Arquivo de Maio, 2012

CAOS

2012/05/25

À boa maneira portuguesa fui visitar a exposição World Press Photo no último dia. Já lá tinha estado há duas semanas, mas o tamanho da fila fez-me desistir. No último dia, a fila era igual mas já não havia como adiar.

Para ocupar o tempo de espera, fiz a habitual avaliação sociológica, e confirmei a mesma assistência de anos anteriores: idades entre os baixos vintes e os altos cinquentas, traje e atitudes descontraídas, os poucos infantis bem educados e bem controlados. Mas (primeira surpresa)…em 25 minutos, e numa fila com mais de 150 pessoas, não vi ninguém a fumar!  

A segunda surpresa surgiu quando, ao ser-me dado o talão de entrada, pergunto o preço e oiço incrédulo: “é grátis!”. Recuperado do espanto, ponho-me a magicar porque diabo esperei 25 minutos na fila, se a entrada é de borla. E penso ter descoberto. Alguém terá tido o brilhante pensamento de que os portugueses só esperam ordenadamente se for para “comprar” qualquer coisa. A menina (uma única) que “oferecia” os talões de entrada estava unicamente a controlar o fluxo de pessoas que acediam à área de exposição.

Imaginem agora que havia um letreiro algures dizendo Entrada Livre, e já estão a ver o maralhal todo ao molho a pressionar  o porteiro, ou, pior ainda, invadindo o recinto, para, logo de seguida, reclamarem do excesso de gente.

Já lá dentro, deu para confirmar que o “ovo de Colombo” do bilhete grátis, funciona na perfeição. Três ou quatro pessoas em frente a cada foto, transições tranquilas e tempo para apreciar a técnica e os detalhes. Quanto às legendas, a mesma pecha de sempre: não são legíveis à distância de apreciação da foto. Há que fazer a coisa em três etapas. Primeiro apreciamos a foto sem o suporte da informação, depois vamos lá à frente ler a legenda, e a seguir reavaliamos em função da informação recebida.

Então e as fotografias?

Mais do mesmo. Aqui não houve surpresas. Está (com)provado que a desgraça é que “vende”. Guerra, catástrofes, exploração humana ou animal, abuso de autoridade, em resumo o CAOS. E, mais uma vez, foi premiada a exibição de práticas culturais diferentes, só porque são chocantes para nós. E, nesta zona de chocar, ainda estou para perceber se é digna de um prémio uma fotografia que mostra uma cabeça e dois braços  decepados largados em cima dum passeio…

A técnica é irrepreensível, e muitas fotografias foram obtidas com risco de vida para o fotógrafo. Mas não consigo evitar a ideia que, apesar de todas me atraírem o olhar, poucas me fizeram pensar.

À segunda volta pelo recinto, escolhi duas imagens que me “marcaram” pelas contradições que mostram (ou sugerem) dentro  das culturas que retratam. 

A fotografia de cima pretende representar a Semana da Moda em Dakar, capital do Senegal. A modelo enverga um vestido (?) de uma designer Senegalesa residente nos EUA. A fotografia foi tirada tendo como décor uma “alfaiataria” situada no centro de Dakar. O aqui se vê, pode ser o paradigma de África: uma miséria ancestral confrontada com o show off obsceno dos privilegiados.

Já a foto debaixo, parecendo mais normal acaba por ser mais assustadora. Faz parte de um conjunto, submetido pelo fotógrafo John Moore, que ele intitulou de DESPEJADOS. Eu hesitei entre a foto da menina dentro do carro (a inocência), e a deste casal (a incompreensão). Como é que a nação mais poderosa do  Mundo pode permitir que fieis (a bandeira…) cidadãos sejam despejados de suas casas. Como é que a nação que pôs homens na Lua, pode permitir que outros homens sejam postos na Rua?

Kurioso

ACOMPANHANTE

2012/05/18

Ontem, fui acompanhante por um dia.

A nossa Companhia (tive que usar a maiúscula porque senão isto ficava meio enrolado) acha de boa política que as pessoas sejam acompanhantes de vez em quando, para que percebam as dificuldades do mundo lá fora.

Pois ontem coube-me a mim acompanhar dois vendedores na sua rotina diária de angariar as encomendas que acabarão por pagar os ordenados de todos nós. Para um kurioso foi uma experiência fascinante.

Os organizadores do acompanhamento tiveram o cuidado de me arranjar parceiros diversos, com experiência e especialidades muito distintas.

Da parte da manhã acompanhei um homem, e, tranquilamente entre algumas conversas parcas e longos silêncios, visitámos três clientes. Porque o meu colega resolvera proporcionar-me um amostragem relevante, os três clientes iam do mais sofisticado ao mais básico, seguindo uma espiral descendente. No último, questionei-me se estaria ainda em Portugal ou perdido nalgum souk marroquino. Ao almoço, abordámos alguns temas pessoais, com a reserva habitual entre machos introvertidos, e demos uma vista de olhos pelos jornais diários. Às duas da tarde entregou-me à colega de quem seria acompanhante o resto dia,  e pareceu-me notar um suspiro de alívio quando nos separámos.

E tudo mudou! Ainda está para nascer quem me convença que homens e mulheres são iguais.

Porque a minha colega resolvera também mostrar-me um leque variado de clientes, fizemos um rally-paper (excitante) dentro da grande Lisboa. Tendo partido da baixa de Loures, subimos vários montes até chegar a uma urbanização para lá donde o diabo perdeu as botas. Durante a viagem, e, já no destino, enquanto esperávamos pela disponibilidade do cliente, eu não abri a boca, mas…não houve um segundo de silêncio.

Despachado este primeiro cliente (bem castiço, por sinal), encontramos ao sair um ex-colega nosso, e vai de gastar um quarto de hora a carpir mágoas. De volta ao carro a colega resolve recuperar o tempo perdido, e, sempre falando, vai de “assapar” pelos montes abaixo. Mesmo que me tivesse sido dada oportunidade de falar, eu perdera o pio, enquanto ia contabilizando as razias aos espelhos. E chegamos ao Parque das Nações. Cliente muito fashion na aparência, mas como vendedor entra pelos fundos, eu nem vos digo o que podem ser os fundilhos de um cliente fashion. O nosso contacto estava disponível e, por isso, foi mesmo uma rapidinha. Próxima parada: grande instituição de ensino no centro da cidade. Mais uma série de capítulos do “manual do vendedor”, mais uma série de razias (juro que não imaginava poderem haver tantos espelhos em Lisboa) e conseguimos chegar com a tinta toda ao destino. Outro interlocutor e nova surpresa.

Acabado o dia de trabalho, a colega teve ainda que me lavar de volta ao meu carro (malditos espelhos…) em Loures. Desta vez, na despedida, pareceu-me senti-la pesarosa de que eu me viesse embora e…trouxesse os ouvidos comigo.

E como a vida é feita de complementaridades, eu complementei o que vi de manhã com o que ouvi à tarde.

Gostei de ser acompanhante.

Kurioso           

PS: A parte reservada desta experiência fica arquivada para futuros desabafos. Quando saímos do nosso mundo, descobrimos mundos fascinantes.

HERANÇA

2012/05/11

Habitualmente associamos a palavra herança a coisas boas. Na maior parte dos casos pensamos em bens materiais, casas, dinheiro, jóias, terrenos, mas também podemos herdar bons genes, boa educação, bons hábitos, etc.

Até há duas gerações era usual os pais esfalfarem-se para deixar algo em herança aos seus descendentes. Eram tempos duros, mas, sendo a frugalidade a regra, conseguiam por de lado uma parte razoável do pouco que o único deles (a mulher estava em casa) ganhava. Quem tiver mais de meio século no BI, conheceu bem esta realidade.

Entretanto novas prioridades (ou novas tentações) foram aparecendo, e já na minha geração começou-se a gastar mais e a poupar menos. Mais conforto, mais lazer, mais investimento na educação e mais mordomias para a prole. A herança terá menos da parte material, mas quero acreditar que pode ter mais da parte imaterial. De qualquer modo ainda será positiva.

Porém, nos últimos tempos, parece-me que começaram a aparecer heranças negativas. Os filhos herdam DÍVIDAS. Os pais, certamente com a melhor das intenções, tomaram decisões que viriam a condicionar totalmente a vida dos filhos.

Mas esta abordagem sobre heranças privadas, só serviu de introdução para a divagação sobre heranças públicas.

E, da mesma maneira que eu acredito na melhor das intenções de todos os Pais, vou (ingenuamente?) acreditar nas boas intenções de todos os governantes.

“A Nação viveu, nos primeiros cinquenta anos do século XVIII, em paz e abastança. O desenvolvimento da exploração das jazidas de ouro e diamantes do Brasil proporcionou grandes recursos ao erário público e a nova fortuna do Estado viabilizou importantes melhoramentos a nível da defesa, o engrandecimento do património monumental e cultural. Não criou, porém, estruturas económicas reprodutoras de riqueza e o dinheiro esvaía-se em importações.” in http://www.embajadadeportugal.com.uy/Portugues/historia.htm

Porque não quero repetir-me várias vezes, vou saltar para o início do sec.XX, quando uma confusão parecida com aquela que vai agora no início do sec. XXI, fez brotar da desordem um “salvador”, António de sua graça.

Em 1926, forças militares desencadearam um golpe que não teve oposição armada, porém, os interesses político-económicos subjacentes quebraram a unidade inicial e, poucos dias depois, outro movimento militar tomou conta do Poder. A oposição democrática ripostou com acções revolucionárias (1927, 1928) sufocadas.

A situação económico-financeira do País era grave. Neste contexto, Oliveira Salazar assumiu a pasta das Finanças (1928) impondo uma política de austeridade para resolver o desequilíbrio orçamental e a indisciplina administrativa financeira; em 1932 foi nomeado Chefe do Governo.

Nos quarenta anos seguintes, Portugal teve estabilidade, contas certinhas, liberdade condicionada, bucolismo  e… fartura de pobreza.

Com a morte do Estado Novo recebemos uma herança que viria a revelar-se um obstáculo difícil (impossível?) de ultrapassar: a ignorância e subserviência de um país inteiro.

E cabia à Democracia fazer alguma coisa com aquela herança.

Após alguma confusão inicial, a cautela manhosa (ou a manha cautelosa) dos Portugueses acabou por atribuir as responsabilidades governativas ao centro do espectro político, ora um pouquito à esquerda, ora um pouquito à direita. E todos estes governantes esforçados, fizeram os possíveis para providenciar aos 10 milhões de concidadãos todos os “impossíveis” das décadas anteriores. Pegaram nos modelos “lá de cima” e vai de despejar dinheiro (primeiro oferecido, depois emprestado) em cima de tudo o que é sítio. Porém, à boa maneira Portuguesa, quiseram copiar resultados sem cuidar de saber dos processos. Nós fizemos tudo o que fazem os Holandeses ou os Suecos, mas gastando três vezes mais: uma por mau planeamento, outra por má execução e a terceira por pura roubalheira. Mas a coisa parecia agradar a todos: aos que governavam, aos governados e aos que se governavam (por vezes eram os mesmos).

 

Mas, um belo dia recebemos a visita do “cobrador do fraque”, e percebemos, meio aparvalhados, que a farra acabara e, no final da festa, havia uma amarga herança: o talão de penhora do País inteiro.

Foi criada uma comissão de controlo da massa falida, que, simpaticamente, atribuiu a gestão da tentativa de recuperação a um capataz nacional, que fora eleito, num momento de raiva, pelos mesmos eleitores que tinham elegido os (des)governantes anteriores.

O capataz e seus adjuntos começaram a fazer o que tinha que ser feito, atacando o resgate do talão de penhora em duas vertentes: diminuir os gastos, para fazer as duas linhas do primeiro gráfico coincidirem, e arranjar massa para se começar a pagar a dívida. Também aqui, encontraram duas maneiras: esmifrar o maralhal até ao osso (o que ajuda também a conter os gastos) e vender as jóias da coroa. Como provavelmente as jóias não chegarão, lá teremos que vender também a coroa.

A herança dos nossos filhos pode muito bem vir a ser a mais triste de todas: pertencerem a uma Nação que já não tem País.

E, a mim, o que me entristece já hoje, é ver que o retorno à nossa independência não interessa a ninguém, e os 10 milhões de alminhas só estão preocupados com o retorno aos mercados para PODERMOS PEDIR MAIS DINHEIRO.

Kurioso

VENDIDOS?

2012/05/04

Algumas pessoas parecem ter ficado surpreendidas (e chocadas) pela invasão das lojas do grupo que resolveu “oferecer” 50% no dia 1º de Maio. Um verdadeiro “bodo aos pobres” em versão neo-liberal.

Porque a guerra, sem quartel, que vai na grande distribuição não é para aqui chamada, vou tentar elaborar somente sobre a “surpresa” e a “invasão”.

Começando pela surpresa manifestada pelos habitantes deste mundo virtual, há que perceber, e muitos não o percebem, que nós somos uma elite (intelectual e económica) que não tem nada a ver com 90% (95…, 99%) do País. Nós (afortunadamente) pertencemos aos níveis superiores daquela pirâmide que está lá em cima, enquanto o resto dos Portugueses (infelizmente) ainda anda a tentar escapar dos níveis inferiores. Nós damo-nos ao luxo de procurar alimento intelectual, eles ainda procuram alimento, ponto. Nós analisamos as razões, eles procuram soluções. Nós só nos surpreendemos porque não tentamos, ou não conseguimos, pormo-nos no seu lugar. E, presunçosamente, julgamo-nos superiores.

E quem é que invadiu as lojas? Todos aqueles que não perdem um qualquer desconto, não se importando com o esforço que isso implica. Todos aqueles que fazem fila para os saldos; que não perdem uma “black Friday”; que juntam cupões de lojas, restaurantes, hotéis, cabeleireiros, etc. Os profissionais do desconto!

Mas, além daqueles, também todos os outros que perceberam ter a hipótese de duplicar o seu dinheiro. Imaginando que o fizeram com cabecinha (passe o paternalismo), vão poder duplicar as refeições com carne ou com peixe, vão poder comer o dobro da fruta, vão poder usar azeite em vez de óleo.

Na segunda feira, quando soubemos da possibilidade desta acção, uma colega minha duvidava do seu sucesso, alegando que as pessoas já não têm cem euros para “investir”. Pois têm sim senhor! E quanto menos tiverem, mais compensa duplicá-lo.

Julgar é fácil. Compreender, um pouco mais difícil.

E, ao contrário de nós, que vamos por aqui discutindo as diversas utopias (im)possíveis, desconhecendo o pragmatismo básico dos nossos compatriotas menos afortunados, os donos do referido grupo conhecem-nos melhor do que eles próprios.   

O Capital sempre conseguiu comprar o Trabalho. E agora, quando o Trabalho perdeu o engajamento político e ganhou vícios capitalistas, é muito mais fácil.

Kurioso

PS 1- Sabendo que um minuto de publicidade em televisão custa 60000 euros, façam as contas.

PS 2- O nome do grupo foi omitido porque eu não quero ajudar na publicidade.


Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.