“ Quem não tem dinheiro não tem vícios!” Todos nós ouvimos este ditado dezenas de vezes até que, aqui há uns anos, os Bancos resolveram começar a impingir crédito a toda a gente. De repente tornou-se possível ter “vícios” sem ter dinheiro.
Eu fui criado numa família de razoável capacidade económica, mas pouco dada a “frescuras”. Os lucros das empresas eram para ser reinvestidos, e cada um dos membros tinha um vencimento que permitia uma vida confortável mas não esbanjadora. E já vinha sendo assim há várias gerações.
O facto de ter sido ao mesmo tempo Patrão e Empregado, deu-me uma visão que não é muito habitual, e a capacidade (ou presunção) de perceber quando um ou outro lado começam a entrar no campo da demagogia ou no abuso puro e duro. Durante os últimos 30 anos assisti a demasiados exemplos.
É claro que esta capacidade de perceber os dois lados faz com que seja olhado com suspeita por qualquer deles. A situação complica-se porque, estando numa posição intermédia da escala hierárquica, tenho que fazer de “advogado do diabo” mais vezes do que gostaria, mas também não me coíbo de fazê-lo porque acredito firmemente que é possível um equilíbrio justo.
Entretanto descobrimos agora que o Estado, aquele amigão, também tinha embarcado nesse negócio do vício a crédito, e todas as prebendas que nos oferecera durante os últimos anos tinham sido pagas com dinheiro de outros.
Mas voltemos aos “vícios”, pois durante este fim de semana pareceu-me ter detectado alguns.
Ontem à noite o sossego aqui da nossa parvónia foi quebrado pelo som de música em altos berros. Como as festas dos Santos já lá vão, fomos indagar e descobrimos que era uma caravana de Tunning. Umas dezenas de carrinhos todos artilhados, com as bagageiras abertas para deixar sair os decibéis. A “Tunningação” de um carrito pode custar largos milhares de euros, pelo que seria de supor ser um hobby de ricos. Nã!! Os donos das bombas são jovens do “povo”, mecânicos, operários, electricistas e alguns sem profissão definida.
Hoje, depois de almoço, resolvemos ir ver o rio a Valada, uma terrinha escondida atrás de um dique com um belo parque ribeirinho. Ao chegarmos, quase fomos engolidos por uma concentração de jipes que vinham de um passeio na lezíria. Máquinas artilhadas com pneus de tractor, guinchos, faróis e o resto. Também aqui os donos não eram homens do capital pois não havia X5s, Touaregs ou Cayennes. Era mesmo malta dos jipes, quarentões bem na vida que têm um brinquedo para aliviar o stress fazendo umas brincadeiras na lama.
Entretanto dentro de água uma série de motos de água, das grandonas, divertiam os seus condutores e alguns mirones na margem.
Retomado o passeio através dos campos, que por aqui são sempre cultivados, reparamos que um avião pequenito começa a baixar e desaparece. Minutos depois passamos em frente a uma pista artesanal, ao fundo da qual estão dois hangares com meia dúzia de ultra-leves.
Eu acho que cada um tem o direito de ganhar todo o dinheiro que conseguir, e tem também o direito de gastá-lo como bem entender. Eu não aceito criticas à forma como gasto o MEU.
Eu só gostaria de ter a certeza de que toda aquela gente estava a gastar o SEU (deles) dinheiro e não o NOSSO. E também gostaria de acreditar que contribuirão com o SEU (deles) esforço para salvar o NOSSO País.
Kurioso
PS. É óbvio que este post foi escrito num Domingo à noite, há umas quantas semanas atrás…