Na minha já longa vida profissional, estive envolvido em meia dúzia de despedimentos. Não directamente, porque nunca pertenci aos Recursos Humanos, mas tendo que escolher os infelizes candidatos.
A causa imediata podia ser pura inaptidão, mas a maior parte das vezes foi devido a reestruturações. Curiosamente, custou-me mais no caso dos inaptos do que nos outros, pois os inaptos dificilmente teriam sucesso em qualquer outro lado.
Entretanto na minha vida privada, sobretudo nos últimos tempos, tenho contribuído parcialmente para dezenas de despedimentos.
O nosso País saiu de uma espiral positiva e vai entrar numa espiral negativa. E vai entrar numa espiral negativa porque a espiral positiva foi suportada por riqueza alheia que entretanto acabou.
A muleta da ajuda externa começou há muitos anos, primeiro com dinheiro oferecido, e depois com dinheiro emprestado (uma das coisas que nunca perdoarei ao anterior PM foi ter-se esquecido de nos informar sobre esta pequena alteração), e se a primeira parte só criou algumas benesses (e vícios) que serão mais ou menos difíceis de abandonar, o montão de dinheiro que pedimos emprestado, criou-nos obrigações que, neste ambiente de tempestade perfeita, talvez nunca consigamos cumprir.
À força de uma injecção permanente de alguns megafones panfletários, todos nós instintivamente pensamos que é o Patrão que despede o Empregado. Esta falsa verdade é alimentada por outros megafones, com motivações várias, e são-nos mostrados os exemplos exemplares de grandes Patrões que despedem desapiedadamente os seus muitos Empregados.
Mas se olharmos para os factos, verificamos que em 2009 o número de desempregados aumentou 110000 e eu até admito que 10000 tenham vindo de despedimentos motivados por especulação capitalista, que os media exploraram até à exaustão, quando eles mesmos também despediam de mansinho. Porém a restante centena de milhar vem de centenas de micro empresas que só foram viáveis enquanto o dinheiro abundou. Na maioria destes casos até os Patrões vão parar ao desemprego.
Por isso, eu penso que quem despede os Empregados são os Clientes, e vou usar-me como exemplo.
Quando eu deixei de usar roupa de lã e passei para o algodão ou sintéticos, ajudei a despedir uma série de pessoas na Covilhã; quando eu passei a comprar têxteis indianos, contribuí para o desemprego no vale do Ave; quando eu comprei uma motorizada japonesa, posso ter forçado uma reestruturação em Águeda; quando eu ando quilómetros para ir abastecer-me numa grande superfície, passo à frente duma dúzia de mercearias, talhos, casas de frescos, lutando para sobreviver ao abandono a que as votei; quando eu deixei de comer fora todos os fins de semana, comecei a pôr pressão numa enorme cadeia logística que será forçada a emagrecer.
Antes de culparmos os políticos, os mercados, os patrões, os alemães, etc, talvez fosse bom olharmos para as falsas expectativas que nós criámos gastando à toa enquanto pensámos que éramos ricos, e para o caos que nós vamos criar deixando de gastar, agora que voltámos a ser pobres.
Nós, cá em casa, já mudámos alguns hábitos: compramos pão na padaria, fruta (portuguesa) na frutaria e carne no talho. As mercearias receio que estejam condenadas, mas somos clientes do pronto a comer local. Pagamos mais caro, e eu espero que o nosso esforço sirva para criar novos empregos e não para comprar novos BMW.
A fotografia lá de cima é de uma concha de Nautilus, um bichinho que vai aumentando a sua “casa” à medida que cresce. É fácil de ver que o Nautilus para voltar a viver na “casa” anterior teria que aceitar um regime pior que o do “Peso Pesado”.
Kurioso