Esta semana dei por mim a pensar se o vício de ler será hereditário, geneticamente transmitido, ou simplesmente resultado da tradicional mímica de filho imita pais.
Consegui recuar o vício até um bisavô materno, tabelião numa terriola perdida na serra de Sicó. A primeira visita à sua (nossa) casa, quando tinha 10 anos de idade, jamais será esquecida. Aconteceu quando viemos de férias a Portugal.
A casa estava vazia há uma dezena de anos (a Emigração já foi moda noutros tempos), e, apesar da supervisão dos vizinhos, a degradação já era evidente. Enquanto minha Mãe chorava e recordava, e meu Pai conseguia manter algum desprendimento (haveria de vê-lo perder o decoro quando fomos visitar a Quinta, o espaço onde se fizera homem), eu zanzava que nem um tonto tentando absorver todos os indícios daquela civilização “antiga”.
Para um puto que sempre vivera em casas africanas novas ou semi-novas, aquela casinha de pedra, coçada por mais de um século de clima serrano, parecia saída de um livro dos Cinco. Os Pais iam vendo, e tocando, fotografias, almofadas, jarras, naperons e artefactos, abrindo portas e soltando Ohs! enfáticos, e eu zanzando. Até que subimos ao primeiro andar, e, ao fundo de uma divisão, num armário cambado por força do caruncho, um montão de livros. Livros encarquilhados, estropiados, carunchados e VELHOS. Livros com datas de impressão a começar por 18 ou MDCCC, e escritos num português de há 4 (des)acordos atrás. Acabou-se o zanzanço!
Abrindo o armário com cuidado, comecei a descobrir aquele mundo. Um mundo de palavras diferentes e um mundo de palavras “novas” de tão arcaicas. Os livros cobriam um vasto e diverso grupo de interesses, mas o que mais me fascinou foi um enorme calhamaço, picotado do caruncho, que descrevia a fauna do mundo. Cada descrição era acompanhada de uma belíssima aguarela (fotografias no início do séc. XX???) e eu fiquei por ali tempos esquecidos passando folha a folha, a maior parte delas já soltas.
Porque a casa não era habitável, visitámo-la uma série de vezes ao longo do ano que aqui estivemos, e regressámos à “minha” terra. E foi lá que eu verdadeiramente percebi o que eram estações do ano.
Os ventos da história trouxeram-nos de volta dezasseis anos depois. A degradação acentuara-se, mas, como tínhamos posto os livros a bom recato, foi um prazer revê-los (o calhamaço dos bichos desaparecera…). E, desta vez, acabei-lhes com a solidão e trouxe-os comigo.
Enquanto esteve na minha cabeça, este post era para ser sobre a leitura “familiar”. De como o meu Pai não teve tempo para ler, ao morrer aos 42 anos; de como a minha Mãe leu até a idade lhe roubar a capacidade de concentração; de como a minha Irmã trocou uma carreira de sucesso pelo risco de ser tradutora freelancer fazendo da leitura uma profissão; de como eu li centenas de livros em centenas de noites; de como casei com uma leitora mais viciada do que eu; de como a nossa Filha nunca anda sem um livro a tiracolo (genética ou mímica?); de como eu sinto uma frustração tremenda por não conseguir ler um livro há mais de dois anos.
Sim, eu leio tudo e mais alguma coisa. Revistas, folhetos, bulas dos medicamentos, manuais de todas as geringonças que compro, manuais das geringonças que penso comprar (obrigado Internet), jornais, pesquisas de trabalho, pesquisas de informação e pesquisas de esclarecimento. Mas não é a mesma coisa. Um “prego”, mesmo do lombo, nunca conseguirá substituir um “fillet mignon”. E que saudades eu tenho de um “fillet mignon” de 300 páginas…
Afinal o post acabou por ser açambarcado pelas memórias de um menino de 10 anos.
Kurioso