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SAPATINHO

2010/12/24

 

O sapatinho de marca que tinha comprado aqui há uns tempos, resolveu entrar em conflito interno e, como prova de incompatibilidade, a sola decidiu divorciar-se da parte de cima (uma metáfora para as divisões de trabalho injustas?…).

Consultado o psicólogo dos sapatos, vulgo sapateiro, verificou-se que o conflito era insanável, pelo que as partes desavindas foram, em conjunto, para o lixo.

Porque entretanto já tinha passado por um incidente semelhante com outros sapatos da mesma marca, comecei a sentir que o meu investimento em calcantes era quase tão improdutivo como os investimentos no BPP, e resolvi entrar num período de reflexão antes de reincidir.

Porém os sapatinhos de verão, que viram o seu turno de trabalho prolongado, em acção de  protesto contra o trabalho extraordinário começaram a deixar entrar água, enregelando-me os dedinhos (…e o dedão também).

Sendo inevitável a aquisição de calçado impermeável, e porque os botins de borracha ainda não são fashion para os homens, havia que procurar qualquer coisa com “tex” no nome. É claro que a marca do meu “desamor” tinha uns quantos modelos bem apelativos, mas o desaire ainda estava nas memórias frescas.

Depois de umas quantas voltas, encontro o quero na gama de uma outra marca que também cobra o suficiente para que os componentes dos seus artigos tenham o devido aconselhamento pré-matrimonial de modo a poderem conviver amigavelmente durante um tempo razoável. Vamos a ver…

Chegado a casa verifico (SURPRESA!!!) que o sapatinho 5* tinha sido produzido na…China. E, nesta época de todas as crises, restrições, reclamações, reivindicações, eu não pude deixar de imaginar que tipo de sapatos calçará o operário que fabricou estes, que custaram uns meses do seu salário.

Em dois milénios não melhorámos grande coisa no domínio da desigualdade. E como, apesar de todos os protestos, nós ocidentais AINDA somos os privilegiados, é fácil prever quem acabará descalço.

Kurioso

PS. Entretanto fiquei a saber como se fabricam os sapatos, e também a história por detrás da tradição do sapatinho na lareira.

BALDA

2010/05/07

 

Há duas semanas escrevi sobre detalhes que mostram a preocupação com o cliente. Hoje vou desabafar sobre o extremo oposto: a balda total.

A imagem acima é resultado da digitalização das instruções de montagem de um candeeiro fluorescente que comprei numa das lojas de uma conceituada rede.

É claro que a peça foi fabricada na China, tal como 80% do compramos hoje em dia (e também como os ipod ou qualquer outro gadget de luxo…), e é também evidente que a tradução foi feita pelo Google ou afins.

Eu compreendo que a fabriqueta não pode ter um tradutor português, tal como não pode ter mais uma centena de tradutores para cada um dos mercados que avidamente disputam as suas pechinchas. Porém, há uma empresa(?) portuguesa que não tem VERGONHA de exibir o seu nome por baixo desta aberração. Juro que ainda não consegui perceber o que diabo poderá ser um “Ganibete ectrónico”…

O nosso proverbial desenrasca transformou-se numa BALDA completa.

E a BALDA é transversal: do importador que se está marimbando, da cadeia que vende que não liga pevas, da inspecção que não inspecciona porra nenhuma, e minha que comprei o traste em vez de reclamar.

De balda em balda iremos, tranquilamente, parar ao balde de …  

Kurioso


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