VENDIDOS?

Algumas pessoas parecem ter ficado surpreendidas (e chocadas) pela invasão das lojas do grupo que resolveu “oferecer” 50% no dia 1º de Maio. Um verdadeiro “bodo aos pobres” em versão neo-liberal.

Porque a guerra, sem quartel, que vai na grande distribuição não é para aqui chamada, vou tentar elaborar somente sobre a “surpresa” e a “invasão”.

Começando pela surpresa manifestada pelos habitantes deste mundo virtual, há que perceber, e muitos não o percebem, que nós somos uma elite (intelectual e económica) que não tem nada a ver com 90% (95…, 99%) do País. Nós (afortunadamente) pertencemos aos níveis superiores daquela pirâmide que está lá em cima, enquanto o resto dos Portugueses (infelizmente) ainda anda a tentar escapar dos níveis inferiores. Nós damo-nos ao luxo de procurar alimento intelectual, eles ainda procuram alimento, ponto. Nós analisamos as razões, eles procuram soluções. Nós só nos surpreendemos porque não tentamos, ou não conseguimos, pormo-nos no seu lugar. E, presunçosamente, julgamo-nos superiores.

E quem é que invadiu as lojas? Todos aqueles que não perdem um qualquer desconto, não se importando com o esforço que isso implica. Todos aqueles que fazem fila para os saldos; que não perdem uma “black Friday”; que juntam cupões de lojas, restaurantes, hotéis, cabeleireiros, etc. Os profissionais do desconto!

Mas, além daqueles, também todos os outros que perceberam ter a hipótese de duplicar o seu dinheiro. Imaginando que o fizeram com cabecinha (passe o paternalismo), vão poder duplicar as refeições com carne ou com peixe, vão poder comer o dobro da fruta, vão poder usar azeite em vez de óleo.

Na segunda feira, quando soubemos da possibilidade desta acção, uma colega minha duvidava do seu sucesso, alegando que as pessoas já não têm cem euros para “investir”. Pois têm sim senhor! E quanto menos tiverem, mais compensa duplicá-lo.

Julgar é fácil. Compreender, um pouco mais difícil.

E, ao contrário de nós, que vamos por aqui discutindo as diversas utopias (im)possíveis, desconhecendo o pragmatismo básico dos nossos compatriotas menos afortunados, os donos do referido grupo conhecem-nos melhor do que eles próprios.   

O Capital sempre conseguiu comprar o Trabalho. E agora, quando o Trabalho perdeu o engajamento político e ganhou vícios capitalistas, é muito mais fácil.

Kurioso

PS 1- Sabendo que um minuto de publicidade em televisão custa 60000 euros, façam as contas.

PS 2- O nome do grupo foi omitido porque eu não quero ajudar na publicidade.

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