Arquivo de Janeiro, 2011

ANONIMATO

2011/01/28

 

As minhas actividades no mundo virtual iniciaram-se em Agosto de 2007, e, desde o início, decidi que, pelo menos enquanto durasse a minha vida profissional, manteria o anonimato.

O meu anonimato nunca serviu, e nunca servirá, para atacar a privacidade de alguém, serve unicamente para proteger a MINHA privacidade. E se eu acho que da minha privacidade os outros só devem saber o que eu quero que saibam, é óbvio que eu não vou procurar saber da vida dos outros mais do que eles queiram revelar.

Estive sempre ciente que esta decisão teria impacto nas interacções com pessoas que divulgam a sua identidade, e tenho tentado ao longo destes anos que o meu anonimato não seja sentido como uma violação da privacidade dos outros.

No meu primeiro post escrevi:” Não vou andar a chatear os outros para que me venham ler, e não vou insultar ninguém.” E se no início o anonimato era uma simples precaução, viria a assistir posteriormente a cenas verdadeiramente vergonhosas onde a desfaçatez (malvadez?) de alguns  infernizando a ingenuidade de outros, me convenceram de que o anonimato é uma necessidade.

Porque eu penso que não faz muito sentido tratar de emoções por via electrónica, sempre assumi que, por aqui, a minha interacção seria intelectual e única, não havendo lugar para vários eus. O nick Kurioso é a minha única identidade virtual e está registada em várias plataformas, por vezes através das variantes Kurioso1950 e Kurioso de Cinquenta (é muito difícil ser inovador à escala global, e já existiam alguns kuriosos…).

Este desabafo tem por origem recente a descrição da “cena macaca” de que foi vitima o BW (por acaso o meu primeiro comentador virtual e um exemplo de correcção e honestidade anónima) ao ser-lhe bloqueada a conta do FB. Porém já andava magicar escrever algo sobre o anonimato, ao verificar que no FB quase toda a gente usa (ou parece usar) as suas verdadeiras identidades.

A sanha persecutória da diferença, e tentativa persistente de formatação de acordo com algo que estará certo para uma suposta maioria, é mais ou menos constante em fóruns de origem Americana. Um invisível, omnipotente e anónimo administrador tem o poder absoluto de julgar e executar sentença. Aqui há uns tempos tive uma fotografia censurada num fórum e o administrador(a) da casa foi amável o suficiente para me perguntar se eu queria “defender a publicação”. Ao fim de dois rounds de mails desisti de argumentar contra o maniqueísmo e obstinação do meu interlocutor.

O curioso no meio disto tudo é que as pessoas consideram um nome igual a uma identidade quando, na maior parte das vezes, aqui no mundo virtual tal não é minimamente verdade. Depois de três anos de presença, o Kurioso (este Kurioso) tem uma identidade muito mais clara do que aquela que conseguimos atribuir a muitos nomes verdadeiros (?) que por aqui andam. E a identidade é clara porque o que a suporta é verdadeiro e coerente, não procurando ajustar-se à moda vigente. Por trás do Kurioso há uma pessoa que ninguém confundirá com a pessoa por trás deste outro Kurioso. Também curioso é o facto de o Google (a medida de todas as coisas) encontrar muito menos “Kuriosos”, cerca de 146000, do que pessoas com o meu nome, 714000. Dá ideia de que o Kurioso é mais eu do que eu sou eu. Ooops! Ainda acabo estendido nalgum divã…

Porque esta do “eu sou, mas não digo quem sou” tem pano para mangas, aqui encontrarão duas opiniões, bem mais mediáticas e abalizadas do que a minha, a defenderem, mais ou menos, as mesmas ideias.

Kurioso

MACHISMO

2011/01/21

 

Se há uma área onde os Homens têm tido dificuldade em abdicar da supremacia, é a da condução de máquinas.

Mesmo o exemplo diário de milhares de Mulheres que conduzem bem, não consegue fazer-nos esquecer as centenas de exemplos de outras que têm alguma dificuldade em comunicar com as suas viaturas.

Eu, machisticamente, continuo a pensar que a maioria dos homens tem mais afinidade com máquinas do que a maioria das mulheres, mas tenho levado algumas “porradas” no ego. Uma das primeiras terá sido quando tive o privilégio de assistir à vitória de Michele Mouton no Raly de Portugal de 1982.

Uma das últimas foi ter sido claramente vencido numa corrida de karts por uma colega dos Recursos Humanos, no novíssimo Autódromo do Algarve.

Mas se nos automóveis a competência das mulheres já vai sendo quase aceite, na condução de máquinas especializadas o “ataque” feminino é bem mais recente.

Uma boa parte da minha vida profissional foi passada em Fábricas, e, durante todo esse tempo, era impensável ver uma Mulher a conduzir um empilhador. Eram competentes para manejar um maçarico durante oito horas, para controlar máquinas sofisticadíssimas, etc, mas conduzir nunca. A parte da condução ficava reservada para os Homens. É claro que nem todos os Homens são igualmente dotados, e por isso tínhamos os “craques”, os “assim-assim” e os “coxos”. Estes últimos eram facilmente identificados pela forma como o maralhal se protegia ao vê-los aproximar.

Depois de uns anos de afastamento, visito um dos nossos armazéns e sou surpreendido pela presença de algumas Mulheres que conduzem com desenvoltura os porta-paletes (vulgo urinóis), fazendo o “picking” e carregando os camiões. Porém os empilhadores, e sobretudo os trilaterais, continuavam entregues às competentes (?) mãos cabeludas. 

Mas a emancipação da Mulher é imparável, e, por isso, não é de admirar que ao visitar um grande operador logístico eu quase só encontrasse Mulheres dentro do armazém. Tirar uma palete do nível 5? – “piece of cake”. Carregar um camião em double-stacking? – tá feito!

Sentindo que mais um feudo nos fugia, resolvo interrogar a  Directora: “Mas vocês são feministas, ou quê? Onde é que estão os Homens?”. Resposta pronta: “Os Homens foram para onde é preciso fazer força. Nas máquinas tinham a mania que eram bons e andavam sempre a bater em todo o lado. Só em estantes torcidas e quebras de material era um dinheirão. As Mulheres faltam mais, vão mais vezes à casinha e, quando se encontram três num corredor há conversa para largos minutos. Mas, mesmo assim, acabam por ser mais produtivas. Quase não há quebras, enganam-se muito menos, cumprem as regras à risca e não estragam o material.

Esta divagação  foi despoletada por este vídeo onde se pode ver que, mesmo “lá fora”, ainda há quem se surpreenda pelo avanço das saias (das calças?, dos calções?, dos corsários?, dos leggings?) em terrenos proibidos.

Um dos meus passatempos mais recentes é ler os comentários por baixo dos diversos vídeos onde vou parar. Descontando o  nível médio bastante baixo, a má educação a roçar a boçalidade e o maniqueísmo mais básico, ainda é possível descortinar as ideias por detrás da escrita.

Os comentários a este vídeo mostram um bocadinho de tudo: machismo rasteiro; comentários técnicos; avisos legais; alguma admiração pela perícia da senhora (outra forma de machismo?…), etc.

Mas, seja qual for o tema do vídeo, uma coisa é certa. Os comentários, em qualquer língua e em qualquer país, não são diferentes dos emitidos em Portugal. Afinal não estamos assim tão atrasados.

Kurioso

CACA

2011/01/14

Na palavra do título não falta nenhuma cedilha nem acentos. Eu quero referir-me mesmo a:

caca
(origem expressiva) s. f.

1. Infrm. Excremento; fezes.

2. Infrm. Porcaria.

Numa peça sobre possíveis aumentos das coimas penalizando actos incivilizados, foi referido que durante 2010 foram autoados 60 senhores(?) por não terem apanhado a caca dos seus cães. Pensei imediatamente: “então e os outros 60000…?”

O “passeio” que tenho de fazer, todos os dias, entre o lugar possível de estacionar “sem custos e sem risco de reboque”, e o meu posto de trabalho, obriga-me a atravessar uma boa parte do alto de Campolide. Porque há muitos cãezinhos, poucos espaços verdes e os passeios têm meio metro de largo, o trajecto é um verdadeiro campo minado. E porque os habitantes se levantam cedo e eu saio tarde, consigo apanhar caca fresca duas vezes por dia. Porém ao final do dia a coisa torna-se muito mais interessante, pois uns quantos sapatos desprevenidos já espalharam a caca da manhã, obrigando a um ziguezaguear quase constante. Se um dia virem alguém aos “esses” num passeio de Campolide, não presumam que está “com os copos”, provavelmente estará só “com cuidado”.

Antes de continuar a minha prédica, convém referir que nós somos, há 6 anos, os felizes criados de uma cadela de grande porte que caca bem e abundantemente.

A fotografia mostra um saquinho de plástico (sim! É pouco ecológico, mas os de papel não garantem estanquecidade…) que se tornou standard cá em casa depois de várias experiências. É grande QB para permitir dar o nó depois da função sem riscos de contaminação, e fino o suficiente para andar SEMPRE no bolso das calças.

Estes sacos, com 30x20cm, vendem-se na Pollux e custam €1.5 o cento. Os transparentes são muito mais baratos, mas esta é uma tarefa onde uma visibilidade perfeita não é uma mais valia. Temos então um saquinho que custa 1,5 cêntimos por acto, e se consideramos que um cão actua, em média, umas 400 vezes por ano, o valor anual será de €6 (seis euros ano!!). Aquela bicazinha que nós tomamos displicentemente todos os dias, custa-nos 200 euros por ano. Não será certamente para poupar €6 que os nossos incivilizados concidadãos deixam os seus cães cacar por todo o lado.

Além do défice financeiro das contas públicas, há sobretudo um enorme défice de educação e respeito pelo próximo, do qual a caca é somente um exemplo mal cheiroso. Há outros exemplos bem mais graves, e alguns até cheiram bem…

Kurioso

PS. Nas minhas viagens pela Europa, um dos meus souvenir preferidos são os saquinhos da caca cujos dispensadores  se vêem espalhados pelos bairros residenciais ou zonas de passeio. Há-os de todas as cores e feitios, e alguns até têm instruções. 

JUÍZO

2011/01/07

Hoje vou ser juiz em causa própria.

É algo que se vê por aí com abundância, mas nunca me senti confortável quando tenho que comparar duas coisas, se só conheço bem uma delas. Porém, a conjugação de três factores pôs-me a contabilizar diferenças.

1.Recebemos há umas  semanas, do nosso departamento de recursos humanos global, as instruções e regras para a avaliação de desempenho referentes a 2010.

2.Depois disso, num  final de semana, leio que 80% dos procuradores da república têm classificações de Muito Bom ou Bom com distinção.

3.Entretanto o nosso Ministro das Finanças vai dizendo que não podem ser só os salários da função publica a sofrer redução. Esta afirmação, que deve ter deixado alguns dos nossos “empresários(?)” a salivar, encheu-me de comichões.

Comecemos por aquilo que conheço.

Uma empresa com mais de cem mil trabalhadores que compete globalmente e tem que manter os accionistas contentes, precisa de gente capaz e é obrigada a ter uma política de recrutamento e de remuneração que seja eficaz e razoavelmente justa. Existem por isso regras muito detalhadas sobre definição de objectivos e avaliação de desempenho. É claro que, apesar de todos os quadros e tabelas, no final acabamos sempre por ser avaliados subjectivamente pelo chefe. E a coisa é muito simples. Cada um de nós avalia e é avaliado numa escala de 1 a 5, no pressuposto de que 20% estarão abaixo de 3, 60% rondarão o 3 e 20% poderão estar acima de três. Em uma qualquer equipa a média não pode passar de 3,3.

É preciso referir que a empresa recruta nas melhores escolas e tem, ao longo dos últimos 10 anos, “despachado” os menos adaptados. Nós, os sobreviventes, conquistámos arduamente o direito de nos considerarmos BONS. E, no entanto, vamos ter que encontrar 20% de menos bons, os nossos chefes encontrarão entre nós outros 20%, e os chefes deles idem. Não é difícil adivinhar onde são encontrados os candidatos a “despacho”. No sector privado “civilizado” é assim, no sector privado “selvagem” é bem pior.

Entretanto porque as empresas para sobreviver têm que adivinhar e antecipar, a nossa já não aumenta os seus quadros há 4 anos, e os empregados também já vão no segundo ano. E estamos todos zangados com o “patrão”? Parece que não. Ao inquérito deste ano, anónimo e feito por entidade externa, responderam mais de 90% dos empregados, e 86% deles afirmaram estar “satisfeitos ou muito satisfeitos” por trabalharem nesta empresa. É claro que indicaram também os pontos fracos, e, curiosamente, estes são transnacionais, repetindo-se em quase todos os países.

Falando agora do que não conheço, os procuradores da república, parece-me que avaliar 80% de um grupo como Bom ou Muito Bom, admitindo que há pressões para que as progressões de carreira não sejam prejudicadas, revela pelo menos falta de rigor. Todos nós sabemos, empiricamente ou com o apoio de estudos, que, em qualquer grupo a percentagem de elementos de excepção será quando muito os 20%. 

O Estado é o maior empregador do País, e tem que ser gerido como uma empresa, pois tem 10 milhões de clientes. O facto de não ter que dar lucros, deveria permitir um tratamento mais justo, mas nunca alimentar parasitismos e aceitar que TODOS podem chegar ao TOPO, subvertendo completamente a natural estratificação por competência e mérito, e eliminando o desafio que conduz à excelência.

Pois o Estado descobriu agora (?) que começa a ser difícil encontrar quem lhe empreste mais dinheiro para continuar a alimentar o  “monstro”, e, como não pode ver-se livre dele, resolveu diminuir-lhe a “ração”. Porém, para não ficar sozinho com o odioso, vá de instigar as outras empresas, que sempre alimentaram frugalmente os seus rebanhos, a reduzirem também a “ração”.

E eu estou quase certo que vão aparecer por aí dezenas de empresários “solidários”, que, a bem da Nação, ajustarão, para baixo, os salários dos seus funcionários para evitar “desigualdades fracturantes”.

Se eu posso viver com menos 10% de salário? É claro que posso. Nós já vivemos “tempos difíceis” e aprendemos a frugalidade da pior maneira. MAS VOU FICAR MAIS PIURÇO QUE UM ALEMÃO!!!        

Kurioso

PS. Algum funcionário público que se sinta incomodado com estas palavras, por favor pergunte a um familiar ou amigo com é que se trabalha e vive numa empresa privada em épocas de reestruturação.


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