É a primeira vez que republico qualquer coisa, mas há três razões que eu vou elencar no sentido de obter da parte (ou de parte) dos eventuais leitores desta prosa despretensiosa, alguma simpatia e, quiçá, um julgamento sumário que conduza a uma sentença que me ilibe de ilícito:
1. Uma cefaleia persistente, de causas indeterminadas, tem-se tornado um factor de preguiça;
2. O excesso de ruído, neste país palavroso, tem-se tornado um factor de indecisão;
3. O facto de um escrito, com quase quatro anos, estar ainda actual, tornou-se factor de oportunidade.
“Olhando à minha volta, ou para mim mesmo, parece que todos nós, quer sejamos crentes ou ateus, possuímos um dom divino: JULGAMOS instantânea e infalivelmente.
Julgamos o vizinho trombudo que não dá os bons dias, julgamos o automobilista que não parou na passadeira, julgamos a actriz que trocou de namorado, julgamos o presidente de um clube de futebol, ou o presidente dos Estados Unidos. E, tirando o vizinho trombudo, todos estes julgamentos são feitos por “procuração”. Nós emitimos a certidão de “Juízo final” sem conhecermos os réus, sem ouvirmos os seus argumentos ou circunstâncias atenuantes.
Lemos ou ouvimos a descrição de um qualquer acontecimento, e ZÁS! – Condenado ou Absolvido.
Entre familiares, amigos e colegas, eu diria que conhecemos relativamente bem umas poucas dezenas(?) de pessoas. Mesmo considerando o quanto seria subjectivo, poderíamos ter alguns fundamentos para classificar estas pessoas com quem lidamos frequentemente. Porém nós somos muito mais habilitados, e sentimo-nos capazes de julgar meio mundo. Eric David Harris e Dylan Bennet Klebold, Pekka-Eric Auvinen, Mark David Chapman, Ikuo Hayashi, não os conhecíamos mas fomos capazes de julgá-los e condená-los instantaneamente.
Interessante é também o facto de dizermos à boca cheia que a comunicação social é tendenciosa e manipuladora, mas sugamos avidamente tudo o que é escandaloso, escabroso ou simples maledicência, para emitirmos um juízo infalível assente sobre informações que consideramos pouco fiáveis…Ah! O juízo é tanto mais sólido quanto mais tablóide for a fonte de informação.
Diz que alguém disse que tinha ouvido contar que tinham visto o que parecia ser. Assim que for impresso passa a ser verdade, e assim que o lermos o veredicto será definitivo.
Um exemplo: Um jornal escreveu que o Dalai Lama tinha dito que o tinham informado que soldados chineses estariam a disfarçar-se de monges para aumentar a confusão. Pois se acreditarmos que efectivamente houve soldados a disfarçarem-se de monges, então deveremos entender que a China além de ter ocupado o Tibete, ainda criou uma falsa contestação para provar que o mundo não fará nada contra ela, pois já está demasiado dependente para arriscar. Ou será que o Dalai Lama quis dizer que não seria possível os monges terem comportamentos belicistas. Ou teria sido a toda-poderosa CIA que arranjou chineses, os mascarou de soldados que depois se mascararam de monges. Ou terá sido ainda outra coisa qualquer…
É claro que sendo o NOSSO juízo infalível, não há nada que nos faça mudar de ideias. O nosso culpado foi absolvido: os tribunais andam a dormir; o gajo tem os melhores advogados; o procurador estava comprado. O nosso inocente foi condenado: tinham que condenar alguém; foi tramado por algum cão grande; os tribunais andam a dormir.
“Casa Pia”, “Maddie”, “Apito Dourado”, “Portucale”, em todos estes processos não temos já, cada um de nós, a nossa galeria de culpados e inocentes? Que ainda não tenham sido julgados é irrelevante.”
Alguns destes casos já tiveram sentença lida. Digam-me lá se não se aplica a minha teoria?
Kurioso