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LER

2013/05/24

Esta semana dei por mim a pensar se o vício de ler será hereditário, geneticamente transmitido, ou simplesmente resultado da tradicional mímica de filho imita pais.

Consegui recuar o vício até um bisavô materno, tabelião numa terriola perdida na serra de Sicó. A primeira visita à sua (nossa) casa, quando tinha 10 anos de idade, jamais será esquecida. Aconteceu quando viemos de férias a Portugal.

A casa estava vazia há uma dezena de anos (a Emigração já foi moda noutros tempos), e, apesar da supervisão dos vizinhos, a degradação já era evidente. Enquanto minha Mãe chorava e recordava, e meu Pai conseguia manter algum desprendimento (haveria de vê-lo perder o decoro quando fomos visitar a Quinta, o espaço onde se fizera homem), eu zanzava que nem um tonto tentando absorver todos os indícios daquela civilização “antiga”.

Para um puto que sempre vivera em casas africanas novas ou semi-novas, aquela casinha de pedra, coçada por mais de um século de clima serrano, parecia saída de um livro dos Cinco. Os Pais iam vendo, e tocando, fotografias, almofadas, jarras, naperons e artefactos, abrindo portas e soltando Ohs! enfáticos, e eu zanzando. Até que subimos ao primeiro andar, e, ao fundo de uma divisão, num armário cambado por força do caruncho, um montão de livros. Livros encarquilhados, estropiados, carunchados e VELHOS. Livros com datas de impressão a começar por 18 ou MDCCC, e escritos num português de há 4 (des)acordos atrás. Acabou-se o zanzanço!

Abrindo o armário com cuidado, comecei a descobrir aquele mundo. Um mundo de palavras diferentes e um mundo de palavras “novas” de tão arcaicas. Os livros cobriam um vasto e diverso grupo de interesses, mas o que mais me fascinou foi um enorme calhamaço, picotado do caruncho, que descrevia a fauna do mundo. Cada descrição era acompanhada de uma belíssima aguarela (fotografias no início do séc. XX???) e eu fiquei por ali tempos esquecidos passando folha a folha, a maior parte delas já soltas.

Porque a casa não era habitável, visitámo-la uma série de vezes ao longo do ano que aqui estivemos, e regressámos à “minha” terra. E foi lá que eu verdadeiramente percebi o que eram estações do ano.

Os ventos da história trouxeram-nos de volta dezasseis anos depois. A degradação acentuara-se, mas, como tínhamos posto os livros a bom recato, foi um prazer revê-los (o calhamaço dos bichos desaparecera…). E, desta vez, acabei-lhes com a solidão e trouxe-os comigo.

Enquanto esteve na minha cabeça, este post era para ser sobre a leitura “familiar”. De como o meu Pai não teve tempo para ler, ao morrer aos 42 anos; de como a minha Mãe leu até a idade lhe roubar a capacidade de concentração; de como a minha Irmã trocou uma carreira de sucesso pelo risco de ser tradutora freelancer fazendo da leitura uma profissão; de como eu li centenas de livros em centenas de noites; de como casei com uma leitora mais viciada do que eu; de como a nossa Filha nunca anda sem um livro a tiracolo (genética ou mímica?); de como eu sinto uma frustração tremenda por não conseguir ler um livro há mais de dois anos.

Sim, eu leio tudo e mais alguma coisa. Revistas, folhetos, bulas dos medicamentos, manuais de todas as geringonças que compro, manuais das geringonças que penso comprar (obrigado Internet), jornais, pesquisas de trabalho, pesquisas de informação e pesquisas de esclarecimento. Mas não é a mesma coisa. Um “prego”, mesmo do lombo, nunca conseguirá substituir um “fillet mignon”. E que saudades eu tenho de um “fillet mignon” de 300 páginas…

Afinal o post acabou por ser açambarcado pelas memórias de um menino de 10 anos.

Kurioso

CONSTITUIÇÃO

2013/05/17

 

Os últimos tempos têm provado que, em Portugal, se gasta muito mais tempo a discutir o acessório do que o essencial. Exemplos recentes são a ideia de legislar “bares de maconha” (parece que há vícios mais fashion do que outros), ou a obrigação de estudar a Constituição.

E esta fúria legislativa espanta pela fraquíssima adesão às Leis. Portugal será, a seguir à Grécia, o país onde mais se legisla e menos se cumpre. O exemplo que eu sempre cito (sim, é o meu ódio de estimação) é o dos “palitos” para evitar o estacionamento em cima dos passeios. ESTACIONAR EM CIMA DOS PASSEIOS É PROÍBIDO! E, no entanto, este país falido gasta milhões de euros a empalitar tudo o que é berma de rua, porque os portugueses estão-se a c***r para a lei. Para todas as Leis.

Mas voltemos à Constituição, e à necessidade de a ensinar nas escolas para que os cidadãos conheçam os seus Direitos (ainda gostava de saber onde é que se ensinam os Deveres).

Eu vivi 27 anos dentro de uma Constituição fascista e nem por isso virei fascista, mesmo sendo obrigado a estudá-la durante dois anos. A seguir aguentei uma Constituição marxista durante quase dois anos e não virei comunista. Mais importante ainda, APESAR DE TUDO, não virei anti-comunista.

Agora, estou há 37 anos em coabitação com uma Constituição vegetal (não é carne, nem é peixe), e isso não fez mudar nem um nico aquilo que eu considero serem os meus deveres de cidadão. Sim, eu falei em Deveres, porque fui ensinado (antes de ir para a escola) que os deveres estão primeiro, para que a seguir venham os direitos.

Já agora, no meio da ululante demagogia que por aí vai, surge-me uma pergunta: Quais são os artigos da Constituição que deveriam ter evitado termos chegado ao atoleiro donde não podemos sair porque outros artigos da Constituição  o impedem?

Kurioso

IDH

2013/05/10

 

IDH quer dizer Índice de Desenvolvimento Humano, e Portugal (ainda) está no grupo de países que apresentam um IDH “muito alto”.

Mas como, nos dias de hoje, TUDO serve para zurzir no Governo, o facto de termos descido duas posições entre 2011 e 2012 foi logicamente atribuído ao dito cujo.

Esta “análise” vai direitinha de encontro a duas das minhas embirrações de estimação:1. Manipulação abusiva de dados; 2. Atribuição sistemática de culpas a outrem.

Antes de chegarmos à manipulação de dados, há que referir que estes tipos de classificações são na generalidade liminarmente rejeitadas pela omnisciente Cultura Progressista, pois estão inquinadas pelo vírus do Capital. Porém, chega uma altura em que um simples enviesar do ponto de vista permite usar (abusar?) os dados a favor do opinante. E o que é que nós vimos no gráfico, verdadeiro mas abusivamente manipulado: Portugal desceu dois lugares, por culpa de Passos Coelho, e está na cauda da Europa. Que há dois, dez ou vinte anos Portugal estivesse exactamente no mesmo lugar, a cauda da Europa, é irrelevante para a asserção.

A seguir vêm “as culpas a outrem”. Se perguntarmos aos dez milhões de Portugueses se alguém se acha um bocadinho responsável pelo estado lastimoso a que chegou o País, eu aposto a minha (improvável) reforma em como teríamos 10 milhões de NÃOS. Mas será que as pessoas, com esta eterna desculpabilização, não vêem que se estão a rotular de incompetentes? Incompetentes para gerirem a sua própria vida, para mudarem o curso dos acontecimentos, para fazerem a diferença!

Mas voltemos ao IDH. Se olharmos com alguma atenção para a tabela, lá nos encontramos em 43º lugar, com algumas improbabilidades por cima de nós (Brunei, Qatar e Barbados) e outras tantas por baixo de nós (Rússia, Cuba, Venezuela).

E lá no topo, em 3º lugar, temos os EUA onde uma avaliação de 0,937 não consegue esconder os quase 50 milhões de pobres que por lá existem.

In November 2012 the U.S. Census Bureau said more than 16% of the population lived in poverty in the United States, including almost 20% of American children,[1] up from 14.3% (approximately 43.6 million) in 2009 and to its highest level since 1993. In 2008, 13.2% (39.8 million) Americans lived in poverty.[2]

O IDH, como todas as classificações globais, enquadra numa sequência razoavelmente falível (e possivelmente tendenciosa) os países, empresas, povos, utilizando padrões que nunca poderão ser aplicados globalmente, pois NÃO HÁ uma cultura global e todos os comportamentos são culturais.

Então não serve para nada? Serve sim senhor! Serve como ponto de partida para análises mais detalhadas, que deverão ter como suporte dados locais. E não deveria servir NUNCA para atirar poeira para os olhos dos incautos.

Mas também não sei porque me admiro. Afinal eu até já vi o FMI ser citado positivamente pela omnisciente Cultura Progressista…

Kurioso 

PS. A fotografia lá em cima mostra uma rua da cidade de Camden, New Jersey.

ASSUSTADO

2013/05/03

O Grito de Edvard Munch

Nunca fui aquilo a que se costuma chamar de “bravo”. Os “bravos” que desafiam todo o mundo, que andam sempre à pancada, que precisam que os outros os sintam superiores, para eles próprios se considerarem superiores.

Porém, tendo tido a sorte de viver no “mato” entre os seis e os nove anos, numa altura em que um miúdo ainda podia desaparecer durante uma tarde inteira sem que a Mãe se preocupasse, eu comecei bastante cedo a ser razoavelmente destemido. É claro que tinha o meu bando, mas mais do que desafiarmo-nos uns outros, do que gostávamos mesmo era de desafiar a natureza. Ir até ao mar atravessando o pantanal imenso; nadar nas lagoas lamacentas; apanhar massalas para as atirarmos uns aos outros; saltar a cerca da cimenteira porque sim; roubar amendoim e ser corrido à pedrada.

Regressado à civilização para frequentar o Liceu, o desejo de aventura não esmoreceu, e a bicicleta ajudava a estender os horizontes até aos bairros da periferia, onde habitava um outro povo. Um povo que eu nunca cheguei a conhecer verdadeiramente, mas que consegui perceber ser muito diferente do “meu” povo.

Para tornar curta uma longa história, há que saltar várias décadas onde aconteceram muitíssimos choques, mudanças, trambolhões, adaptações, e, sempre, sempre, aquele bocadinho de curiosidade atrevida  que me fazia explorar um pouco além do que o bom senso aconselharia. Sempre observando, sempre aprendendo, sempre relativizando.

Mas a maior cambalhota haveria de me levar para uma empresa global onde tenho acesso a uma visão privilegiada, e assustadora, sobre como o  mundo se comporta verdadeiramente.

E esta visão privilegiada não vem só do manancial de informação, do elevado investimento em formação e da necessidade diária de interacção. Vem também do aproveitamento de todas as viagens, do estudo constante que, ao longo de trinta anos, afinaram aquilo que é uma capacidade fundamental para o  meu trabalho: poder “adivinhar” o futuro.

E o futuro que eu adivinho deixa-me ASSUSTADO.

Kurioso

LESTE

2013/04/27

 

Ser POUPADO é:    QUERER e RESISTIR

Ser FRUGAL é:        NÃO QUERER

Esta peça está a ser escrita no aeroporto de Leipzig, que, para os mais distraídos, foi em tempos parte integrante da extinta RDA. Bem, os mais afins dos popós ou do luxo, talvez saibam que aqui à volta há uma fábrica da BMW e outra da Porsche (o da fotografia está lá em baixo).

O aeroporto é novo, e chegavam os dedos de uma das mãos para contar as coisas novas que eu vi, ao longo de 160 km, aqui à volta. E estive abancado na terra de Lutero, uma cidadezinha impecavelmente limpa (porque será que sempre que saio de Portugal, tudo me parece mais limpo???), mas tristonha e (muito) velhota. Desta vez não consegui esticar a permanência, pelo que a análise, além das duas viagens de táxi, foi feita ao crepúsculo ou já noite cerrada.

A primeira surpresa (enfim, mais uma confirmação, pois já tinha visto algo parecido noutra cidade regional) foi a reduzida quantidade de carros. Numa cidade onde as duas ruas principais estão reservadas a peões, descobrir que as ruas adjacentes NÃO estão entulhadas de lata, é surpreendente. Depois, reparamos que em toda a cidade não há um prédio digno desse nome. Há uma profusão monótona de edifícios de dois ou três andares, o que implica necessariamente uma densidade baixa. Não há muitos carros, porque não há muita gente! E a pouca gente que há, anda de… bicicleta. Mas atenção que não são aquelas BTT fashion que nós levamos em cima do carro para ir andar 1 km no Parque das Nações. São modelos robustos (pudera…) que aguentam todos os KGS, todo o clima, todos os KMS, todo o ano. Têm guarda-lamas, iluminação, bagageira, e custam cerca de 600€. E foi uma delícia observar, às 10 da noite, um casal de cotas (sim…bem mais cotas do que eu), sair do parque do restaurante montados nas suas pasteleiras, pedalando e tagarelando, com a “caldeira” bem aconchegada por umas quantas canecas.

Resumo da primeira noite: uma cidade baixinha, escura e quase deserta. Muitos restaurantes fechados, alguns, poucos, com clientela razoável, mas clientes de idade irrazoável. Não se devem fazer bebés nesta cidade desde a reunificação…

Um parênteses para referir que, não tendo mudado a hora do computador, estava aqui tranquilo na cavaqueira, e o avião vai partir daqui a pouco…

Umas horas e um voozinho de ligação depois, volta-se à conversa, agora dentro de um passaroco enorme, um A321 cheio como um ovo.

Quando me disseram onde seria esta reunião, fiquei em pulgas porque iria poder finalmente “cheirar” o ambiente da Alemanha ex-comunista. A República Checa e a Roménia já tinham sido duas belas lições de História, mas estava kurioso de ver o resultado de uma transição suportada por uma MONTANHA de dinheiro. A Alemanha Ocidental gastou 2 milhões de milhões de euros (2 000 000 000 000) para trazer os irmãos apartados para o séc. XXl.

Mas não se pense que os gastou a construir casas bonitas, rotundas em cada cruzamento, auto estradas paralelas, polidesportivos para cada aldeola. Só como exemplo, basta dizer que levámos 1h15 para fazer os 80 KMS até Leipzig. Uma estrada rural com um piso perfeito, mas cheia de curvas e de camiões.

Eles gastaram a massa a adaptar (aproveitando o máximo dos edifícios) as instalações industriais, recheando-as de tecnologia e segurança de ponta. Em dez anos saltaram um século. E obviamente fizeram o mesmo com a agricultura. A zona onde estive é um enorme batatal intercalado com florestas, mais umas dezenas de fábricas salpicadas pela paisagem junto aos (pequeninos) aglomerados populacionais. As máquinas são novas, mas os maquinistas são os mesmos. A idade média na “nossa” fábrica, ronda os 52 anos… O êxodo dos jovens para a tentação do Oeste, pode não ter sido totalmente travado, mas, pelo menos, os velhos não foram atirados para uma ociosidade consumidora de recursos do Estado.

Se juntarmos os pontinhos como nos desenhos dos miúdos, vemos que todas estas coisas fazem sentido e umas ajudam as outras. O emprego fixa a população, os salários permitem umas “flores” (umas canecas para ensopar as salsichas na cervejaria da esquina), as férias continuam a ser férias, e poderão, agora, ser gozadas num qualquer país estrangeiro.

E está tudo bem? Não, não está! Nenhuma ditadura de 40 anos deixa uma população sem marcas. Aqui acho que não preciso de entrar em detalhes.

Mas, nestas minhas deambulações sociológicas, além da visão integradora (sim…eu estou a ficar presunçoso), eu procuro sobretudo sinais, apontamentos, aquelas coisas pequeninas que mostram uma cultura, um modo de estar, e nesta viagem encontrei-os em abundância. Na estrada desde o aeroporto, ao entrarmos numa zona de curvas na floresta onde havia um cruzamento, reparei que o sinal de redução de velocidade tinha por baixo uma placa com “200MTS”. Fiquei à coca para ver se havia um sinal de fim de redução, mas é claro que não. O recado estava dado, e POUPOU-SE um sinal, mais a colocação e mais a manutenção. Já na fábrica, saltou-me à vista que a delimitação das esquinas ou áreas reservadas em vez de ser feita com aqueles blocos de cimento mais ou menos toscos, ou elaborados, é feita com pedregulhos pintados de amarelo. Porém, a maior surpresas estava reservada para o final da noite. Ao regressar ao hotel, no final do jantar de grupo, passo por uma esplanada ainda com gente mas às escuras. Porque já era meio tarde para padrões setentrionais (aquela malta janta às 6H30…), pensei que o dono estaria a tentar correr com o pessoal. Uma dezena de metros mais à frente encontro outra, e logo a seguir mais uma. Um café, uma casa de gelados, um bar, uma pizzaria, todas com gente e todas às escuras! Não sei quantos KWH se pouparão, mas lá está a ATITUDE.

Se eu queria ser Alemão? Não me parece! Mas que podíamos aprender umas coisas com aqueles grandalhões sisudos, lá isso podíamos.

Kurioso

PS: Se não fosse a birra dos títulos de uma só palavra, é óbvio que este post teria que se chamar: NA COVA DA LOBA.

MUROS OU PONTES

2013/04/19

“Só quando os que sofrem sentirem o amparo dos mais afortunados e estes partilharem de boa vontade com os deslocados se poderá evitar uma tempestade que arrastará uns e outros.” João César das Neves

Eu fui criado num tempo e num espaço onde havia solidariedade.

Não havia igualdade, pois igualdade não existe em lado nenhum, mas as quatro ou cinco sociedades que partilhavam o referido espaço eram solidárias dentro de si próprias e, em menor grau, entre si. Eram mundos tão diferentes que o convívio não era fácil. Porém, as diferenças eram toleradas e até respeitadas. As pontes eram frágeis, mas não havia muros. Tirando um pequeníssimo grupo de privilegiados, a VIDA era difícil para todos, e a dificuldade gera solidariedade.

Quando, neste tempo e neste espaço, eu olho para uma sociedade teoricamente homogénea, que teria tudo para ser solidária, e a única coisa que vejo é um egoísmo exacerbado, uma capacidade ilimitada para o insulto rasteiro, um apoucar ou amesquinhar tudo o que é diferente, um fazer e desfazer de ligações suportadas unicamente por interesse e uma glorificação do fátuo, eu sinto-me nostálgico.

E quem perceber um pouco de História, saberá que esta Europa, que nós julgamos superior, esteve mergulhada dez séculos em trevas, quando os muros feudais substituíram as pontes romanas.

Curiosamente, as Cruzadas, que mais não eram do que uma forma de aliviar a pressão dentro dos muros, acabaram por ter como efeito secundário a criação de novas pontes. E aparecem o Renascimento, os Descobrimentos, a Revolução Industrial.

Parecia estar aberto o caminho para o progresso universal.

Mas as pontes são por natureza mais frágeis do que os muros, e o Homem trabalhou afincadamente para destruí-las.

Oxalá me engane, mas parece-me que vamos a caminho de nova era de MUROS.

Kurioso

 

  

INCUMPRIMENTO

2013/04/12

Hoje vou entrar em incumprimento.

O enorme deficit de ideias exige uma profunda reestruturação da dívida.

Vou ter que ir aos mercados tentar encontrar um financiamento de imaginação, a juros aceitáveis.

Kurioso

SINOPSE

2013/04/05

O Homem acelerava ferozmente na auto-estrada, 160, 170, 180, e os passageiros, em êxtase, batiam palmas.

A viagem continuou célere. Era preciso apanhar os outros carros que seguiam lá à frente.

O co-piloto que começara a fazer contas, diz timidamente: “estamos a gastar muito combustível…”. “És um caguinchas. O que não falta são áreas de serviço daqui para a frente” responde o Homem com o seu tom de gelo nº2.”Mas são mais caras…” “Mas tu ouves o que eu digo, ou precisas de um aparelho?” tom de gelo nº5.

De repente, surge uma curva no horizonte, e o co-piloto avisa, encolhendo-se todo, “temos que abrandar…” “abrandar para quê?! Lá estás tu!”. Mas, pelo sim pelo não, levanta o pé 180, 170, 160.

Mesmo assim, ao fazer a curva, o carro chocalha e alguns passageiros ganham umas nódoas negras. Os outros porém querem é velocidade e reclamam “Sr chofer por favor, ponha o pé no acelerador…”.

Entretanto com o preço do combustível a subir e os passageiros ingratos a reclamar, o Homem resolve bater com a porta e entregar a condução a Outro.

O Outro que estava cheio de ganas de conduzir o popó (não, na altura ele ainda não era um fã dos popós, isso foi mais tarde), salta lá para dentro e a primeira coisa que vê é uma curva apertada no horizonte.”Porra! vou ter que travar a fundo” e trava. O carro entra em derrapagem, e o Outro vai ziguezagueando, e travando, e fazendo carambolas ora nos rails ora no separador central. A auto-estrada de repente transformara-se num troço de Rali!

O Outro decidiu que tinha de mudar o estilo de condução (aquilo do lado de fora parecia muito mais simples) era preciso ir muito mais devagar e largar alguns passageiros. E, agora que ele já se tornara um verdadeiro FDP (fã dos popós) e não queria largar o volante, tentou usar toda a sua lógica para convencer os passageiros de que o Ferrari em que tinham embarcado, virara agora um Jeep muito, muito desconfortável.

Mas…e há sempre um mas nestas narrativas, o Tabelião dos Costumes acorda (muito) lentamente e ainda espreguiçando-se diz: “NÃO! NÃO! ERA FERRARI, FERRARI TEM QUE SER!

Mas…nós já não temos combustível para o Ferrari, e também não é carro certo para esta estrada…”.
ISSO AGORA NÃO INTERESSA NADA!

Entretanto o Homem, que fora dar uma volta à boleia de um dos carros lá da frente, regressa e, da borda da estrada junto aos outro mirones palpiteiros, bota sentença:

MAS VOCÊS JÁ VIRAM BEM ESTE GAJO?! ENTREGO-LHE UM CARRO INTEIRINHO, A ANDAR QUE ERA UMA MARAVILHA , E AGORA ENCONTRO UM CHASSO TODO AMOLGADO A ARRASTAR-SE COMO UMA TARTARUGA

E os passageiros, esses eternos insatisfeitos, ponderam accionar o seguro para tentar ainda salvar algo dos destroços.

Mas…toda a gente sabe como são os seguros em Portugal.

Kurioso

GAMBOZINOS

2013/03/29

O “regressado” confessou-se muito admirado pelos anticorpos que encontrou no País. Pensou que a generalizada antipatia que o actual governo recolhe, se converteria automaticamente em simpatia pela sua excelsa, impoluta e infalível PESSOA.

A Esquerda tonitruante continua a não perceber nada da sociologia deste infortunado País. Para eles, quem não pertence ao seu clube é automaticamente catalogado de Fascista e a coisa está resolvida. Quando começa a soar que há um descontentamento crescente face ao governo Fascista em funções, assume-se obviamente que a malta se fartou da Direita e é agora devota acrítica da Esquerda. Os extremos sempre tiveram uma visão dicotómica da realidade, um truque que lhes permite  tornar as suas visões ABSOLUTAMENTE certas, por contraponto às visões ABSOLUTAMENTE erradas dos outros.

Independentemente das visões absolutistas, é um facto que todos nós estamos a viver tempos difíceis (OK, catastróficos). E todos nós nos perguntamos como foi possível chegar AQUI.

Nestes últimos tempos, o desporto predilecto dos portugueses é a caça à CULPA. Queremos saber quem são os CULPADOS. Porém está provado até à saciedade que a procura da culpa em Portugal é uma verdadeira caça ao gambozino.  Tal como o gambozino, também a CULPA é um ser imaginário que pode ter tantas formas quantos os imaginadores, mas jamais será encontrada.

Ora não havendo culpados dentro do rectângulo, vamos ter que atribuir aos portugueses outros rótulos. E eu imaginei três: os ACULPADOS; os DESCULPADOS; os INCULPADOS. 

Antes da explicação “psicológica”, aqui vai um exemplo.

A auto estrada daqui para Lisboa tem três faixas. Um aculpado, um desculpado e um inculpado, vão lado a lado a 150 à hora. Em Sacavém está o comité de recepção. Respostas típicas:

1. Sim eu vinha a 150. Porquê? Não se pode andar a 150?

2. Pois o Sr. guarda sabe, eu vinha com um bocado de pressa, mas todos os outros também vinham. Eu até tinha ouvido dizer que até 150 não havia azar. Eu não tenho culpa.

3. Com o meu azar tinha que ser. E vou poder ficar com a carta?   

Os ACULPADOS (um neologismo para ajudar) são aqueles que nem sabem o que é culpa. A sua vida é feita com base no sentir, e, por limitações várias, da maior parte das quais não têm efectivamente culpa, a culpabilidade para eles não existe. São como que crianças grandes.

Os DESCULPADOS, são aqueles que, sabendo efectivamente que estão a fazer algo incorrecto, injusto, imoral ou ilegal e portanto indutor de culpa, arranjam sempre um ou vários argumentos para descartar a culpabilidade.

E chegamos por fim aos INCULPADOS. Kuriosamente, o dicionário diz que um inculpado pode ser duas coisas opostas:

adj. Que está sem culpa.
Pessoa contra a qual é aberto um processo de instrução em consequência de um crime ou de um delito.

Para efeitos da minha prédica, a dupla definição vem mesmo a calhar. Os INCULPADOS estão sem culpa, mas foi-lhes aberto um processo de confisco.

Os INCULPADOS são aqueles que resistiram ao banquete, ou que comeram frugalmente. Foram aqueles que, enquanto iam petiscando uns canapés e umas gambas, não deixaram de ouvir os “apóstolos da desgraça” e pensar, entre duas dentadas, ”e se este gajo tem razão?”. Os INCULPADOS gozaram, e gozam, as auto-estradas, as rotundas e as fontes. luminosas ou apagadas, mas, ao mesmo tempo que apreciavam a paisagem, não conseguiam evitar um pensamento incómodo: “cum cara…ças! Como diabo vamos nós pagar isto?”. Quando finalmente chegou a sobremesa, e já todo o mundo se lambuzava, os INCULPADOS decidiram: “Basta! Isto vai dar uma indigestão danada e a seguir dieta rigorosa. Melhor não.

Os INCULPADOS têm uma série de alcunhas: cinzentos, empatas, paspalhões,  medricas, retrógrados (há outras menos lisonjeiras). Porque não sofreram de indigestão, não tiveram que entrar em dieta rigorosa, e a sua frugalidade permite-lhes encarar o futuro, se não com esperança, pelos menos sem desespero. E porque são os INCULPADOS que ainda têm alguma coisa para ser esmifrado, pois é óbvio que irão ser eles a pagar o bolo que os outros comeram. Pagá-lo-ão, contrariados mas sem queixumes folclóricos. Afinal eles são a maioria silenciosa.

E foi esta grande maioria, que vai ter que pagar o bolo SEM O TER COMIDO, que se sentiu insultada com o regresso do Pasteleiro Pinóquio.

E o “regressado” vai melhorar as coisas? Não, não vai! Vai acabar de vez com a pequeníssima credibilidade dos políticos, e nós iremos finalmente juntar-nos ao clube onde pertencemos: “os tontos do Sul”. Tornar-nos-emos ingovernáveis como a Grécia e a Itália, gritaremos cada vez mais alto, e daremos cada vez mais razões para que “ os sisudos do Norte” nos desprezem.

Ah! E continuaremos militantemente a caçar gambozinos.

Kurioso 

 

SALVAÇÃO

2013/03/22

Um historiador de EsquerdaEsquerda deu como exemplo de REDENTOR um Presidente americano. Ele há cenas irónicas!

Escrevendo muito bem (o que é cada vez mais raro), deu um enfoque significativo à “domesticação” dos Bancos, e referiu en passant o trabalho comunitário para os milhões de desempregados.

Dando de barato tudo o que é diferente, e é quase TUDO, entre os EUA de 1933 e a Europa de 2013, é interessante perceber que nem os Bancos querem ser “domesticados”, nem os desempregados querem ser “recrutados”.

O Presidente Roosevelt foi efectivamente um homem de uma visão extraordinária, por ter imaginado uma solução, mas foi também um homem com uma sorte extraordinária. Em 1933 ainda não havia uma comunicação social “mafiosa”, nem… redes sociais. O homem PODE fazer o que precisava de ser feito!

E, depois de 4 anos de uma Depressão negra, os milhões de desempregados que precisavam de dinheiro para COMER, estavam dispostos a fazer O QUE FOSSE PRECISO para arranjá-lo. Os Estados Unidos foram criados na base do esforço individual por contra ponto à já evidente “burocracia” europeia. Os americanos estão habituados a trabalhar para receber. Estão habituados a ter deveres antes de terem direitos.

Quando Roosevelt lhes propôs irem reflorestar, repavimentar e consertar o País, dando-lhes alojamento (em tendas), alimentação (na marmita) e 30 dólares por mês, eles FORAM!

“Every month, the government required the CCC boys to send $22 to $25 — a hefty chunk of their $30-per-month paycheck — to their families. But this didn’t put the boys out much, as life in the camps provided them with all the necessary amenities.”

Entretanto ainda havia 80% de americanos que não tinham perdido o emprego. A estes, convenceu-os a porem as economias nos “novos” bancos, de modo a que os bancos voltassem a ter liquidez para “fermentar” a economia.

É importante referir que todo este esforço serviu somente para acabar com a fome. A economia americana só disparou verdadeiramente com o esforço de guerra, a partir de 1938.

Pensar que uma coisa semelhante podia ser feita nos dias de hoje, em qualquer país ocidental, é uma pura perda de tempo. Em Portugal seriam duas perdas de tempo: uma a propô-la, e outra a achincalhá-la ad nauseam. Basta lembrar as reacções às propostas de por a trabalhar os beneficiários do rendimento social de inserção, ou as elevadas considerações que mereceu a sugestão do maestro dos banqueiros (que também não está nem aí para salvar o País…). Gostava de ver a reacção deste senhor a uma lei como esta: “TITLE II:To enable the Comptroller of the Currency (a post in the US Treasury) to take complete control of and operate any bank in the United States or its territories and to establish the terms and conditions under which bank is administered.

No nosso país parecem estar reunidas todas as condições para que não falhemos a ida para o fundo.

Mas é possível encontrar na actualidade um País que, ao ser confrontado com o fim da festa, conseguiu reunir o esforço de TODOS (governo, administração pública, autarquias, banca, população) para que cedendo equilibradamente pudessem retroceder o menos possível. A Islândia. Mas, nos dias de hoje, mesmo os milagres são contestados.

Kurioso

PS. Para quem for curioso: $30.00 in 1933 had the same buying power as $525.80 in 2013

E, já agora, o limiar de pobreza em 2012 era de $975


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