Arquivo de Junho, 2011

PPC

2011/06/24

Eu tinha a ideia de que a fixação em siglas era uma mania minha, mas, com a proliferação dos SMS (ainda alguém sabe que isto quer dizer: “short message service”?) e a praga dos k, pq, n, tb e quejandos, também os jornais e revistas desataram a abreviar tudo e mais alguma coisa.

A primeira vez que vi DSK num jornal pensei que era uma marca de cassetes ou de CDs (Compact Disk?). Afinal o tema era um senhor bastante famoso por uma coisa, que, de repente, se tornou muitíssimo famoso por outra coisa.

De há uns tempos a esta parte começou a aparecer nos jornais a sigla PPC, e agora, já um pouco mais prevenido, eu suspeitei que não estariam a escrever sobre Production Plan Conformance. PPC foi durante alguns anos uma sigla que me tirou o sono durante várias noites.

Qualquer operação de produção complexa trabalha obrigatoriamente com um plano, que diz quando é que se deve fazer o quê, e quanto. A carga planeada deve saturar a capacidade produtiva, mas não deve excedê-la, pois, se tal acontecer, o plano não será cumprido e os compromissos assumidos falharão. A coisa seria simples se a EO (eficiência operacional) das linhas fosse regular e repetível. Infelizmente não é!!!

PPC é então a medida que usamos para determinar a Conformidade com a Produção Planeada. Como em Portugal até as medidas são voláteis, a discussão semanal do PPC dava origem a debates acalorados, onde cada uma das partes tentava fazer valer os seus argumentos. E, curiosamente, mesmo dentro dum ambiente de porcas, parafusos e correias de transmissão conseguimos arranjar suporte lógico para argumentos quase contraditórios. E argumentos contraditórios com suporte lógico dão direito a discussões infindáveis e…improdutivas.

Foi mais ou menos por esta altura (há vinte anos atrás…) que aprendi uma regra de ouro que me tem ajudado a dormir descansado: medir com rigor e aceitar uma margem de tolerância. Em vez de procurar a perfeição, devemos controlar e minorar a imperfeição.

Há uma tendência natural para irmos “ajustando a balança” à medida que a envolvente muda, de modo a que os resultados se aproximem dos nossos desejos. A seguir usamos a estafada justificação de que “agora tem que ser assim” e pura e simplesmente não conseguimos avaliar coisa nenhuma. A balança tem que permanecer a mesma, os desvios é que podem ser analisados de forma diferente.

Se não tivéssemos ido ajustando a balança, não haveria hoje tanta confusão entre liberdade e libertinagem, tolerância e abuso, democracia e demagogia, autonomia e laxismo, motivação e sacanice.

E o que é que tudo isto tem a ver com o PPC dos jornais?

Pois… eu, e Portugal inteiro, esperamos que PPC consiga ter um PPC de pelo menos 80%.

Kurioso    

CRUZAMENTO

2011/06/17

Este post deveria ter por título “Juízo” ou “Julgamento”, mas penso que já usei ambos os termos como título. Mesmo escrevendo só uma vez por semana, as minhas fixações (e a opção de usar uma só palavra para título…) começam a pôr uma sobrecarga na minha criatividade.

Mas, foi efectivamente num cruzamento que poderão ter acontecido dois juízos ou julgamentos:

Olha para este madraço da cidade aqui a tirar fotografias e a empatar quem trabalha

Olha para este desgraçado! O país no Algarve (ou em Castelo Branco…) a gozar um fim de semana à maneira, e ele aqui a sulfatar as vinhas” 

Pois a cena aconteceu no passado 10 de Junho, quando eu, o madraço da cidade, resolvi subir aos montes por detrás da terriola onde vivemos, para tirar algumas fotografias. Depois de subirmos, subirmos e subirmos, quando já estava perto daquelas “ventoinhas” king-size, que todos nós andamos a pagar junto com a continha da luz, e longe da humanidade, resolvi parar o carro no meio dum carreiro de terra, para ir fazer uns clicks.

Enquanto regulava, focava, enquadrava e “clickava” começo a ouvir o ruído dum motor e resolvo regressar ao carro. Apesar da minha celeridade, ainda houve que fechar o tripé, proteger a máquina e pôr o carro a andar, enquanto o desgraçado, em cima do tractor, esperava.

Finalmente lá nos cruzámos com um “desculpe lá…” acabrunhado do meu lado, e um “…não faz mal” carrancudo do lado dele.

Uma parte significativa dos nossos juízos são feitos assim: num cruzamento. E assim como o juízo que eu imaginei na cabeça do agricultor está errado, pois eu não sou madraço, nem da cidade e dou o litro cinco dias por semana, também a minha presunção sobre a desgraça do tractorista pode estar longe da realidade. O indivíduo pode muito bem ser dono de toda aquela encosta, não terá chefes nem patrões para aturar, não enfrenta a 2ª circular todos os dias e pode ter passado toda a quinta-feira a dormir porque ainda não chegara a hora de sulfatar.

Entretanto ao chegar a casa, descarrego as fotografias e acho que valeu a pena empatar o sulfatador.

E aqui temos outro cruzamento, agora de épocas. A agricultura artesanal ou moderna, a auto-estrada para os apressados ensimesmados, que perdem a oportunidade de apreciar uma paisagem de postal, e, lá ao fundo, as “ventoinhas” que (talvez) sejam um sinal do futuro.

Há vinte anos atrás, este vale era uma desolação. Os “agrários” tinham sido saneados, os camponeses foram trabalhar para as fábricas, a auto-estrada ainda não era moda e as “ventoinhas” eram uma modernice dos Holandeses que gostam de aproveitar tudo.

Com o rodar do tempo, os agrários vão vendendo o património, as fábricas fecham e os camponeses usam as indemnizações para comprar terras, e o vale ressuscita.

O caminho que o PR aponta já está a ser seguido, mesmo que os comentadores de um tal “Eixo da Presunção” o achem salazarento. Estes senhores, que suponho movimentarem-se exclusivamente no eixo Lisboa-Cascais, devem achar que agricultura é sinónimo de atraso. Suponho também, que nunca terão saído das cidades se alguma vez visitaram a Holanda ou a Suíça.   

É fácil julgar rápido. Difícil mesmo, é julgar bem.

Kurioso

 

“TORCIDO”

2011/06/10

Há dez anos atrás, quando comprámos o nosso apartamento, em conversa com um dos construtores ele queixou-se dos roubos. Já davam como adquirido que uns sacos de cimento, uns tijolos ou umas tábuas de cofragem sempre ganhariam asas, mas na altura o sujeito estava escamado porque lhe tinham roubado umas dezenas de janelas, com os aros incluídos. Explicou-nos então os malabarismos de que se socorriam para evitar perdas maiores: as torneiras tinham que ser todas aplicadas no dia da entrega; as sobras de material eléctrico eram recolhidas, levadas para o armazém e trazidas no dia seguinte; os aros e as portas eram entregues separadamente.  Todos nós estamos habituados a passar por estaleiros de obras e ver as máquinas de soldar penduradas nas gruas.

Numa das minhas deambulações pedestres nos arredores de Zurique, passei por um estaleiro enorme, dum conjunto de apartamentos, e verifiquei surpreendido que nem vedação havia. Olhando com mais cuidado, confirmei que os equipamentos estavam todos nos seus postos de funcionamento, e havia inclusivamente várias ferramentas eléctricas manuais pousadas em cima duma bancada.

Matutando nestas diferenças, comecei a imaginar a quantidade de dinheiro que se gasta em Portugal para prevenir, corrigir, fiscalizar e  punir as situações erradas que acontecem por relaxe moral, ético, social, civilizacional.

O exemplo acima é um dos que me causa mais engulhos. Qualquer habitante de Lisboa passa diariamente por centenas de “palitos” destes, o que quer dizer que existirão milhares deles espalhados pela cidade. Extrapolando para o resto do País é fácil perceber que Portugal gasta milhões de euros para evitar que os seus habitantes, NÓS, façam aquilo que à partida não deveriam fazer. E o caricato desta situação, é que a ausência da barreira leva-nos a pensar que há liberdade para transgredir: se não há palitos, bora lá estacionar em cima do passeio (eu já fui caçado nesta ratoeira…). As autarquias gastam rios de dinheiro a empalitar o País, mas sempre haverá um pópó estacionado em cima do passeio.

Mas, para não passar para a área privada, onde todos nós gastamos fortunas para prevenir o que não deveria ser necessário prevenir, continuemos a ver onde o nosso estado falido gasta o dinheiro. 

Para evitar que os adeptos do desporto mostrem todo o seu “desportivismo”, gastamos uma pipa de massa.

Culpamos o fisco por não cobrar aquilo que deveria ser pago de motu proprio, e depois culpamos os tribunais por estarem entupidos com todos os processos de que NÓS somos os progenitores.

Reclamamos da falta de mobiliário urbano, de jardins, de equipamentos desportivos, e vandalizamo-los ainda antes de inaugurados.

A foto acima mostra um abrigo de paragem que teve os vidros partidos 6 vezes em 7 semanas consecutivas, durante os meses de Maio a Julho do ano passado. Os vidros eram quebrados ao fim de semana e substituídos na quarta ou quinta feira. A única vez em que o ciclo falhou, foi porque não foram substituídos. De repente, em Agosto, as quebras pararam e eu pensei que finalmente tinham apanhado os sacanas. Pois se os apanharam, já estão de volta! Porém o ritmo abrandou, e agora é   uma partidela por mês.

Mas não são só os sacanas que vandalizam o País. Mais uma vez o exemplo acima mostra como a “flexibilidade ética”, ou a pura preguiça, fazem com que dezenas de cidadãos estraguem um jardim para poupar meia dúzia de passos.

País torcido este, onde os habitantes, em vez de ajudarem o Estado a poupar, o obrigam a gastar dinheiro onde não devia ser preciso.

Kurioso 

 

S.W.O.T.

2011/06/03

 

A sigla do título representa as abreviaturas de Strength (Forças), Weakness (Fraquezas), Opportunities (Oportunidades) e Threats (Ameaças) e é habitualmente referida como análise SWOT, pois trata-se de um método de análise estruturada que pode ser aplicado a quase tudo o que tenha que ser “vendido”: uma escova de dentes; um telemóvel; um pacote de arroz; um restaurante; um apartamento; uma pessoa; um PAÍS. Não confundir com SWAT que quer dizer uma coisa muito diferente. Kuriosamente encontrei uma análise SWOT aplicada a uma equipa SWAT…

Farto de dizer mal do meu infeliz País, resolvi tentar encontrar alguns caminhos possíveis para a nossa redenção, utilizando esta ferramenta. É importante referir que Forças e Fraquezas são variáveis internas que nós podemos corrigir, e Oportunidades e Ameaças são variáveis externas que nós só podemos controlar.

Como qualquer outra análise, esta deveria ser feita de forma competente e isenta, e eu, não tendo pretensões em nenhuma dessas características, tentarei não ser demasiado tosco e parcial.

Utilizando as nossas forças para aproveitar as oportunidades nós poderíamos ser, na Europa, uma espécie de cruzamento entre a Florida e a Califórnia. Depois de sairmos para povoar mundo, devíamos ir ao mundo buscar o povoamento que nos interessa: os velhos ricos e os novos intelectuais. Nalguns casos traríamos famílias completas, pois os novos intelectuais tendem a nascer em famílias ricas…

É evidente que para pôr um projecto destes em marcha, teríamos que vencer a primeira e maior fraqueza que nem vem na lista: encontrar quem nos governe. E porque a empreitada não é simples, o cruzamento aqui teria que ser entre D. João I, o Infante D. Henrique, o Marquês de Pombal e o Eng. Duarte Pacheco.

A correcção das nossas fraquezas exige aquilo a que na gíria se chama de “pau e cenoura”. Por um lado seria preciso bastante “pau” para acabar com o caos urbanístico e obrigar ao reagrupamento da micro propriedade, e por outro haveria que distribuir alqueires de cenouras para elevar a instrução e cultura médias, vencer a resistência à mudança e esperar que esta melhoria implicasse uma automática moderação da ganância e xico-espertismo. Ufa! Até fiquei cansado só de escrever. 

Para controlar as ameaças é preciso conhecê-las para que possamos criar o antídoto. Se aqui há uns anos, quando estas ideias começaram a saltitar de neurónio em neurónio, eu pensava que o nosso alvo deveria ser exclusivamente a Europa pela proximidade e afinidade cultural, agora, quando é evidente o declínio da Europa e a emergência de uma enorme população disposta a desenraizar em vários lados do mundo, acredito que podemos ir buscá-los a qualquer lado. A hipótese de oferecer espaço e ausência de poluição a um qualquer Indiano trabalhador do conhecimento, é dar-lhe um pedaço do paraíso.

Se conseguíssemos “recrutar” 2 milhões de seniores (estima-se que em Espanha vivam 1 milhão, de Ingleses) e 0.5 milhão de juniores, a entrada de divisas poderia ser equivalente às remessas de todos os nossos emigrantes.

Estes dois tipos de “novos Portugueses” trariam vantagens distintas. Os primeiros, seniores, seriam sobretudo gastadores e povoadores. O facto de preferirem viver fora das cidades e terem um elevado poder económico permitiria ressuscitar a economia das Beiras Interiores, do Douro e de Trás-os-montes, suportando desde os serviços básicos: alimentação, cuidados primários, serviços de apoio, construção e manutenção, até à oferta de lazer: restaurantes, agências de viagem, piscinas, termas, etc.

Já o trabalhador júnior, o novo trabalhador do conhecimento que produz ideias em vez de coisas, serviria sobretudo de fermento ou catalisador para um grupo de dotados que já vão aparecendo em Portugal, e que por falta de enquadramento são forçados a emigrar. Esta malta, se bem que avessa às grandes cidades, gosta e precisa de trabalhar em conjunto, preferindo pequenas cidades que oferecem o balanço perfeito entre civilização e tranquilidade: Aveiro; Figueira da Foz; Caldas da Rainha; Viana do Castelo…

Este movimento de retorno ao campo, permitiria diminuir a “atracção fatal” que Lisboa e Porto exercem sobre todos aqueles que tentando sair duma vida sem futuro acabam num futuro sem vida. 

Então e o que sobraria para NÓS Portugueses vulgares de Lineu?

Pois nós deveríamos reestruturar toda a nossa indústria ineficiente, concentrando-nos em pequenas unidades para abastecimento local, e grandes clusters para exportação de alto valor, de preferência com matérias primas locais. Não faz sentido usar uma frota de camiões para trazer matérias primas, acrescentar-lhes 30% de valor e usar outra frota de camiões para levar os produtos daqui para fora.

Temos obrigatoriamente que melhorar o nosso rácio de auto suficiência alimentar. Temos que voltar à Terra e ao Mar. Temos que produzir o básico: cereais, batatas, carne e peixe, e também o sofisticado: primores e especialidades para exportação.

Gráfico retirado de:  http://pintoadelaide.no.sapo.pt/Agricultura.pps 

Se era assim em 2002, como será agora?

Temos obrigatoriamente que melhorar o nosso rácio de auto suficiência energética. Se a energia eólica só lá vai com subsídios obscenos, pois voltemos à velhinha energia hídrica e construam-se barragens. Não faz sentido deixar que preciosa água doce se escoe para o mar sem fazer qualquer coisa pelo caminho. Vamos submergir uns bicharocos ou uns rabiscos? Azar!

Mas produzir mais não é suficiente. É fundamental desperdiçar menos.

Se a solução que proponho é sermos o Retiro e o Escritório do mundo, quer isso dizer que seríamos os criados dessa gente? Não! Nós seríamos os provedores.

Uma boa parte dos Portugueses ainda não se livrou do Complexo do Criado. Em Portugal, a palavra servir tem um sentido de subjugação inerente que não faz qualquer sentido. Servir é prestar um serviço, e não tem nada a ver com servidão ou servilismo.

Eu sou um servidor da minha empresa, e o CEO da empresa é um servidor de todos os seus subordinados. O que nos distingue é o nível de responsabilidade, nunca o nível de respeitabilidade.

E vai ser fácil atingir esta minha “utopia”? Não sei. Mas há mais quem acredite

Um bom começo, seria mesmo deixar de discutir pelos púbicos e começar a usar eficientemente outras partes do corpo, como a cabeça e as mãos.

Kurioso

 

 

 

 


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