Arquivo de Fevereiro, 2012

RECICLAGEM

2012/02/24

É a primeira vez que republico qualquer coisa, mas há três razões que eu vou elencar no sentido de obter da parte (ou de parte) dos eventuais leitores desta prosa despretensiosa, alguma simpatia e, quiçá, um julgamento sumário que conduza a uma sentença que me ilibe de ilícito:

1. Uma cefaleia persistente, de causas indeterminadas, tem-se tornado um factor de preguiça;

2. O excesso de ruído, neste país palavroso, tem-se tornado um factor de indecisão;

3. O facto de um escrito, com quase quatro anos, estar ainda actual, tornou-se factor de oportunidade.  

“Olhando à minha volta, ou para mim mesmo, parece que todos nós, quer sejamos crentes ou ateus, possuímos um dom divino: JULGAMOS instantânea e infalivelmente.

Julgamos o vizinho trombudo que não dá os bons dias, julgamos o automobilista que não parou na passadeira, julgamos a actriz que trocou de namorado, julgamos o presidente de um clube de futebol, ou o presidente dos Estados Unidos. E, tirando o vizinho trombudo, todos estes julgamentos são feitos por “procuração”. Nós emitimos a certidão de “Juízo final” sem conhecermos os réus, sem ouvirmos os seus argumentos ou circunstâncias atenuantes.

Lemos ou ouvimos a descrição de um qualquer acontecimento, e ZÁS! – Condenado ou Absolvido.

Entre familiares, amigos e colegas, eu diria que conhecemos relativamente bem umas poucas dezenas(?) de pessoas. Mesmo considerando o quanto seria subjectivo, poderíamos ter alguns fundamentos para classificar estas pessoas com quem lidamos frequentemente. Porém nós somos muito mais habilitados, e sentimo-nos capazes de julgar meio mundo. Eric David Harris e Dylan Bennet Klebold, Pekka-Eric Auvinen, Mark David Chapman, Ikuo Hayashi, não os conhecíamos mas fomos capazes de julgá-los e condená-los instantaneamente.

Interessante é também o facto de dizermos à boca cheia que a comunicação social é tendenciosa e manipuladora, mas sugamos avidamente tudo o que é escandaloso, escabroso ou simples maledicência, para emitirmos um juízo infalível assente sobre informações que consideramos pouco fiáveis…Ah! O juízo é tanto mais sólido quanto mais tablóide for a fonte de informação.

Diz que alguém disse que tinha ouvido contar que tinham visto o que parecia ser. Assim que for impresso passa a ser verdade, e assim que o lermos o veredicto será definitivo.

Um exemplo: Um jornal escreveu que o Dalai Lama tinha dito que o tinham informado que soldados chineses estariam a disfarçar-se de monges para aumentar a confusão. Pois se acreditarmos que efectivamente houve soldados a disfarçarem-se de monges, então deveremos entender que a China além de ter ocupado o Tibete, ainda criou uma falsa contestação para provar que o mundo não fará nada contra ela, pois já está demasiado dependente para arriscar. Ou será que o Dalai Lama quis dizer que não seria possível os monges terem comportamentos belicistas. Ou teria sido a toda-poderosa CIA que arranjou chineses, os mascarou de soldados que depois se mascararam de monges. Ou terá sido ainda outra coisa qualquer…

É claro que sendo o NOSSO juízo infalível, não há nada que nos faça mudar de ideias. O nosso culpado foi absolvido: os tribunais andam a dormir; o gajo tem os melhores advogados; o procurador estava comprado. O nosso inocente foi condenado: tinham que condenar alguém; foi tramado por algum cão grande; os tribunais andam a dormir.

“Casa Pia”, “Maddie”, “Apito Dourado”, “Portucale”, em todos estes processos não temos já, cada um de nós, a nossa galeria de culpados e inocentes? Que ainda não tenham sido julgados é irrelevante.”

Alguns destes casos já tiveram sentença lida. Digam-me lá se não se aplica a minha teoria?

Kurioso

PARADIGMA

2012/02/17

Paradigma do Portugal moderno: os trinta quilómetros da A1 entre Lisboa e V.F. Xira.

Do lado esquerdo o maior bairro clandestino da Europa, e aquele onde deve haver a maior concentração de economia paralela do País. Deveria ser interessante encontrar o desvio médio entre o rendimento declarado e o rendimento auferido por aqueles compatriotas.

Do lado direito, os restos mortais, ou moribundos, de alguma grande industria e das suas actividades satélite, alguns (poucos) armazéns e dois tipos de dormitórios: os pré e os pós 25 de Abril.

Do lado esquerdo eu não vou falar, pois a xico-espertice faz-me azia. Basta dizer que por aqui está tudo o que Portugal não devia ser. Quem quiser perceber, basta dar uma volta por lá.

Mas do lado direito, está outro Portugal: o que sofre

Nos dormitórios pré-25 estão os operários de todas as industrias que entretanto fecharam. São pessoas com a instrução básica padrão da época, que vendiam o seu trabalho por tostões até que uma revolução, para a qual não contribuíram, lhes multiplicou os proventos por dez, ao mesmo tempo que condenava as empresas onde trabalhavam ao encerramento. A maior parte não se deixou deslumbrar por esta súbita riqueza, e amealhou ou comprou património. Hoje, “despachados” por falências ou reestruturações, agrupam-se em jardins ou cafés, deixando escorrer tempo entre lamúrias clínicas,  familiares ou políticas. Debatem os seus achaques, comparam as desventuras dos filhos, transviados, desempregados ou endividados, e recordam com saudade os tempos em que eram rudemente explorados, mas havia respeito. Do alto das colinas, contemplam as ruínas fabris junto ao rio, e também as centenas de colmeias onde vive a geração seguinte que não compreendem. Não compreendem os seus gostos, as suas necessidades, os seus relacionamentos, a sua exuberância, o seu esbanjamento.

Nos dormitórios pós-25 estão os empregados de todos os serviços que entretanto abriram. São pessoas com instrução média, que vendem o seu trabalho por cêntimos, agora que se esgotou a revolução que fez ricos os seus pais. São a geração que cresceu com  tudo e agora, que são adultos, caminham para não ter “nada”. Este “nada é obviamente subjectivo, mas também a noção de satisfação, realização ou felicidade são totalmente subjectivas. E quando se trabalha num qualquer armazém, ganhando o ordenado mínimo, tendo por modelo os craques da bola ou as “barbies” da televisão, é fácil pensarmos em “nada”. E mesmo a agradável satisfação de contemplar a obra feita pelas nossas mãos, está agora cada vez mais arredada, neste mundo onde nos limitamos a controlar máquinas e a comprar tudo feito. Ainda hoje conversando com a minha mulher sobre os trajes de carnaval que as minhas colegas compraram para os filhos, recordámos os diversos disfarces que a nossa filha usou durante os anos de escola: pierrot; índia; pantera cor-de-rosa; chinês; yin-yang, etc. todos eles feitos em casa e, por isso, todos eles únicos.

Mas o que tornou realmente diferentes estas duas gerações, foram as promessas que acompanharam o seu crescimento. Aos “antigos” foi prometido nada, e com muito trabalho talvez conseguissem umas migalhas. Aos “modernos” foi prometido tudo, mesmo sem grande esforço. É fácil perceber onde estará a frustração.

Mas, apesar de a grande Lisboa ter cerca de 2 milhões de habitantes, para lá de Vila Franca ainda há outro Portugal com muitos portugueses. Não serão talvez tão modernos, mas, por isso mesmo, quem sabe mais felizes.

Kurioso

TONTICES

2012/02/10

Já por aqui mostrei a minha frustração pela quantidade de tempo e dinheiro que o País gasta só porque nós, portugueses, não cumprimos as regras básicas de convivência em sociedade. Desde a plantação de “palitos” na borda de tudo o que é passeio, até à limpeza de graffitis na face de tudo o que é parede, gastamos um montão de dinheiro que poderia ser melhor aplicado. Acredito que os fabricantes de “palitos” e os limpadores de paredes não pensem assim, mas gastar dinheiro a corrigir o resultado de acções incorrectas, não me parece razoável.

E porque não conseguimos que os nossos concidadãos (locais e importados) ganhem civismo, ou moral, ou ética, ou respeito, ou outras palavras arcaicas, nós todos vamos ganhando leis cada vez mais tontas.

Num mesmo telejornal, foi referido o novo “Código Regulamentar” da Câmara do Porto, e também a decisão de fechar algumas estradas secundárias na zona agrícola do Ribatejo.

O novo Código do Porto pretende incutir, pelo medo à coima, a educação que fomos perdendo ao longo das últimas décadas. Entre as muitas coisas que proíbe, está o cuspir para o chão, deitar lixo fora dos contentores, lavar varandas ou regar vasos quando pode haver escorrências para a rua, lavar automóveis, e muitos outros actos banais que não deveriam pura e simplesmente ser feitos sem que fosse resguardado o bem público. E é por aqui que a porca vai torcer o rabo. Lavar uma varanda, ou um carro com o devido cuidado não pode ser uma actividade ilícita, mas a balda e o egoísmo tornaram-nas de facto actividades que prejudicam os outros. E depois lá vamos nós ter o habitual cortejo de vizinhos queixinhas, de prevaricadores ofendidos, de autoridades insultadas e de processos para ajudar a entupir os tribunais.

Quanto à decisão de fechar, durante a noite, as estradas rurais na Golegã, a coisa parece-me ainda mais caricata. O objectivo é impedir que os ladrões tenham acesso aos campos para recolherem tudo aquilo que os sucateiros honestos compram sem grandes perguntas. Mais uma vez vai instalar-se uma confusão danada. Quem precisar de se deslocar àquelas zonas por motivos honestos vai ser impedido ou chateado se prevaricar. Os bandidos só têm que continuar a fazer o que sempre fizeram, roubar e escapar.

Ah! Atenção ao pormenor importantíssimo: as estradas não vão ser fechadas com cancelas, barreiras, pedregulhos ou qualquer outro obstáculo físico. Não senhor! Para os cumpridores portugueses basta pôr na borda da estrada um sinal de trânsito proibido entre as 19H00 e as 7H00.

Ah! outra vez. A GNR que até agora não conseguiu apanhar nem amostra de ladrão, depois da colocação dos sinais, vai apanhar paletes deles.

É preciso fazer um esforço danado para continuar a ter orgulho de ser Português.

Kurioso

TENSÃO

2012/02/03

Quando decidi que só escreveria aqui às Sextas-feiras, mas todas as Sextas-feiras, procurava atingir dois objectivos: tempo para pensar e assentar as ideias; e disciplina para não deixar o “quintal” ao abandono por simples preguiça.

Durante quase quatro anos foi relativamente fácil cumprir o objectivo inicial, e, em algumas épocas de menor sufoco, cheguei a ter dois ou três posts de reserva.

Porém, nos últimos meses, uma conjugação de excesso de estímulos tem tornado a tarefa mais difícil, criando uma tensão que inquina o prazer da escrita.

Eu, que sempre fui um fiel seguidor do ditado “não te coces antes da pulga morder”, sinto as barreiras a ceder. Chateia-me a incompetência e laxismo no serviço; dana-me a aselhice e falta de civismo no trânsito; enfurece-me o facciosismo e demagogia dos políticos; abomino o servilismo e manipulação dos media; entristece-me o protesto acrítico dos meus concidadãos.

E toda esta tensão acaba por afectar a característica que eu mais gostava de preservar: a isenção emocional. Eu não tenho a presunção de ser isento racionalmente (uma vida deixa marcas), mas tinha a ideia de que conseguia discorrer sobre o mundo à minha volta sem ser tolhido pela emoção. Parece que o turbilhão emocional que submergiu este país, é suficientemente forte para afectar todos.

E se as emoções são essenciais no recanto do lar (e nem aqui os Portugueses são um grande exemplo), eu acredito que na área profissional as emoções desgarradas só causam conflitos e ineficiências. A inteligência emocional, agora tanto na moda, deve ser entendida na sequência correcta: inteligência + emoção.

Infelizmente este céu de nuvens negras parece estender-se além fronteiras e além negócios. Duas reuniões internacionais, uma convenção de vendas e uma reunião de condomínio deixaram-me emocionalmente arrasado. Já somos demasiado civilizados para andarmos à estalada uns aos outros, mas a tensão (mal) encoberta dava para levantar os pelos a um gato.

Kurioso          


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