À boa maneira portuguesa fui visitar a exposição World Press Photo no último dia. Já lá tinha estado há duas semanas, mas o tamanho da fila fez-me desistir. No último dia, a fila era igual mas já não havia como adiar.
Para ocupar o tempo de espera, fiz a habitual avaliação sociológica, e confirmei a mesma assistência de anos anteriores: idades entre os baixos vintes e os altos cinquentas, traje e atitudes descontraídas, os poucos infantis bem educados e bem controlados. Mas (primeira surpresa)…em 25 minutos, e numa fila com mais de 150 pessoas, não vi ninguém a fumar!
A segunda surpresa surgiu quando, ao ser-me dado o talão de entrada, pergunto o preço e oiço incrédulo: “é grátis!”. Recuperado do espanto, ponho-me a magicar porque diabo esperei 25 minutos na fila, se a entrada é de borla. E penso ter descoberto. Alguém terá tido o brilhante pensamento de que os portugueses só esperam ordenadamente se for para “comprar” qualquer coisa. A menina (uma única) que “oferecia” os talões de entrada estava unicamente a controlar o fluxo de pessoas que acediam à área de exposição.
Imaginem agora que havia um letreiro algures dizendo Entrada Livre, e já estão a ver o maralhal todo ao molho a pressionar o porteiro, ou, pior ainda, invadindo o recinto, para, logo de seguida, reclamarem do excesso de gente.
Já lá dentro, deu para confirmar que o “ovo de Colombo” do bilhete grátis, funciona na perfeição. Três ou quatro pessoas em frente a cada foto, transições tranquilas e tempo para apreciar a técnica e os detalhes. Quanto às legendas, a mesma pecha de sempre: não são legíveis à distância de apreciação da foto. Há que fazer a coisa em três etapas. Primeiro apreciamos a foto sem o suporte da informação, depois vamos lá à frente ler a legenda, e a seguir reavaliamos em função da informação recebida.
Então e as fotografias?
Mais do mesmo. Aqui não houve surpresas. Está (com)provado que a desgraça é que “vende”. Guerra, catástrofes, exploração humana ou animal, abuso de autoridade, em resumo o CAOS. E, mais uma vez, foi premiada a exibição de práticas culturais diferentes, só porque são chocantes para nós. E, nesta zona de chocar, ainda estou para perceber se é digna de um prémio uma fotografia que mostra uma cabeça e dois braços decepados largados em cima dum passeio…
A técnica é irrepreensível, e muitas fotografias foram obtidas com risco de vida para o fotógrafo. Mas não consigo evitar a ideia que, apesar de todas me atraírem o olhar, poucas me fizeram pensar.
À segunda volta pelo recinto, escolhi duas imagens que me “marcaram” pelas contradições que mostram (ou sugerem) dentro das culturas que retratam.
A fotografia de cima pretende representar a Semana da Moda em Dakar, capital do Senegal. A modelo enverga um vestido (?) de uma designer Senegalesa residente nos EUA. A fotografia foi tirada tendo como décor uma “alfaiataria” situada no centro de Dakar. O aqui se vê, pode ser o paradigma de África: uma miséria ancestral confrontada com o show off obsceno dos privilegiados.
Já a foto debaixo, parecendo mais normal acaba por ser mais assustadora. Faz parte de um conjunto, submetido pelo fotógrafo John Moore, que ele intitulou de DESPEJADOS. Eu hesitei entre a foto da menina dentro do carro (a inocência), e a deste casal (a incompreensão). Como é que a nação mais poderosa do Mundo pode permitir que fieis (a bandeira…) cidadãos sejam despejados de suas casas. Como é que a nação que pôs homens na Lua, pode permitir que outros homens sejam postos na Rua?
Kurioso