Arquivo de Março, 2010

MODERNICES

2010/03/26

 

Um dia destes tive que levar o carro à revisão. Esta obrigação que tenho cumprido, com maior ou menor frequência, ao longo das últimas décadas, era, até há bem pouco tempo, uma chatice.

Normalmente o carro tinha que lá ficar o dia todo, pelo que havia que decidir se apanhava o autocarro para o serviço, ou cravava um colega para fazer o frete de manhã e à noite. Em qualquer dos casos, perdia-se um montão de tempo. No primeiro, durante a viagem do autocarro ziguezagueando pela cidade, no segundo, ao ter que pagar o favor indo buscar e levar o colega quando ele fosse pôr o carro dele na revisão.

Esta semana foi diferente. Consegui negociar com o recepcionista a feitura do trabalho no prazo de duas a três horas, e como ia prevenido com o portátil foi só procurar uma mesa e uma cadeira. Encontrei-as no salão de exposição, uma área tranquila e luminosa recheada de popós brilhantes.

Liga-se a maquineta, encaixa-se o rato (aquilo de andar a esfregar o dedo não faz o meu género), placa 3G enfiada na USB, duas ou três passagens secretas, e estou ligado ao mail, ao comunicator, ao R/3, ao BW e ao APO. 100% operacional, só que com música ambiente em vez do palrar das minhas colegas. Para qualquer necessidade de interacção, o telemóvel estava a jeito. Trabalho tranquilamente até o recepcionista me avisar que o carro está pronto. Atravesso a cidade em 15 minutos e chego ao escritório a tempo de almoçar com os colegas. Ao todo não cheguei a perder uma hora.

É claro que estas modernices já vão estando por  todo o lado mas ainda com graus bem variados, o que conduz a situações caricatas.

Há umas semanas na viagem à Suiça (a do trenó), ficámos alojados num hotelzinho de montanha bem rústico mas com rede Wi-Fi instalada. Aproveitando um tempo morto no meio da reunião resolvi fazer o Check-in electrónico, e no final descarreguei o cartão de embarque (outra modernice bem conveniente, pois as filas de check-in ao final do dia são enormes). Passo o PDF do cartão para uma pen e ala para a recepção pedir que o imprimam. Pois… os computadores do hotel eram quase tão cotas quanto eu e não tinham portas USB à frente. Ainda pensei gatinhar por baixo da secretária (salvo seja) e procurar a bendita ranhura no meio do emaranhado de fios, mas achei que não se coadunava com a minha dignidade de “congressista”. Porém eu precisava da gaita do papel, e de repente lembrei-me que o hotel tinha que ter email. Cartão de visita na mão e regresso ao meu computador. Mail para o hotel, com o PDF agarrado, e dez minutos depois tinha o cartão de embarque na maleta.

O kurioso de toda esta giga joga é que o nosso servidor mundial de email está nos Estados Unidos, pelo que o mail que eu mandei para a sala ao lado, foi dar uma voltinha ao outro lado do mundo.

Se eu podia viver sem estas modernices? Poder, podia. Mas não era a mesma coisa.

Kurioso

 

   

 

“A VERY GOOD YEAR”

2010/03/19

 

O reencontro com um AMIGO, perdido há 35 anos na voragem da “Descolonização Exemplar”, fez-me recordar velhos tempos.

 

When I was seventeen
It was a very good year
It was a very good year for small town girls
And soft summer nights
We’d hide from the lights
On the village green
When I was seventeen

When I was twenty-one
It was a very good year
It was a very good year for city girls
Who lived up the stair
With all that perfumed hair
And it came undone
When I was twenty-one

When I was thirty-five
It was a very good year
It was a very good year for blue-blooded girls
Of independent means
We’d ride in limousines
Their chauffeurs would drive
When I was thirty-five

But now the days are short
I’m in the autumn of the year
And now I think of my life as vintage wine
>from fine old kegs
>from the brim to the dregs
And it poured sweet and clear
It was a very good year

Esta música foi tornada famosa por Frank Sinatra que com ela ganhou um Grammy em 1966. Foi considerada como sendo uma homenagem às várias mulheres que foram acompanhando o cantor ao longo da sua vida. Curiosamente, o tema fora escrito por Ervin Drake, em 1961, para uma banda folk chamada “The Kingston Trio”…

Também curioso foi constatar que os nossos percursos de vida, do meu amigo e meu, separados por quase 10000 kms e integrados em culturas diferentes, foram bem semelhantes. Um sociólogo talvez conseguisse validar a minha opinião de que os valores são mais importantes do que o ambiente no traçar da nossa vida.

Nesta altura do percurso em que começamos a fazer avaliações, eu diria que tive a sorte e o engenho para poder contar com bastantes “Very Good Years” que compensam largamente alguns “Very Bad Years

Kurioso

JAVARDOS

2010/03/12

 

Os poucos que me vão lendo regularmente, já se aperceberam da minha quase obsessão com a “javardice” (falta de educação, falta de respeito, desconsideração pelo próximo, abuso do património público, etc.). E, se há 50 anos ainda se podiam classificar de javardos “puros” aqueles que, devido às suas condições sociais, e, por inerência, as condições culturais e económicas, nunca tinham aprendido as regras de uma convivência civilizada, hoje em dia não são aceitáveis comportamentos anti-sociais, quando toda a gente tem acesso à escolaridade obrigatória, e ninguém prescinde de uma televisão que, melhor ou pior, ainda vai transmitindo algumas noções de civilidade.

É claro que a javardice em sentido lato tem muitas faces: estacionar em dupla fila, deitar beatas para o chão, deixar a roupa a pingar para o vizinho de baixo, vazar entulho à borda da estrada, etc. Porém, uma das atitudes que me chateia verdadeiramente é o facto de se despejar lixo fora dos contentores.

Na nossa urbanização, um conjunto de prédios ocupando um rectângulo de 150X250mts, existem duas ilhas ecológicas subterrâneas, 4 contentores grandes e mais um eco ponto. Nunca falta capacidade de recepção, e quando um contentor está cheio, sempre haverá outro a menos de 100 mts. A urbanização é recente, os prédios são todos iguais, e os apartamentos (grandes e caros) são habitados pelos proprietários. Se julgarmos pelas aparências, roupas e automóveis, estamos a falar de uma classe média cujos rendimentos deveriam indicar um grau de educação (e civilização) bem razoável.

A fotografia acima conta várias histórias de javardice:

  1. O contentor está cheio? Põe-se no chão;
  2. Fechar os sacos? Dá um trabalhão do caraças;
  3. Garrafas no ecoponto? Os gajos que as ponham;
  4. Andar 50 mts até ao próximo contentor? Nem pensar!

Mas este post teria ficado na “caixa dos resmungos”, se eu não tivesse presenciado uma acção verdadeiramente exemplar.

Convém referir que o passeio-jardim à esquerda na fotografia é a área de exercício da nossa cadela, e que, ao fazê-lo duas vezes por dia, tenho inúmeras oportunidades de verificar o comportamento ecológico dos meus companheiros de bairro.

Voltando à acção exemplar. Pois tinha eu já passado a lixeira improvisada, quando, ao olhar para trás à procura da cadela, vejo um senhor bem apessoado (como diria a minha Mãe…) dirigir-se à área de dejectos carregando na mão o seu próprio contentor da cozinha. Adivinhando o que iria passar-se, mas esperando talvez um sinal de mudança do ano que acabara de entrar, fico a observar. O indivíduo contorna o monte, chocalha o contentor que traz nas mãos e despeja o saco branco, aberto pois claro, que, por sorte, fica suficientemente direito para não derramar o conteúdo. Nã!! Ecologia e respeito pelos vizinhos não deveriam estar entre as passas que o “senhor” engolira à meia-noite.

Mas a história não acaba aqui.

No fotogénico monte estava também um televisor do século passado, que teria ali sido posto para que alguém ainda o aproveitasse. As coisas não deveriam ser assim, mas por aqui ainda vão passando recolectores, que, pela calada da noite, levam o que podem aproveitar ou trocar por uns trocos. Pois o nosso cidadão exemplar, pega no televisor, atira-o ao chão e, do meio dos cacos, saca uma peça qualquer que leva para casa, juntamente com o seu contentor/transportador de lixo.

Reciclando um velho dito eu diria que: “É fácil tirar o javardo do chiqueiro, mas difícil tirar o chiqueiro do javardo”.

Felizmente os javardos ainda são minoritários, e neste mesmo bairro há exemplos de civismo e preocupação comunitária: a senhora que quando anda a passear o cão traz um saco enorme e vai apanhando os dejectos de TODOS os cãezinhos dos javardos; o senhor que, quase todas as manhãs, repõe os aspersores da relva na posição correcta, depois dos meninos javardos os terem posto a regar as ruas; o vizinho que corre um prédio inteiro para encontrar e avisar o dono dum carro que ficou com as luzes acesas.

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Kurioso

TRENÓ

2010/03/05

 

 

Se algum dia alguém me dissesse que eu montaria um trenozito de plástico para descer, noite cerrada, uma pista totalmente desconhecida, sem preparação, sem capacete, sem treino e SEM ILUMINAÇÂO, eu diria: TÁS MALUCO OU QUÊ!?

Pois…tá feito. Afinal o maluco sou eu.

Fui a uma reunião de trabalho na Suíça, e os organizadores resolveram fazê-la numa estancia de esqui. Fomos avisados que haveria uma actividade externa, e que deveríamos levar agasalhos. Nada de novo. Nestas reuniões há normalmente um momento de convívio ao final do dia. Também normalmente a coisa resume-se a uma ida a uma sala de bowling, a um passeio turístico, de autocarro ou barco, ou assistência a um espectáculo.

Pois desta vez a organizadora resolveu inovar. No coffee brake da tarde fomos informados que iríamos fazer um bocadinho de trenó para abrir o apetite para o jantar. Bem, pensei eu, vão levar-nos aí ao fundo duma pista qualquer e escorregamos uns metros.

Como sou habitualmente pontual, fui o primeiro a aparecer no ponto de encontro. A organizadora olha para mim todo equipado e pergunta com entoação estranha:”Vais fazer a actividade?!!!”. Perante a  resposta afirmativa, encolheu os ombros. A minha falta de perspicácia, impediu-me de perceber que a entoação estranha tinha subentendido um (este gajo deve ser maluco) e o encolher de ombros queria dizer (depois não te queixes).  

Depois de reunido o rebanho, uma vintena de incautos, avançamos para a estação do funicular que já estava encerrada há um par de horas e tinha um ar bem sinistro. Aparece o guarda nocturno, abre a cancela e lá entramos na carruagem vermelha.

A pouco e pouco começamos a perceber que a geringonça só parará no topo da montanha, e que a coisa pode ser um pouquito mais complicada do que pensávamos. Procuramos a organizadora e descobrimos que ela ficara lá fora, e se preparava para regressar ao quentinho do hotel. A alegre galhofa que sempre acontece nestes momentos de descompressão começa a esmorecer, e subimos a encosta quase em silêncio. Como compensação tínhamos a vista de um cenário deslumbrante que se ia alargando há medida que subíamos.

O trenzinho pára, atravessamos outra estação deserta e saímos para a neve. Vinte tontinhos no meio de coisa nenhuma. Dizem os entendidos que uma das reacções instintivas à insegurança é a tendência para nos juntarmos. A avaliar pelo modo como quase nos encostávamos uns aos outros, insegurança devia abundar por ali. O guarda manda-nos ir buscar os trenós, e nós lá vamos todos juntinhos.

Outra vez ao molho para junto da luz e, de pedaço de plástico na mão, tentamos sorrir para a fotografia da praxe.

Entretanto chega o nosso guia/anjo da guarda. Um homenzarrão todo de preto (para passar despercebido) com uma luzinha por cima do barrete (o gajo devia era trazer uma luz giratória como a das ambulâncias), montado em cima duns belos esquis. Sem mais conversas, aponta-nos o início da pista e… bazza! O marreta tem direcção, tem travões e tem LUZ, e espera que nós vamos atrás dele montados num tabuleiro de plástico sem guiador, sem travões e sem LUZ. Não é justo!!!

Mas a vergonha é um óptimo fornecedor de coragem. Melhor ou pior lá montamos no banquinho, dois ou três empurrões e começamos a deslizar. Entretanto os olhos já se tinham habituado à pouca luz, havia algum luar e, como a neve multiplica a luz, já conseguíamos pelo menos distinguir as árvores para tentar evitá-las.

A paisagem era ao mesmo tempo assustadora e belíssima. Lá ao fundo brilham as luzes amareladas das casas, nas encostas as zonas escuras dos bosques, contrastam com o branco quase luminoso da neve. Os picos, totalmente brancos, brilham verdadeiramente. A atmosfera é quase mística.

Começa o gozo e o…cagaço.

Porque tínhamos enormes diferenças de peso, de conhecimento e de coragem, o grupo desfaz-se rapidamente e, de repente dou por mim sozinho no meio da montanha. Os mais afoitos já tinham desaparecido lá para frente, os mais desafortunados ainda tentavam encontrar o caminho lá atrás.

E encontrar o caminho era mesmo o problema. A pista, durante o dia, distingue-se perfeitamente das margens pois a luz permite distinguir as texturas. À noite é tudo igualmente esbranquiçado e só sabemos que saímos da pista quando começamos a afundar. 

Eu não disse, mas já deve ser evidente, que era a PRIMEIRA vez que eu punha o traseiro (e outras peças sensíveis) em cima de um trenó. Felizmente o meu treino de motociclista ajudou a intuir a dinâmica da coisa, e a lá fui percebendo como se travava: gastando muita sola, e como se virava: gastando mais sola dum lado do que do outro. Descobri também que os desenhadores das pistas não as fazem para matar pessoas. Quando nós pensamos que o controlo está totalmente perdido, e começamos a imaginar qual vai ser membro que quebra primeiro, a inclinação diminui e entramos num plateau, a velocidade diminui, as solas começam a arrefecer, as pulsações descem uns confortáveis 120, e encontramos os nossos amigos.

O matulão da luzinha bazza outra vez, e nós, armados em especialistas, fazemos uma partida à la formula 1. Má ideia! Ao fim de meia dúzia de metros começam as carambolas, com os coelhos a esbarrar nas tartarugas. Os que vêm atrás tentam desviar-se, mas, ao fazê-lo, metem-se na linha de fogo de alguém. Recuperados o aprumo, e o amor próprio, lá arrancamos todos outra vez. Finalmente, as gargalhadas começam a substituir os gritinhos e os resmungos. Quando conseguimos superar o pavor, a sensação de deslizar a abrir por uma pista deserta às escuras é extasiante.

Muitas sapatadas, muitos sustos e alguns despistes depois, chegamos finalmente ao fundo da pista. Todos pelo próprio pé.

Porque o percurso me parecera bem commmmprido, mas presumindo que fora o medo que o alongara, peço a um colega alemão para perguntar ao fantasma da luzinha quanto tínhamos andado. Resposta displicente: “Só 3,5 kms”.

O grupo era constituído por um número semelhante de homens e mulheres, com idades entre os vinte e poucos e os meus quase sessenta, de uma dúzia de países, com diversas capacidades desportivas. Porém a única coisa que parecia influenciar a bravura/inconsciência era a idade. Uma francesa jovem mostrou-se muito mais afoita que um nórdico cota.

E eu, o decano do grupo, ainda tentando dissipar a adrenalina, era um cocktail de sensações: alívio por ter tudo a funcionar; satisfação por não ter dado barraca; prazer por ter conseguido gerir uma situação totalmente nova; receio pelas sequelas no dia seguinte; um frio danado nos pés e um apetite devorador…

Kurioso

          

 

 


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