É mais ou menos tradição eu escrever umas coisas sobre o Algarve, no regresso de férias.
Este ano fui para “baixo” quase com um peso na consciência. Como é que um habitante dum País à beira da bancarrota (não sendo gestor público ou CEO de uma grande empresa) tinha o desplante de ir “3 semanas 3” de férias para uma estância balnear? Quase receava ser apontado a dedo nas praias desertas que iria encontrar…
Pois… o paraíso recatado que escolhemos para veranear já faz 6 anos, tinha este ano a maior enchente de todos os tempos. Porém, com o pormenor interessante de a composição social dos invasores ser nitidamente diferente.
Ao contrário das praias adjacentes, onde a construção turística foi feita de forma caótica, na “nossa” terrinha parece ter havido um plano urbanístico pensado ao pormenor para implantar as largas dezenas de moradias com tipologias diversas mas todas com um jardinzinho e/ou terraço. As ruas ainda hoje são largas, e deviam parecer avenidas há 30 anos. Mesmo com actuais dois ou três carros por casa não há problemas de estacionamento e nunca parece haver muita “lata” à vista. Salvaguardando as devidas distâncias, quase parece uma Vilamoura dos remediados e recatados. Se há característica comum aos proprietários destas vivendas, além da idade já razoável, é a sua discrição, educação e simplicidade.
Serão (seriam) profissionais liberais, quadros médios, pequenos empresários que aproveitaram o desafogo pós 25 de Abril para comprarem a casinha de férias ou da reforma. Escolheram uma zona fora dos holofotes que se adequava à sua maneira de ser. Pertencem à classe que está agora a ser “sugada” para pagar a crise.
Pois uma das formas que esta gente arranjou para “subsidiar” a manutenção destas segundas casas nestes tempos de aperto, foi prescindir do seu uso exclusivo e dá-las a alugar fora do período que reservam para si próprios. Interessante é verificar que este aluguer é quase envergonhado, pois das dezenas de placas que encontrámos na 2ª semana de Julho sobraram meia dúzia no final do mês. Em Agosto não parece bem ter uma placa de aluguer na frente da casa…
E quem veio então aproveitar esta súbita abundância de casas boas, bonitas e “finas”? Pois os representantes daquilo a que eu chamaria a “economia cinzenta”: grandes carrões, roupas coloridas, conversas em altos berros mesmo quando falam dos “esquemas” na fila do pão. Os filhos são tratados aos gritos ou à chapada, e as senhoras não prescindem do salto agulha para ir tomar o café da noite. Parecem ter o rei na barriga, e têm barrigas onde cabia um rei.
Encontrei ainda mais dois ou três sinais desta “deriva social”: O restaurante bonzinho, tranquilo e com uma lista de comida mais elaborada que costumava estar sempre cheio, este ano tinha mesas vagas; as tascas dos grelhados estavam a abarrotar apesar dos preços serem semelhantes; a livraria que abria em Julho, este ano não abriu; as bancadas das bugigangas, inexistentes em anos anteriores, regurgitavam de mirones e clientes.
Eu acredito que há uma crise económica que afecta seriamente 10 a 15% dos Portugueses e onde estão incluídos todos os velhos com reformas de miséria. Acredito também que se os 30 ou 40% que fogem deliberadamente às suas obrigações laborais, fiscais, sociais e outras quisessem verdadeiramente ajudar o País, esta crise seria facilmente ultrapassada.
Mas os sinais que eu vejo em Monte Gordo ou Vilamoura, no Vasco da Gama ou nas Amoreiras, no Correio da Manhã ou na Exame, levam-me a recear que, mesmo que venhamos a ser um País de sucesso, dificilmente seremos um País civilizado.
Kurioso