porta-paletes (vulgo urinóis), fazendo o “picking” e carregando os camiões. Porém os empilhadores, e sobretudo os trilaterais, continuavam entregues às competentes (?) mãos cabeludas.
Mas a emancipação da Mulher é imparável, e, por isso, não é de admirar que ao visitar um grande operador logístico eu quase só encontrasse Mulheres dentro do armazém. Tirar uma palete do nível 5? – “piece of cake”. Carregar um camião em double-stacking? – tá feito!
Sentindo que mais um feudo nos fugia, resolvo interrogar a Directora: “Mas vocês são feministas, ou quê? Onde é que estão os Homens?”. Resposta pronta: “Os Homens foram para onde é preciso fazer força. Nas máquinas tinham a mania que eram bons e andavam sempre a bater em todo o lado. Só em estantes torcidas e quebras de material era um dinheirão. As Mulheres faltam mais, vão mais vezes à casinha e, quando se encontram três num corredor há conversa para largos minutos. Mas, mesmo assim, acabam por ser mais produtivas. Quase não há quebras, enganam-se muito menos, cumprem as regras à risca e não estragam o material.”
Esta divagação foi despoletada por este vídeo onde se pode ver que, mesmo “lá fora”, ainda há quem se surpreenda pelo avanço das saias (das calças?, dos calções?, dos corsários?, dos leggings?) em terrenos proibidos.
Um dos meus passatempos mais recentes é ler os comentários por baixo dos diversos vídeos onde vou parar. Descontando o nível médio bastante baixo, a má educação a roçar a boçalidade e o maniqueísmo mais básico, ainda é possível descortinar as ideias por detrás da escrita.
Os comentários a este vídeo mostram um bocadinho de tudo: machismo rasteiro; comentários técnicos; avisos legais; alguma admiração pela perícia da senhora (outra forma de machismo?…), etc.
Mas, seja qual for o tema do vídeo, uma coisa é certa. Os comentários, em qualquer língua e em qualquer país, não são diferentes dos emitidos em Portugal. Afinal não estamos assim tão atrasados.
Kurioso