Arquivo de Dezembro, 2010

PASSAS

2010/12/31

 

Daqui a um bocado uma pequena parte da humanidade vai empurrar, a goles de champanhe, 12 passas pela garganta abaixo, formulando ao mesmo tempo doze desejos.

 

Entretanto a maior parte da humanidade tentará enfiar qualquer coisa pela garganta abaixo, acompanhada de água (potável se possível) e tendo um único desejo: SOBREVIVER.

Foto BBC

E aqui, no cantinho à beira mar plantado, é bem provável que 2011 venha a ser o ano em que uma boa parte de nós tenha de “passar as passas do Algarve” o que fará com que nos “passemos dos carretos”.

Há uns anos um empresário da nossa praça utilizou o termo resiliência para explicar o sucesso do seu grupo, obrigando meio mundo a ir ao dicionário.

Kuriosamente as passas são bastante resilientes pois parecem “…ter a capacidade de se reerguer depois de atingidas, de adaptar-se positivamente ao que lhes foi imposto…

Sejamos RESILIENTES!

Kurioso

SAPATINHO

2010/12/24

 

O sapatinho de marca que tinha comprado aqui há uns tempos, resolveu entrar em conflito interno e, como prova de incompatibilidade, a sola decidiu divorciar-se da parte de cima (uma metáfora para as divisões de trabalho injustas?…).

Consultado o psicólogo dos sapatos, vulgo sapateiro, verificou-se que o conflito era insanável, pelo que as partes desavindas foram, em conjunto, para o lixo.

Porque entretanto já tinha passado por um incidente semelhante com outros sapatos da mesma marca, comecei a sentir que o meu investimento em calcantes era quase tão improdutivo como os investimentos no BPP, e resolvi entrar num período de reflexão antes de reincidir.

Porém os sapatinhos de verão, que viram o seu turno de trabalho prolongado, em acção de  protesto contra o trabalho extraordinário começaram a deixar entrar água, enregelando-me os dedinhos (…e o dedão também).

Sendo inevitável a aquisição de calçado impermeável, e porque os botins de borracha ainda não são fashion para os homens, havia que procurar qualquer coisa com “tex” no nome. É claro que a marca do meu “desamor” tinha uns quantos modelos bem apelativos, mas o desaire ainda estava nas memórias frescas.

Depois de umas quantas voltas, encontro o quero na gama de uma outra marca que também cobra o suficiente para que os componentes dos seus artigos tenham o devido aconselhamento pré-matrimonial de modo a poderem conviver amigavelmente durante um tempo razoável. Vamos a ver…

Chegado a casa verifico (SURPRESA!!!) que o sapatinho 5* tinha sido produzido na…China. E, nesta época de todas as crises, restrições, reclamações, reivindicações, eu não pude deixar de imaginar que tipo de sapatos calçará o operário que fabricou estes, que custaram uns meses do seu salário.

Em dois milénios não melhorámos grande coisa no domínio da desigualdade. E como, apesar de todos os protestos, nós ocidentais AINDA somos os privilegiados, é fácil prever quem acabará descalço.

Kurioso

PS. Entretanto fiquei a saber como se fabricam os sapatos, e também a história por detrás da tradição do sapatinho na lareira.

POLEGARZINHO

2010/12/17

 

Olhemos para as nossas mãos. Temos 4 dedos, elegantes e alinhadinhos, e depois, cá em baixo, como que esquecido, um trambolho atarracado: o Polegar.

Ao contrário dos outros dedos que têm habilidades específicas, o polegar sozinho não parece ter grandes aptidões. Não serve para escarafunchar alguns orifícios como o indicador e o mindinho, não serve para insultar os outros condutores como o médio, e não serve para indicar a nossa disponibilidade como o anelar. Há uns séculos atrás serviu para decidir a morte ou a vida dos condenados, e há umas décadas atrás ainda servia para pedir boleia. Uma e outra coisa caíram em desuso (até ver…).

Entretanto já ninguém se lembra de que o Polegar ajudou os primatas a subir ao topo da  pirâmide do reino animal, pois ao tornar-se oponível aos dedos aristocratas possibilitou segurar com firmeza uma ferramenta ou…uma arma.

Mas, tal como as adversidades da vida ajudaram o polegarzinho da história a salvar os seus irmãos, parece que o advento de novas tecnologias ajudou a desvendar todas as potencialidades escondidas do mal amado polegar. 

Primeiro foram as consolas de jogos, que, empurrando todos os dedos snobs para a função de suporte, deixavam do lado cima os desajeitados polegares que tiveram que se amanhar para cutucar quase uma dezena de botões. À força de treino intensivo os nossos amigos enjeitados começaram a mostrar alguma capacidade de adaptação, devidamente comprovada pelos pontos que a maquineta ia contabilizando. Mas isto ainda era só o aperitivo, um treinozito de aquecimento para amadores. O desafio para o profissionalismo, a preparação para as verdadeiras “Olimpíadas Polegáricas”, só chegaria com os telemóveis. Agora sim! Havia 12 teclas minúsculas para serem premidas repetida e aleatoriamente de forma a darem corpo a uma mensagem coerente (enfim! mais ou menos…).

Quem já viu uma adolescente, com unhas de gel, a teclar furiosamente nos micro botões do seu minúsculo Nokia, ao mesmo tempo que vai falando com as amigas, fazendo balões de pastilha elástica e catrapiscando os boys do outro lado da rua, fica convencido de duas coisas: o Polegar é um dedo de pleno direito, e multi-tasking é uma palavra feminina.

Mas a emancipação do Polegar é bem mais abrangente. Um dia destes comentando com um colega estas novas habilidades diz-me ele:” e ainda não reparaste como é que eles carregam nas campainhas ou nos botões do elevador?” “ o quê?!” “ pois! agora é com o polegar…”.

Kurioso

VÍCIOS

2010/12/10

“ Quem não tem dinheiro não tem vícios!” Todos nós ouvimos este ditado dezenas de vezes até que, aqui há uns anos, os Bancos resolveram começar a impingir crédito a toda a gente. De repente tornou-se possível ter “vícios” sem ter dinheiro.

Eu fui criado numa família de razoável capacidade económica, mas pouco dada a “frescuras”. Os lucros das empresas eram para ser reinvestidos, e cada um dos membros tinha um vencimento que permitia uma vida confortável mas não esbanjadora. E já vinha sendo assim há várias gerações.

O facto de ter sido ao mesmo tempo Patrão e Empregado, deu-me uma visão que não é muito habitual, e a capacidade (ou presunção) de perceber quando um ou outro lado começam a entrar no campo da demagogia ou no abuso puro e duro. Durante os últimos 30 anos assisti a demasiados exemplos.

É claro que esta capacidade de perceber os dois lados faz com que seja olhado com suspeita por qualquer deles. A situação complica-se porque, estando numa posição intermédia da escala hierárquica, tenho que fazer de “advogado do diabo” mais vezes do que gostaria, mas também não me coíbo de fazê-lo porque acredito firmemente que é possível um equilíbrio justo.

Entretanto descobrimos agora que o Estado, aquele amigão, também tinha embarcado nesse negócio do vício a crédito, e todas as prebendas que nos oferecera durante os últimos anos tinham sido pagas com dinheiro de outros.

Mas voltemos aos “vícios”, pois durante este fim de semana pareceu-me ter detectado alguns.

Ontem à noite o sossego aqui da nossa parvónia foi quebrado pelo som de música em altos berros. Como as festas dos Santos já lá vão, fomos indagar e descobrimos que era uma caravana de Tunning. Umas dezenas de carrinhos todos artilhados, com as bagageiras abertas para deixar sair os decibéis. A “Tunningação” de um carrito pode custar largos milhares de euros, pelo que seria de supor ser um hobby de ricos. Nã!! Os donos das bombas são jovens do “povo”, mecânicos, operários, electricistas e alguns sem profissão definida.

Hoje, depois de almoço, resolvemos ir ver o rio a Valada, uma terrinha escondida atrás de um dique com um belo parque ribeirinho. Ao chegarmos, quase fomos engolidos por uma concentração de jipes que vinham de um passeio na lezíria. Máquinas artilhadas com pneus de tractor, guinchos, faróis e o resto. Também aqui os donos não eram homens do capital pois não havia X5s, Touaregs ou Cayennes. Era mesmo malta dos jipes, quarentões bem na vida que têm um brinquedo para aliviar o stress fazendo umas brincadeiras na lama.

Entretanto dentro de água uma série de motos de água, das grandonas, divertiam os seus condutores e alguns mirones na margem.

Retomado o passeio através dos campos, que por aqui são sempre cultivados, reparamos que um avião pequenito começa a baixar e desaparece. Minutos depois passamos em frente a uma pista artesanal, ao fundo da qual estão dois hangares com meia dúzia de ultra-leves.

Eu acho que cada um tem o direito de ganhar todo o dinheiro que conseguir, e tem também o direito de gastá-lo como bem entender. Eu não aceito criticas à forma como gasto o MEU.

Eu só gostaria de ter a certeza de que toda aquela gente estava a gastar o SEU (deles) dinheiro e não o NOSSO. E também gostaria de acreditar que contribuirão com o SEU (deles) esforço para salvar o NOSSO País.

Kurioso

PS. É óbvio que este post foi escrito num Domingo à noite, há umas quantas semanas atrás…

ASSÉDIO

2010/12/03

 

Um grupo de rapazes e raparigas anda há vários meses a assediar-me. Não é aquele assédio que me faria inchar (ou envergonhar…), mas um outro que me deixa fulo. O assédio é a profissão destes jovens, uma vez que são pagos para fazê-lo, e a minha “raiva” vai toda para quem os contrata.

Por razões de inércia, precaução e necessidade técnica, nós ainda somos dos poucos que têm um telefone fixo. Daqueles que estão ligados a um fiozinho de cobre que dá um choque pequenino se lhe mexermos. A parte da inércia tem a ver com o facto de continuarmos a sustentar a PT, a precaução é talvez uma mania, mas eu quero ter à minha disposição um equipamento de comunicação que não dependa da rede de electricidade.

Pois os senhores da PT acham que eu contribuo pouco para os seus chorudos lucros, e contrataram um bando de cachopos para me azucrinarem os ouvidos e a paciência quase todos os dias.

O diálogo termina quase sempre de forma agreste, quando se me esgota a paciência, mas até lá ainda vou explicando por que é que não quero mais nada deles.

Um dia destes a coisa deixou-me bem divertido pois acho que consegui furar o guião.

Toca o telefone:

- Estou sim?

- Boa noite Caro Senhor, fala Fábio Salsão em nome da PT e eu gostaria de saber se o Sr utiliza algum serviço desta Empresa?

- (O gajo está distraído ou é parvo?) Sim! Eu utilizo este serviço que estamos agora a usar…

Silêncio durante uns segundos…

- …pois é verdade…mas…eu queria saber se o Sr tem televisão ou internet…

- Sim! Eu tenho televisão e internet de outro operador e NÃO QUERO MUDAR.

- …pois… então eu não o chateio mais. Boa Noite.

Ainda eu estava a contar a cena à minha mulher, e o danado do telefone toca outra vez.

Levanto o auscultador e não digo nada.

Doutro lado uma voz feminina, entre gargalhadas, grita esganiçada: “olha o sacana do cigano desligou-me o telefone na cara AH!AH!AH!AH!…”

- Estou sim?

- Boa…noite…caro…Senhor, o meu nome é Rita Macieira e estou a ligar-lhe da PT…

- OUTRA VEZ!!!!

- hum…já ligaram para si hoje…?

- ADEUS!

Eu sei que há aquele ditado da “água mole em pedra dura…”, mas continuo a achar que esta abordagem é contraproducente, e, como tal, um desperdício.

Os possíveis clientes perdem a vontade de contratar um serviço que lhes é oferecido de forma impessoal e mecânica, e os miúdos, à força de serem constantemente enxotados, perdem qualquer resto de brio profissional que pudessem ter.

E afinal bastava que alguém pensasse um pouco sobre o tema para que o assédio passasse a sedução. Um simples registo dos contactos permitiria espaçá-los para uma frequência que não fosse intrusiva, uma vez cada dois meses(?), o argumentário deveria ser inteligente e mais do que uma recitação deveria haver uma verdadeira conversa, para a PT ficar a saber por que é que as pessoas NÃO QUEREM MUDAR.    

Kurioso     


Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.