Se algum dia alguém me dissesse que eu montaria um trenozito de plástico para descer, noite cerrada, uma pista totalmente desconhecida, sem preparação, sem capacete, sem treino e SEM ILUMINAÇÂO, eu diria: TÁS MALUCO OU QUÊ!?
Pois…tá feito. Afinal o maluco sou eu.
Fui a uma reunião de trabalho na Suíça, e os organizadores resolveram fazê-la numa estancia de esqui. Fomos avisados que haveria uma actividade externa, e que deveríamos levar agasalhos. Nada de novo. Nestas reuniões há normalmente um momento de convívio ao final do dia. Também normalmente a coisa resume-se a uma ida a uma sala de bowling, a um passeio turístico, de autocarro ou barco, ou assistência a um espectáculo.
Pois desta vez a organizadora resolveu inovar. No coffee brake da tarde fomos informados que iríamos fazer um bocadinho de trenó para abrir o apetite para o jantar. Bem, pensei eu, vão levar-nos aí ao fundo duma pista qualquer e escorregamos uns metros.
Como sou habitualmente pontual, fui o primeiro a aparecer no ponto de encontro. A organizadora olha para mim todo equipado e pergunta com entoação estranha:”Vais fazer a actividade?!!!”. Perante a resposta afirmativa, encolheu os ombros. A minha falta de perspicácia, impediu-me de perceber que a entoação estranha tinha subentendido um (este gajo deve ser maluco) e o encolher de ombros queria dizer (depois não te queixes).
Depois de reunido o rebanho, uma vintena de incautos, avançamos para a estação do funicular que já estava encerrada há um par de horas e tinha um ar bem sinistro. Aparece o guarda nocturno, abre a cancela e lá entramos na carruagem vermelha.
A pouco e pouco começamos a perceber que a geringonça só parará no topo da montanha, e que a coisa pode ser um pouquito mais complicada do que pensávamos. Procuramos a organizadora e descobrimos que ela ficara lá fora, e se preparava para regressar ao quentinho do hotel. A alegre galhofa que sempre acontece nestes momentos de descompressão começa a esmorecer, e subimos a encosta quase em silêncio. Como compensação tínhamos a vista de um cenário deslumbrante que se ia alargando há medida que subíamos.
O trenzinho pára, atravessamos outra estação deserta e saímos para a neve. Vinte tontinhos no meio de coisa nenhuma. Dizem os entendidos que uma das reacções instintivas à insegurança é a tendência para nos juntarmos. A avaliar pelo modo como quase nos encostávamos uns aos outros, insegurança devia abundar por ali. O guarda manda-nos ir buscar os trenós, e nós lá vamos todos juntinhos.
Outra vez ao molho para junto da luz e, de pedaço de plástico na mão, tentamos sorrir para a fotografia da praxe.
Entretanto chega o nosso guia/anjo da guarda. Um homenzarrão todo de preto (para passar despercebido) com uma luzinha por cima do barrete (o gajo devia era trazer uma luz giratória como a das ambulâncias), montado em cima duns belos esquis. Sem mais conversas, aponta-nos o início da pista e… bazza! O marreta tem direcção, tem travões e tem LUZ, e espera que nós vamos atrás dele montados num tabuleiro de plástico sem guiador, sem travões e sem LUZ. Não é justo!!!
Mas a vergonha é um óptimo fornecedor de coragem. Melhor ou pior lá montamos no banquinho, dois ou três empurrões e começamos a deslizar. Entretanto os olhos já se tinham habituado à pouca luz, havia algum luar e, como a neve multiplica a luz, já conseguíamos pelo menos distinguir as árvores para tentar evitá-las.
A paisagem era ao mesmo tempo assustadora e belíssima. Lá ao fundo brilham as luzes amareladas das casas, nas encostas as zonas escuras dos bosques, contrastam com o branco quase luminoso da neve. Os picos, totalmente brancos, brilham verdadeiramente. A atmosfera é quase mística.
Começa o gozo e o…cagaço.
Porque tínhamos enormes diferenças de peso, de conhecimento e de coragem, o grupo desfaz-se rapidamente e, de repente dou por mim sozinho no meio da montanha. Os mais afoitos já tinham desaparecido lá para frente, os mais desafortunados ainda tentavam encontrar o caminho lá atrás.
E encontrar o caminho era mesmo o problema. A pista, durante o dia, distingue-se perfeitamente das margens pois a luz permite distinguir as texturas. À noite é tudo igualmente esbranquiçado e só sabemos que saímos da pista quando começamos a afundar.
Eu não disse, mas já deve ser evidente, que era a PRIMEIRA vez que eu punha o traseiro (e outras peças sensíveis) em cima de um trenó. Felizmente o meu treino de motociclista ajudou a intuir a dinâmica da coisa, e a lá fui percebendo como se travava: gastando muita sola, e como se virava: gastando mais sola dum lado do que do outro. Descobri também que os desenhadores das pistas não as fazem para matar pessoas. Quando nós pensamos que o controlo está totalmente perdido, e começamos a imaginar qual vai ser membro que quebra primeiro, a inclinação diminui e entramos num plateau, a velocidade diminui, as solas começam a arrefecer, as pulsações descem uns confortáveis 120, e encontramos os nossos amigos.
O matulão da luzinha bazza outra vez, e nós, armados em especialistas, fazemos uma partida à la formula 1. Má ideia! Ao fim de meia dúzia de metros começam as carambolas, com os coelhos a esbarrar nas tartarugas. Os que vêm atrás tentam desviar-se, mas, ao fazê-lo, metem-se na linha de fogo de alguém. Recuperados o aprumo, e o amor próprio, lá arrancamos todos outra vez. Finalmente, as gargalhadas começam a substituir os gritinhos e os resmungos. Quando conseguimos superar o pavor, a sensação de deslizar a abrir por uma pista deserta às escuras é extasiante.
Muitas sapatadas, muitos sustos e alguns despistes depois, chegamos finalmente ao fundo da pista. Todos pelo próprio pé.
Porque o percurso me parecera bem commmmprido, mas presumindo que fora o medo que o alongara, peço a um colega alemão para perguntar ao fantasma da luzinha quanto tínhamos andado. Resposta displicente: “Só 3,5 kms”.
O grupo era constituído por um número semelhante de homens e mulheres, com idades entre os vinte e poucos e os meus quase sessenta, de uma dúzia de países, com diversas capacidades desportivas. Porém a única coisa que parecia influenciar a bravura/inconsciência era a idade. Uma francesa jovem mostrou-se muito mais afoita que um nórdico cota.
E eu, o decano do grupo, ainda tentando dissipar a adrenalina, era um cocktail de sensações: alívio por ter tudo a funcionar; satisfação por não ter dado barraca; prazer por ter conseguido gerir uma situação totalmente nova; receio pelas sequelas no dia seguinte; um frio danado nos pés e um apetite devorador…
Kurioso